Pioneirismo e Inovação ao Serviço da Sustentabilidade

Liderando, desde a sua criação, o ensino e a investigação em Engenharia do Ambiente e Gestão Territorial, o DAO possuí uma abordagem multidisciplinar, currículos inovadores e projetos de investigação de ponta. A atual diretora, Fátima L. Alves, ressalva as estratégias adotadas para continuar a formar profissionais capacitados e a desenvolver soluções sustentáveis para os desafios ambientais contemporâneos.

Perspetiva Atual: Quando o Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro foi criado, em 1977, as preocupações com o Ambiente estavam longe de ser um tema debatido na esfera pública. Assumindo o pioneirismo na área, de que forma este departamento promoveu o ensino e a formação em engenharia do ambiente a par do desenvolvimento de políticas de ordenamento e gestão do território ao longo dos seus mais de 40 anos de existência?

Fátima Lopes Alves,
Diretora do DAO

Fátima L. Alves: A criação do Departamento de Ambiente da Universidade de Aveiro (UA) em 1977 foi uma visão estratégica da recém-criada universidade, num período em que o ambiente ainda não era uma questão global nem societal. A UA foi pioneira em Portugal, lançando o primeiro curso de Engenharia do Ambiente em 1976/77. Na época, as preocupações ambientais eram pouco debatidas, mas o departamento assumiu um papel de liderança na promoção do ensino e formação em Engenharia do Ambiente. Em 1983, passou a chamar-se Departamento de Ambiente e Ordenamento, integrando a licenciatura em Planeamento Regional e Urbano, refletindo a mudança de paradigma das questões ambientais e das políticas de ordenamento e gestão dos recursos naturais, impulsionadas pela 2ª Conferência da Terra sobre Ambiente e Desenvolvimento.

Ao longo de mais de 40 anos, o DAO tem contribuído significativamente para o equilíbrio entre desenvolvimento e sustentabilidade. Esta contribuição ocorre de várias formas:

  1. Criação de Currículos Inovadores: desenvolvendo programas de ensino inovadores, baseados em abordagens multi- e transdisciplinares para prevenir, diagnosticar e resolver problemas ambientais, considerando as dimensões ecológicas, territoriais, sociais e económicas do desenvolvimento sustentável. Estes currículos permitem formar profissionais capacitados para enfrentar os desafios ambientais atuais.
  2. Liderança em Projetos de Investigação: liderando e participando em projetos de investigação e inovação tecnológica em temas cruciais como qualidade do ar e da água, valorização de resíduos, gestão de recursos naturais, circularidade de materiais, avaliação de riscos naturais e tecnológicos, planeamento ambiental, governança territorial, cidades inteligentes, mobilidade sustentável, descarbonização e alterações climáticas. Estes projetos envolvem colaborações com redes de excelência internacionais e nacionais, ampliando o impacto da investigação, trocando conhecimento científico e tecnológico, e contribuindo para a tomada de decisões em políticas públicas.
  3. Unidades de Investigação: os docentes e investigadores do DAO fazem parte de quatro unidades de investigação:
  4. CESAM (Centro de Estudos do Ambiente e do Mar – Laboratório Associado);
  5. GOVCOPP (Governação, Competitividade e Políticas Públicas);
  6. GEOBIOTEC (GeoBiociências, Geotecnologias e Geoengenharias);
  7. TEMA (Centro de Tecnologia Mecânica e Automação).

Estas unidades de investigação são essenciais para alavancar a investigação de ponta que o DAO desenvolve, fortalecendo a capacidade de resposta aos desafios ambientais e promovendo a inovação e sustentabilidade.

Esta abordagem integradora e transdisciplinar permite ao DAO contribuir de forma muito significativa e direta para o desenvolvimento sustentável, a nível nacional e internacional, formando profissionais altamente qualificados e desenvolvendo soluções inovadoras para os desafios ambientais contemporâneos.

PA: Considerando que, enquanto diretora do DAO, assumiu funções há relativamente pouco tempo, poderia falar um pouco sobre a linha estratégica adotada pela nova gestão? Por exemplo, existem iniciativas específicas que já foram/estão a ser implementadas?

FLA: A atual Direção do DAO está fortemente comprometida em criar condições e oportunidades concretas de promoção de inovação pedagógica, técnica e científica, no âmbito da sustentabilidade ambiental e da inovação tecnológica como pilares fundamentais das suas atividades. As iniciativas já implementadas e as que estão em curso demonstram um forte compromisso, numa primeira fase, com o ensino e formação, integrando meios audiovisuais e novas tecnologias nos processos de ensino-aprendizagem, preparando o terreno para um impacto positivo duradouro no ambiente e na sociedade.

Investimento em espaços laboratoriais (ensino e investigação): em 2023, em colaboração com a unidade de investigação CESAM e a UA, o DAO iniciou um processo contínuo de valorização e adequação dos laboratórios, através da substituição de diversos equipamentos e materiais por versões modernas e inovadoras. Complementarmente, foram adquiridos meios audiovisuais, equipando laboratórios de ensino e salas de aula, promovendo novas metodologias de ensino-aprendizagem.

Remodelação e modernização dos espaços sociais e de estudo: damos particular atençãoaos estudantes, proporcionando-lhes um ambiente moderno, colorido e transparente, adequado para estudo individual, coletivo e de convívio. Por outro lado, o aumento do número de estudantes de doutoramento no DAO exigiu a criação/adaptação de espaços de trabalho em coworking. Está em curso a criação de um espaço de partilha – Research Living Area – com mobiliário moderno e adaptado ao uso partilhado. Serão criadas ‘ilhas’ de trabalho com ecrãs, promovendo a interação pessoal e científica entre os estudantes de doutoramento e as diferentes áreas científicas do DAO.

Incremento da internacionalização: através do reforço de parcerias internacionais e da participação em programas de mobilidade ERASMUS+, destacando-se o aumento de estudantes internacionais nos cursos lecionados pelo DAO, mas também, das colaborações com universidades de renome que permitem o intercâmbio de estudantes e docentes. Estas parcerias de mobilidade aumentam a visibilidade e o reconhecimento internacional do DAO, fortalecendo sua reputação e atraindo talentos, além de facilitar a participação em projetos de investigação globais, abordando desafios ambientais de forma colaborativa.

Aumento da oferta de estágios em ambiente empresarial e em instituições: o DAO aposta fortemente na criação de oportunidades para que os estudantes possam ingressar no mercado de trabalho durante o último ano do mestrado, com um aumento significativo na oferta de estágios em ambiente empresarial e em organismos da administração central e local. Este ano, a procura por parte do tecido empresarial da região para acolher estudantes do DAO foi acima do habitual, facilitada pelas redes existentes de docentes e investigadores, permitindo o estabelecimento de parcerias, estágios e projetos reais, proporcionando aos alunos do DAO uma experiência prática e oportunidades de networking.

Prémios de incentivo: para estudantes de licenciatura e mestrado em Engenharia do Ambiente, com o apoio de empresas e instituições da região com as quais o DAO mantém relações profissionais históricas e excelentes. Em breve serão divulgados os prémios de incentivo para ingresso e/ ou finalização de curso, de acordo com as regras existentes na UA.

PA: A oferta formativa disponibilizada no DAO articula-se nos diferentes ciclos de ensino. Desde as licenciaturas até aos doutoramentos, como é que os planos curriculares de cada curso têm sido atualizados e adaptados, tendo em conta os desafios atuais do mercado de trabalho?

FLA: A oferta formativa do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro, está cuidadosamente estruturada para abranger os diferentes ciclos do ensino superior, desde as licenciaturas aos doutoramentos. Os planos curriculares são continuamente atualizados e adaptados para responder à procura e aos desafios do mercado de trabalho contemporâneo, com um forte foco no ambiente, sustentabilidade territorial e inovação tecnológica.

  • Licenciatura em Engenharia do Ambiente (1.º ciclo) não só desenvolve competências técnicas básicas em processos e tecnologias ambientais, monitorização e gestão ambiental, mas também integra formação em áreas complementares como Informática, Química, Ecologia, Economia e Gestão. Além disso, os estudantes de licenciatura adquirem competências transversais essenciais como a capacidade de desenvolver soluções inovadoras, empreendedorismo e um conjunto de soft skills fundamentais para a prática profissional;
  • Mestrado em Engenharia do Ambiente: forma técnicos capazes de prever e caracterizar problemas e disfunções ambientais e de propor soluções para os evitar e resolver, técnica e financeiramente viáveis;
  • Mestrado em Gestão Ambiental: formação no domínio da implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e dos desafios do Pacto Ecológico Europeu, no que respeita à avaliação do impacto das atividades humanas sobre a concretização das metas ambientais, na melhoria das medidas de gestão e no desenvolvimento de mecanismos de monitorização robustos, nos setores público e privado;
  • Mestrado em Sistemas Energéticos Sustentáveis: formação integrada nos domínios das tecnologias energéticas, ambiente e desenvolvimento sustentável. A formação tem em atenção a multidisciplinaridade e transversalidade dos problemas energéticos e ambientais, suas soluções e as dimensões económica e social do desenvolvimento sustentável;
  • Mestrado em Saúde: forma profissionais com competências para avaliar e compreender as inter-relações fundamentais entre o ambiente natural e humanizado e a saúde, dotando os estudantes de conhecimento e competências para: definir prioridades na área da saúde ambiental, assente no conceito global de Uma Só Saúde (One Health).

A oferta formativa ao nível dos doutoramentos é também diversificada e destina-se a preparar quadros altamente qualificados para o desenvolvimento de trabalho de investigação autónomo nos seguintes domínios:

  • Programa Doutoral em Ciências e Engenharia do Ambiente, lecionado totalmente em inglês;
  • Programa Doutoral em Sistemas Energéticos e Alterações Climáticas, formação interdepartamental na Universidade de Aveiro;
  • Programa Doutoral em Território, Risco e Políticas Públicas, interuniversitário com o CES/ Universidade de Coimbra e o IGOT/ Universidade de Lisboa.

(Foto 6 – laboratórios)

PA: O DAO é uma referência incontornável na investigação e na transferência para a sociedade do conhecimento e da tecnologia produzidos na Universidade de Aveiro. Desta forma, poderia destacar alguns dos principais projetos de investigação levados a cabo pelos investigadores do DAO, mencionando, igualmente, o seu impacto e respetivas aplicações práticas?

FLA: O DAO é um parceiro privilegiado de academias, empresas e instituições nacionais e internacionais, com quem coopera em diversos projetos e estudos, desenvolvendo produtos e soluções inovadoras que contribuem para o avanço da ciência e da tecnologia à escala local, regional e global.

Os projetos de investigação do Departamento de Ambiente e Ordenamento, e das unidades de investigação associadas, demonstram um compromisso robusto com a prevenção e resolução de desafios ambientais contemporâneos (e urgentes), promovendo soluções técnicas, suportadas em ciência e tecnologia.

Através de tecnologias inovadoras e estratégias aplicadas, os projetos de investigação não só aumentam o conhecimento científico, mas têm um impacto tangível na sociedade, melhorando a qualidade de vida e contribuindo para a sustentabilidade do Planeta.

  • Projeto UNaLab: Urban Nature Labs, contribuiu para o aumento de conhecimento, a nível europeu, sobre o desenvolvimento e implementação de soluções baseadas na natureza (SBN), demonstrando os seus benefícios, relação custo-eficácia, viabilidade económica e replicabilidade em várias cidades europeias. Os materiais produzidos serviram para apoiar os técnicos e decisores das autarquias com informações sobre o conceito e o papel das soluções baseadas na natureza, bem como princípios e instrumentos de planeamento estratégico a utilizar, à escala da cidade;
  • Projeto DISTENDER: desenvolvimento de estratégias integradas de mitigação, adaptação e participação face aos riscos das alterações climáticas, pretende desenvolver uma estrutura metodológica para a integração das estratégias de adaptação e mitigação das alterações climáticas através de abordagens participativas que respondam aos impactos e riscos das alterações climáticas;
  • Projeto CCFORBIO: corredores ecológicos em plantações florestais: benefícios para a biodiversidade, produção de madeira e sequestro de carbono, tem como objetivo desenvolver conhecimento científico que suporte as vantagens da presença de corredores ecológicos em plantações florestais em recuperação;
  • Projeto SMARTDEC: Clusters Inteligentes para a Descarbonização Marítima, vai desenvolver e potenciar as capacidades de Investigação, de Inovação e de absorção de Tecnologias Avançadas pelo setor, através de processos de pesquisa e inovação, transferência de tecnologia e cooperação entre empresas, centros de pesquisa e universidades, com foco na baixa economia do carbono, resiliência e adaptação às mudanças climáticas;
  • Projeto CURIOSOIL: visa promover a literacia sobre o solo a toda a sociedade através da cocriação de um conjunto de produtos educativos, materiais curriculares e programas de formação de professores;
  • Projeto TERRASAFE: pretende capacitar as comunidades locais no Sul da Europa e no Norte de África para enfrentarem com sucesso os crescentes desafios da desertificação através da adoção de inovações sociais e tecnológicas.

PA: Relembrando que estamos em plena altura de candidaturas ao Ensino Superior, qual é a importância das áreas de estudo do DAO na sociedade contemporânea? Quais são as saídas profissionais ao dispor de um estudante recém-formado no vosso Departamento?

FLA: Atualmente, o DAO possui um corpo docente e de investigadores especializados em diversas áreas científicas e técnicas, infraestruturas mais modernas e parcerias estratégicas com empresas líderes, organismos governamentais e ONGs. Os diferentes cursos oferecem, aos seus estudantes, oportunidades de participação em projetos em contexto profissional real. Este ambiente educativo fomenta e potencia a preparação de profissionais criativos, capazes de desenvolver a sua atividade em múltiplas linguagens e contextos, prontos para enfrentar os complexos desafios da sustentabilidade ambiental do futuro.

O ensino e formação disponibilizada no DAO prepara os alunos para diagnosticar, avaliar e propor soluções sustentáveis e inovadoras, contribuindo significativamente para o bem-estar da sociedade e a preservação do ambiente.

Acresce ainda que, atualmente, qualquer empresa, organização e/ ou instituição tem obrigações legais e de report sobre os indicadores de sustentabilidade que espelham a sua atividade seja ela industrial, de gestão, administrativa ou de outra natureza. A sustentabilidade ambiental, económica e social está institucionalizada e, nesse contexto, os profissionais de Engenharia do Ambiente do DAO/ UA são os mais bem preparados para abordar as questões ambientais do século XXI. Complementarmente, os licenciados e mestres em Engenharia do Ambiente estão preparados para participar na definição e implementação de estratégias corporativas de ESG (Environmental, Social and Governance), no que diz respeito à integração da geração de valor económico aliado à preocupação com as questões ambientais, sociais e de governança corporativa, por parte das organizações.

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