Capacitar médicos dentistas para os desafios científicos, clínicos e éticos da profissão

A história da Medicina Dentária na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) é escrita há décadas, mas continua longe de estar concluída. Pela primeira vez nas páginas da Perspetiva Atual, o coordenador do curso, Francisco do Vale, dá a conhecer os traços distintivos da formação, o contributo da sua atividade clínica para o Serviço Nacional de Saúde e a visão de um plano curricular que procura “não apenas acompanhar a evolução do ensino, mas liderá-la e ajudar a construí-la”.

Perspetiva Atual: A Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) foi a única escola médica do país até 1825 e é reconhecida, atualmente, pela qualidade do ensino e da investigação na área da Medicina Dentária. Sendo a ligação à comunidade um dos principais fatores de diferenciação do Mestrado Integrado em Medicina Dentária, quais considera serem os outros pontos fortes deste curso?

Francisco do Vale, Coordenador da Área de Medicina Dentária da FMUC

Francisco do Vale: O Mestrado Integrado em Medicina Dentária da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra distingue-se por um conjunto de características que, no seu todo, lhe conferem uma identidade muito própria. Desde logo, beneficia de estar integrado numa escola médica com uma tradição secular, onde a Medicina Dentária se desenvolve em estreita articulação com as restantes áreas das ciências da saúde. Esta integração proporciona aos estudantes uma visão mais abrangente do doente e da doença, reforçando uma abordagem clínica centrada na pessoa e não apenas na cavidade oral. Outro dos aspetos distintivos é a forte componente hospitalar da formação. A estreita colaboração entre a Faculdade de Medicina e a Unidade Local de Saúde de Coimbra proporciona um ambiente de aprendizagem verdadeiramente integrado no Serviço Nacional de Saúde, permitindo aos estudantes contactar com uma casuística muito diversificada e desenvolver competências clínicas num contexto assistencial real. Esta ligação estende-se igualmente a outras instituições de referência, como o IPO de Coimbra, que oferece oportunidades únicas de aprendizagem em áreas como a Oncologia Oral e o acompanhamento de doentes com necessidades clínicas particularmente complexas.

A proximidade entre docentes e estudantes constitui igualmente uma marca da nossa Escola. O número de estudantes e a organização do curso permitem um acompanhamento muito individualizado, favorecendo um ambiente académico exigente, mas simultaneamente próximo e colaborativo. Procuramos conhecer os nossos estudantes, acompanhar a sua evolução e estimular o desenvolvimento das suas capacidades científicas, técnicas e humanas.

A investigação representa outro dos pilares fundamentais da formação. Os estudantes convivem diariamente com docentes envolvidos em projetos de investigação nacionais e internacionais, participam em atividades científicas e são incentivados a desenvolver uma atitude crítica perante o conhecimento. Mais do que transmitir informação, procuramos formar profissionais capazes de questionar, investigar e acompanhar a permanente evolução da Medicina Dentária. A internacionalização tem igualmente assumido uma importância crescente. A participação em redes europeias de ensino, os programas de mobilidade e as colaborações científicas internacionais proporcionam aos nossos estudantes uma formação aberta ao mundo e alinhada com as melhores práticas internacionais. Mas talvez o maior fator diferenciador seja a filosofia que orienta todo o curso. Não pretendemos apenas formar profissionais tecnicamente competentes. Procuramos formar médicos dentistas completos: cientificamente rigorosos, clinicamente seguros, eticamente responsáveis e profundamente conscientes da responsabilidade social inerente ao exercício da profissão.

PA: A experiência prática é uma componente essencial na formação de qualquer médico dentista. Que oportunidades de aprendizagem disponibilizam aos estudantes?

FDV: A formação prática constitui um dos pilares do Mestrado Integrado em Medicina Dentária e acompanha os estudantes ao longo de todo o percurso académico, através de um modelo progressivo que articula, de forma equilibrada, a aprendizagem pré-clínica, a atividade clínica supervisionada e o contacto permanente com a realidade assistencial. Nos primeiros anos, os estudantes desenvolvem as competências técnicas fundamentais em laboratórios pré-clínicos equipados com simuladores individuais, onde treinam repetidamente diferentes procedimentos antes do contacto com o doente. Esta fase é essencial para adquirir destreza manual e precisão técnica, garantindo que a transição para a clínica decorre com elevados padrões de segurança e qualidade. A partir daí, inicia-se um percurso clínico progressivamente mais exigente. Nas Clínicas Pedagógicas da Faculdade, os estudantes acompanham doentes reais provenientes do Serviço Nacional de Saúde, participam na elaboração do diagnóstico, discutem planos de tratamento e executam os diferentes procedimentos clínicos sempre sob supervisão permanente dos docentes. Um dos aspetos que mais distingue o nosso modelo de ensino é precisamente o reduzido rácio docente/estudante durante a atividade clínica, permitindo um acompanhamento muito próximo e personalizado. Esta proximidade favorece uma aprendizagem mais sólida, promove a confiança dos estudantes e garante elevados padrões de qualidade assistencial.

Outro aspeto que valorizamos particularmente é a diversidade da experiência clínica. Ao longo do curso, os estudantes trabalham nas diferentes áreas da Medicina Dentária — como a Cirurgia Oral, a Ortodontia, a Odontopediatria, ou a Prostodontia — compreendendo a importância da articulação entre as várias áreas na abordagem global do doente.

Esta visão integrada será ainda mais reforçada com a implementação do novo plano curricular, que permitirá aos estudantes acompanhar o percurso clínico do doente de forma mais contínua e multidisciplinar, aproximando ainda mais a formação da realidade que encontrarão após a conclusão do curso. A colaboração com a Unidade Local de Saúde de Coimbra representa igualmente uma mais-valia muito significativa. O contacto com doentes medicamente comprometidos, com patologia oral complexa e com o contexto hospitalar permite aos estudantes adquirir competências que dificilmente seriam desenvolvidas num ambiente exclusivamente académico. Destacaria igualmente a colaboração com o IPO de Coimbra, onde têm oportunidade de contactar com áreas altamente diferenciadas, nomeadamente a Oncologia Oral e a reabilitação de doentes oncológicos. Para além da atividade clínica, procuramos envolver os estudantes em projetos de promoção da saúde oral, rastreios, ações de educação para a saúde e iniciativas dirigidas a diferentes grupos populacionais. Estas experiências permitem compreender que o papel do médico dentista não se limita ao tratamento da doença, mas inclui também a prevenção, a promoção da saúde e o combate às desigualdades no acesso aos cuidados.

PA: E ao nível dos laboratórios e das infraestruturas, que papel desempenham na sua preparação para o contexto profissional?

FDV: A qualidade das infraestruturas desempenha um papel fundamental na formação de um médico dentista. Naturalmente, nenhum equipamento substitui um bom professor ou um currículo bem estruturado, mas proporcionar aos estudantes ambientes de aprendizagem modernos, tecnologicamente evoluídos e organizados de acordo com a realidade clínica atual constitui uma condição essencial para uma formação de excelência.

Na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, a aprendizagem inicia-se nos laboratórios pré-clínicos, equipados com simuladores individuais que permitem aos estudantes desenvolver, de forma progressiva e segura, as competências técnicas fundamentais antes do contacto com o doente. Esta fase proporciona a repetição dos procedimentos, a aquisição de destreza manual e o desenvolvimento do rigor técnico indispensável à prática clínica. Posteriormente, essa aprendizagem prossegue nas Clínicas Pedagógicas, onde os estudantes trabalham com equipamentos equivalentes aos que encontrarão no exercício profissional. Desta forma, a transição para a prática clínica decorre de forma natural, permitindo-lhes familiarizar-se com os protocolos, os equipamentos e a organização do trabalho clínico contemporâneo.

Hoje, porém, falar de infraestruturas implica também falar de inovação tecnológica. A Medicina Dentária atravessa uma profunda transformação impulsionada pela digitalização dos fluxos de trabalho, pela imagiologia tridimensional, pelos scanners intraorais, pela impressão 3D, pelos sistemas CAD/CAM e, mais recentemente, pela integração da inteligência artificial em diferentes etapas do diagnóstico e do planeamento terapêutico.

A FMUC tem acompanhado esta evolução, integrando progressivamente estas tecnologias no ensino e proporcionando aos estudantes contacto direto com ferramentas que fazem já parte da prática clínica diária. Esta aposta reflete-se também na criação do Mestrado em Novas Tecnologias para a Transição Digital em Medicina Dentária, um projeto pioneiro que reforça a ligação entre a formação universitária, a inovação tecnológica e a investigação.

Paralelamente, encontra-se em desenvolvimento um projeto estratégico de requalificação das instalações da Área de Medicina Dentária da FMUC, resultado de uma estreita articulação entre a Universidade de Coimbra e a Unidade Local de Saúde de Coimbra. Este investimento pretende criar condições ainda mais adequadas para o ensino, a investigação e a prestação de cuidados de saúde oral, reforçando simultaneamente a competitividade da nossa Escola, a sua capacidade de atrair os melhores estudantes e docentes e o posicionamento internacional da Medicina Dentária de Coimbra.

Um edifício universitário não é apenas um espaço físico onde decorrem aulas e consultas. É um ambiente que influencia a qualidade da aprendizagem, favorece a concentração, estimula a convivência académica, dignifica o trabalho de estudantes, docentes e profissionais de saúde e contribui para uma melhor experiência dos doentes que diariamente recorrem às nossas clínicas.

É por isso que encaramos esta requalificação não apenas como uma obra de renovação de instalações, mas como um investimento estratégico no futuro da Medicina Dentária.

PA: De que forma a FMUC contribui para a prestação de cuidados de saúde oral à comunidade?

FDV: A Área de Medicina Dentária da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra assume uma missão simultaneamente académica e assistencial. As Clínicas Pedagógicas prestam diariamente cuidados diferenciados, assegurados por estudantes em fase clínica, sempre sob supervisão direta dos docentes. Este modelo permite conciliar dois pontos fundamentais: proporcionar uma formação clínica de elevada qualidade e responder às necessidades assistenciais da comunidade.

Só no âmbito da atividade clínica desenvolvida pelos estudantes do 4.º e 5.º anos do Mestrado Integrado em Medicina Dentária e pelos cursos de pós-graduação, são realizadas anualmente mais de 30.000 consultas a utentes do Serviço Nacional de Saúde, o que demonstra bem a relevância assistencial da nossa Escola.

A estreita colaboração com a Unidade Local de Saúde de Coimbra reforça esta missão. O trabalho desenvolvido em articulação com os serviços hospitalares permite assegurar uma abordagem integrada de doentes com patologia complexa, necessidades especiais ou doenças sistémicas que exigem uma colaboração estreita entre diferentes especialidades médicas.

Contudo, a nossa intervenção não se esgota na atividade clínica. Procuramos levar a Universidade para fora dos seus muros, promovendo iniciativas de educação para a saúde, prevenção e literacia em saúde oral dirigidas às diferentes faixas etárias da população. Ao longo do ano realizamos rastreios, ações de educação para a saúde e programas de prevenção em escolas, jardins-de-infância, instituições particulares de solidariedade social e autarquias.

Destacaria projetos como o “Educando Sorrisos”, através do qual os nossos estudantes desenvolvem atividades de promoção da saúde oral junto de crianças e idosos, bem como a colaboração com o Projeto Social da Universidade de Coimbra, assegurando acompanhamento médico-dentário a utentes de instituições sociais.

Mantemos igualmente uma forte intervenção em áreas altamente diferenciadas, nomeadamente através das consultas multidisciplinares dedicadas aos portadores de fenda lábio-palatina e de doenças ósseas raras, desenvolvidas em estreita articulação com a Unidade Local de Saúde de Coimbra e integradas em redes europeias de referência.

Esta dimensão comunitária representa também uma componente essencial da formação dos nossos estudantes. O contacto com diferentes realidades sociais e clínicas permite-lhes compreender que exercer Medicina Dentária significa muito mais do que tratar a doença.

PA: Está em curso uma revisão do plano curricular. Que mudanças se pretendem introduzir?

FDV: A revisão curricular representa um momento particularmente importante para o nosso curso. Não se trata apenas de atualizar unidades curriculares, mas de preparar médicos dentistas para uma profissão em profunda transformação.

Este novo plano de estudos foi desenvolvido ao longo de vários anos de trabalho e construído para responder ao perfil de competências atualmente esperado de um Mestre em Medicina Dentária. Para esse efeito, seguimos as orientações mais recentes da Association for Dental Education in Europe (ADEE), que definem o perfil do graduado europeu e as competências profissionais, clínicas, científicas e humanas que devem caracterizar um médico dentista contemporâneo.

O principal objetivo da reforma foi dotar os estudantes de um conjunto mais abrangente de competências e aumentar a flexibilidade do seu percurso formativo, permitindo-lhes adaptar-se a uma profissão que evolui continuamente.

Uma das alterações estruturantes foi a criação de uma nova Unidade de Clínica Integrada, que permitirá aos estudantes acompanhar o doente de uma forma mais contínua e integrada, desenvolvendo uma visão global do diagnóstico, do planeamento terapêutico e da articulação entre as diferentes áreas da Medicina Dentária.

Procedemos igualmente à semestralização de diversas unidades curriculares, tornando o percurso académico mais equilibrado e facilitando uma integração mais progressiva dos conteúdos.

Outra prioridade consistiu no reforço da formação médica. A Medicina Dentária está, hoje, cada vez mais integrada na saúde global, pelo que reforçámos não só as unidades curriculares médicas, como também a articulação com o Mestrado Integrado em Medicina, incluindo a possibilidade de os estudantes frequentarem unidades curriculares comuns aos dois cursos.

Reforçámos, igualmente, a componente de investigação científica e de medicina baseada na evidência, procurando desenvolver nos estudantes capacidade crítica e competências para interpretar, produzir e aplicar conhecimento científico ao longo da sua vida profissional.

Naturalmente, o currículo acompanha também a evolução tecnológica da profissão, reforçando a formação em Medicina Dentária Digital e a utilização de ferramentas digitais já presentes na prática clínica.

PA: Para este ano letivo que se aproxima, que objetivos se propõem alcançar e que conquistas recentes são um motivo de orgulho?

FDV: Encaramos o próximo ano letivo com grande entusiasmo. Será um ano particularmente importante porque marca o início da implementação do novo plano de estudos, um projeto estruturante que resulta de vários anos de trabalho e que representa uma evolução muito significativa na formação em Medicina Dentária da Universidade de Coimbra.

A nossa prioridade será assegurar que esta transição decorra de forma tranquila para todos os estudantes, preservando os elevados padrões de qualidade pedagógica que sempre caracterizaram o curso.

Paralelamente, continuaremos a investir na modernização das infraestruturas clínicas e laboratoriais, na inovação pedagógica, na digitalização do ensino e no reforço das parcerias com instituições de saúde, criando novas oportunidades de formação clínica, investigação e internacionalização.

Entre as conquistas recentes, destacaria a aprovação do novo plano curricular, o crescimento sustentado da produção científica internacional, a captação de financiamento competitivo para projetos de investigação, o reforço das colaborações nacionais e internacionais e o desenvolvimento do projeto de requalificação das instalações da Área de Medicina Dentária, uma iniciativa estratégica da Universidade de Coimbra e da Unidade Local de Saúde de Coimbra que permitirá oferecer melhores condições de ensino, investigação e prestação de cuidados de saúde.

Mas aquilo que verdadeiramente orienta o nosso trabalho vai muito para além das conquistas de um ano ou de um mandato. Vivemos um período de profunda transformação da Medicina Dentária, impulsionada pelo avanço científico, pela inovação tecnológica e pela crescente integração com as restantes áreas da saúde.

Queremos que a Medicina Dentária da Universidade de Coimbra continue a afirmar-se como uma Escola que não apenas acompanha essa evolução, mas que a lidera e ajuda a construí-la. Esse tem sido, aliás, o desígnio da Universidade de Coimbra ao longo de mais de sete séculos: produzir conhecimento, formar profissionais de excelência e contribuir ativamente para o progresso da sociedade.

Formação na Área de Medicina Dentária da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

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