Projeto europeu GRACE aposta na resiliência climática das áreas rurais remotas europeias, com soluções testadas no Baixo Alentejo

O Instituto Politécnico de Beja (IPBeja), através da sua coordenadora de projeto, Maria João Carvalho, e a CIMBAL integram o conjunto de entidades parceiras do projeto GRACE, num momento em que a Europa aquece mais rapidamente do que qualquer outro continente. O ano de 2024 foi o mais quente alguma vez registado, confirmando a aceleração das alterações climáticas e o aumento da frequência e intensidade de fenómenos extremos, como cheias, incêndios florestais e secas. Estes eventos colocam sob pressão crescente as populações, os ecossistemas e a economia. Entre 1980 e 2020, os desastres climáticos na União Europeia representaram perdas médias anuais de cerca de 12 mil milhões de euros, valor que poderá aumentar significativamente se os riscos não forem devidamente mitigados.

Apesar do reforço das políticas europeias de adaptação, como o Pacto Ecológico Europeu e a Missão da UE para a Adaptação às Alterações Climáticas, os territórios rurais continuam entre os mais vulneráveis. Em especial, as áreas rurais remotas enfrentam desafios acrescidos resultantes do isolamento, da forte dependência dos recursos naturais, do acesso limitado a serviços, do subinvestimento estrutural e de dinâmicas persistentes de despovoamento e envelhecimento. Representando cerca de metade das áreas rurais da União Europeia, estes territórios exigem abordagens específicas que reforcem a capacidade local de resposta às alterações climáticas.

É neste enquadramento que surge o projeto GRACE – Growing Climate Resilience in Remote Rural Areas through Community Empowerment. Financiado pela Comissão Europeia no âmbito da Missão da UE para a Adaptação, o GRACE é uma Ação de Inovação do programa Horizonte Europa, com duração de 48 meses, entre outubro de 2025 e setembro de 2029, um orçamento global de cerca de 8 milhões de euros e um consórcio de 27 entidades de 16 países. O objetivo central é capacitar comunidades localizadas em áreas rurais remotas, promovendo o seu papel ativo na adaptação climática e na construção de territórios mais resilientes.

O projeto atua em cinco regiões demonstradoras – Baixo Alentejo (Portugal), Cavallino-Treporti (Itália), Bucklige Welt–Wechselland (Áustria), Limfjorden (Dinamarca) e Västerbotten (Suécia) – onde são desenvolvidas e testadas soluções que combinam soluções baseadas na natureza, tecnologias digitais, governação e economia circular. Paralelamente, cinco regiões de replicação na Grécia, Irlanda, Letónia, Eslováquia e Ucrânia preparar-se-ão para adotar e adaptar as soluções desenvolvidas nas regiões demonstradoras. O projeto prevê ainda o envolvimento de até 20 regiões observadoras, autoridades públicas de áreas rurais remotas interessadas em acompanhar as atividades de demonstração e potencialmente replicar estas abordagens noutros contextos europeus.

Em Portugal, o Baixo Alentejo é a região demonstradora do GRACE. Trata-se de um território marcadamente rural, com baixa densidade populacional e sistemas agro-silvo-pastoris de elevado valor ecológico, como o montado e as estepes cerealíferas. A região enfrenta riscos climáticos relevantes, como a redução da precipitação, o aumento das ondas de calor, secas recorrentes e maior risco de incêndios, com impactos diretos na água, nos solos, na biodiversidade e em atividades económicas estratégicas.

A implementação do GRACE no Baixo Alentejo assenta numa parceria entre a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo (CIMBAL), o Instituto Politécnico de Beja (IPBeja) e a Estação Biológica de Mértola (EBM). A CIMBAL assegura a articulação intermunicipal e o envolvimento das comunidades. O IPBeja contribui com competências técnico-científicas nas áreas da agricultura, ambiente e tecnologias digitais, desenvolvendo sistemas de monitorização, apoio à decisão e capacitação dos atores locais. A EBM aporta conhecimento dos ecossistemas mediterrânicos e suporta cientificamente as soluções baseadas na natureza.

No plano operacional, o piloto do GRACE no Baixo Alentejo incide sobre dois sistemas territoriais – o montado e as estepes – complementados por uma componente digital transversal. No montado, testam-se soluções de restauro ecológico, melhoria da retenção de água e regeneração das espécies arbóreas. Nas estepes, avaliam-se comunidades vegetais mais resistentes, analisando impactos na produtividade, no solo e na biodiversidade.

Em paralelo, é implementado um sistema digital com sensores, em particular por recurso à tecnologia de uma smart farm (IPBeja), com ferramentas digitais e alertas precoces, numa concertação de recursos e know-how, permitindo uma adaptação baseada em dados.

No seu conjunto, o GRACE transforma o Baixo Alentejo num laboratório vivo de adaptação climática em territórios rurais remotos, articulando governação, ciência, inovação tecnológica e envolvimento comunitário, contribuindo para a replicação de soluções sustentáveis noutros territórios europeus.

Projeto InsectERA: da investigação à aplicação industrial

O projeto InsectERA, coordenado por Nuno Sidónio (IPBeja), surge num contexto em que o crescimento da população mundial, aliado à escassez de água e de solo arável, coloca à Europa um desafio estrutural: garantir segurança alimentar reduzindo o impacto ambiental da produção agrícola e pecuária. A União Europeia depende fortemente da importação de proteína, sobretudo soja, o que fragiliza a cadeia alimentar e aumenta a pegada ecológica.

Os três postos de aquisição de imagens hiperespectrais do LImHS (IPBeja)

Neste cenário, os insetos surgem como uma alternativa promissora: são ricos em proteína, lípidos, vitaminas e minerais, apresentam elevada eficiência de conversão alimentar e requerem menos recursos do que fontes convencionais. Reconhecendo este potencial, a Comissão Europeia integrou-os na Estratégia Europeia da Proteína, e desde 2023, várias espécies estão autorizadas para consumo humano.

O InsectERA é uma Agenda Mobilizadora financiada pelo PRR, que reúne dezenas de entidades científicas e empresariais com o objetivo de criar uma nova cadeia de valor baseada em insetos, cobrindo todo o ciclo: desde matérias-primas e produção, até alimentos humanos, rações animais, aplicações industriais e entrada no mercado.

O IPBeja participa em três áreas estratégicas do projeto:

  1. InFood e InFeed – controlo de qualidade de alimentos humanos e rações animais.
  2. In2Market – desenvolvimento de um referencial técnico de qualidade baseado em imagem hiperespectral.
  3. InBioremediation – bioremediação ambiental com insetos aquáticos.

Uma contribuição central do IPBeja é o desenvolvimento de metodologias de controlo de qualidade baseadas em imagem hiperespectral suportada por machine learning. Diferentemente de uma fotografia convencional, a imagem hiperespectral integra centenas de bandas espectrais, permitindo identificar componentes derivados de insetos em misturas complexas, distinguir proteína e gordura, quantificar constituintes e detetar desvios de qualidade.

No Laboratório de Imagem Hiperespectral (LImHS) do IPBeja, já se obtêm resultados concretos na caracterização de farinhas, ingredientes e produtos alimentares, com identificação automática de proteína de inseto em amostras complexas e avaliação qualitativa e quantitativa de matérias-primas, numa abordagem não destrutiva, escalável e com aplicação industrial. O objetivo estratégico é propor um referencial técnico de controlo de qualidade para food e feed, que possa servir de base à futura normalização do setor, facilitando a validação industrial, o enquadramento regulatório e a aceitação do consumidor.

Identificação de larvas (azul) através do
processamento de imagens hiperespectrais

Paralelamente, no eixo InBioremediation, o IPBeja explora o uso de insetos aquáticos no tratamento de águas residuais agroindustriais. Caracterizações físico-químicas de efluentes provenientes de queijarias, lagares de azeite, suiniculturas e matadouros revelaram elevada carga orgânica e boa biodegradabilidade, condições favoráveis ao desenvolvimento de insetos. Os ensaios em curso avaliam o crescimento de diferentes espécies, a eficiência na redução da matéria orgânica e a produção de resíduos ricos em azoto, passíveis de valorização como fertilizantes.

Esta abordagem integra tratamento ambiental, economia circular e produção de biomassa num único processo. Os resultados obtidos pelo IPBeja já foram apresentados em feiras, congressos e eventos científicos nacionais e internacionais, além de publicados em revistas científicas.

Deste modo, o IPBeja contribui para a divulgação do impacto do InsectERA na sociedade, em particular para resolver um dos grandes desafios da atualidade: a segurança alimentar.

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