Um convite para vivenciar, analisar e investigar
Entre o território insular e o Atlântico que a rodeia, a Universidade da Madeira organiza o seu trabalho de investigação e ensino, explorando os recursos naturais da região e tendo a multidisciplinaridade como prioridade. É, neste contexto, que estão a ser desenvolvidos os projetos MISTIC SEAS, MIMAR, Plasmar, BASE e “Digitalizando a Aquacultura”, que cruzam ciência, tecnologia e sustentabilidade.
Perspetiva Atual: Fundada oficialmente em 1988, a Universidade da Madeira afirma-se como uma instituição que valoriza não só o conhecimento, mas também a formação integral do indivíduo. Qual é a missão desta instituição no domínio da investigação?
José Câmara: A Universidade da Madeira (UMa) tem como missão, no domínio da investigação, promover a realização de atividades científicas de excelência integradas ao ensino e à inovação, gerando conhecimento de relevância nacional e internacional, com ênfase na difusão, valorização social e económica do saber e na inovação tecnológica. Essa missão visa contribuir para o desenvolvimento económico, social e cultural da Madeira, de Portugal e do mundo.

PA: Ser uma região autónoma implica certamente desafios de descentralização. Como tem a Madeira superado estas dificuldades e aproveitado os recursos do ambiente e do mar para fomentar a investigação?
JC: A condição de Região Autónoma Ultraperiférica confere à Madeira desafios substanciais no âmbito da descentralização, designadamente o isolamento geográfico que compromete a concentração de recursos humanos e financeiros essenciais, bem como a dependência de financiamentos nacionais e europeus. Não obstante, a Madeira tem ultrapassado estes constrangimentos captando recursos provenientes de programas como o Horizonte Europa, o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e o Interreg MAC e operacionalizando estratégias como a RIS3 da RAM para priorizar nichos de excelência competitiva.
Simultaneamente, a região valoriza os seus recursos ambientais e marinhos com vista à valorização sustentável da economia azul. Projetos como o MISTIC SEAS, o MIMAR e o Plasmar exemplificam esta orientação estratégica.
“A Universidade da Madeira (UMa) tem como missão, no domínio da investigação, promover a realização de atividades científicas de excelência integradas ao ensino e à inovação, gerando conhecimento de relevância nacional e internacional”
PA: A UMa conta com vários centros de investigação. Poderia explicar que atividades se desenvolvem em cada um deles?
JC: A UMa distingue-se pela sua rede de centros e grupos de investigação, que desenvolvem atividades diversificadas e complementares, alinhadas com as prioridades regionais da Madeira. Estes centros promovem a produção científica de excelência, projetos financiados nacional e internacionalmente, formação avançada de estudantes dos diferentes ciclos de estudo e colaborações interdisciplinares, contribuindo para a transferência de conhecimento para a sociedade e empresas locais.
O Centro de Química da Madeira (CQM), o único centro integralmente sediado na Região Autónoma da Madeira a alcançar a avaliação de Excelente, destaca-se pela sua investigação interdisciplinar de excelência em química analítica, orgânica, ambiental e bioquímica, organizada em dois grandes grupos temáticos: Produtos Naturais e Materiais. Desenvolve projetos relacionados com a valorização de recursos endémicos da Macaronésia, como compostos bioativos de plantas endémicas, desenvolvimento de nanomateriais sustentáveis, sensores para monitorização ambiental e análises avançadas de alimentos e poluentes. Tem 7 investigadores no Top 2% mundial pela Stanford/Elsevier.
O Centro de Investigação em Educação (CIE-UMa) direciona a sua pesquisa para a análise crítica do currículo educativo, explorando as influências políticas, ideológicas e culturais na sua construção, bem como na inovação pedagógica, através de estudos sobre novos paradigmas de aprendizagem, contextos digitais emergentes e críticas aos modelos tradicionais, com projetos europeus que envolvem formação de professores, consultoria e intervenções em qualidade do ensino superior na Macaronésia.

O Centro Universitário de Investigação em Psicologia (CUIP-UMa), em articulação com outros polos, explora a psicologia básica e aplicada, abrangendo neurociência cognitiva, processamento linguístico, desenvolvimento da aprendizagem e plasticidade cerebral, através de metodologias como neuroimagem, psicologia experimental e rastreamento ocular, promovendo intervenções em educação inclusiva, saúde mental insular e programas de formação inovadores em mestrado e doutoramento.
O Madeira Interactive Technologies Institute (M-ITI) e o Madeira N-LINCS são centros de investigação de TI associados à Universidade da Madeira (UMa), focados em inovação tecnológica e transferência para a economia regional. O M-ITI direciona a sua investigação para a interação humano-computador (HCI), desenvolvendo tecnologias interativas para design inclusivo e sustentável. O Madeira N-LINCS, polo da UMa do NOVA LINCS, reforça a informática regional através de linhas como IA (sistemas baseados em conhecimento), neuro-reabilitação (saúde e bem-estar) e engenharia de software organizacional.
O ISOPlexis dedica-se à promoção da sustentabilidade agroalimentar na Macaronésia através da conservação, caracterização e valorização de recursos genéticos locais, com ênfase em variedades tradicionais madeirenses e produtos endémicos. Gere um banco de germoplasma com mais de 5.000 acessos documentados de recursos genéticos para agricultura e alimentação, assegurando a conservação ex-situ de coleções de sementes, batata-doce, bananeira e plantas forrageiras.
O CITUR-Madeira analisa turismo inteligente e sustentável, modelando impactos socioeconómicos e digitalização de serviços; o CIDESD estuda atividade física, saúde pública e envelhecimento ativo em contextos insulares, com intervenções comunitárias; e o CEEAplA modela economias regionais atlânticas, políticas de coesão e sustentabilidade macroeconómica. Juntos, estes centros geram um ecossistema vibrante de investigação, com centenas de publicações anuais, eventos científicos e contributo direto para o RIS3 da RAM.

PA: Na mesma linha de pensamento, numa altura em que a investigação é cada vez mais global, como tem a Universidade da Madeira afirmado a sua presença em Portugal e além-fronteiras? Quem são os seus parceiros?
JC: A UMa afirma-se no panorama nacional e internacional da investigação globalizada através de uma internacionalização estratégica, liderando projetos europeus de diferentes programas incluindo Erasmus+, Horizonte Europa e Interreg MAC, alinhados ao RIS3 da RAM. Internacionalmente, a UMa destaca-se por parcerias estratégicas com o Carnegie Mellon University (CMU), Interactive Technologies Institute (ITI), a Universidade da Cidade de Macau (intercâmbios), a Universidad de Ciências Aplicadas y Ambientales (Colômbia, para projetos binacionais) e redes da CPLP e Macaronésia, entre muitas outras. O CQM integra plataformas europeias de referência como a INFRACHIP (em colaboração com o INL), focada em nanomateriais avançados.
Particularmente relevante é a colaboração com a China, onde a UMa regista a maior percentagem nacional de publicações em coautoria (13% em 2021-2022), participa na Aliança China-CPLP para longevidade saudável (biomedicina e IA) e no Belt and Road Joint Lab da Universidade de Zhejiang, em nanotecnologia e materiais avançados.
Em Portugal, mantém colaborações estreitas com diversas instituições de ensino superior, entre as quais as Universidades de Aveiro (UA), Minho (UM), Açores (UAc), Lisboa (UL), Évora (UE), Algarve (UALg) e Coimbra, promovendo projetos conjuntos, mobilidade académica e candidaturas colaborativas a programas nacionais e europeus.
PA: A colaboração entre diferentes áreas do saber é um dos grandes objetivos desta instituição. Considera que a forte coesão multidisciplinar, dentro das infraestruturas, levou a descobertas que não seriam possíveis num contexto mais tradicional e menos isolado?
JC: Sim, a coesão multidisciplinar e transversal é um fator primordial para o impacto da I&D, potenciando descobertas científicas e projetos de inovação tecnológica que seriam improváveis em contextos tradicionais.
A abordagem transversal permite integrar áreas como química, biologia, engenharia, psicologia e informática, conforme evidenciado em projetos financiados pela FCT, incluindo “Realidade Virtual Adaptativa para suporte após perda gestacional” (HCI e saúde mental), “Digitalizando a Aquacultura” (fotónica, IA e biologia marinha) e BASE (IA para produção de banana). O isolamento insular é promotor da partilha de recursos e dados, o que acelera o desenvolvimento de protótipos como sensores para embalagens inteligentes e bioestimulantes a partir de algas endémicas.

A proximidade física estimula a convergência interdisciplinar, potenciando a criação de patentes, publicações de alto impacto e aplicações regionais em diferentes áreas. Assim, a UMa converte a periferia num hub de inovação transversal e interdisciplinar com forte impacto nos resultados da I&D.
PA: É inegável que a investigação depende fundamentalmente da existência de investigadores altamente qualificados, sendo a escassez desses recursos um obstáculo significativo ao avanço científico. Como é enfrentado este desafio e que estratégias têm implementado para atrair novos profissionais? Como são constituídas as equipas de investigadores?
JC: É uma questão muito pertinente, atendendo à localização geográfica de ultraperiferia. A UMa enfrenta a escassez de investigadores altamente qualificados, agravada pelo contexto insular, através de estratégias integradas de atração e retenção de talentos, potencializadas pela sua visibilidade no QS Europe University Rankings, com destaque para o número de citações por docente e redes colaborativas internacionais, o que eleva a atratividade para talentos globais.
Implementa bolsas da FCT (CEEC, IF, SFRH-BPD), contratos via PRR e Horizonte Europa, e programas internacionais como Marie Curie e Erasmus+ Mundus para recrutamento internacional, complementados por infraestruturas de excelência (CQM, ISOPlexis), parcerias estratégicas com o ITI, NOVA LINCS e IPFN, além da divulgação de unidades avaliadas como “Muito Bom” ou “Excelente”. O posicionamento QS reforça esta projeção, evidenciando nove investigadores no Top 2% mundial (Stanford 2024), atraindo profissionais que privilegiam impacto científico reconhecido globalmente.
PA: Manter-se na vanguarda da investigação e liderar com inovação exige não só excelência científica e adaptação contínua, mas também a formação de novas gerações capazes de acompanhar esse avanço. Como são preparados os estudantes para o mercado de trabalho? E que desafios têm persistido, ao longo das décadas de investigação?
JC: A UMa prepara os estudantes para o mercado de trabalho articulando formação científica sólida, participação em projetos de investigação e desenvolvimento de competências transversais, com o objetivo de garantir uma inserção profissional qualificada. Os diferentes ciclos de estudos integram estágios em contexto real, colaboração com empresas e instituições da região, bem como oportunidades de mobilidade e cooperação internacional, incentivando também o empreendedorismo e a ligação a centros de investigação.

Apesar destes avanços, persistem desafios estruturais: o isolamento geográfico, que dificulta a atração e retenção de docentes e investigadores altamente qualificados; a necessidade de maior adesão à inovação pedagógica; o risco de abandono nos primeiros anos de formação; e a forte concorrência de centros universitários do continente na captação de financiamento e talento. Estes fatores forçam a uma atualização contínua dos currículos, ao reforço das parcerias com o tecido económico e à aposta em modelos de ensino mais flexíveis e digitalizados.
“A coesão multidisciplinar e transversal é um fator primordial para o impacto da I&D, potenciando descobertas científicas e projetos de inovação tecnológica que seriam improváveis em contextos tradicionais”
PA: A taxa de empregabilidade dos graduados é um indicador fundamental da excelência e eficácia da formação académica das instituições. Como são preparados os estudantes para responder às exigências do mercado de trabalho?
JC: Preparamos os estudantes para responder às exigências do mercado de trabalho através de uma formação integrada que alia rigor académico, investigação prática e desenvolvimento de competências transversais, visando uma elevada taxa de empregabilidade dos graduados.
Os currículos dos ciclos de estudo — licenciaturas, mestrados e doutoramentos — integram estágios em empresas regionais dos setores estratégicos (turismo sustentável, agroalimentar e economia azul), participação em projetos financiados pela FCT e Horizonte Europa realizados em ambientes não académicos, e integração direta em equipas multidisciplinares dos centros de investigação como o CQM, o ISOPlexis, o M-ITI, o Madeira N-LINCS, entre outros. O Polo de Emprego e o Fórum da Empregabilidade organizam workshops práticos sobre a construção de redes profissionais e criação de empresas, em articulação com a Startup Madeira. A mobilidade internacional através do Erasmus+ BIP e ofertas de formação contínua reforçam a adaptabilidade dos estudantes a nichos prioritários do RIS3 da RAM, formando alumni que assumem posições qualificadas na região e além-fronteiras, apesar dos desafios impostos pelo isolamento insular.
“Preparamos os estudantes para responder às exigências do mercado de trabalho através de uma formação integrada que alia rigor académico, investigação prática e desenvolvimento de competências transversais, visando uma elevada taxa de empregabilidade dos graduados”
PA: No início de cada ano, importa refletir sobre os planos de expansão para a universidade. Que objetivos a UMa se propõe cumprir em 2026?
JC: Para 2026, a UMa propõe-se cumprir objetivos estratégicos alinhados com a sua missão de inovação, internacionalização e contributo para o desenvolvimento regional, num contexto de adaptação ao digital e à ultraperiferia insular.
Prioriza a expansão curricular, nomeadamente alargar o curso de Medicina ao 4.º ano em parceria com a Universidade de Lisboa e o Governo Regional, submetendo o processo à A3ES até março de 2026 para coincidir com a abertura do Hospital Central e Universitário da Madeira, financiado por novos protocolos. O reforço da digitalização via “Impulso Mais Digital” é outro dos objetivos, implementando sistemas de predição de abandono escolar e mentoria por pares.
Outros focos incluem o reforço de competências digitais, empreendedorismo e reskilling para profissões emergentes (cibersegurança, sustentabilidade); a intensificação das colaborações interdisciplinares nos centros e grupos de investigação; e a defesa de uma majoração de financiamento no Orçamento do Estado para 2026, visando compensar os custos acrescidos da insularidade.

