“O passo decisivo em direção ao futuro na gestão dos nossos destinos”

“O turismo tem um impacto fortíssimo na economia e na vida das pessoas, mas tem de ser bem gerido”. É a partir desta premissa que Carlos Costa, coordenador do STEEDS.Lab, inicia a entrevista, apelando veemente para que se repense a gestão do turismo em Portugal. Este projeto de investigação pretende desenvolver novos modelos de gestão para os destinos turísticos costeiros, centrando-se na sustentabilidade, na tecnologia e no envolvimento das comunidades locais.

O Turismo como vetor de desenvolvimento sustentável

Carlos Costa, coordenador do STEEDS.Lab

Financiado pelo governo no âmbito da inovação para o turismo, o projeto reúne uma equipa de 60 investigadores de economia, gestão, marketing, tecnologias, cultura, património e ambiente. Para Carlos Costa, que coordena este projeto conjuntamente com Zélia Breda, esta diversidade reflete os desafios que se colocam atualmente aos territórios turísticos nacionais, principalmente nas zonas costeiras.

“Portugal não vivia, neste momento, sem turismo”, reconhece. “Ainda assim, o crescimento do setor deve ser acompanhado por uma estratégia clara. Existem pressões muito grandes ao nível dos ecossistemas costeiros e dos centros urbanos, obrigando-nos a repensar em novos modelos de gestão”.

O propósito central do STEEDS.Lab consiste em criar modelos tecnológicos que aproximem a economia, a sustentabilidade e a coesão social. O professor catedrático ilustra esta ideia com uma metáfora: “O turismo deve funcionar como “combustível” para os territórios. No entanto, para tal, é preciso que existam bons motores. Caso contrário, o turismo torna-se um fator de pressão, de explosão social e ambiental, em vez de se desenvolver”. Ainda na mesma linha de pensamento, alerta que o turismo não evolui de forma autónoma e nem sempre é positivo. “O turismo tem tido e terá um impacto fortíssimo na economia e na vida das pessoas, por isso, é preciso geri-lo melhor do que aquilo que tem sido feito até agora ou pode ter o efeito oposto”.

Aprender, investigar e envolver

O STEEDS.Lab é um projeto de investigação aplicada. “Contratámos oito doutorandos em regime full-time que, durante três anos, estão a desenvolver as suas pesquisas no âmbito do projeto. Para além disso, convidámos diversos investigadores de outras áreas, bem como estudantes que, através das suas teses, contribuem para a criação de conhecimento e inovação”, explica.

De acordo com Carlos Costa, a sustentabilidade é transversal e crítica para o futuro do turismo. “As novas gerações estão cada vez mais sensíveis às questões ambientais. Os nossos alunos abordam estas temáticas nas dissertações, teses e projetos, ajudando a promover educação ambiental e comportamentos responsáveis”.

Envolver os jovens de forma ativa na investigação é um motivo de orgulho para o responsável pelo projeto. “Queremos que os estudantes percebam que o turismo pode ser um motor de desenvolvimento económico, ambiental e social, e não apenas uma atividade de lazer”. Além dos estudantes, o investigador divulga o Living Lab, um espaço do projeto que envolve a colaboração com as comunidades locais. “O Living Lab envolve as populações no desenvolvimento do turismo. Não queremos entregar um projeto pronto. Queremos construir soluções com quem vive e trabalha nos destinos”, afirma. O STEEDS.Lab colabora com autarquias, empresas, hoteleiros, restaurantes e residentes. “O turismo deve beneficiar todos e as decisões têm de ser mais inclusivas. Por isso, trabalhamos de forma transparente e em consórcios, envolvendo todos aqueles que integram as comunidades locais”.

Para reforçar a proximidade com a comunidade, realizam-se encontros periódicos, onde os residentes são convidados a debater comportamentos sustentáveis e modelos de gestão turística. “Temos ido à Praia da Barra e à Costa Nova para conversar com os residentes e comerciantes, convidando-os a partilhar a sua perspetiva acerca da gestão do turismo e aproveitando para discutir possíveis formas para assegurar o desenvolvimento das comunidades sem gerar pressões sociais ou ambientais”.

“Queremos que os estudantes percebam que o turismo pode ser um motor de desenvolvimento económico, ambiental e social, e não apenas uma atividade de lazer”

Ações que dão origem a soluções

Entre os projetos em curso, além do Living Lab, destaca-se o desenvolvimento de aplicações (apps) que indicam os níveis de utilização das praias e áreas urbanas, permitindo aos visitantes encontrar estacionamento, atividades e locais de interesse, enquanto motivam comportamentos ambientalmente mais responsáveis.

“A mobilidade é um outro foco. Queremos implementar soluções da denominada mobilidade suave, como bicicletas, trotinetes e veículos elétricos, transformando áreas, antes saturadas por carros, em espaços pedonais. O objetivo é recuperar os espaços públicos para os cidadãos e reduzir a poluição urbana”.

No dia 16 de abril, será realizada uma conferência aberta para divulgar os resultados que têm sido alcançados e apresentar o website oficial do STEEDS.Lab. “Todos os trabalhos serão públicos e financiados pelo estado. Esperamos que a comunidade e os estudantes participem e aprendam com os resultados”, conclui.

“O turismo deve beneficiar todos e as decisões têm de ser mais inclusivas. Por isso, trabalhamos de forma transparente e em consórcios, envolvendo todos aqueles que integram as comunidades locais”

Investigação financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e pelos NextGenerationEU, na Universidade de Aveiro, através da Agenda para a Inovação Empresarial “ATT – Agenda Mobilizadora Acelerar e Transformar o Turismo” (Projeto n.º 47, candidatura C645192610-00000060).

This study was funded by the Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) and by NextGenerationEU funds at Universidade de Aveiro, under the Agenda for Business Innovation “ATT – Agenda Mobilizadora Acelerar e Transformar o Turismo” (Project no. 47, application C645192610-00000060).0

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