Inovação e sustentabilidade no futuro da viticultura portuguesa

Nesta entrevista, a Perspetiva Atual analisa, com Raul Morais, coordenador da Agenda Mobilizadora Vine & Wine PT na UTAD, o trabalho que, desde 2021, tem vindo a ser desenvolvido no âmbito da investigação e inovação no setor vitivinícola português. Até 2027, o desígnio é claro: “A viticultura portuguesa está a dar um salto qualitativo: até 2027, a produtividade aumentará 13% graças a tecnologias como drones e robôs, mas o projeto vai muito além. Está a impulsionar a transição energética com soluções renováveis nas vinhas, a criar novos produtos, a tratar efluentes com nanofiltração, a produzir biofertilizantes a partir de resíduos e a desinfetar adegas com UV-C, eliminando químicos. Uma estratégia que posiciona Portugal na vanguarda da viticultura sustentável e inovadora”.

Raul Morais, coordenador da Agenda Mobilizadora Vine & Wine PT na UTAD

Perspetiva Atual: O projeto Vine & Wine PT surge num momento de transformação da viticultura. Que resultados esperam alcançar, a curto e a longo prazo?

Raul Morais: A Agenda Mobilizadora Vine&Wine PT do PRR nasce num contexto de profundas mudanças para o setor vitivinícola, marcado por desafios como as alterações climáticas, a escassez de água e a necessidade de reduzir a pegada de carbono, sem comprometer a qualidade e a tradição dos vinhos portugueses. A curto prazo (até 2027), espera-se um aumento de 13% na produtividade (43,2 hl/ha), graças a tecnologias como drones para monitorização e robôs modulares para operações na vinha, já em teste avançado (ex.: robô de monitorização, fertilização e vindima a 75% de execução). Estas soluções permitem reduzir 30% o consumo de água e energia, 19% O uso de combustíveis fósseis e 40% as emissões de CO₂ por garrafa. Também se desenvolvem vinhos de baixo ou zero teor alcoólico e carbonatados, alinhados com novas tendências de consumo, com testes promissores em adegas como a Herdade do Esporão e a Quinta dos Murças.

A longo prazo, o objetivo é tornar o setor mais resiliente, eficiente e competitivo, mantendo a identidade territorial. Destacam-se projetos como a integração de energia solar e eólica em vinhas e adegas do Douro, com sistemas de bomba de água movidos a energias renováveis e pontos de carregamento móveis para ferramentas elétricas. Outra inovação é a aplicação foliar de caulino e silício, que aumentou em 30% a eficiência do uso da água pela videira. O projeto visa ainda certificações ambientais para reforçar a competitividade internacional, especialmente em mercados como os EUA, e criar emprego qualificado em regiões de baixa densidade.

PA: O Vine & Wine PT centra-se em sustentabilidade, novos processos e automação. Qual é, na sua perspetiva, a relevância desta investigação para a sociedade, a economia e a visibilidade do país no panorama internacional?

RM: A relevância da Agenda Vine & Wine PT estende-se muito além do setor vitivinícola, impactando a sociedade, a economia e a projeção internacional de Portugal de forma significativa. Socialmente, promove práticas agrícolas responsáveis e valoriza regiões dependentes da vinha. Economicamente, reduz custos, minimiza desperdícios e desenvolve produtos de maior valor acrescentado, como a Plataforma Vine&Wine, que poupa 20% em energia e água através de algoritmos de rega inteligente.

A nível internacional, posiciona Portugal como referência em inovação vitivinícola sustentável, atraindo interesse de mercados premium. Exemplo disso é o Port Wine Fest 2025 (EUA), que levou 200 vinhos portugueses a 1.600 participantes, gerando 45 notícias internacionais. A colaboração entre universidades, centros de investigação e empresas acelera a transferência de tecnologia, como o desenvolvimento de leveduras autóctones não-Saccharomyces, que reforçam a identidade dos terroirs portugueses. Outro bom exemplo é o cálculo da pegada de carbono na vinha e no vinho, que permite quantificar o impacto ao longo de todo o ciclo produtivo e comunicar essa informação ao consumidor final através de um simples QR Code na garrafa.

PA: Olhando para o futuro, torna-se igualmente oportuno revisitar o que já foi conseguido desde o início da investigação, em 2021. Que descobertas e conquistas têm deixado os investigadores mais orgulhosos?

RM: Desde o início do projeto Vine&Wine PT, em 2021, uma das maiores conquistas tem sido, sem dúvida, a capacidade de transformar investigação científica em soluções práticas e aplicáveis, com níveis elevados de maturidade tecnológica. A capacidade de transformar investigação em soluções práticas é um dos maiores orgulhos. Projetos como o BioGrapeSustain (diversidade da videira e microbioma) e o VineAdapt2Climate (modelação de eventos climáticos severos) demonstram como a colaboração entre academia e indústria gera resultados tangíveis. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro consolidou equipas de investigação para parcerias empresariais, criando um ecossistema de inovação que quebra a barreira entre teoria e prática. O investimento de 90 milhões de euros em cerca de 50 empresas permitiu modernizar a investigação aplicada, posicionando a UTAD como líder no setor.

“O balanço é extremamente positivo: o projeto demonstrou que é possível conciliar tradição, inovação e sustentabilidade”

PA: Considerando a cadeia produtiva, quais são as etapas que mais consomem recursos e o meio ambiente, e que, por esse motivo, têm merecido atenção prioritária no projeto?

RM: As etapas críticas são a gestão da água, consumo energético, uso de fitofármacos na vinha e gestão de resíduos na adega. O projeto aposta em monitorização IoT, drones e robôs para pulverização seletiva, reduzindo o uso de produtos fitossanitários. Na vinificação, desenvolvem-se sistemas de tratamento e reutilização de águas (ex.: unidade móvel de nanofiltração) e valorização de resíduos, como a compostagem de restos de poda, chorume de vaca e lamas de ETAR, que melhoram a fertilidade dos solos. Na área da economia circular, aposta-se na valorização de coprodutos e na redução de desperdícios ao longo de toda a cadeia de valor. Um exemplo é o BioVitis, que valoriza a lenha de poda da videira para a produção de bioestimulantes naturais, evitando emissões de gases com efeito de estufa e promovendo práticas agrícolas mais sustentáveis, assim como a utilização de cobertos vegetais e práticas que melhoram a retenção de água e o sequestro de carbono no solo.

PA: O recurso a soluções tecnológicas TRL9 tem-se revelado determinante para explorar novas possibilidades e avançar no conhecimento. Que metodologia tem sido seguida neste processo?

RM: A UTAD valida soluções em condições reais, combinando ensaios laboratoriais, experimentação em campo e testes industriais. Exemplos incluem o PPP4Vine (avaliação de novos herbicidas, inseticidas e fungicidas propostos pela Ascenza) e o ANSWER (desinfeção de adegas com robótica e radiação UV-C, Castros). Além da validação tecnológica, a UTAD oferece suporte técnico e formação para integrar as soluções nos processos produtivos, garantindo que estão prontas para adoção pelas empresas. Esta capacidade é determinante para reduzir o tempo entre a investigação e a aplicação prática, proporcionando uma vantagem competitiva concreta às empresas do consórcio.

PA: No que diz respeito à produção de vinho, que outras melhorias técnicas, além da tecnologia, pretendem introduzir com esta investigação e como podem influenciar a rapidez e a eficiência das produções?

RM: Introduzem-se melhorias como fermentação controlada e processos de (bio)desalcoolização para vinhos de baixo teor alcoólico, e alternativas sustentáveis à estabilização tradicional (ex.: estabilização tartárica com alginatos). A desinfeção por UV-C reduz o uso de químicos, enquanto sensores otimizam o envelhecimento do vinho. Estas inovações aumentam a eficiência em 15%, reduzem custos e facilitam certificações de sustentabilidade.

PA: Para além do equilíbrio ambiental, descarbonização e rentabilidade, o projeto explora também a criação de novos materiais e produtos. Que vantagens oferece o vinho enquanto ingrediente?

RM: Face aos desafios atuais do setor vitivinícola, desde as alterações climáticas até às novas preferências dos consumidores, a UTAD tem liderado o desenvolvimento de soluções inovadoras que unem tradição, ciência e sustentabilidade. Desenvolvem-se vinhos com zero álcool e carbonatados, alinhados com a procura por opções mais saudáveis. A UTAD também criou iniciadores de levedura para realçar aromas únicos e soluções de biocontrolo (ex.: cepas microbianas contra a Brettanomyces), reduzindo conservantes químicos e o pó de cortiça otimizado, que elimina defeitos olfativos como o “gosto a rolha”, ou alternativas sustentáveis para a estabilização tartárica e proteica, que evitam problemas como turvação ou precipitação de cristais, garantindo a qualidade visual e sensorial dos vinhos. Estas inovações abrem novas oportunidades de negócio, desde exportação até comercialização de tecnologias enológicas.

PA: Com a participação da UTAD, que espaço têm os estudantes na investigação?

RM: Os estudantes são protagonistas na investigação aplicada, com teses de doutoramento e mestrado em temas como biofertilizantes, adaptação climática e gestão de rega. Participam em workshops práticos (ex.: operação de robôs de colheita e sensores IoT) e contribuem para plataformas colaborativas, como o Digital Knowledge Hub. Muitos são absorvidos por empresas do consórcio ou startups, fixando talento em regiões vitivinícolas.

PA: Ao virar a página para este novo ano, que balanço faz do percurso do Vine & Wine PT?

RM: O balanço é extremamente positivo: o projeto demonstrou que é possível conciliar tradição, inovação e sustentabilidade. Os resultados incluem adoção de tecnologias maduras, redução de recursos e emissões, lançamento de novos produtos e reforço da presença internacional. O impacto do projeto estende-se também à dimensão social, através da criação de emprego qualificado, da formação de técnicos e da valorização de regiões de baixa densidade, contribuindo para um desenvolvimento mais equilibrado do território. Permanecem desafios, como escalar soluções para pequenas adegas e sensibilizar consumidores para vinhos sustentáveis, mas o setor está mais preparado e resiliente graças à Agenda Vine&Wine PT.

“A longo prazo, o objetivo é tornar o setor mais resiliente, eficiente e competitivo, mantendo a identidade territorial”

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