NGHD concretiza avanços na Gastrenterologia Nacional

Um ano após assumir a presidência do Núcleo de Gastrenterologia dos Hospitais Distritais (NGHD), Paulo Caldeira afirma que o maior desígnio já foi cumprido: afirmar os serviços dos Hospitais Distritais na Gastrenterologia Nacional. Para o próximo ano, revela as prioridades que marcarão a especialidade, incluindo a formação de internos e jovens especialistas, o alargamento das bolsas de investigação e a implementação de “novas formas de endoterapia avançada e técnicas de cromoscopia digital”.

Perspetiva Atual: O Núcleo de Gastrenterologia dos Hospitais Distritais (NGHD) tem desempenhado, ao longo de mais de 30 anos, um papel significativo no avanço da Gastrenterologia, contribuindo para o desenvolvimento científico e profissional da especialidade. Após estas décadas de atuação, qual continua a ser a sua principal missão?

Paulo Caldeira: De facto, o NGHD contribuiu de forma significativa para o desenvolvimento científico e profissional da Gastrenterologia em Portugal. Realço a sua importância na afirmação e desenvolvimento dos Serviços de Gastrenterologia nos antigos Hospitais Distritais e assim promover a qualidade e equidade da Gastrenterologia em todo o território nacional. Um outro marco foi a introdução da informatização na geração de relatórios endoscópicos e a criação de uma base de dados em endoscopia digestiva, área em que o NGHD foi pioneiro. Podemos hoje afirmar, como referiu o Dr. António Curado há um ano, que o NGHD cumpriu o seu maior desígnio inicial: afirmar os Serviços dos Hospitais Distritais na comunidade gastrenterológica nacional.

Atualmente, o NGHD encara como principal missão contribuir para o continuado desenvolvimento dos Serviços de Gastrenterologia hospitalares e promover a qualidade da Gastrenterologia em todo o país. É nesta missão que ainda temos desafios a vencer: a rede de Serviços e a prestação de cuidados de gastrenterologia e endoscopia digestiva ainda é muito desigual entre regiões e os padrões de segurança e qualidade na prática de endoscopia digestiva ainda são frágeis e desiguais. É aqui que o NGHD tem que continuar a estar presente e dar o seu contributo.

PA: Certamente, uma instituição como o NGHD deve, além de valorizar o seu passado, manter uma visão voltada para o futuro e para a expansão do conhecimento científico. Que inovações têm sido implementadas nesse âmbito?

PC: Uma instituição como o NGHD tem que ter sempre uma visão e perspetiva de futuro, de forma a acompanhar a evolução científica na sua área e promover a ligação e partilha de conhecimento entre os seus associados. É esta procura e partilha de conhecimentos que permite a implementação de inovações de forma uniforme nos diferentes Serviços e Unidades, oferecendo a maioria deles todas as inovações à sua população. Sendo a Gastrenterologia uma especialidade vasta, destaco dois grupos de inovações acessíveis na maioria dos nossos hospitais. Na endoscopia digestiva, a aplicação de técnicas de cromoscopia digital veio permitir grandes avanços na deteção e diagnóstico de lesões no tubo digestivo que, por outro lado, novas formas de endoterapia avançada permitem tratar de forma eficaz. No campo das doenças do tubo digestivo e fígado, a introdução de terapêuticas biológicas e antivirais e a realização de tratamentos complexos em regime de ambulatório vieram modificar radicalmente a abordagem de muitas doenças.

PA: Ao iniciar funções para o triénio 2024-2026, os atuais corpos sociais do NGHD reafirmaram o compromisso de valorizar projetos estruturantes, como a Reunião Anual. A XL edição, realizada a 24 e 25 de outubro de 2025, destacou-se pela sua relevância científica e de partilha. Quais foram, na sua perspetiva, os principais momentos e temas que marcaram esta edição?

PC: A XL Reunião, que teve como lema “Nas Fronteiras da Gastrenterologia”, foi organizada sob a égide do Serviço de Gastrenterologia do Hospital Garcia D`Orta – ULS Almada-Seixal e decorreu de forma exemplar no passado mês de outubro. Procurou-se rever, de forma exaustiva e transversal, algumas áreas limite da intervenção gastrenterológica, especialmente nos novos tratamentos de hepatites crónicas e nas doenças inflamatórias intestinais, na abordagem da falência intestinal e no campo da endoscopia terapêutica.

Especial relevância teve a mesa redonda sobre “Aspetos Organizativos de um Serviço de Gastrenterologia”, onde se debateram os desafios da organização de um Serviço perante as novas realidades do presente, e ainda a conferência da Dr.ª Maria de Belém Roseira sobre o tema 40 anos de SNS – passado, presente e futuro. Numa altura em que o SNS padece de inúmeras vicissitudes, recordar os princípios da sua fundação e os inegáveis benefícios que trouxe na prestação dos cuidados de saúde à população é fundamental para iluminar o rumo em direção ao futuro.

Na Cerimónia de Abertura, para além dos representantes da Ordem dos Médicos, de sociedades científicas congéneres e da ULS Almada-Seixal, destaco a abertura à presença de autarcas e associações de doentes da área, no fundo os representantes dos beneficiários dos ganhos de conhecimento, os utentes.

Por fim, associado à Reunião realizou-se mais um Curso Anual de Gastrenterologia e Endoscopia Digestiva para Enfermeiros (CAGEDE) e um Curso Temático dirigido a internos e jovens especialistas, com elevada qualidade e participação, que abordaremos adiante.

“Podemos hoje afirmar, como referiu o Dr. António Curado há um ano, que o NGHD cumpriu o seu maior
desígnio inicial: afirmar os Serviços dos Hospitais Distritais na comunidade gastrenterológica nacional”

PA: Sendo os hospitais distritais espaços privilegiados de proximidade e diversidade clínica, nesse contexto, que vantagens vê o NGHD no desenvolvimento da investigação e da formação em gastrenterologia?

PC: O NGHD sempre deu particular atenção à formação médica contínua dos seus sócios e promoveu a realização de inúmeros projetos de investigação clínica. Recordo que nos Serviços de Gastrenterologia integrantes do Núcleo se formam, atualmente, cerca de 60 internos de formação específica, o que corresponde a mais de 50% da capacidade formativa nacional na área. Este facto confere ao NGHD uma responsabilidade acrescida em cooperar com os seus associados na garantia e melhoria da qualidade da formação.

Nesse sentido, criámos uma Bolsa de Estágio para apoio na realização de estágios formativos em técnicas endoscópicas, quer em Portugal quer no estrangeiro, e iniciámos o Curso Temático dirigido a internos e jovens especialistas, associado à nossa Reunião Anual. Em implementação está a criação de uma rede nacional de locais de estágios de formação, envolvendo os Serviços de Gastrenterologia integrantes do Núcleo, com indicação de características, programas e formas de estágios. Esta rede pretenderá ser uma base de informação e estandardização na formação dos internos de Gastrenterologia, tirando vantagem da diversidade e capacidade formativa dos nossos Serviços. No campo da investigação clínica, o Núcleo mantém a atribuição de uma Bolsa de Investigação anual, além de promover e apoiar a realização de estudos clínicos de cooperação entre os seus Serviços.

PA: Que iniciativas têm permitido avançar na gestão das doenças gastrointestinais e de que forma os profissionais especializados têm sido decisivos na concretização desses progressos?

PC: A prática atual da medicina, mais que diagnosticar e tratar doenças, preocupa-se em providenciar um conjunto de ações que permitem o continuado acompanhamento dos doentes. A este conjunto de ações, o processo assistencial, podemos chamar gestão da doença e tem especial importância nas doenças crónicas, que correspondem à maioria das situações com que lidamos atualmente. Este processo assistencial é complexo, envolve diferentes profissionais, é multidisciplinar e permanente no tempo. Podemos dizer que só profissionais treinados e especializados, trabalhando em equipa, têm capacidade para assegurar este conjunto de ações e assim garantir o melhor percurso do doente nos cuidados de saúde.

PA: Na investigação, o progresso depende não só da competência dos profissionais, mas também da qualidade dos consórcios e das colaborações. Quem são os parceiros nacionais e internacionais do NGHD?

PC: O NGHD é parceiro das restantes sociedades médicas na área da Gastrenterologia, com destaque para a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva, Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado e Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica. De notar que a quase totalidade dos nossos associados também pertencem a estas associações e muitos integram os seus corpos sociais. Desta forma natural, o NGHD e os seus associados participam ativamente nas iniciativas propostas por estas Sociedades, que se enquadram integralmente nos nossos objetivos. São disso exemplo a promoção e implementação de programas de rastreio do cancro coloretal em muitos hospitais, atualmente a segunda causa de morte por cancro em Portugal, e a implementação de programas de microeliminação do Vírus da Hepatite C, em alinhamento com o objetivo da OMS de erradicar a Hepatite C em 2030.

A nível internacional, o Núcleo tem uma frutuosa parceria com a Association Nationale des Hépato-gastroentérologues des Hôpitaux Généraux (ANGH) desde há vários anos. Esta parceria com uma associação congénere à nossa já permitiu a realização de vários estudos científicos conjuntos e o intercâmbio anual de participação e apresentação de comunicações nas respetivas reuniões científicas.

PA: A Gastrenterologia ultrapassa a mera prevenção, rastreio e diagnóstico precoce das doenças do tubo digestivo, fígado e pâncreas, estendendo-se, igualmente, à investigação e à prática clínica. De que forma têm trabalhado para que este conhecimento mais amplo chegue efetivamente à comunidade?

PC: Neste campo, volto a salientar a participação nos programas de âmbito nacional, nomeadamente o rastreio do cancro coloretal e da hepatite C, dois flagelos em saúde pública, e que permitirão alcançar ganhos substanciais de saúde, com a diminuição da morbi-mortalidade associada a estas doenças. No entanto, o NGHD sempre considerou que a melhor forma de os avanços do conhecimento chegarem à comunidade assenta na estreita colaboração com a Medicina Geral e Familiar (MGF).

Neste sentido, promovemos a divulgação de orientações sobre as patologias mais frequentes, e os Serviços integrantes do Núcleo organizam reuniões de carácter regional e promovem a interação de proximidade com os colegas de MGF, uma forma eficaz de transmissão de conhecimentos e colaboração entre colegas. Neste sentido, e como projeto mais recente, o NGHD vai iniciar a realização anual das Jornadas de Primavera, dirigidas à MGF, onde serão debatidos temas prementes da Gastrenterologia no âmbito dos cuidados de saúde primários. As primeiras Jornadas irão decorrer no próximo mês de março, em Odivelas, e repetir-se-ão anualmente nas várias regiões do país.

“Atualmente, o NGHD encara como principal missão contribuir para o continuado desenvolvimento dos Serviços de Gastrenterologia hospitalares e promover a qualidade da Gastrenterologia em todo o país”

PA: O NGHD assegura a realização regular de cursos satélite, como o CAGEDE e um curso temático para internos e jovens especialistas. Que exemplos recentes demonstram o impacto destes cursos na formação e prática dos profissionais?

PC: Consideramos que o Curso Anual de Gastrenterologia e Endoscopia Digestiva para Enfermeiros (CAGEDE) constitui uma das realizações do Núcleo com maior impacto na prática da Gastrenterologia. É o curso dirigido a enfermeiros, realizado de forma regular, mais antigo e conceituado no país e constitui um marco anual na formação na área. Em especial na área da endoscopia digestiva, contribuiu decisivamente para a criação de padrões e normas da intervenção de enfermagem e para a criação desta diferenciação no âmbito da carreira de enfermagem. O Curso Temático dirigido a internos e jovens especialistas, sendo mais recente, irá, decerto, contribuir para a melhoria da formação específica ao privilegiar áreas onde identificamos lacunas. Em conjunto com a rede nacional de locais e estágios de formação, a desenvolver, será promovida a qualidade e estandardização na formação dos internos e jovens especialistas de Gastrenterologia.

PA: Quase no fim do ano, e tendo o presidente tomado posse há um ano, torna-se oportuno refletir acerca dos objetivos e das necessidades futuras da Gastrenterologia. Que prioridades considera essenciais para o desenvolvimento da área nos próximos anos?

PC: Dentro dos objetivos do NGHD, mantemos como prioridades: a realização da Reunião Anual do NGHD, pois esta continua a ser o ponto alto da atividade da nossa associação, e assegurar sempre a existência dos cursos satélites, nomeadamente o curso de enfermagem (CAGEDE) e o curso temático dirigido a internos e jovens especialistas; ampliar a atribuição de bolsas de investigação e formação, dirigidas a internos e jovens especialistas, como forma de expandir o conhecimento científico e melhorar a prática clínica da Gastrenterologia; estimular a produção científica do Núcleo, seja retomando a realização de estudos clínicos multicêntricos, de âmbito nacional e internacional, seja a publicação de artigos e monografias, com a chancela do NGHD; realização anual das Jornadas de Primavera, espaço ideal de partilha de conhecimentos com a MGF.

Ainda de forma embrionária, mantemos a intenção de desenvolver, de forma estruturada, ações de educação para a saúde, dirigidas à população geral, com especial foco na prevenção, rastreio e diagnóstico precoce das doenças do tubo digestivo, fígado e pâncreas. Este tipo de atividades, um pouco afastadas das atenções centrais do NGHD, são fundamentais para aumentar a literacia em saúde da nossa população. O Núcleo deve aproveitar a sua enorme implantação no território nacional para, em colaboração com associações e instituições locais, realizar sessões de formação e informação, reprodutíveis em todo o país.

“Podemos dizer que só profissionais treinados e especializados, trabalhando em equipa, têm capacidade para
assegurar este conjunto de ações e assim garantir o melhor percurso do doente nos cuidados de saúde”

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