Biotecnologia ao serviço das abelhas: o projeto BeePro no controlo de uma doença apícola

A Paenibacillus larvae espalha-se silenciosamente pelas colmeias até se manifestar como Loque Americana, uma doença que representa um sério perigo para as abelhas e para a apicultura. À frente do projeto BeePro, Ana Oliveira revela as estratégias inovadoras que estão a ser desenvolvidas para antecipar, prevenir e controlar esta infeção, contribuindo para uma apicultura mais sustentável e resiliente.

Perspetiva Atual: O projeto BeePro, iniciado em junho de 2025 na Universidade do Minho e com duração prevista até 2028, foi criado para controlar e prevenir a bactéria Paenibacillus larvae. Qual a urgência associada a esta bactéria e que perigos representa para as abelhas e para a apicultura?

Ana Oliveira: A P. larvae é a bactéria responsável pela Loque Americana, uma das doenças mais graves e contagiosas que afetam a apicultura a nível mundial. Afeta exclusivamente as larvas de abelha, levando à sua morte, e propaga-se rapidamente no interior da colmeia e entre colmeias vizinhas, sobretudo através de esporos extremamente resistentes, capazes de persistir no ambiente durante muitos anos. Atualmente, não existe qualquer tratamento eficaz autorizado para esta doença — o uso de antibióticos é proibido na apicultura — e a legislação nacional e internacional obriga à destruição das colmeias infetadas por incineração, assim que surgem sinais clínicos. Esta realidade acarreta impactos económicos muito elevados para os apicultores, bem como consequências ecológicas relevantes, dado o papel essencial das abelhas na polinização e na manutenção da biodiversidade. Por estas razões, é urgente desenvolver estratégias de controlo da infeção antes da instalação da doença.

Elementos da equipa do projeto BeePro

PA: Pela primeira vez, vai ser modificado um probiótico de abelhas para produzir uma endolisina eficaz in vivo. Em que consiste esta metodologia e de que forma esta abordagem inédita poderá alterar o paradigma no combate à Loque Americana?

AO: A metodologia proposta no BeePro assenta numa abordagem inovadora que combina duas estratégias complementares. Por um lado, utilizamos um probiótico naturalmente associado às abelhas, contribuindo para o reforço da microbiota das larvas, um fator já conhecido por aumentar a resistência a diversas doenças.

Por outro, recorremos a ferramentas de biotecnologia para fazer algo completamente inovador: modificar este probiótico de forma a produzir e excretar uma endolisina, uma proteína altamente específica capaz de destruir a P. larvae.

As endolisinas apresentam a vantagem de atuar de forma muito específica e direcionada, eliminando apenas a bactéria patogénica, sem perturbar a microbiota benéfica ao contrário dos antibióticos convencionais. Esta abordagem inédita tem o potencial de alterar profundamente o paradigma atual de controlo da Loque Americana, substituindo medidas essencialmente reativas e destrutivas por uma estratégia de prevenção ativa, sustentável e biologicamente segura.

“Esta abordagem inédita tem o potencial de alterar profundamente o paradigma atual de controlo da Loque Americana, substituindo medidas essencialmente reativas e destrutivas por uma estratégia de prevenção ativa, sustentável e biologicamente segura”

PA: Espera-se que a combinação dos agentes permita evitar e gerir a infeção desta bactéria nas abelhas. Que resultados foram obtidos até agora e que testes práticos a equipa já realizou para avaliar a eficácia desta estratégia?

AO: Até ao momento, obtivemos resultados muito encorajadores tanto em laboratório como in vivo, na fase larvar da abelha. Foram isoladas e caracterizadas endolisinas com elevada capacidade de eliminar a P. larvae em condições laboratoriais, demonstrando eficácia no ambiente específico das larvas e ausência de toxicidade para elas. Estes resultados confirmam a viabilidade da abordagem e reduzem significativamente o risco associado às fases seguintes do projeto.

Paralelamente, desenvolvemos e otimizámos modelos de criação de larvas em laboratório, que nos permitem avaliar a eficácia da estratégia in vivo em condições controladas e reprodutíveis. O próximo passo consiste na construção do probiótico geneticamente modificado capaz de excretar a endolisina, trabalho que está a ser desenvolvido em colaboração com um parceiro na Noruega, com vasta experiência na expressão deste tipo de proteínas. Esta fase será crucial para validar a eficácia da abordagem num contexto biológico mais próximo da realidade da colmeia.

PA: Além do controlo da bactéria, que outros objetivos esperam alcançar com o BeePro no ano transato e até 2028?

AO: Para além dos objetivos científicos, o BeePro pretende gerar um impacto alargado a nível social, institucional e económico. O projeto contribuirá para a criação de emprego científico qualificado, através da contratação de investigadores e da formação avançada de estudantes de mestrado e doutoramento.

Adicionalmente, pretende-se reforçar a visibilidade nacional e internacional do grupo de investigação, através da participação em congressos, publicações científicas e estabelecimento de novas colaborações. Um outro objetivo importante passa pela transferência de conhecimento para o setor apícola, promovendo práticas mais sustentáveis e aproximando a ciência das necessidades reais dos apicultores. A médio prazo, o projeto poderá ainda lançar as bases para a valorização tecnológica dos resultados, com potencial aplicação prática no terreno.

PA: Que parcerias científicas e institucionais têm sido estabelecidas e como contribuem para o sucesso do projeto?

AO: O BeePro conta com uma parceria estratégica com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), através do Professor Doutor Paulo Russo Almeida. Esta colaboração é fundamental, pois permite complementar o trabalho laboratorial com testes em condições reais, recorrendo a apiários experimentais.

Esta parceria possibilita a avaliação da segurança do produto, bem como da sua capacidade de atingir e permanecer nos locais específicos da colmeia onde é necessário atuar para prevenir a doença, assegurando sempre elevados padrões de biossegurança e evitando a disseminação do agente patogénico no ambiente. A articulação entre diferentes áreas de especialização é essencial para garantir o sucesso e a aplicabilidade do projeto.

“Dado que a Loque Americana é um problema global, esta abordagem inovadora poderá também ter aplicação internacional, posicionando o BeePro como uma solução com relevância alémfronteiras e reforçando o valor da ciência aplicada à conservação da biodiversidade”

PA: Qual é o potencial impacto económico e social deste projeto para a apicultura e produção de mel em Portugal e fora do país?

AO: O impacto potencial do BeePro é bastante significativo. Ao reduzir a incidência da Loque Americana, o projeto poderá contribuir para uma maior estabilidade e sustentabilidade da apicultura, diminuindo perdas económicas associadas à destruição de colmeias e aumentando a produtividade e a qualidade do mel.

Para além do impacto direto nos apicultores, a proteção das abelhas tem repercussões mais amplas na agricultura e na segurança alimentar, devido ao papel crucial da polinização. Dado que a Loque Americana é um problema global, esta abordagem inovadora poderá também ter aplicação internacional, posicionando o BeePro como uma solução com relevância além-fronteiras e reforçando o valor da ciência aplicada à conservação da biodiversidade.

Beephine

PA: Ainda nesse âmbito, há outros projetos relacionados que possam ser destacados?

AO: Sim. O meu objetivo é abordar o combate a esta doença de forma holística. Para além da eliminação direta do agente patogénico, considero fundamental compreender e monitorizar o potencial das colmeias para o desenvolvimento da doença. Nesse sentido, a deteção precoce da Loque Americana assume um papel central, uma vez que permite ao apicultor intervir antes da manifestação clínica e da disseminação da infeção.

Atualmente, a deteção de P. larvae assenta essencialmente em metodologias microbiológicas clássicas, que implicam a recolha de amostras e o seu envio para laboratório, sendo o diagnóstico dependente de cultivo e confirmação laboratorial. Embora fiáveis, estes métodos são morosos, podendo demorar vários dias até à obtenção de resultados, o que limita uma resposta rápida no terreno e dificulta a implementação atempada de medidas de maneio.

Neste contexto, destaco o projeto BeePhine, que visa o desenvolvimento de um kit de deteção rápida, para utilização no campo, direcionado especificamente para a forma esporulada de P. larvae, a forma infecciosa do agente causador da AFB. Estes esporos podem estar presentes nas colmeias em concentrações subclínicas, não evidentes numa inspeção visual, mas com elevado potencial para evoluir para doença ativa.

A sua identificação atempada permitirá a implementação de estratégias de maneio adequadas, possibilitando a eliminação do agente antes da progressão da infeção.

Com este projeto, pretendemos disponibilizar ao apicultor uma ferramenta prática, rápida e acessível, que permita a monitorização autónoma das colmeias e, em cenários de suspeita de infeção, a confirmação da presença de AFB diretamente no campo.

Até ao momento, obtivemos resultados muito promissores, demonstrando a viabilidade da deteção por emissão de luz, recorrendo a técnicas de luminometria, em menos de 5 horas. Este avanço abre a possibilidade de um kit de campo que possa ser lido com um pequeno equipamento portátil, como um luminómetro, ou potencialmente até através da câmara de um telemóvel, tornando a tecnologia particularmente adaptada às necessidades reais da apicultura.

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