{"id":3128,"date":"2023-10-20T08:25:00","date_gmt":"2023-10-20T08:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/perspetivaatual.pt\/?p=3128"},"modified":"2023-10-20T08:58:35","modified_gmt":"2023-10-20T08:58:35","slug":"sociedade-portuguesa-de-cardiologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/perspetivaatual.pt\/index.php\/2023\/10\/20\/sociedade-portuguesa-de-cardiologia\/","title":{"rendered":"Papel da Sociedade Portuguesa de Cardiologia na sa\u00fade cardiovascular do s\u00e9culo XXI\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A Cardiologia em Portugal enfrenta v\u00e1rios desafios, desde as longas listas de espera para consultas e cirurgias at\u00e9 \u00e0 escassez de profissionais de sa\u00fade e recursos. Neste artigo, o presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, H\u00e9lder Pereira, discute as medidas necess\u00e1rias para abordar esta situa\u00e7\u00e3o e garantir que todos os pacientes recebam o cuidado de que precisam. Al\u00e9m disso, exploramos o motivo pelo qual a SPC considera a forma\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o pilares cruciais para a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade cardiovascular em Portugal.&nbsp;<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:32% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Helder-Pereira-Presidente-da-SPC-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3130 size-full\" srcset=\"https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Helder-Pereira-Presidente-da-SPC-683x1024.jpg 683w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Helder-Pereira-Presidente-da-SPC-200x300.jpg 200w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Helder-Pereira-Presidente-da-SPC-768x1151.jpg 768w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Helder-Pereira-Presidente-da-SPC-1025x1536.jpg 1025w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Helder-Pereira-Presidente-da-SPC-1024x1535.jpg 1024w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Helder-Pereira-Presidente-da-SPC-600x900.jpg 600w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Helder-Pereira-Presidente-da-SPC.jpg 1366w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p><strong>A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) tem uma hist\u00f3ria longa e marcante na promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade cardiovascular em Portugal desde a sua funda\u00e7\u00e3o em 1949. Pode explicar de que maneira a SPC contribuiu para essa promo\u00e7\u00e3o ao longo dos anos?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade, a <a href=\"https:\/\/spc.pt\/profissional-de-saude\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Sociedade Portuguesa de Cardiologia<\/a> comemora o seu 75.\u00ba anivers\u00e1rio no pr\u00f3ximo ano. Este legado de ilustres figuras da medicina portuguesa possibilitou que a SPC tenha contribu\u00eddo para a forma\u00e7\u00e3o p\u00f3s-graduada dos cardiologistas, cardiologistas pedi\u00e1tricos e cirurgi\u00f5es card\u00edacos ao longo de d\u00e9cadas.&nbsp;<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Assumiu a presid\u00eancia da SPC com a promessa de \u201cmanter a vis\u00e3o estrat\u00e9gica centrada na forma\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o\u201d. Pode compartilhar por que motivos considera esses dois pilares cruciais como parte da vis\u00e3o estrat\u00e9gica da SPC?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A miss\u00e3o da SPC \u00e9 zelar pela sa\u00fade cardiovascular dos portugueses. Em todas as \u00e1reas, em geral, a educa\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o s\u00e3o essenciais para manter os mais elevados padr\u00f5es de qualidade. A evolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e cient\u00edfica, em mat\u00e9ria de doen\u00e7as cardiovasculares, tem tido uma evolu\u00e7\u00e3o impressionante, o que obriga os profissionais a uma atualiza\u00e7\u00e3o intensa e constante. Por outro lado, a investiga\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser uma das principais formas de assegurar a sustentabilidade da pr\u00f3pria Sociedade, visto ser um importante pilar na qualidade da medicina que praticamos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na mensagem que escreveu quando assumiu a presid\u00eancia da Sociedade, refere que apesar do sucesso j\u00e1 alcan\u00e7ado em rela\u00e7\u00e3o a estas duas vertentes, ainda est\u00e1 longe daquilo que ambicionam e que \u00e9 \u201cpossivelmente o processo mais desafiante\u201d a que se prop\u00f5em. Quais s\u00e3o as ambi\u00e7\u00f5es desta nova dire\u00e7\u00e3o da SPC?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando me referia ao mais desafiante, estava sobretudo a pensar na investiga\u00e7\u00e3o e nos registos cl\u00ednicos. Na \u00e1rea da forma\u00e7\u00e3o, a SPC, atrav\u00e9s da Academia Cardiovascular, atingiu um patamar de maturidade e de qualidade tais, que, hoje, ser\u00e1 o principal ve\u00edculo de ensino p\u00f3s-graduado das doen\u00e7as cardiovasculares em Portugal. Mesmo assim, devemos ser ambiciosos e desejar ainda mais, nomeadamente, darmos os primeiros passos na implementa\u00e7\u00e3o da simula\u00e7\u00e3o. As t\u00e9cnicas invasivas e de imagiologia t\u00eam, presentemente, simuladores de alta precis\u00e3o que possibilita um treino que permite passar \u00e0 pr\u00e1tica direta com o doente com um grau de diferencia\u00e7\u00e3o que anteriormente s\u00f3 se atingia treinando diretamente no paciente. Tamb\u00e9m para a recertifica\u00e7\u00e3o, a simula\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante. Esta \u00e9 uma \u00e1rea em que a avia\u00e7\u00e3o est\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas \u00e0 nossa frente. Outra vertente em que a Academia Cardiovascular se pode desenvolver \u00e9 no alargamento da sua atividade al\u00e9m-fronteiras, em particular com parcerias com os pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa. Presentemente, a <em>internet <\/em>de alta velocidade permite um contacto f\u00e1cil e de alta qualidade, sobretudo na \u00e1rea da imagem, o que facilitar\u00e1 muito o interc\u00e2mbio de informa\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todavia, como humanos que somos, o contato direto tem outra dimens\u00e3o e sempre que poss\u00edvel dever\u00e1 ser privilegiado. Recentemente tivemos uma experi\u00eancia que nos marcou a todos, a iniciativa \u201cCora\u00e7\u00e3o por Mo\u00e7ambique\u201d. Sob a orienta\u00e7\u00e3o do Professor Victor Gil, mais de uma dezena de jovens cardiologistas deslocou-se a Mo\u00e7ambique, numa a\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria, com o objetivo de avaliar doentes, mas sobretudo de formar colegas locais. Foi uma iniciativa de sucesso a todos os n\u00edveis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, como inicialmente comecei por dizer, o principal desafio est\u00e1 na investiga\u00e7\u00e3o. Embora reconhe\u00e7a que Portugal tem tido um grande desenvolvimento nesta \u00e1rea, seja ela cl\u00ednica ou nas ci\u00eancias b\u00e1sicas, sobretudo atrav\u00e9s da Academia, a verdade \u00e9 que o investimento \u00e9 ainda muito diminuto e os nossos investigadores lutam com grandes dificuldades na obten\u00e7\u00e3o de fundos para os seus projetos e muitas vezes os melhores t\u00eam que emigrar para se conseguirem realizar em plenitude.&nbsp; A investiga\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, ao n\u00edvel dos hospitais, tamb\u00e9m \u00e9 extremamente dif\u00edcil devido \u00e0 enorme carga de trabalho cl\u00ednico e porque a maioria dos profissionais obriga-se a n\u00e3o ter atividade exclusiva nos hospitais onde trabalha, devido \u00e0s baixas remunera\u00e7\u00f5es dos profissionais de sa\u00fade no setor p\u00fablico. N\u00e3o podemos competir com a maioria dos pa\u00edses europeus em que o trabalho \u00e9 mais organizado e valorizado e que sobra tempo para a atividade de investiga\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim sendo, penso que onde podemos fazer a diferen\u00e7a ser\u00e1 nos registos cl\u00ednicos. A Sociedade Portuguesa de Cardiologia disp\u00f5e de um centro, em Coimbra, o CNCDC, dedicado aos registos na \u00e1rea das doen\u00e7as cardiovasculares e recentemente evoluiu para um biobanco, um passo muito importante na investiga\u00e7\u00e3o. Estamos j\u00e1 num alto patamar, mas temos que ambicionar por nos aproximarmos do melhor que se faz a n\u00edvel europeu porque temos condi\u00e7\u00f5es para isso. Pode parecer uma tarefa f\u00e1cil, mas n\u00e3o \u00e9, pois depende n\u00e3o s\u00f3 da dire\u00e7\u00e3o da SPC, mas tamb\u00e9m dos profissionais que est\u00e3o no terreno e da tutela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos foram tentadas v\u00e1rias f\u00f3rmulas para que, a n\u00edvel dos hospitais, se conseguissem registos de qualidade, nomeadamente no que concerne ao lan\u00e7amento de dados no seguimento dos doentes. A verdade \u00e9 que essas f\u00f3rmulas t\u00eam falhado e a principal causa reside em serem baseadas no voluntariado. Na minha opini\u00e3o, s\u00f3 teremos sucesso se profissionalizarmos essa atividade, isto \u00e9, passar a ser uma atividade remunerada. \u00c9 assim que funciona nos pa\u00edses n\u00f3rdicos que apresentam registos de alta qualidade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-1 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"472\" src=\"http:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/0be6a68b-c852-4903-96f5-3af052cd3125-1024x472.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3220\" srcset=\"https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/0be6a68b-c852-4903-96f5-3af052cd3125-1024x472.jpeg 1024w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/0be6a68b-c852-4903-96f5-3af052cd3125-300x138.jpeg 300w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/0be6a68b-c852-4903-96f5-3af052cd3125-768x354.jpeg 768w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/0be6a68b-c852-4903-96f5-3af052cd3125-1536x708.jpeg 1536w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/0be6a68b-c852-4903-96f5-3af052cd3125-2048x945.jpeg 2048w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/0be6a68b-c852-4903-96f5-3af052cd3125-600x277.jpeg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"472\" src=\"http:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/f5e68960-c58e-491a-867b-81937b239d15-1024x472.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3219\" srcset=\"https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/f5e68960-c58e-491a-867b-81937b239d15-1024x472.jpeg 1024w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/f5e68960-c58e-491a-867b-81937b239d15-300x138.jpeg 300w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/f5e68960-c58e-491a-867b-81937b239d15-768x354.jpeg 768w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/f5e68960-c58e-491a-867b-81937b239d15-1536x708.jpeg 1536w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/f5e68960-c58e-491a-867b-81937b239d15-2048x945.jpeg 2048w, https:\/\/perspetivaatual.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/f5e68960-c58e-491a-867b-81937b239d15-600x277.jpeg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Outro grande obst\u00e1culo \u00e0 qualidade dos registos resulta do desinteresse da tutela. Durante v\u00e1rios anos tive responsabilidades na dire\u00e7\u00e3o da nossa Associa\u00e7\u00e3o de Cardiologia de Interven\u00e7\u00e3o (APIC) e tentei demonstrar o interesse em que o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade fosse um parceiro nos registos, como acontece noutros pa\u00edses como, por exemplo, a Dinamarca e a Su\u00e9cia. Esta dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o ir\u00e1 deixar de insistir nesta tem\u00e1tica, n\u00e3o apenas porque s\u00f3 a tutela tem os instrumentos que necessitamos para o sucesso, designadamente de os tornar obrigat\u00f3rios, como tamb\u00e9m ser\u00e1 muito importante investir nestas bases de dados, como est\u00e1 previsto no PRR.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A preven\u00e7\u00e3o e sensibiliza\u00e7\u00e3o para doen\u00e7as cardiovasculares \u00e9 um dos trabalhos mais importantes da comunidade m\u00e9dica e cient\u00edfica. Como \u00e9 que a Sociedade Portuguesa de Cardiologia atua neste sentido?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 reconhecido que os portugueses ainda t\u00eam uma deficiente literacia relativamente aos temas da sa\u00fade, em geral, e das doen\u00e7as cardiovasculares, em particular. H\u00e1 anos realizamos um inqu\u00e9rito nacional sobre o enfarte do mioc\u00e1rdio onde isso ficou bem patente. Em parceria com a Sociedade Portuguesa de Literacia, estamos a desenvolver projetos que pretendem sensibilizar a popula\u00e7\u00e3o para a tem\u00e1tica das doen\u00e7as cardiovasculares. Mas n\u00e3o ser\u00e1 s\u00f3 com a comunidade que temos que comunicar. Embora as doen\u00e7as cardiovasculares representem a principal causa de morte na Europa, a perce\u00e7\u00e3o que temos \u00e9 a de que os pr\u00f3prios media est\u00e3o mais focados em outras patologias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outra vertente, n\u00e3o menos importante que a preven\u00e7\u00e3o, \u00e9 a reabilita\u00e7\u00e3o. Todos, inclusivamente a classe m\u00e9dica, estamos muito focados na medicina curativa e estamos esquecidos de qu\u00e3o importante \u00e9 reabilitar. Portugal \u00e9 um dos pa\u00edses europeus com um dos mais baixos \u00edndices de reabilita\u00e7\u00e3o. Os doentes internados por doen\u00e7as cardiovasculares, deveriam iniciar precocemente um programa de reabilita\u00e7\u00e3o, algo que presentemente s\u00f3 oferecemos a menos de 10% desses doentes. \u00c9 nossa obriga\u00e7\u00e3o colocar a reabilita\u00e7\u00e3o na agenda, com o ideal de que todos os que necessitam tenham acesso a esses programas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No final de agosto aconteceu o ESC Congress 2023 (Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia), em Amesterd\u00e3o, do qual a SPC tamb\u00e9m participou. O que representa esta participa\u00e7\u00e3o para a Sociedade e para a comunidade m\u00e9dica portuguesa?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal \u00e9 um pa\u00eds europeu e dever\u00e1 estar integrado numa estrutura t\u00e3o importante como \u00e9 a Sociedade Europeia de Cardiologia. \u00c9 com grande orgulho que assinalamos que um portugu\u00eas, o Professor Fausto Pinto, j\u00e1 presidiu esta organiza\u00e7\u00e3o e que temos muitos outros colegas integrados nas v\u00e1rias estruturas da SEC, onde desenvolvem trabalho de grande relevo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As longas listas de espera para consultas ou cirurgias, no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, est\u00e3o a deixar em suspenso milhares de pessoas que precisam de cuidados. Na perspetiva da SPC, que medidas s\u00e3o necess\u00e1rias para abordar essa situa\u00e7\u00e3o e garantir que todos os pacientes recebam o cuidado de que precisam?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sejamos claros, n\u00e3o estamos a dar a resposta que a popula\u00e7\u00e3o necessita e existe uma grande iniquidade territorial entre regi\u00f5es, designadamente entre o litoral e o interior. No momento em que estou a dar esta entrevista, o SNS atravessa uma crise provavelmente de dimens\u00f5es nunca antes vistas, com a recusa, em \u201cbola de neve\u201d, dos m\u00e9dicos em fazerem mais das 150 horas extraordin\u00e1rias previstas por lei. Assistimos \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o da Via Verde Coron\u00e1ria, por falta de apoio log\u00edstico de cardiologia e da medicina interna e intensiva, algo que penso nunca ter acontecido ao longo de mais de duas d\u00e9cadas da Via Verde. Temos confian\u00e7a no di\u00e1logo e pensamos que esta crise aguda ser\u00e1 rapidamente ultrapassada, caso contr\u00e1rio estamos a recuar d\u00e9cadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Bem recentemente ouvimos falar no \u201cpa\u00eds oficial\u201d e no \u201cpa\u00eds real\u201d. Na verdade, a mensagem que nos \u00e9 passada \u00e9 de que nos \u00faltimos anos tem havido maior investimento na sa\u00fade. Mas, na verdade, quem est\u00e1 no terreno, o que observa \u00e9 que a maioria das nossas institui\u00e7\u00f5es hospitalares est\u00e1 antiquada e subdimensionada, muitas delas a recorrer a pr\u00e9-fabricados para obter mais espa\u00e7o, a par de muitos dos equipamentos estarem obsoletos e serem insuficientes. Esta problem\u00e1tica \u00e9 cr\u00edtica na cardiologia. A t\u00edtulo de exemplo, a TAC e a Resson\u00e2ncia Magn\u00e9tica s\u00e3o instrumentos essenciais para o diagn\u00f3stico dos nossos doentes, sendo que em Portugal, ao contr\u00e1rio da maioria dos pa\u00edses europeus, temos um acesso restrito, quer a n\u00edvel hospitalar, quer a n\u00edvel do ambulat\u00f3rio, a essas tecnologias. Acresce-se que a Medicina Geral e Familiar tamb\u00e9m n\u00e3o tem acesso a an\u00e1lises e exames que s\u00e3o essenciais para a referencia\u00e7\u00e3o dos doentes para cardiologia. Se juntarmos a isto \u00e0 escassez de profissionais de sa\u00fade, temos a tempestade perfeita para n\u00e3o darmos uma resposta minimamente satisfat\u00f3ria \u00e0 necessidade dos doentes portugueses.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A SPC est\u00e1 a tentar melhorar este cen\u00e1rio em duas vertentes: solicitar reuni\u00f5es com a tutela para discutir como \u00e9 que, na pr\u00e1tica, todos poderemos contribuir para ultrapassar estas barreiras; e, programar melhores parcerias com a Medicina Geral e Familiar para conseguirmos combater as listas de espera para consultas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro tipo de listas de espera s\u00e3o as da cardiologia de interven\u00e7\u00e3o e da cirurgia card\u00edaca. A situa\u00e7\u00e3o mais cr\u00edtica \u00e9 a dos doentes que sofrem de doen\u00e7a da v\u00e1lvula a\u00f3rtica, onde os doentes em lista de espera t\u00eam uma mortalidade percentual ao n\u00edvel dos dois d\u00edgitos. Nesta \u00e1rea, temos propostas concretas, algumas j\u00e1 em fase de implementa\u00e7\u00e3o, para uma resposta mais c\u00e9lere e que mantenha os altos n\u00edveis de qualidade a que a nossa cardiologia nos habituou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Al\u00e9m das listas de espera, quais diria serem os grandes desafios atuais na \u00e1rea da Cardiologia e qual \u00e9 o papel da SPC na resolu\u00e7\u00e3o dos mesmos?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Penso ser saud\u00e1vel e at\u00e9 positivo a coexist\u00eancia de um sistema de sa\u00fade p\u00fablico e privado. O que me preocupa \u00e9 o desinvestimento que o Estado, ao longo dos \u00faltimos anos, tem feito no SNS. A maioria dos portugueses n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es para ser seguido no setor privado, pelo que considero preocupante assistirmos \u00e0 crescente degrada\u00e7\u00e3o do SNS.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se, no caso das infraestruturas, podemos considerar que a curto ou m\u00e9dio prazo poderemos recuperar, j\u00e1 nos recursos humanos a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 bem mais problem\u00e1tica. A crescente sa\u00edda de profissionais para o privado e para o estrangeiro p\u00f5e em risco a qualidade da medicina que, at\u00e9 h\u00e1 bem poucos anos, t\u00ednhamos em Portugal. As atuais equipas est\u00e3o a ser levadas ao limite e teme-se que, para colmatar esses d\u00e9ficits, se tenha a tenta\u00e7\u00e3o de formar rapidamente e sem qualidade ou recrutar recursos com forma\u00e7\u00e3o muito inferior \u00e0 que as faculdades portuguesas praticam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Temos a felicidade dos jovens internos de cardiologia serem extremamente dedicados e com alta compet\u00eancia. Tudo temos que fazer para os manter nos nossos hospitais. Choca-me quando oi\u00e7o opinar que os internos deveriam, contratualmente, permanecer uns anos no SNS para compensar os anos de forma\u00e7\u00e3o. S\u00f3 pode fazer uma proposta destas quem n\u00e3o tem a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o que os servi\u00e7os est\u00e3o absolutamente dependentes do seu trabalho e que no final do internato nada devem ao sistema. Temos, sim, que contribuir para criar condi\u00e7\u00f5es para que eles permane\u00e7am no SNS.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Cardiologia tem se beneficiado enormemente do desenvolvimento de novas tecnologias. Quais procedimentos e t\u00e9cnicas mais recentes considera que revigoraram a pr\u00e1tica de cardiologistas em todo o mundo?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente t\u00eam surgido f\u00e1rmacos muito inovadores em v\u00e1rias \u00e1reas da cardiologia, nomeadamente no controlo do colesterol, na insufici\u00eancia card\u00edaca, na diabetes, nas doen\u00e7as do m\u00fasculo card\u00edaco, etc. Al\u00e9m das mol\u00e9culas cl\u00e1ssicas da farmacologia, existem hoje f\u00e1rmacos biol\u00f3gicos inovadores. O passo seguinte ser\u00e1 a via gen\u00e9tica, que j\u00e1 \u00e9 uma abordagem promissora para o diagn\u00f3stico e tratamento de doen\u00e7as card\u00edacas heredit\u00e1rias. No futuro pr\u00f3ximo, ser\u00e1 inclusivamente poss\u00edvel desenvolver terap\u00eauticas que possam corrigir ou modular os genes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, observam-se importantes desenvolvimentos na \u00e1rea dos dispositivos m\u00e9dicos implant\u00e1veis.&nbsp; Os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos levaram ao desenvolvimento de dispositivos muito sofisticados. Al\u00e9m dos cl\u00e1ssicos <em>pacemakers<\/em>, hoje dispomos de desfibriladores, ressincronizadores que ajudam n\u00e3o s\u00f3 a melhorar a qualidade de vida, como tamb\u00e9m impedem a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e reduzem a mortalidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Cardiologia \u00e9 uma especialidade multidisciplinar, mas, ao mesmo tempo, muito complexa, o que, muitas vezes, exige uma colabora\u00e7\u00e3o com profissionais de outras especialidades. Diria que est\u00e1 a haver uma crescente colabora\u00e7\u00e3o entre profissionais de diferentes especialidades na \u00e1rea da sa\u00fade?<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os profissionais est\u00e3o em crescente subespecializa\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo que os doentes est\u00e3o a viver mais e com m\u00faltiplas comorbilidades, pelo que n\u00e3o h\u00e1 hip\u00f3teses de fazer boa medicina se n\u00e3o for em estreita colabora\u00e7\u00e3o entre profissionais da especialidade de cardiologia e de outras especialidades. Quando me refiro a profissionais, n\u00e3o estou a falar exclusivamente de m\u00e9dicos, refiro-me a m\u00e9dicos, enfermeiros e t\u00e9cnicos.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>J\u00e1 discutimos as ambi\u00e7\u00f5es relativamente \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o. Mas, em rela\u00e7\u00e3o a outros aspetos, quais s\u00e3o os planos e objetivos que a nova dire\u00e7\u00e3o da SPC estabeleceu para o bi\u00e9nio 2023-2025 nomeadamente se t\u00eam algum projeto ou evento espec\u00edfico que estejam a preparar para o futuro pr\u00f3ximo?<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Confesso que com o in\u00edcio do meu mandato n\u00e3o anunciei nenhuma bandeira de projetos disruptivos apenas para mostrar que pretendia ser diferente. Herdamos uma sociedade cient\u00edfica com muitas d\u00e9cadas e muito s\u00f3lida, mas que necessita de refor\u00e7ar as suas estruturas para poder encarar o futuro. \u00c9 nisso que estamos a trabalhar. O ensino, a investiga\u00e7\u00e3o e a abertura \u00e0 comunidade s\u00e3o atividades que h\u00e1 muito se realizam na SPC, mas neste momento h\u00e1 que reformular muito do que vinha a ser feito, de forma a podermos manter a sustentabilidade da SPC.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o posso deixar de recordar que as doen\u00e7as cardiovasculares representam, na Europa, a principal causa de morte, representando 36% do total da mortalidade. O mais impressionante \u00e9 que 20 dessas mortes s\u00e3o prematuras, antes dos 65 anos, e em muitos casos poderiam ser evitadas pela preven\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m pelo tratamento e pela reabilita\u00e7\u00e3o. A SPC tem que lutar para conseguir colocar esta tem\u00e1tica no topo da agenda, n\u00e3o s\u00f3 da comunidade, como tamb\u00e9m dos media e da tutela. Presentemente, o Parlamento Europeu criou estruturas que tentam fazer chegar esta mensagem aos decisores, porque todos estamos convencidos de que esta \u00e9 uma patologia onde mais facilmente se conseguem ganhar anos de vida e com qualidade. \u00c9 nossa obriga\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixar perder esta oportunidade, pelo que estamos a trabalhar na persecu\u00e7\u00e3o de uma proposta de plano estrat\u00e9gico, a fim de nos apresentarmos como um parceiro ativo na defini\u00e7\u00e3o nacional e europeia nas doen\u00e7as cardiovasculares.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Cardiologia em Portugal enfrenta v\u00e1rios desafios, desde as longas listas de espera para 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