Porquê apostar no desenvolvimento de tecnologias e materiais sustentáveis? – O CEMMPRE explica

O Centro de Engenharia Mecânica, Materiais e Processos (CEMMPRE) é uma Unidade de Investigação Interdisciplinar de I&D, sediada na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Marta Oliveira, Vice-presidente do CEMMPRE, ajuda-nos a entender a missão e a importância do trabalho realizado por esta equipa de investigadores.

Perspetiva Atual: Qual é a principal missão do CEMMPRE?

Marta Oliveira: A missão do CEMMPRE é contribuir para o avanço do conhecimento e das capacidades científicas e técnicas, através da colaboração interdisciplinar de modo a produzir descobertas e inovações que contribuam para um mundo mais sustentável. Os investigadores do CEMMPRE estão particularmente focados em encontrar soluções para os principais desafios da sociedade. Estas soluções baseiam-se na criação de conhecimento científico de excelência, com elevado impacto a nível regional, nacional e internacional. Este é o posicionamento do CEMMPRE no sistema de I&D nacional.

PA: Como é constituída a equipa do CEMMPRE?

MO: O CEMMPRE conta atualmente com cerca de 85 membros integrados, 40 colaboradores e 95 membros não doutorados, sendo que destes, aproximadamente 70 estão a realizar o doutoramento em áreas que vão desde as engenharias Mecânica, de Materiais, Química e Biomédica até à Biociência. Estas áreas são o reflexo da diversidade da formação doutoral dos membros integrados do CEMMPRE, que apesar de ser maioritariamente em engenharia Mecânica (50%), inclui outras engenharias, como a de Materiais, Química, Gestão Industrial e Biomédica, bem como em ciências fundamentais, como a Química, Física, Bioquímica e Biologia. Os investigadores do CEMMPRE integram dois grupos: A-Mecânica e Produção Inteligente e B-Materiais e Processos.

Apesar da maioria dos investigadores do CEMMPRE estarem afiliados na Universidade de Coimbra, existem também membros dos Institutos Politécnicos de Coimbra, Leiria, Lisboa e Porto, bem como da Universidade da Beira Interior e do Instituto Pedro Nunes, uma instituição de interface entre Academia e Indústria e referência nacional e internacional na incubação e aceleração de empresas. A integração de membros com diferentes origens e experiências contribui para um ambiente multicultural, o que confere versatilidade na procura de soluções socialmente mais igualitárias, e reforça a posição do CEMMPRE a nível nacional.

PA: Em setembro, participaram na exposição “O que se investiga na UC?”. Qual a importância desta exibição ao público e que projetos foram desvendados neste evento?

MO: O CEMMPRE considera fundamental contribuir para que o público em geral tenha uma melhor perceção do impacto que a investigação científica, em particular a criação e desenvolvimento de tecnologias sustentáveis e materiais avançados, pode ter na sociedade, nomeadamente, na produção sustentável e inteligente. Neste contexto, é também essencial promover a curiosidade pela investigação fundamental e aplicada nas gerações mais jovens. Assim, a exposição centrou-se em perguntas que dão ênfase a projetos, que procuram respostas inovadoras, para velhas e novas questões, nas diferentes áreas de intervenção do CEMMPRE: Fabrico Inteligente; Projeto e Ensaios; Engenharia de Superfícies e Interfaces; Bioengenharia; (Nano)materiais e Sistemas de Sensores Avançados.

PA: Atualmente, o foco do CEMMPRE passa em muito pelo pacto verde (green deal) e pela transição digital. Qual o motivo da escolha destes dois tópicos?

MO: O Pacto Ecológico Europeu (Green Deal) visa modernizar a economia da União Europeia, tornando-a mais eficiente na utilização dos recursos e competitiva. O aumento da competitividade passa obrigatoriamente pela capacitação das pessoas, empresas e administrações na utilização da nova geração de tecnologias, que é o objetivo da transição digital. Tendo em conta a missão do CEMMPRE e que muitas das suas áreas de intervenção têm elevada proximidade com a indústria, o foco no pacto verde e na transição digital é inevitável.

Adicionalmente, a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, define as prioridades e aspirações do desenvolvimento sustentável global para 2030 de modo a mobilizar esforços globais para objetivos e metas comuns. De entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos, o CEMMPRE pode contribuir principalmente para o cumprimento dos relacionados com a Saúde de Qualidade; Indústria, Inovação e Infraestrutura; e Produção e Consumo Sustentáveis. É neste contexto que o CEMMPRE está empenhado em encontrar respostas para alguns dos maiores desafios dos nossos tempos.

O cumprimento dos ODS, assim como o pacto verde, implica uma maior ambição e sentido de urgência no desenvolvimento de produtos e processos mais sustentáveis, o que requer abordagens interdisciplinares nos materiais, processos, projeto mecânico e produção. Este é o posicionamento do CEMMPRE no sistema de I&D internacional e no mundo.

PA: Com que outras instituições mantêm parceria e qual o intuito destas colaborações?

MO: Os investigadores do CEMMPRE mantêm colaborações internacionais com universidades e instituições de I&D um pouco por todo o mundo, alicerçadas em projetos de investigação ou de formação avançada de estudantes, como o TRIBOS+ (Mestrado Conjunto Europeu em Tribologia de Superfícies e Interfaces) e o GREENTRIBOS (Programa Conjunto de Doutoramento em Tribologia Verde para a Engenharia Sustentável), financiados por programas da Comissão Europeia.

A nível nacional as valências do CEMMPRE serão maximizadas com a sua integração no Laboratório Associado (LA), “ARISE – Produção Avançada e Sistemas Inteligentes”, que integra também outros quatro centros de investigação de reconhecida qualidade científica (CDRSP, ISISE, ISR-UC e SYSTEC). A atividade do ARISE centra-se no desenvolvimento de investigação científica e tecnológica assim como em atividades de inovação, com o objetivo de alcançar a excelência nas áreas de Produção, Robótica, Materiais, Ambiente Construído, Energia, Gestão e Tecnologias de Informação. O objetivo é apoiar a reindustrialização, a sustentabilidade e a descarbonização dos sistemas de produção e do ambiente nacional contruído.

Por outro lado, importa realçar que a interação de longa data com o Instituto Pedro Nunes (IPN) tem contribuído decisivamente para o elevado impacto socioeconómico da atividade de investigação do CEMMPRE. No CEMMPRE procuram-se soluções integradas que envolvem a fase de conceção da ideia, desenvolvimento do conceito utilizando design inteligente, projeto e prova de conceito.

PA: Estamos prestes a chegar ao fim do ano, qual o balanço que faz de 2022? Tem algum projeto ou dinâmica que gostaria de destacar?

MO: Em 2022, diversos projetos mobilizadores (projetos de grandes dimensões, financiados no âmbito do Portugal 2020, em estreita colaboração com o tecido industrial português e outras entidades de I&D) produziram indicadores relevantes: Add.Additive, On-Surf, PRODUTECH4S&C, S4Plast e Tooling4G. No âmbito destas e doutras colaborações com diferentes entidades nacionais, os investigadores do CEMMPRE participaram em inúmeras candidaturas a “Agendas/Alianças Mobilizadoras para a Reindustrialização” e “Agendas/Alianças Verdes para a Inovação Empresarial” (projetos financiados no âmbito do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência), com elevada taxa de sucesso. Assim, o CEMMPRE está envolvido em mais de dez destes projetos, em diversas áreas, como por exemplo: automóvel, bicicletas, moldes, farmacêutica, microeletrónica, plásticos, tecnologias de produção, termotecnologia e portos. Os membros do CEMMPRE agregarão a esses consórcios conhecimentos em áreas tão diversificadas como: desenvolvimento, caracterização e processamento de polímeros; engenharia de superfícies; engenharia e gestão industrial; fabrico aditivo e microbiologia. Este é o posicionamento que o CEMMPRE pretende manter como elemento ativo para o desenvolvimento nacional, sempre em elevada simbiose com o tecido empresarial.

PA: Quais os planos desta direção para os próximos anos?

MO: Ao longo dos anos o CEMMPRE consolidou uma equipa de investigadores da qual se orgulha, pela sua relevância a nível nacional e internacional em diferentes domínios. O crescimento sustentado dos indicadores de produtividade do centro ao longo dos últimos anos comprova a qualidade do trabalho desenvolvido. O conhecimento criado no CEMMPRE, alicerçado numa rede de colaborações interna e externa, perspetiva um futuro promissor. Apesar da atual capacidade de captação de financiamento competitivo pelos investigadores do CEMMPRE, principalmente a nível nacional, a direção considera fundamental contribuir para o seu contínuo incremento. As fontes de financiamento competitivo almejadas são as mais diversas e envolvem projetos de âmbito internacional (e.g. Horizonte Europa, Interreg), nacional (e.g. FCT, Portugal 2030) e regional (Programa Regional do Centro 2021-2027), assim como a prestação de serviços à indústria. O suporte da direção do CEMMPRE contempla também os grandes projetos, que visam capacitar, reforçar e incrementar as áreas de intervenção do centro (e.g. ERC, EIC, ERA Chair).


Grupo A- Mecânica e Produção Inteligente

Este grupo está focado principalmente em:

  • Análise de dano;
  • Análise inversa;
  • Biomecânica e mobilidade humana;
  • Comportamento mecânico e metodologias de projeto;
  • Gestão industrial (e.g., gestão e controlo de produção, cadeias de abastecimento, gestão de inovação, projetos e operações, simulação, modelação e otimização, otimização combinatória);
  • Modelação, simulação e otimização de processos de conformação e aditivos;
  • Processos de ligação (e.g., processos de soldadura convencionais e de estado sólido);
  • Robótica industrial (e.g., robótica colaborativa e manufatura aditiva).

Grupo B- Materiais e Processos

Este grupo está focado principalmente em:

  • Dispositivos biomédicos;
  • Engenharia de superfícies e interfaces (e.g., revestimentos tribológicos, de proteção e resistentes à corrosão, superfícies modificadas bioativas com atividade antimicrobiana);
  • Microbiotecnologia ambiental (e.g., interações bactérias-metal, microbiomas e mineração de genoma, polímeros biológicos e sintéticos);
  • Nanomateriais (3D e 2D);
  • Polímeros (e.g., materiais de base biológica, biodegradáveis);
  • Processos de produção sustentáveis (tecnologias aditivas (3D e 4D) e replicativas, PVD, soldadura);
  • Sensores, biossensores, corrosão, tribologia, bioeletroquímica.

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