O elo silencioso entre a dor orofacial e o sono

Desde cedo, fascinou-se pela relação entre saúde, genética e bem-estar. Em 1996, na Klinica Perioimplantológica Rainha D. Leonor, Susana Perdigoto começou a tratar a dor orofacial e os distúrbios do sono, mantendo sempre a investigação como prioridade. Em junho de 2025, recebeu o prémio de “Melhor Caso Clínico” na SEMDES Case Study Marathon por desenvolver um tratamento que “ilustra a complexidade da gestão da dor orofacial, relativo a um paciente com traumatismo grave da articulação temporomandibular (ATM) e apneia obstrutiva do sono (AOS)”.

Perspetiva Atual: Para contextualizar os leitores, recordamos que a Klinica Perioimplantológica Rainha D. Leonor abriu em 1996. O que a motivou a criar este projeto e como foi o seu percurso até à Medicina Dentária? Sempre soube que era essa a área que queria seguir?

Susana Perdigoto: Desde cedo manifestei interesse pela área da saúde e pelo trabalho direto com pessoas. Frequentei o primeiro ano de Bioquímica em Coimbra e ingressei por transferência em Medicina Dentária na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, tendo também sido admitida em Medicina no ICBAS, no Porto, e optado por Coimbra. Concluí a licenciatura em 1995 e realizei formações avançadas em periodontologia, implantologia e várias pós-graduações.

Susana Perdigoto – Fundadora e Diretora Clínica da Klinica Perioimplantológica Rainha D. Leonor

O tratamento integral do paciente tornou-se central na minha prática e é um dos pilares deste projeto. A minha dedicação levou-me a Espanha, onde frequentei um mestrado em Dor Orofacial e Disfunção Temporomandibular, uma pós-graduação em Genética e um mestrado em Distúrbios do Sono. Atualmente, realizo um doutoramento em Epigenética e Distúrbios do Sono. A medicina metabólica e a farmacogenética são para mim também fundamentais, pois permitem personalizar as estratégias terapêuticas às características biológicas de cada paciente e reforçam a importância de integrar o doente numa equipa interdisciplinar, em que diferentes especialidades colaboram de forma coordenada.

PA: A dor orofacial ainda é pouco estudada no nosso país, o que pode levar a diagnósticos imprecisos e tratamentos inadequados. Por que a dor orofacial é considerada uma condição tão urgente e incapacitante?

SP: A dor orofacial inclui desde patologias dentárias até DTM de origem muscular ou articular e várias cefaleias, formando grupos clínicos heterogéneos e complexos. Esta diversidade dificulta o diagnóstico e exige conhecimento aprofundado das diferentes etiologias e sintomas; o erro diagnóstico pode conduzir a terapêuticas inadequadas, prolongando a condição.

A dor orofacial compromete significativamente a qualidade de vida, afetando alimentação, fala, interação social e estado psicossocial, com impacto em ansiedade, depressão, bem-estar, produtividade e participação social. A proposta terapêutica é minimamente invasiva e interdisciplinar, integrando Fisioterapia, Terapia Miofuncional, avaliação e tratamento dos distúrbios do sono, terapia cognitivo-comportamental e terapêutica farmacológica individualizada, apoiada em estudos farmacogenéticos. Nos casos mais graves, recorre-se ainda à viscossuplementação e biossuplementação das ATM, com administração em ambos os compartimentos articulares.

PA: Em junho, recebeu o prémio de “Melhor Caso Clínico” na SEMDES Case Study Marathon, integrada na I Jornada de Casos Clínicos. Poderia explicar, de forma breve, em que consistiu este estudo e qual o caso clínico que apresentou?

SP: Em junho deste ano, recebi o prémio de “Melhor Caso Clínico” na Maratona de Casos Clínicos SEMDES. A minha apresentação ilustra a complexidade da gestão da dor orofacial, relativo a um paciente com traumatismo grave da articulação temporomandibular (ATM) e apneia obstrutiva do sono (AOS). A abordagem terapêutica foi multidisciplinar, com um plano centrado no alívio da dor articular e miofascial e na restauração da morfologia, anatomia articular e função. O paciente realizou fisioterapia com o terapeuta João Adriano Esteves, foi submetido a infiltrações intra-articulares em ambos os compartimentos da ATM e tratou a AOS com um Dispositivo de Avanço Mandibular (DAM).

O seguimento clínico, ao longo de cinco anos, mostrou resolução completa da dor miofascial, recuperação da função mastigatória e melhoria significativa da qualidade de vida. O DAM, aplicado por médicos dentistas com formação em Medicina Dentária do Sono, contribuiu para a resolução da AOS. O caso foi intitulado: “O uso de um Dispositivo de Avanço Mandibular é contraindicado em distúrbios temporomandibulares articulares e musculares?”.

PA: Sabemos que também participou no Congresso da World Sleep 2025 Society, em Singapura, com o estudo “Caracterização Epigenética da Insónia com Duração Curta do Sono através de Perfil de microRNA Salivar: Protocolo de Estudo”. Quais eram os principais objetivos desta investigação?

SP: Participei no Congresso da World Sleep Society em Singapura, onde apresentei a minha investigação de doutoramento sobre um biomarcador epigenético em doentes com insónia, duração de sono reduzida e risco cardiometabólico significativo. Este congresso permitiu-me trocar ideias com colegas da área e atualizar-me sobre avanços em genética, distúrbios do sono, tratamentos da insónia e novas tecnologias em medicina do sono.

As modificações epigenéticas parecem ter um papel crítico no desenvolvimento e persistência da insónia e da apneia do sono. A minha investigação procura esclarecer melhor estes mecanismos e contribuir para futuras intervenções direcionadas.

PA: E quanto às I Jornadas Internacionais da Universidad Europea de Madrid sobre Dor Orofacial e Disfunção Temporomandibular (DTM)? Em que consistiu a sua participação e quais eram os seus propósitos?

SP: A minha apresentação abordou a farmacologia da dor orofacial e o papel da farmacogenética na prescrição personalizada, ajustando o tratamento ao perfil genético para aumentar a eficácia e reduzir efeitos adversos. As jornadas reuniram profissionais de Espanha, Portugal e Brasil num diálogo interdisciplinar sobre dor orofacial e disfunção temporomandibular (DTM). Foram discutidas abordagens como fisioterapia, artrocentese, biossuplementação e terapias complementares, defendendo uma visão global. O encontro promoveu a partilha de conhecimento e a colaboração internacional para melhorar os resultados clínicos.

PA: Durante o sono, as vias respiratórias superiores podem obstruir-se, causando pausas respiratórias, condição conhecida como Apneia Obstrutiva do Sono (AOS). Como os exercícios miofuncionais e hábitos de vida saudáveis, incluindo a alimentação, podem ajudar no tratamento da AOS em adultos?

SP: A Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) resulta de obstruções recorrentes das vias aéreas superiores durante o sono, com possíveis complicações graves. A evidência atual recomenda abordagem interdisciplinar com CPAP, terapia miofuncional (TM), fisioterapia, aparelhos de avanço mandibular prescritos por médicos dentistas com formação em medicina do sono (para AOS ligeira e moderada e para casos graves que rejeitam CPAP) e promoção de estilos de vida saudáveis.

O excesso de peso aumenta o tecido adiposo cervical e faríngeo e favorece o colapso das vias aéreas; por isso, o controlo ponderal com alimentação adequada e atividade física é essencial. Uma alimentação equilibrada contribui para peso adequado e redução da AOS. A TM, indicada em todas as idades como terapia coadjuvante, melhora força e coordenação dos músculos que rodeiam as vias aéreas superiores.

Estudos mostram que aumenta a contração dos músculos dilatadores das vias aéreas, responsáveis por cerca de 25% dos fatores da AOS, e que protocolos estruturados de três meses podem reduzir em cerca de 25% a gravidade da doença. O sucesso depende da adesão e motivação do paciente, sendo fundamental a educação para cumprimento rigoroso dos protocolos.

Na idade pediátrica, a AOS associa-se sobretudo a hipertrofia adenoamigdalar e obesidade, podendo causar perturbações do desenvolvimento e alterações comportamentais ligadas a disfunções da deglutição, fala, posicionamento da língua e postura baixa da mandíbula. Nesses casos, o tratamento da função e coordenação muscular é crucial, pois a função condiciona a morfologia, reforçando a importância da intervenção precoce. Assim, na AOS infantil, a TM assume papel central, já que a ausência de tratamento pode originar graves problemas de desenvolvimento e comportamento.

PA: O seu estudo, “Integrando distúrbios respiratórios relacionados ao sono e epigenética no cenário genético de distúrbios do sono em transtornos psicóticos”, indica correlação entre sono, genética e saúde mental. Que impacto esses fatores podem ter na saúde oral dos pacientes?

SP: As perturbações do sono são um fator importante para vários problemas de saúde oral. A má qualidade do sono pode desencadear comportamentos e alterações fisiológicas prejudiciais, como o bruxismo, que desgasta os dentes, agrava a disfunção temporomandibular e causa danos dentários. A interação entre predisposição genética, distúrbios do sono e saúde mental pode alterar a resposta imunitária e comprometer a saúde periodontal. A privação de sono aumenta marcadores inflamatórios e pode acelerar a progressão da doença periodontal, elevando o risco de gengivite e periodontite, sobretudo em indivíduos com vulnerabilidade genética.

Perturbações de saúde mental, como as associadas à psicose, podem levar à negligência da higiene oral por défices cognitivos, aumentando o risco de cáries e outras doenças orais. A relação entre saúde oral e saúde geral é bidirecional: a má saúde oral pode agravar problemas de saúde mental, criando um círculo vicioso em que sono inadequado, sofrimento mental e deterioração da saúde oral se reforçam mutuamente.

PA: Com três décadas de experiência, continua a estudar e investigar e está atualmente a fazer um Doutoramento na Universidade Europeia. Que áreas da Medicina Dentária ainda quer explorar? O que continua a fasciná-la na especialidade?

SP: O objetivo central é identificar um biomarcador que permita detetar precocemente, a baixo custo e de forma não invasiva, o risco cardiometabólico em doentes com sono de curta duração. Insónia e apneia do sono diminuem quantidade e qualidade do sono, aumentando esse risco. Este biomarcador favorecerá a medicina personalizada, possibilitando intervenções mais precoces e direcionadas.

A farmacogenética é também relevante: prescrever e gerir tratamentos com menor risco é essencial, e já existem ferramentas que indicam como os pacientes metabolizam fármacos e quais são mais adequados ao seu perfil. Isto é especialmente importante para o dentista, que trata dor, distúrbios temporomandibulares (DTM) e perturbações do sono, áreas em que a otimização farmacológica pode melhorar substancialmente os resultados.

PA: Em 2010, a Klínica passou a tratar o bruxismo e, em 2011, foi pioneira em Caldas da Rainha ao usar microscópios eletrónicos nos seus procedimentos, revelando a sua ambição e vontade de evoluir. Que planos e inovações pretende implementar na sua carreira e na Klínica no próximo ano?

SP: No próximo ano, o objetivo principal é consolidar os avanços e adotar novos paradigmas nos cuidados ao doente. Mantemo-nos como clínica de medicina dentária com um fluxo cada vez mais digital e continuamos a integrar estudos microbiológicos, genéticos, epigenéticos e de farmacogenética para tratamentos mais personalizados e eficazes.

Para apoiar estes avanços, a Klínica cultiva parcerias com especialistas externos, como o Dr. Tiago Sá do Laboratório do Sono, o Prof. Miguel Meira e o Centro Europeu do Sono, a Prof.ª Amélia Feliciano e otorrinolaringologistas como o Dr. Elói, entre outros, garantindo cuidados individualizados e de elevada qualidade.

PA: Refere frequentemente que não trata dentes, mas pessoas. Tendo em conta o papel essencial da Medicina Dentária, o que considera necessário para que esta área evolua e ganhe maior relevância em Portugal?

SP: É essencial integrar a saúde dentária nas políticas de saúde pública, destacando a ligação entre saúde oral e doenças sistémicas, como diabetes e patologias cardiovasculares. A adoção de tecnologias como medicina dentária digital, imagiologia 3D e ferramentas de diagnóstico e planeamento virtual torna os tratamentos mais eficientes, previsíveis e custo-efetivos, elevando a qualidade dos cuidados. É crucial reforçar a formação dos médicos-dentistas, que devem dominar técnicas clínicas avançadas e compreender fatores epidemiológicos, comportamentais e socioeconómicos que influenciam a saúde oral.

As reformas curriculares devem integrar abordagens interdisciplinares, como medicina do sono, distúrbios temporomandibulares, dor orofacial e farmacogenética, e promover desenvolvimento profissional contínuo, garantindo atualização científica e em medicina dentária de precisão. Deve ainda reforçar-se a colaboração entre médicos-dentistas e outros profissionais de saúde para uma abordagem integrada.

A educação interprofissional consolida a saúde dentária como parte indissociável da saúde geral, melhorando desfechos clínicos e qualidade de vida. Por fim, o envolvimento público e a sensibilização comunitária devem aumentar a literacia em saúde oral e a consciencialização sobre a importância da higiene adequada e de visitas regulares ao médico-dentista.

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