O poder transformador da Química

Em entrevista à Perspetiva Atual, o atual Diretor do Departamento de Química da Universidade de Aveiro (DQUA), Armando Silvestre, partilha pontos de vista valiosos sobre o impacto da Química no combate aos desafios atuais da sociedade. Armando Silvestre destaca a importância da investigação fundamental e aplicada e revela ainda o papel do DQUA e da Universidade de Aveiro na contribuição para a formação de recursos humanos qualificados que possam dar resposta a esses mesmos desafios.

Perspetiva Atual: Sendo Diretor de um Departamento de Química (DQUA), considera que esta área científica ainda desempenha um papel importante na economia e desenvolvimento da sociedade?

Armando Silvestre: Sem qualquer dúvida. É exatamente por isso que aqui estamos!

De facto, a Química, conjuntamente com a Bioquímica, a Biotecnologia e a Engenharia Química, desempenha um papel central no desenvolvimento de novas soluções que permitam responder aos grandes desafios que a humanidade enfrenta.

Seja nas áreas ambientais e climáticas, de energia e combustíveis, saúde e alimentação, entre outras, garantindo um desenvolvimento mais sustentável e o bem-estar social.

PA: Como é que estas áreas científicas procuram responder a estes desafios?

AS: De forma simples, a resposta a estes desafios faz-se, na Universidade de Aveiro e no DQUA, através da investigação fundamental e da investigação aplicada. E, de forma igualmente importante, através da formação de recursos humanos altamente qualificados.

Em primeiro lugar, a investigação de caráter mais fundamental cria conhecimento verdadeiramente inovador. Ainda que por vezes possa ser menos claro para a opinião pública, a investigação e o conhecimento fundamental têm uma gigantesca importância. É a partir daí que surgem as soluções disruptivas que podem solucionar os problemas da nossa sociedade.

Entre muitos exemplos, creio que todos reconhecerão o papel das vacinas contra a Covid-19. Foi conhecimento fundamental das áreas da bioquímica, biotecnologia, engenharia química e química, que foi desenvolvido dentro dos laboratórios durante longos anos, e que, face a uma necessidade concreta, a pandemia, em pouco tempo se transformou numa solução para um problema de saúde que afetou todo o planeta.

A investigação aplicada procura esta última resposta, ou seja, com base no conhecimento fundamental, desenvolver as aplicações e procura soluções para problemas concretos.

É muito importante que a sociedade tenha a perceção da importância da investigação fundamental com base em exemplos como este. Sem a investigação fundamental, os grandes avanços tecnológicos nunca serão possíveis.

PA: De que forma o DQUA, especificamente, ajuda na resposta a estes desafios?

AS: É aqui que entra também a formação avançada de recursos humanos.

Estes desenvolvimentos só são possíveis se dispusermos de Licenciados, Mestres e Doutores solidamente preparados para responderem aos desafios nas próximas décadas. Para isso, além de ofertas formativas bem preparadas e flexíveis, como a do DQUA, é necessário que a formação dos alunos ocorra num ambiente estimulante. Isto só é possível com uma estrutura de investigação de altíssima qualidade.

Além disso, o caráter multidisciplinar da atividade do DQUA potencia ainda mais a qualidade do ensino e da investigação desenvolvida.

Por outro lado, os professores, investigadores e alunos do DQUA desenvolvem a sua atividade de investigação integrados em três Laboratórios Associados de grande prestígio nacional e internacional, nomeadamente o CESAM – Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, o CICECO -Instituto de Materiais de Aveiro e o REQUIMTE – Laboratório Associado para a Química Verde.

Em qualquer um dos laboratórios, e nas múltiplas áreas em que intervêm, tem havido um grande sucesso no desenvolvimento de grandes projetos internacionais e nacionais. 

A contribuição dos cientistas do DQUA, em termos de investigação fundamental, é demonstrada pelo elevado número de publicações científicas – o meio normalmente usado para divulgar o conhecimento científico gerado – produzidas anualmente. Importa referir que este número tem vindo a aumentar todos os anos, sendo o DQUA um dos departamentos mais produtivos do país.

PA: E ao nível da investigação aplicada?

AS: A investigação aplicada é desenvolvida no DQUA em estreita parceria com múltiplas empresas nacionais e internacionais. A este nível, estamos envolvidos num grande número de projetos no âmbito de programas como o Portugal 2020 e Portugal 2023, bem como do PRR – Programa de Recuperação e Resiliência.

Dos projetos em curso, ou já terminados, há também excelentes resultados. Aqui gostaria de destacar a geração de propriedade intelectual, na forma de patentes, que irão permitir a exploração destes resultados pelo tecido económico nacional. Destaco ainda o facto de o DQUA ser o departamento que mais patentes produz a nível nacional. Além disso, há já várias spin-offs criadas nos últimos anos para explorar algumas destas patentes.

Com toda a certeza iremos dar um contributo ainda mais forte para o país no âmbito do PRR.

Em suma, o DQUA está a responder de forma eficaz aos desafios que a sociedade enfrenta. Não tenho qualquer dúvida que estes devem ser motivos fortes para os futuros candidatos à Universidade se sentirem (como têm sentido) atraídos a estudar e fazer a sua formação no DQUA.

PA: De que forma é que os alunos do DQUA são envolvidos nos projetos de investigação ao longo da sua formação?

AS: O envolvimento dos alunos na investigação é essencial para a sua formação e também para o desenvolvimento dos próprios projetos. Existem várias formas de envolver os alunos. As mais comuns são as que estão associadas ao desenvolvimento das teses de Doutoramento e de Mestrado, em que a investigação é uma componente essencial.

Além disso, procuramos também envolver os alunos de Licenciatura, algo que é muito estimulante e enriquecedor. Isso pode ocorrer no âmbito da disciplina de Projeto de Licenciatura, em que desenvolvem um pequeno trabalho de investigação.

Por último, temos também a possibilidade de um aluno que se interesse por um determinado tema, contactar o professor ou investigador que lidera uma determinada área ou projeto e de se voluntariar para trabalhar nesse projeto nos seus tempos livres. É uma forma muito atraente de estimular o interesse dos jovens pela investigação, que tem tido muito sucesso junto dos alunos desde a Licenciatura.

PA: Seguindo o que referiu há pouco, quais são, hoje, os aspetos que mais cativam os estudantes a estudar no DQUA?

AS: Os jovens de hoje estão perfeitamente conscientes dos desafios que a sociedade enfrenta e sentem-se motivados a serem parte ativa na procura das respostas para estes problemas. O que podem fazer no âmbito de qualquer uma destas áreas de formação.

Nesse sentido, creio que o reconhecimento nacional e internacional da qualidade do ensino e da investigação desenvolvidas no DQUA, num ambiente multidisciplinar e estimulante, que os prepara para serem parte dessa resposta, é um grande atrativo para os futuros alunos.

Além disso, não tenho dúvidas que visibilidade da Universidade de Aveiro, a qualidade do campus, e a qualidade de vida na cidade de Aveiro são características que reforçam a vontade dos alunos em virem estudar no DQUA.

PA: Como é que o DQUA procura fomentar a ligação dos estudantes com o tecido empresarial de modo a enriquecer a sua formação e facilitar a sua empregabilidade?

AS: Como já referi, existe uma forte interação do DQUA com o tecido empresarial nas quatro grandes áreas de formação e investigação. Isso permite envolver os alunos por duas vias, através da realização de Estágios de Mestrado, ou pelo desenvolvimento de projetos de investigação aplicada.

A realização de estágios de Mestrado, em que os alunos desenvolvem a sua Tese numa empresa, é uma excelente forma de promover a formação dos alunos em ambiente empresarial e a sua empregabilidade. Atualmente cerca de 50% dos nossos alunos seguem esta via para a realização da sua Tese de Mestrado, com impacto muito positivo na sua empregabilidade.

Os projetos de investigação aplicada com empresas, seja do PRR ou dos programas Portugal 2020 e Portugal 2030, permitem também a formação de Doutorados, desenvolvendo investigação de interesse para as empresas, e a contratação por parte das empresas de graduados do DQUA para desenvolver atividade de investigação aplicada no âmbito destes projetos.

Posso referir que alguns grandes projetos com empresas concluídos nos últimos anos formaram muitas dezenas de Doutorados nas áreas desses projetos. Muitos deles são hoje quadros de sucesso dessas empresas.

No entanto, não é necessário fazer um Doutoramento numa área aplicada para ser contratado por uma grande empresa. De facto, muitos dos nossos doutorados com teses baseadas em investigação fundamental têm sido contratados por grandes empresas nacionais e estrangeiras. A sua formação científica sólida permite-lhes uma grande versatilidade e capacidade de adaptação.

Estes profissionais são os nossos melhores embaixadores e serão parte ativa na busca de soluções para o bem-estar da nossa sociedade!

PA: O interesse dos jovens por estes temas não pode surgir apenas em níveis de graduação. É extremamente importante estimular a curiosidade e gosto por estas áreas desde o ensino secundário. O DQUA procura ter algum impacto a este nível?

AS: Naturalmente! É uma atividade muito importante! O DQUA tem um papel muito ativo no que diz respeito a atrair os alunos mais jovens para a ciência, seja através de visitas às escolas secundárias, de visitas de grupos de alunos ao DQUA, ou pela participação em atividade de demonstração.

Só assim vamos ter os recursos humanos e formá-los como referi acima.

Gostava de destacar aqui a participação das escolas de todo o país nas Olimpíadas da Química, mas também em outras atividades organizadas pela UA como, por exemplo, o Xperimenta, as Academias de verão, entre outras nas quais o DQUA participa ativamente. Muitos alunos acabam por escolher os nossos cursos após se deixarem fascinar pela ciência nestes eventos.

O envolvimento notável das famílias e dos professores também merece destaque, especialmente por criarem todas as condições para que estes alunos venham até nós. E não podemos esquecer que famílias e professores também devem merecer uma atenção particular no contexto de todos os desafios que falamos.

PA: Como assim?

AS: Em primeiro lugar, criando o ambiente propício para que os filhos/alunos sejam efetivamente motivados para se prepararem bem e procurarem uma formação de qualidade na Universidade. E nesse mesmo contexto, mostrando aos alunos que a escola vale a pena e que a profissão de professor é nobre. Só teremos bons alunos na universidade se tivermos bons alunos e bons professores nas escolas. Aqui está um desafio para o futuro – mostrar aos alunos que uma opção para o seu futuro poderá passar por serem futuros professores.

De facto, dentro de poucos anos vai haver muita falta de professores, nomeadamente na área do ensino de Física e Química. É a pensar neste previsível problema que a UA, e o DQUA em particular, em articulação com outros Departamentos, tem preparada uma oferta formativa que vai lançar a formação dos futuros professores, já a partir deste ano letivo.

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