“A missão é avançar com o conhecimento científico e tecnológico para promover um desenvolvimento sustentável”
O Instituto de Polímeros e Compósitos (IPC), unidade de investigação da Universidade do Minho ligada ao Departamento de Engenharia de Polímeros, tem desempenhado um papel determinante no avanço do conhecimento e na inovação tecnológica em polímeros desde a sua criação, assinalando este ano duas décadas de atividade. Num recente diálogo com o diretor do IPC, António Pontes, exploramos o percurso do instituto ao longo dos anos, bem como a diversidade e a relevância das suas áreas de investigação.
Perspetiva Atual: O Instituto de Polímeros e Compósitos é uma Unidade de Investigação da Universidade do Minho, associada ao Departamento de Engenharia de Polímeros, que se dedica à área da ciência e tecnologia de polímeros. Que princípios orientam as atividades e a investigação desenvolvidas pelo IPC?
António Pontes: O Instituto de Polímeros e Compósitos (IPC) é uma unidade de investigação da Universidade do Minho, cujo principal objetivo é contribuir de forma consistente para o avanço do conhecimento na área da ciência e engenharia de polímeros e compósitos. A sua atividade é orientada por princípios éticos e científicos que sustentam uma investigação rigorosa, colaborativa e de elevada qualidade.
A equipa do IPC adota uma abordagem baseada no pensamento crítico, na mente aberta e na colaboração interdisciplinar, onde promove um ambiente transparente e cooperativo. Honestidade, perseverança e cooperação são pilares fundamentais que garantem a integridade científica e impulsionam o progresso da investigação.
A missão é avançar com o conhecimento científico e tecnológico para promover um desenvolvimento sustentável. Além disso, mantém uma forte ligação à indústria, procurando soluções a desafios reais e gerar valor para os setores dos polímeros, moldes e áreas relacionadas. A sua investigação tem impacto na sociedade e aborda desafios globais, como a economia circular, a transformação digital e a promoção do bem-estar social.
A atividade de investigação e desenvolvimento do IPC organiza-se em áreas de conhecimento fundamental, com foco em materiais avançados e tecnologias de fabrico, em áreas integrativas, como a integração de materiais, a incorporação de funcionalidades em sistemas, a engenharia imersiva, e em desafios de natureza aplicacional, nomeadamente o desenvolvimento de polímeros para aplicações avançadas. Esta estrutura permite uma abordagem integrada, combinando ciência fundamental, inovação tecnológica e aplicação prática do conhecimento.

PA: Tendo em conta a evolução constante do setor dos polímeros e compósitos, quais são as principais áreas de investigação que atualmente definem a atuação do IPC?
AP: Levando em consideração as mudanças constantes no setor dos polímeros e compósitos, o IPC tem direcionado a sua investigação para responder aos desafios industriais e sociais, onde prioriza a sustentabilidade, a digitalização e a criação de materiais avançados. O trabalho do IPC baseia-se numa visão que une diversas áreas como química, física, engenharia e tecnologia, possibilitando a criação de compósitos de alto desempenho, nanocompósitos com funções específicas e polímeros para uso em diversos setores industriais. Ao mesmo tempo, investe pesando na economia circular, através da reciclagem de polímeros, do reaproveitamento de resíduos e da criação de materiais que respeitam o meio ambiente.
A investigação em processos avançados de transformação, sistemas inteligentes e transformação digital, em sintonia com os modelos da Indústria, é conseguida através da participação em ambientes de colaboração como o Laboratório Colaborativo em Transformação Digital (DTx) e o Laboratório Associado em Sistemas Inteligentes (LASI).
A transferência de tecnologia e a parceria com a indústria, com o PIEP (Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros), completam a atuação do IPC, promovendo a inovação e a competitividade na indústria.
“O trabalho do IPC baseia-se numa visão que une diversas áreas como química, física, engenharia e tecnologia, possibilitando a criação de compósitos de alto desempenho, nanocompósitos com funções específicas e polímeros para uso em diversos setores industriais”
PA: É quase impossível abordar temas relacionados com áreas científicas, como a química, a física, a engenharia e a tecnologia de polímeros, sem reconhecer os profissionais que lhes dão forma e sentido. Como se estrutura a equipa de investigação e que papel desempenham os diferentes perfis de investigadores?
AP: A equipa do IPC é formada por colaboradores experientes e com diferentes níveis de formação e especialização, incluindo docentes, investigadores doutorados, investigadores em início de carreira, estudantes de doutoramento e bolseiros de investigação. Esta diversidade de perfis contribui para uma dinâmica científica equilibrada, que combina a experiência consolidada com novas ideias e abordagens inovadoras.
A investigação é desenvolvida com base em planos científicos bem definidos, liderados por investigadores experientes. A direção do IPC é responsável pela definição da estratégia científica, pela articulação institucional e pela promoção de um ambiente favorável ao desenvolvimento da investigação e da formação avançada.
PA: Este instituto está presente em redes de investigação nacionais e internacionais. Quem são os seus parceiros e como funcionam estas colaborações?
AP: Entre os parceiros institucionais destaca-se o PIEP, que estabelece a ligação entre a investigação desenvolvida no IPC e a indústria, nomeadamente no desenvolvimento de produtos, na realização de ensaios e na valorização de resíduos. O Instituto colabora ainda com outras entidades de Interface da Universidade do Minho (CVR, DTX, Tecminho, CCG/ZGDV, Fibernamics).
No plano internacional, mantém parcerias com instituições de ensino superior e investigação, no desenvolvimento de projetos conjuntos. O IPC tem, ainda, uma forte ligação ao tecido empresarial, colaborando com empresas como a TMG Automotive, Muroplas, Celoplas, Augusto Guimarães & Irmão, Lda., Plastidom, Grupo Iberomoldes, TJ Moldes, Simoldes, Intraplas, entre muitas outras, através de projetos de investigação aplicada, formação e transferência de tecnologia, com especial foco na sustentabilidade e na economia circular.
PA: Por outro lado, em agosto de 2025 começou o projeto ASTREA – Sensores e Tecnologias Avançadas para Extrusão Robótica e Automação. Como se desenvolve a investigação no projeto e a que públicos se destina?
AP: No âmbito do projeto ASTREA, Sensores e Tecnologias Avançadas para Extrusão Robótica e Automação, em parceria com as empresas MOVECHO e VOID, pretende-se criar rotinas de produção com calibração do débito de extrusão, monitorização em tempo real de variáveis do processo e ajuste de condições ótimas de processamento. O projeto inclui a criação de um sistema de aquisição de parâmetros críticos, integrado em células robóticas existentes, recorrendo a sensores, câmaras termográficas e sistemas de captura de movimento. Os resultados destinam-se à comunidade científica, ao setor industrial e a outros públicos interessados na automação, eficiência e sustentabilidade dos processos produtivos, nomeadamente no Fabrico Aditivo.

PA: A colaboração entre diferentes áreas do saber é um elemento central na resposta a desafios científicos e sociais. De que forma a multidisciplinaridade se reflete na investigação desenvolvida e que mais-valia tem proporcionado aos resultados alcançados?
AP: A multidisciplinaridade desempenha um papel crucial na investigação desenvolvida no IPC, pois combina várias áreas como a química de polímeros, a física, a engenharia e a tecnologia. Esta abordagem permite combinar conhecimento fundamental e engenharia aplicada, analisando todo o ciclo de vida dos materiais e respondendo a desafios científicos, industriais e sociais.
O IPC tem reforçado o alinhamento com necessidades emergentes da sociedade e da indústria, integrando ecossistemas de inovação e estruturas colaborativas, como o Laboratório Associado em Sistemas Inteligentes (LASI). A colaboração, nacional e internacional, envolve parceiros como a empresa TOTAL ou SABIC, entre outras, que enriquece a diversidade de perspetivas e fortalece os projetos.
Esta abordagem tem contribuído para a melhoria da qualidade das publicações científicas, o aumento do nº de patentes e o desenvolvimento de soluções tecnológicas inovadoras, aplicadas a setores como moldes e plásticos. Ao participar em projetos de grande dimensão, como as Agendas Mobilizadoras do PRR (Embalagem do Futuro, INOV.AM, HfPT, NGS, Be Neutral e Green Auto), o IPC demonstra a capacidade de mobilizar equipas multidisciplinares e transformar ciência em inovação com impacto social e industrial.
“A direção define como prioridades o reforço da excelência científica, a internacionalização da investigação, a captação de financiamento competitivo e o aprofundamento da ligação à indústria e à sociedade”
PA: O IPC está envolvido em programas doutorais. Poderia apresentar dois exemplos e explicar os seus objetivos?
AP: O IPC está envolvido em programas doutorais essencialmente na área dos materiais e processos avançados.
Um deles, o programa em Fabrico Digital Direto para as Indústrias dos Moldes e Polímeros, tem como objetivo formar recursos humanos altamente qualificados no domínio do fabrico digital direto, promovendo a integração com empresas e entidades tecnologicamente avançadas e estimulando o desenvolvimento sustentável do tecido industrial e da sociedade.
Outro programa doutoral é em Ciência e Engenharia de Polímeros e Compósitos, baseia-se numa formação avançada orientada para a investigação de excelência, o que permite aos estudantes aprofundar conhecimentos científicos e desenvolver competências críticas, autónomas e criativas.
Os doutorados formados nestes programas estarão preparados para desempenhar cargos de responsabilidade no meio académico, industrial e em entidades do sistema científico-tecnológico, contribuindo para a valorização do conhecimento e o desenvolvimento da sociedade.
PA: Que oportunidades existem para bolsas de investigação e que perspetivas oferecem estes programas no acesso ao mercado de trabalho e no desenvolvimento profissional dos investigadores?
AP: O IPC oferece diversas oportunidades de integração em projetos de investigação através de bolsas financiadas por programas nacionais e internacionais, permitindo o desenvolvimento de competências científicas, técnicas e profissionais.
Estas oportunidades incluem Bolsas de Iniciação à Investigação, Bolsas de Investigação para mestres e doutorados, assim como contratos no âmbito do Emprego Científico, nomeadamente para Investigadores Júnior e Auxiliar.
As oportunidades são divulgadas no portal de bolsas da Universidade do Minho, na Bolsa de Emprego Público e no portal Euraxess. A forte ligação à indústria e as Interfaces da UMinho, nomeadamente as de maior envolvimento, como sejam o Laboratório Colaborativo DTx e o PIEP, facilitam a transição dos investigadores para o setor privado e promovem percursos profissionais diversificados e sustentáveis.
PA: Quais são os principais planos que a direção do IPC tem para este ano que se inicia?
AP: A direção do IPC define como prioridades o reforço da excelência científica, a internacionalização da investigação, a captação de financiamento competitivo e o aprofundamento da ligação à indústria e à sociedade. Pretende-se ainda consolidar a formação avançada, promover a renovação geracional e afirmar o IPC como uma unidade de investigação de referência na área dos polímeros e compósitos.

