Em Oncologia mantém-se sempre a esperança

Estou a regressar de mais um congresso da Escola Europeia de Oncologia Médica com a alma novamente cheia de esperança. É este sentimento, que pretendo perene e sempre presente, que desejo transmitir a quem me lê.

Nesta edição foram focadas várias vertentes da oncologia, algumas muito curiosas.

Sublinhou-se a importância de proteger o meio ambiente e a responsabilidade que todos os médicos que tratam cancro, enquanto cidadãos, têm, por exemplo, reduzindo a utilização do plástico (prescindiu-se do saco do congresso, de esferográficas e utilizaram-se garrafas de água sem plástico) e diminuindo-se o consumo de eletricidade (nomeadamente, na iluminação e no ar condicionado). Por outro lado, fomentaram-se os percursos pedestres e nos transportes urbanos, com a consequente poupança nos gastos em combustíveis fósseis e na melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Os hábitos de vida saudável e as responsabilidades ambientais aplicam-se a todos nós e os médicos devem saber dar um exemplo ativo a toda a sociedade.

Falou-se muito da prevenção do cancro, particularmente através do controlo da poluição do ar ambiente e do meio que nos rodeia. Voltou a salientar-se a obrigação de todos sermos modelos nesta área, porque cada vez mais surgem evidências da importância que a poluição assume no desenvolvimento de vários tipos de cancro, como o do pulmão, do estômago ou da bexiga.

Abordou-se a importância da deteção precoce e dos rastreios na diminuição da mortalidade causada por esta doença, particularmente através da utilização de técnicas de deteção do ADN tumoral circulante. As técnicas de rastreio estão a evoluir, de forma a facilitar a adesão dos cidadãos aos rastreios, aumentar a sensibilidade e a especificidade destes, com o objetivo último de detetar a doença em fases de evolução cada vez mais precoce, facilitando assim o seu tratamento no global e aumentando a possibilidade de cura.

Com o desenvolvimento das técnicas de análise molecular dos tumores, da utilização de terapias dirigidas a essas alterações moleculares e ao uso da imunoterapia para os tumores com elevada expressão de PD-L1 ou na presença de instabilidade de microssatélites e na disfunção dos genes reparadores do ADN, verificou-se o início da redução da intensidade dos tratamentos utilizados, com evidente melhoria da qualidade de vida dos doentes oncológicos.

O desenvolvimento de medicamentos pelas novas biotecnologias tem vindo a ter um impacto enorme nas designadas terapias celulares de múltiplos tumores. Estas terapias celulares, que poderão vir a ser o paradigma da individualização do tratamento imunoterápico dos tumores, em que personalizamos o efeito que pretendemos no sistema imunitário do doente de acordo com as características do cancro presente e potenciamos a ação daquele de forma a ser esse a controlar a doença.

O desenvolvimento de novas drogas dirigidas a múltiplos alvos e que permitem ultrapassar um número elevado de mecanismos de resistência primária ou adquirida dos tumores, tem vindo a permitir, também, a individualização da medicina molecular a propor.

Abordou-se, também, o impacto destes novos fármacos nas populações idosas e nas mais marginalizadas, assim como o incremento de atenção que vai ser necessário ter nos longos sobreviventes oncológicos. Porque, cada vez mais, a doença oncológica está transformando-se numa doença crónica, com doentes com uma larga sobrevivência, o que levanta toda uma séria de novas questões e de novas necessidades a que temos de atender.

Por todos estes motivos, a atualidade em Oncologia continua a ser de grande esperança, particularmente em que todas estas novas estratégias terapêuticas ou novos medicamentos possam trazer sempre maior quantidade de vida e melhor qualidade de vida a todos os nossos doentes oncológicos. Estes, devem tentar estabelecer sempre uma relação de confiança e de comunicação aberta e clara com os seus médicos oncologistas, de forma a explorar todo o potencial armamentário terapêutico que se possa aplicar a cada caso em concreto ou a buscar soluções na participação em ensaios clínicos, que possam ser uma possível mais-valia para o doente e uma fonte de conhecimento para todos os doentes posteriores. Porque todo este acréscimo incessante de saber de que todos os doentes oncológicos vão beneficiando advém da participação destes em todos os ensaios clínicos que são apresentados e que permitem retirar conclusões que vêm a ser aplicadas na prática clínica diária.

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