“Queremos uma UTAD mais coesa, cientificamente mais ambiciosa e internacionalmente mais reconhecida”

Em entrevista à Perspetiva Atual, o Reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), João Barroso, apresenta as prioridades para o novo mandato e os desafios que marcarão o futuro da instituição. Da atração de estudantes e melhoria das infraestruturas à investigação, internacionalização e inovação, o Reitor projeta uma UTAD mais coesa e ambiciosa, reforçando também o papel da Medicina, da ligação às empresas e do território na afirmação da Universidade.

Perspetiva Atual: É a primeira entrevista que concede à Perspetiva Atual desde que tomou posse como reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Que compromisso assume com a instituição neste mandato?

João Barroso: Assumi funções com um compromisso muito claro: servir a UTAD e criar condições para que a Universidade entre num novo ciclo de afirmação, assente na qualidade, na exigência e na capacidade de concretizar. Isso exige capacidade para antecipar mudanças e não apenas para lhes responder.

Quero uma UTAD mais coesa, cientificamente mais ambiciosa, internacionalmente mais reconhecida e capaz de transformar decisões em resultados. Isso implica valorizar as pessoas, reforçar a qualidade do ensino e da investigação, modernizar a organização e utilizar os recursos públicos com rigor e transparência. O princípio é simples: preservar o que construímos de melhor, ter coragem para mudar o que necessita de mudar e entregar à próxima geração uma Universidade mais forte do que aquela que recebemos.

João Barroso, Reitor da UTAD

PA: Está ligado à UTAD desde 1992, ano em que se licenciou em Engenharia Eletrotécnica. Como olha para a evolução da universidade ao longo destas três décadas e que desafios identifica para o futuro?

JB: A UTAD de hoje é profundamente diferente daquela onde concluí a licenciatura. Vi crescer a Universidade, nascerem novas áreas científicas, consolidarem-se centros de investigação, desenvolverem-se redes internacionais e aumentar significativamente a ligação às empresas e à sociedade. Acompanhei a criação e consolidação da Informática na UTAD, desde os primeiros sistemas de informação e da ligação à Internet até à criação de cursos, laboratórios e estruturas de investigação.

Hoje temos mais de nove mil estudantes e competências científicas relevantes em áreas tão diversas como as ciências agrárias, veterinárias, ambiente e floresta, alimentação, ciências exatas, engenharias, saúde, educação, ciências sociais, cultura e desporto.

O desafio seguinte já não é apenas crescer. É crescer melhor. A evolução demográfica, a inteligência artificial, a competição internacional por estudantes e investigadores, a sustentabilidade financeira e as transformações do mercado de trabalho obrigam-nos a aumentar a qualidade, a diferenciação e a capacidade de adaptação. A localização no interior não pode constituir uma limitação. Deve ser uma oportunidade para estudar, experimentar e encontrar respostas para alguns dos grandes desafios contemporâneos.

PA: Cativar mais jovens é uma mensagem que pretende passar para dentro e para fora da instituição. Que medidas considera prioritárias para atrair mais estudantes nacionais e internacionais?

JB: Os jovens escolhem hoje muito mais do que um curso. Escolhem uma experiência académica, uma cidade, oportunidades de investigação e mobilidade, condições de alojamento, perspetivas profissionais e a possibilidade de participar numa comunidade estimulante.

A primeira prioridade é, naturalmente, a qualidade e atualidade da formação. Temos de ligar cada vez mais ensino e investigação, promover interdisciplinaridade, inovação pedagógica, inteligência artificial, ciência dos dados, pensamento crítico e contacto precoce com empresas e instituições.

Depois, temos de tornar a UTAD mais visível. Temos cerca de 1.200 estudantes internacionais e uma relação especialmente forte com o espaço lusófono. Esse é um ativo que devemos aprofundar, mas a internacionalização deve evoluir para uma estratégia mais ampla de captação de talento, parcerias, programas conjuntos e mobilidade qualificada.

Temos ciência, projetos internacionais, empresas parceiras, um campus extraordinário e uma qualidade de vida que pode ser verdadeiramente diferenciadora.

PA: A melhoria das condições de alojamento e das infraestruturas universitárias é uma preocupação crescente de qualquer aluno. Como pretende acelerar estes objetivos e garantir a sua concretização?

JB: Alojamento e infraestruturas deixaram de ser questões acessórias. São hoje fatores determinantes da igualdade de oportunidades e da capacidade das universidades para captar e reter estudantes.

A conclusão das residências é uma prioridade absoluta. Quando todos os investimentos previstos estiverem concluídos, a capacidade instalada deverá passar das 579 camas existentes em condições normais para 1.139 camas.

Precisamos de planeamento plurianual para manutenção e reabilitação do edificado, espaços de estudo, biblioteca, equipamentos científicos e desportivos, mobilidade e sustentabilidade ambiental. O nosso campus, com o Jardim Botânico, museus, espaços verdes e equipamentos de ensino e investigação, é um dos grandes ativos da Universidade. Queremos valorizá-lo e torná-lo ainda mais aberto, funcional, sustentável e ligado à cidade e à região.

PA: A UTAD está enraizada em Trás-os-Montes e no Douro, mas esta identidade territorial nunca significou isolamento. Uma boa prova disso é o Mestrado Integrado em Medicina, “um momento histórico para a UTAD e um compromisso de futuro com a região e com o país”. Quais serão os seus benefícios para os estudantes e para a comunidade?

JB: A Medicina é uma oportunidade extraordinária, não apenas porque acrescenta um novo curso, mas porque pode elevar a visibilidade e o reconhecimento da Universidade, do território e criar serviços e cuidados de saúde para as populações.

Permitirá reforçar a formação médica no interior, aproximar estudantes das comunidades e dos contextos reais de prestação de cuidados e criar novas condições para atrair profissionais, investigadores e investimento. Ao mesmo tempo, potenciará investigação clínica e biomédica e novas áreas de inovação em saúde.

Quero, porém, sublinhar um princípio que considero essencial: a Medicina é um projeto de toda a UTAD. Não deverá desenvolver-se isoladamente, mas deverá criar pontes com Ciências da Vida, Enfermagem, Veterinária, Psicologia, Nutrição, Desporto, Engenharias, Inteligência Artificial e Ciência de Dados. Foi esse o compromisso que assumi na tomada de posse.

Se formos capazes de construir essa interdisciplinaridade e uma forte articulação com unidades de saúde e outras instituições nacionais e internacionais, os benefícios ultrapassarão largamente a formação médica. Poderemos desenvolver um verdadeiro ecossistema de saúde, investigação e inovação com impacto regional e nacional.

PA: Acredita que esta universidade tem condições para se afirmar como um polo de inovação tecnológica no interior do país?

JB: Não só tem condições, como já demonstrou que é possível fazê-lo. A questão agora é aumentar a escala e o impacto.

A UTAD possui investigação, talento, experiência de cooperação empresarial e estruturas que podem sustentar um ecossistema de inovação mais ambicioso.

Procurei sempre aproximar a Universidade das empresas, promover transferência de tecnologia e criar emprego qualificado na região. Essa ligação é particularmente visível na área tecnológica e industrial.

A Agenda Mobilizadora A-MoVeR, que coordenei na UTAD, é um exemplo muito concreto. Desenvolvida em estreita ligação à indústria e liderada no consórcio pela então Continental Advanced Antenna, hoje designada por AUMOVIO, a Agenda demonstrou que a partir de Vila Real podemos trabalhar em inteligência artificial, sensores, cibersegurança, mobilidade elétrica, comunicações avançadas e processos industriais de nova geração. Criámos também infraestruturas científicas, incluindo laboratórios dedicados a sensores, inteligência artificial e cibersegurança e um Centro de Inovação para a Indústria.

Este é precisamente o modelo que queremos multiplicar. A inovação não deve ser uma atividade lateral da Universidade. Investigação, formação, transferência de conhecimento, empreendedorismo e empresas devem formar um ecossistema capaz de transformar conhecimento científico em produtos, serviços, novas empresas e emprego altamente qualificado. Essa é uma das formas mais eficazes de fixar jovens no interior.

PA: A UTAD é constituída por escolas, departamentos, centros de investigação, serviços, estudantes e trabalhadores. Como se constrói uma universidade mais coesa sem perder a riqueza dessa diversidade e, acima de tudo, a interdisciplinaridade?

JB: Uma universidade forte não é uma universidade uniforme. A diversidade científica e académica é uma das maiores riquezas da UTAD. O problema surge quando diversidade significa fragmentação e quando estruturas administrativas ou organizacionais dificultam a colaboração. Precisamos de criar mais espaços de encontro entre áreas científicas, promover projetos transversais e partilhar melhor equipamentos, infraestruturas e competências.

Os grandes desafios atuais não respeitam fronteiras disciplinares. Saúde, alterações climáticas, alimentação, floresta, território, inteligência artificial ou mobilidade sustentável exigem contributos de múltiplas áreas.

A reorganização institucional que teremos de discutir no próximo ano deverá, por isso, procurar maior massa crítica e melhor articulação entre ensino, investigação, inovação e serviços. Coesão não significa centralização excessiva. Significa conseguirmos colocar as diferentes competências da Universidade ao serviço de objetivos comuns, respeitando a liberdade académica e reconhecendo o mérito e a identidade de cada área.

PA: Por último, não podemos deixar de lhe fazer esta pergunta. Que oportunidades oferece a UTAD que dificilmente se encontram noutras universidades?

JB: A UTAD oferece uma combinação particular. Uma universidade com dimensão suficiente para desenvolver ciência competitiva e participar em redes internacionais, mas com uma escala humana que permite proximidade entre estudantes, docentes e investigadores.

Um campus singular, integrado num território extraordinário e com qualidade de vida. Áreas científicas de grande tradição coexistem com domínios tecnológicos e de saúde em forte expansão.

Trás-os-Montes e o Douro constituem um verdadeiro laboratório vivo. Agricultura, floresta, biodiversidade, alterações climáticas, água, envelhecimento, saúde, mobilidade, turismo, património e transformação digital podem aqui ser estudados em contexto real. A UTAD pode produzir conhecimento universal a partir dos desafios concretos do território.

É essa combinação entre identidade territorial, interdisciplinaridade, proximidade, ciência, tecnologia e capacidade de inovação que nos diferencia. Queremos que um jovem que escolha a UTAD não sinta que veio estudar para uma periferia, mas que entrou numa Universidade onde pode participar na construção de soluções para problemas que são, simultaneamente, regionais, nacionais e globais.

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