UMinho lança projeto-piloto para a produção de têxteis mais sustentáveis
A Perspetiva Atual abre a primeira edição de 2026 à conversa com Carla Silva, responsável pelo DeepNDye, uma investigação da Universidade do Minho descrita como “um passo estratégico para reforçar a sustentabilidade do setor têxtil em Portugal”. A iniciativa tem como objetivo tornar o tingimento industrial mais sustentável, através da utilização de corantes naturais, sistemas nanoparticulados e da minimização do consumo de água.

Perspetiva Atual: O projeto DeepNDye nasce num contexto de crescente preocupação com o impacto ambiental do setor têxtil, marcado pelo elevado consumo de água e pela dependência de corantes sintéticos potencialmente poluentes. Com duração até 2028, que objetivos foram definidos para este período de desenvolvimento?
Carla Silva: Os objetivos definidos para o projeto são:
- Substituição de corantes sintéticos por corantes naturais obtidos da extração de fontes naturais como subprodutos e desperdícios da indústria agroflorestal;
- Redução da quantidade de água no processamento têxtil e, em particular, nas lavagens finais;
- Redução da quantidade de corante e água através do desenvolvimento de sistemas nanoparticulados para encapsulamento dos pigmentos, que permitem maior difusão do corante nas fibras têxteis e maior uniformidade de cor.
PA: No centro da investigação está a utilização de NADES (Natural Deep Eutectic Solvents), uma alternativa mais sustentável aos solventes tradicionais. Qual é a mais-valia desta tecnologia e que vantagens oferece em termos ambientais e industriais?
CS: A mais-valia da utilização do NADES assenta em dois pilares essenciais: são solventes “verdes”, capazes de extrair bioativos e pigmentos de forma mais eficaz que os solventes tradicionais, não são tóxicos e são biodegradáveis; ao mesmo tempo, podem ser aplicados diretamente no tingimento juntamente com os bioativos/pigmentos sem necessidade de processos prévios de separação; os próprios solventes eutécticos atuam no inchamento das fibras, aumentando o grau de esgotamento do pigmento.
PA: Substituir, de forma progressiva, os corantes sintéticos no tingimento têxtil é uma das prioridades do projeto. Que influência terá esta transição na sustentabilidade em Portugal?
CS: A substituição progressiva de corantes sintéticos por alternativas de origem natural no tingimento têxtil representa um passo estratégico para reforçar a sustentabilidade do setor em Portugal. Atualmente, muitos corantes sintéticos estão associados a processos intensivos em recursos, elevada carga química e geração de efluentes difíceis de tratar, com impactos diretos nos ecossistemas aquáticos e na saúde humana. A transição para corantes naturais, especialmente quando obtidos a partir da valorização de resíduos agrícolas, florestais ou industriais, contribui para a redução da toxicidade dos processos, da pegada ambiental e do consumo de matérias-primas não renováveis.

No contexto português, esta mudança assume particular relevância, uma vez que o país dispõe de um setor têxtil fortemente enraizado e de abundantes recursos naturais e subprodutos agroindustriais passíveis de valorização. A incorporação de corantes naturais pode, assim, promover modelos de economia circular, criando novas cadeias de valor locais, reduzindo a dependência de matérias-primas importadas e estimulando a inovação tecnológica nas empresas têxteis. Adicionalmente, esta transição responde às crescentes exigências regulatórias e às expectativas dos consumidores por produtos mais sustentáveis, transparentes e seguros, reforçando a competitividade do têxtil nacional nos mercados internacionais. Embora persistam desafios relacionados com a estabilidade cromática, escalabilidade e custo, o investimento em investigação e desenvolvimento permitirá ultrapassar estas limitações, consolidando Portugal como um polo de referência em soluções têxteis sustentáveis.
Em suma, a substituição de corantes sintéticos por alternativas naturais constitui não apenas um benefício ambiental, mas também uma oportunidade estratégica para o desenvolvimento sustentável e a diferenciação do setor têxtil português.
“A transição para corantes naturais, especialmente quando obtidos a partir da valorização de resíduos agrícolas, florestais ou industriais, contribui para a redução da toxicidade dos processos, da pegada ambiental e do consumo de matérias-primas não renováveis”
PA: Em contrapartida, a diminuição da quantidade de água necessária no processo de tingimento será um indicador de sucesso. Poderia explicar como se concretiza, na prática, esta otimização?
CS: A diminuição da quantidade de água utilizada no processo de tingimento constitui um indicador central de sucesso, uma vez que o consumo hídrico é um dos principais fatores de impacto ambiental da indústria têxtil. Na prática, esta otimização concretiza-se através de uma abordagem integrada que combina inovação nos materiais, nos processos e no controlo tecnológico. Um dos principais contributos resulta do desenvolvimento de nanoformulações de corantes mais eficientes, com maior afinidade para as fibras têxteis, permitindo taxas de fixação superiores e reduzindo a necessidade de múltiplas etapas de lavagem e enxaguamento. A utilização de auxiliares de tingimento de origem biológica, mordentes, e de solventes verdes, pode igualmente favorecer uma penetração mais homogénea do corante, diminuindo perdas e necessidade de remonta.

PA: Que alianças científicas e institucionais foram criadas e como têm contribuído para o êxito do projeto?
CS: O projeto tem sido desenvolvido com base numa estreita colaboração científica e institucional com a Universidade da Beira Interior (UBI), uma entidade de referência nacional na área da engenharia e tecnologia têxtil. Esta parceria tem sido determinante para o sucesso do projeto, permitindo a articulação entre conhecimento científico especializado e a aplicação prática das soluções desenvolvidas.
A colaboração com a UBI tem possibilitado o acesso a competências técnicas específicas, infraestruturas laboratoriais adequadas e metodologias avançadas de investigação, contribuindo de forma significativa para a otimização dos processos estudados e para a validação científica dos resultados obtidos. Em particular, a troca contínua de conhecimento entre as equipas envolvidas tem promovido uma abordagem multidisciplinar, reforçando a qualidade e robustez técnica do trabalho desenvolvido.
Esta aliança científica tem ainda desempenhado um papel fundamental na capacitação dos recursos humanos envolvidos, no reforço da massa crítica do projeto e na consolidação de práticas alinhadas com os princípios da sustentabilidade e da inovação responsável. Assim, a parceria com a UBI constitui um pilar essencial para o êxito global do projeto, potenciando o seu impacto científico, tecnológico e institucional.
PA: Que resultados já foram alcançados até ao momento com a investigação e o que se prevê concretizar ao longo de 2026?
CS: Até à data já produzimos alguns solventes eutécticos profundos e fizemos a sua caracterização físico-química. Prevemos otimizar a extração de pigmentos de fontes naturais nos próximos meses e o desenvolvimento de sistemas nanoparticulados para a encapsulação desses mesmos pigmentos. Estes sistemas serão posteriormente aplicados no tingimento de diferentes fibras têxteis.

PA: Que avanços o DeepNDye pode trazer para outros países em termos de sustentabilidade, inovação e mudanças económicas e sociais?
CS: O projeto DeepNDye apresenta um elevado potencial de transferência e replicação internacional, contribuindo para a redução do impacto ambiental da indústria têxtil através da implementação de processos de tingimento mais sustentáveis, com menor consumo de água, energia e produtos químicos sintéticos. O projeto promove a inovação tecnológica alinhada com os princípios da economia circular e da química verde, incentivando a modernização do setor têxtil noutros países e reforçando a cooperação científica internacional.
Estes avanços contribuem diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), nomeadamente os ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestruturas), 12 (Produção e Consumo Sustentáveis) e 13 (Ação Climática). A nível económico e social, a adoção das soluções desenvolvidas poderá aumentar a competitividade das empresas, estimular a criação de emprego qualificado e promover práticas industriais mais responsáveis, com impacto positivo nas comunidades e nos territórios onde forem implementadas.
“O projeto DeepNDye apresenta um elevado potencial de transferência e replicação internacional, contribuindo para a redução do impacto ambiental da indústria têxtil através da implementação de processos de tingimento mais sustentáveis, com menor consumo de água, energia e produtos químicos sintéticos”


