Medir para mudar: o projeto europeu coordenado em Vila Real que quer travar o desperdício alimentar

Durante anos, a Europa tentou combater o desperdício alimentar com boas intenções, campanhas de sensibilização e relatórios sucessivos. Mas havia um problema estrutural que poucos ousavam enfrentar: ninguém estava realmente a medir o desperdício da mesma forma. Países diferentes, setores diferentes, metodologias diferentes. No fundo, falávamos todos do mesmo problema — mas com números que não se entendiam entre si. Foi para fazer face a esta problemática que nasceu o WASTELESS — um projeto europeu coordenado a partir de Vila Real que parte de uma ideia simples e, ao mesmo tempo, exigente: sem medição rigorosa, não há políticas eficazes.

E sem políticas eficazes, o desperdício alimentar continuará a ser um custo invisível para o ambiente, para a economia e para a sociedade. Financiado pela União Europeia no âmbito do programa Horizon Europe, o WASTELESS decorre entre janeiro de 2023 e maio de 2026 e envolve um consórcio de 14 países europeus. A coordenação científica está a cargo da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, sob liderança da professora Ana Novo Barros, docente do Departamento de Química e investigadora do CITAB. A partir de Trás-os-Montes, o projeto articula investigadores, empresas, decisores públicos e cidadãos de países tão diversos como França, Itália, Espanha, Dinamarca, Grécia ou Turquia.

Um problema que não acontece num só sítio

O desperdício alimentar não é um bloco único nem um erro isolado. Acontece em pequenas perdas acumuladas ao longo de toda a cadeia alimentar: no campo, na indústria, no retalho, na restauração e, finalmente, dentro de casa. Um tomate rejeitado por não cumprir o calibre. Um iogurte descartado por erro de previsão. Uma refeição que sobra porque a procura não correspondeu ao planeado. Um prato que vai para o lixo porque “já não parece bem”.

O primeiro passo do WASTELESS foi, precisamente, desmontar esta cadeia e identificar onde, como e porquê ocorre o desperdício. Só depois se pode agir de forma inteligente.

O objetivo central do projeto é desenvolver e testar um conjunto de ferramentas e metodologias inovadoras para medir e monitorizar as chamadas “food loss and waste” (perdas e desperdício alimentar), criando uma base de dados robusta, comparável e aplicável em contexto real. A partir daí, o projeto persegue duas metas claras: reduzir o desperdício evitável e encontrar novos destinos para o desperdício inevitável.

Porque há perdas que não podem ser totalmente eliminadas — mas podem deixar de ser lixo. Subprodutos alimentares podem tornar-se bioenergia, ingredientes funcionais ou matéria-prima para novas cadeias de valor. A mudança está menos em eliminar tudo e mais em decidir melhor o destino final.

Onde o desperdício se esconde

Na indústria alimentar, o desperdício raramente surge como um grande erro visível. Surge diluído em dezenas de pequenas decisões: triagens, cortes técnicos, especificações comerciais, normas internas mais restritivas do que a legislação. Individualmente parecem irrelevantes; ao fim de um ano, representam toneladas de alimento e custos económicos significativos. O trabalho do WASTELESS neste setor passa por tornar visível aquilo que antes era apenas ruído operacional.

“O objetivo central do projeto é desenvolver e testar um conjunto de ferramentas e metodologias inovadoras para medir e monitorizar as chamadas “food loss and waste” (perdas e desperdício alimentar), criando uma base de dados robusta, comparável e aplicável em contexto real”

No retalho, o problema assume outra forma. A descoordenação entre logística, previsões de procura e estratégias comerciais gera excedentes frequentes. Produtos ainda próprios para consumo acabam descartados por excesso de stock, pequenos danos, promoções tardias ou interpretações conservadoras das datas de validade. Medir o excedente é o primeiro passo para o gerir melhor.

Na restauração coletiva — cantinas, escolas, hospitais, restaurantes — o desperdício está fortemente ligado ao desfasamento entre o planeamento e a procura real. As ferramentas desenvolvidas permitem identificar padrões claros: dias da semana com maior sobra, pratos sistematicamente rejeitados, épocas do ano mais críticas. Informação simples, mas decisiva, que permite ajustar quantidades sem comprometer a qualidade do serviço.

O desafio maior começa em casa

Apesar de todos estes contextos, é no espaço doméstico que o desperdício alimentar se revela mais difícil de medir — e, paradoxalmente, mais relevante. Ao contrário da indústria ou do retalho, não existem registos sistemáticos, auditorias internas ou controlo externo. Existem hábitos, rotinas familiares e perceções subjetivas sobre o que é ou não seguro consumir.

Durante décadas, a recolha de dados neste contexto baseou-se quase exclusivamente em questionários e diários alimentares. Métodos úteis, mas profundamente limitados: dependem da memória, da atenção e da honestidade dos participantes, tendendo a subestimar o desperdício real. O resultado são dados fragmentados, difíceis de comparar e pouco robustos para apoiar políticas públicas.

Foi precisamente para ultrapassar estas limitações que o WASTELESS desenvolveu uma das suas ferramentas mais inovadoras: uma balança doméstica inteligente, criada especificamente para recolher dados fiáveis sobre desperdício alimentar em ambiente real.

Tornar visível o que sempre foi invisível

O funcionamento da balança foi pensado para se integrar na rotina diária das famílias, sem exigir esforço adicional nem alterar comportamentos. Sempre que um alimento é descartado — desde restos de refeições, produtos fora de prazo, frutas deterioradas ou simples cascas — o utilizador coloca-os na balança. O peso é registado automaticamente e enviado para uma aplicação móvel associada.

A aplicação solicita depois um conjunto muito reduzido de informações, através de perguntas de escolha múltipla: que tipo de alimento era (vegetais, carne, produtos preparados, entre outros), se o desperdício era evitável ou inevitável, e qual o destino final (lixo indiferenciado, compostagem, canalização, entre outros). Em poucos segundos, o processo fica concluído.

“O objetivo central do projeto é desenvolver e testar um conjunto de ferramentas e metodologias inovadoras para medir e monitorizar as chamadas “food loss and waste” (perdas e desperdício alimentar), criando uma base de dados robusta, comparável e aplicável em contexto real”

Toda a informação — peso, tipo de alimento, momento do dia e respostas associadas — é enviada para um servidor central. Os dados são anónimos, normalizados e recolhidos através do mesmo modelo de balança e das mesmas categorias, o que garante consistência e comparabilidade imediata entre famílias, regiões e países.

Dados que permitem ir além do “quanto”

Uma das grandes mais-valias desta ferramenta é que não se limita a quantificar o desperdício. Permite compreender padrões. Saber, por exemplo, se as famílias desperdiçam mais vegetais frescos ou alimentos processados, se o desperdício aumenta ao fim de semana, se está associado a refeições específicas ou a falhas de planeamento.

Este nível de detalhe abre novas possibilidades para a ação. Municípios, instituições sociais e decisores políticos passam a dispor de dados sólidos para desenhar campanhas de sensibilização dirigidas, ajustar sistemas de recolha de resíduos, apoiar iniciativas de reaproveitamento alimentar ou reformular programas de educação alimentar.

Testes no terreno com resultados consistentes

A balança foi testada em famílias em Portugal e na Eslovénia, em contextos reais, após um curto período de formação inicial. Os resultados mostraram que o sistema é intuitivo, bem aceite pelos participantes e capaz de recolher grandes volumes de dados sem provocar fadiga ou abandono.

Mais importante ainda, os valores obtidos foram consistentes com estimativas nacionais já existentes, confirmando a fiabilidade do método. Ao substituir o autorrelato por medição direta, o WASTELESS deu um passo decisivo na forma como o desperdício alimentar doméstico pode ser estudado e combatido. Apesar de existirem ainda desafios a ultrapassar — como garantir que todos os perfis de utilizador compreendem facilmente o sistema — os testes piloto demonstraram que o conceito funciona. Pela primeira vez, qualquer casa pode tornar-se uma fonte de dados científicos valiosos.

Quando medir também muda comportamentos

Um efeito inesperado, mas relevante, foi o impacto da medição no comportamento das próprias famílias. Tornar o desperdício visível tem um efeito pedagógico imediato. Quando as pessoas passam a ver números concretos — pesos, tipos de alimentos, frequência — a relação com o desperdício muda, não por culpa, mas por consciência.

Ao transformar um gesto quotidiano e invisível num dado mensurável, a balança doméstica inteligente do WASTELESS mostra que medir é mais do que contar, é criar as condições para mudar.

Três soluções prontas para entrar no terreno

Para mostrar que o projeto vai além da teoria, o WASTELESS destaca três aplicações concretas já em funcionamento.

A primeira é a ToolBox, um guia digital inteligente que ajuda qualquer interveniente da cadeia alimentar a escolher a melhor forma de medir o desperdício que produz. Não existe um método universal: o que funciona numa quinta não funciona num supermercado, e o que é adequado para uma fábrica é excessivo para uma família. A ToolBox cruza contexto, recursos disponíveis, custo, esforço e precisão, e recomenda a solução mais ajustada a cada caso, apoiada em exemplos reais aplicados noutros países europeus.

A segunda aplicação é um exemplo claro de economia circular. Durante a produção de sumos, toneladas de bagaço de maçã — cascas e sementes — são descartadas todos os dias. No âmbito do WASTELESS, em conjunto com o Projeto VIAFOOD, liderado pela Sumol+Compal, esse subproduto foi transformado, através de tratamento enzimático, num ingrediente funcional rico em fibra e antioxidantes. O resultado foram bolachas destinadas à alimentação infantil onde 11% da farinha foi substituída por este bagaço valorizado. Mais nutritivas, bem aceites pelas crianças e com melhor avaliação sensorial do que as versões convencionais. Um resíduo passou a ingrediente — sem perder sabor.

A terceira solução, a balança doméstica inteligente, talvez seja a mais transformadora. Ao permitir medir não apenas quanto se desperdiça, mas também como e porquê, esta ferramenta abre caminho a campanhas de sensibilização mais eficazes, políticas públicas melhor fundamentadas e decisões mais informadas por parte de municípios, instituições sociais e decisores políticos.

“Ao transformar o desperdício alimentar num fenómeno mensurável, o projeto dá às empresas, aos decisores políticos e aos cidadãos uma base concreta para agir”

Medir para decidir melhor

Um dos efeitos mais interessantes observados ao longo do projeto foi o impacto indireto da medição no comportamento das pessoas. Tornar o desperdício visível gera consciência. Quando as famílias passam a ver números concretos — pesos, tipos de alimentos, frequência — a relação com o desperdício muda. Não por culpa, mas por conhecimento.

O WASTELESS não promete soluções milagrosas nem discursos moralistas. Propõe algo mais difícil: rigor, dados comparáveis e decisões informadas. Ao transformar o desperdício alimentar num fenómeno mensurável, o projeto dá às empresas, aos decisores políticos e aos cidadãos uma base concreta para agir.

E fá-lo a partir de Vila Real, mostrando que a ciência produzida fora dos grandes centros pode estar no centro das grandes decisões europeias. Medir, afinal, não é apenas contar. É o primeiro passo para mudar.

Países do consórcio (14)
Áustria | Bélgica | República Checa | Dinamarca | Estónia
| França | Grécia | Hungria | Itália | Portugal |
Eslovénia | Espanha | Suíça | Turquia

Em que período decorreu o projeto?
De 1 janeiro de 2023 a 31 maio de 2026.

Coordenação
Projeto coordenado pela Professora Ana Novo Barros,
da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
(UTAD).

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