Unir as Ciências da Vida à Engenharia para enfrentar os desafios da sociedade
É com orgulho que o Centro de Engenharia Biológica (CEB), da Universidade do Minho, apresenta os progressos na investigação nas áreas da Biotecnologia, Bioengenharia e Sistemas Microeletromecânicos. Como refere Nuno Cerca, o diretor da unidade, “somos um dos centros a nível nacional com o maior número de investigadores altamente citados, o que demonstra o nosso impacto na comunidade científica internacional”. Nesta edição, são conhecidos os projetos DeepNDye, MB4Aqua, GreenProFood, Protein4Impact e BeePro.
Perspetiva Atual: O Centro de Engenharia Biológica (CEB) é um centro de investigação localizado na Universidade do Minho, integrado no novo Laboratório Associado de Biotecnologia, Bioengenharia e Sistemas Microeletromecânicos (LABBELS). Qual é a sua principal missão?
Nuno Cerca: Eu diria que a principal missão do CEB é desenvolver investigação e inovação de excelência na interface entre as Ciências da Vida e a Engenharia, ligando conhecimento fundamental e aplicações tecnológicas desde a escala molecular e celular até à escala de processos industriais. Ao longo de três décadas, o CEB consolidou-se como um centro internacional de referência em Biotecnologia e Bioengenharia, com atividade científica abrangendo quatro grandes áreas: biotecnologia ambiental, alimentar, industrial e da saúde. Pretendemos contribuir para os grandes avanços científicos internacionais, promovendo o desenvolvimento de produtos e processos de elevado valor acrescentado, formando recursos humanos altamente qualificados e reforçando a transferência de tecnologia e a colaboração com parceiros nacionais e internacionais, incluindo empresas e instituições públicas.
Nos últimos 5 anos, o CEB integrou o Laboratório Associado LABBELS, uma estrutura nacional que reúne dois centros de investigação de elevada qualidade e massa crítica (CEB e CMEMS), criada para potenciar colaboração estratégica e acelerar a transformação de ciência em inovação em Portugal.
PA: O CEB organiza-se em quatro áreas temáticas interdisciplinares. Quais são os princípios que orientam a investigação em cada uma destas áreas?
NC: Nas quatro áreas que referi anteriormente, o CEB orienta-se por uma cultura de rigor, excelência científica e ambição tecnológica, procurando produzir conhecimento robusto e, simultaneamente, soluções com potencial real de inovação e transferência para a sociedade. A nossa investigação segue igualmente princípios éticos exigentes, inerentes às Ciências da Vida, garantindo rigor, transparência e responsabilidade. Igualmente importante é a sustentabilidade ambiental, tendo sido o CEB um dos primeiros centros de investigação em Portugal a obter certificação associada à gestão e mitigação do seu impacto ambiental.
PA: Que objetivos melhor exemplificam a forma como o CEB concretiza a sua missão e o impacto que têm na sociedade?
NC: Somos um dos centros a nível nacional com o maior número de investigadores altamente citados, o que demonstra o nosso impacto na comunidade científica internacional. Por outro lado, somos o centro com maior número de empresas spin-off criadas (na Universidade do Minho), já contribuindo significativamente para o tecido empresarial da região. A capacidade de captação de financiamento internacional traz não só mais reconhecimento internacional, mas contribui também para o desenvolvimento da economia nacional.
Para além destes indicadores, somos um centro atento às necessidades da sociedade, sendo que durante a pandemia COVID-19, os nossos investigadores voluntariaram-se para criar capacidade de diagnóstico por qPCR, numa fase em que Portugal ainda não dispunha de meios suficientes para testar em larga escala. Estamos atualmente nas fases finais de implementação de uma unidade de produção de bacteriófagos para uso terapêutico humano em Portugal, pioneira no país, que permitirá novas abordagens no combate a infeções resistentes a antibióticos e reforçará a capacidade nacional em biotecnologia médica.
PA: Como o CEB perspetiva o seu desenvolvimento nos próximos anos e a contribuição que dá para a inovação e o avanço da ciência?
NC: Pretendemos manter o mesmo nível de excelência e inovação que desenvolvemos ao longo das últimas décadas. Não será um caminho fácil, como também não foi fácil atingir o reconhecimento internacional que hoje temos. Para além das condicionantes internacionais que todos conhecemos, a ciência em Portugal atravessa uma fase de transformação profunda na carreira de investigação e o CEB já reflete essa mudança: atualmente, temos já mais investigadores de carreira do que docentes.
No entanto, persiste um desfasamento entre a ambição científica do país e os mecanismos de financiamento público, ainda muito centrados na atividade letiva, o que limita a consolidação de equipas e a sustentabilidade de projetos de longo prazo. Apesar destes desafios, continuaremos a apostar na atração de talento, na colaboração com empresas e instituições públicas, estando sempre atentos aos desafios societais que irão surgindo.

