Beneficiários(1) de PMA do Continente fazem comissões de serviço nos Açores para terem acesso a tratamentos de Fertilização In Vitro comparticipados e sem lista de espera

A MekaCenter, uma das primeiras clínicas privadas de Medicina Reprodutiva em Portugal, desempenha um papel crucial ao oferecer tratamentos de Fertilização In Vitro (FIV) sem lista de espera para beneficiários da Procriação Medicamente Assistida (PMA) tanto dos Açores como de Portugal Continental. Através de uma convenção com o Governo Regional dos Açores, a clínica torna possível o acesso a tratamentos de infertilidade mais acessíveis, levando alguns beneficiários a assumirem comissões de serviço nos Açores. Nesta entrevista, Rui de Mendonça, Diretor Clínico da MekaCenter, aprofunda o trabalho realizado na clínica que leva muitas famílias a conseguirem concretizar o sonho de ter filhos.  

Para começar, poderia compartilhar um pouco da história da MekaCenter e do seu papel na promoção da saúde em Portugal? 

A MekaCenter começou a dar os primeiros passos em 1993, quando recusaram que se fizesse PMA no Hospital de Ponta Delgada, pelo que tivemos que avançar para um Centro Privado, tendo sido uma das primeiras clínicas privadas do país, e a única a sul do Tejo durante muitos anos. Em 1995 fizemos as primeiras FIV, e, em 2010, inaugurámos as novas instalações, tendo, desde aí, uma convenção com o Governo Regional, fazendo cerca de 400 tratamentos por ano, sem lista de espera, o que faz com que alguns Beneficiários do Continente Português façam comissões de serviço de, por exemplo, três anos nos Açores, e tenham acesso a esses tratamentos. Acontece, sobretudo, com professores.  

Falando sobre a sua ligação com a MekaCenter, como é que o Doutor chegou à clínica e o que o motivou a assumir o cargo de diretor clínico? 

Meka é a junção das duas primeiras letras de Mendonça & Kay, empresa formada por mim e pela Dra. Teresa Kay, sendo que atualmente é uma empresa detida também por outros médicos da clínica, por embriologistas e por administrativos. O Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida só foi constituído cerca de dez anos depois, e a subespecialidade de Medicina da Reprodução, a que pertenço, também apareceu muito mais tarde. A direção da clínica surge, assim, naturalmente.  

A MekaCenter é amplamente reconhecida pela sua especialização em Medicina Reprodutiva. Quais são as principais áreas de foco e especialização da clínica neste campo? 

O nosso foco é ajudar todos os beneficiários PMA a realizarem os seus projetos de parentalidade e vai desde o tratamento do Casal Infértil à Preservação do Potencial Reprodutor, passando pelos casais de mulheres, mulheres sem parceiro e beneficiários que necessitam de diagnóstico pré-implantatório.  

Estamos particularmente interessados em aplicar este último ponto, facilitando a vida às famílias com Doença de Machado-Joseph, uma enfermidade que atinge a população global em 1:200 000, e que em algumas áreas dos Açores tem uma prevalência de 1:140. 

A jornada da infertilidade pode ser emocionalmente desafiadora para os casais e indivíduos. Como é que a MekaCenter aborda o aspeto emocional dos pacientes que procuram tratamentos de fertilidade e que apoio oferece durante esse processo sensível? 

O nosso combate ao impacto emocional adverso começa logo na preparação adequada de todos os funcionários da clínica, desde a auxiliar de limpeza ao médico mais diferenciado, demonstrando em todos os momentos segurança, respeito e atenção sem “lamechice”. Esse trabalho é regularmente testado através de questionários de satisfação, num exercício que visa constante melhoria. 

Além disso, todos os beneficiários são informados de que, em qualquer momento, podem recorrer à Psicóloga Clínica e, no extremo, à Psiquiatria.  

A decisão de procurar tratamento de fertilidade é muitas vezes acompanhada de preocupações financeiras. Existe algum auxílio por parte da Meka para que os pacientes entendam as suas opções de financiamento e tornar os tratamentos mais acessíveis? 

Felizmente, os residentes dos Açores, incluindo, obviamente, os que se encontram em comissão de serviço, têm acesso à clínica com apoio do Governo Regional, por via da convenção existente, sem lista de espera e com custos muitíssimo atenuados. Existem alguns itens que não fazem parte da convenção, até porque esta é uma área da Medicina em constante movimento e nós gostamos de estar na locomotiva, não nos contentando em não perder a carruagem. 

Muitos casais podem sentir-se estigmatizados ou envergonhados ao enfrentar questões de fertilidade. Neste sentido, é cada vez mais importante informar e educar a sociedade em torno destas questões. Esta é uma preocupação da Meka? A clínica está envolvida em atividades ou programas de consciencialização para reduzir o estigma e aumentar a compreensão relativamente a estas questões? 

Sim! Nós participamos, frequentemente, em programas de rádio e televisão, e deslocamo-nos também a escolas e à universidade, quer através do formato de aula, quer de palestras. A estigmatização está a desaparecer de forma clara.  

Quando o assunto recai em casais homossexuais, que procuram ajuda para construir a sua família, o estigma e o julgamento são ainda maiores. De que forma é que a MekaCenter assegura que todos os pacientes sintam confiança nos profissionais de saúde da equipa, sem receio de qualquer tipo de julgamento ou preconceito? 

Como é sabido, decorre da própria lei que as mulheres sem parceiro e os casais de mulheres não podem ser discriminados em relação aos casais heterossexuais. Posso, até, adiantar-lhe que a primeira criança nascida de um tratamento ROPA (Maternidade Partilhada por duas Mulheres) realizado por nós, aconteceu cerca de três meses depois do primeiro caso em Portugal Continental, atestando a inexistência da discriminação referida.  

Sabemos que a tecnologia e a inovação são aspetos fundamentais na Medicina Reprodutiva. Poderia compartilhar algumas das mais recentes inovações e avanços tecnológicos que a MekaCenter está a implementar, ou implementou recentemente, para melhorar os tratamentos de infertilidade? 

A MekaCenter realiza todas as técnicas PMA que visam o melhor sucesso possível, mas não “sacrificamos” os beneficiários ao sucesso. Isto é, se um casal, por exemplo, deseja muito um tratamento intraconjugal, apesar de sabermos que os resultados seriam muito melhores com recurso a doação de gâmetas, não somos normativos – nem mesmo no tom de voz. Limitamo-nos a apresentar as várias opções e a possibilidade de sucesso de cada uma, no exercício de uma medicina em que o consentimento informado é a base.  

Dentro das técnicas mais sofisticadas, e respondendo à vossa pergunta, dispomos de um Embryoscope® que permite seguir o desenvolvimento dos embriões passo-a-passo, sem os sujeitar ao stress de sair da incubadora, e, através de Time-lapse e de uma análise por Inteligência Artificial, poder escolher o melhor embrião para transferir.  

Uma nova técnica que também estamos a usar cada vez mais é o Processamento do Esperma por Microfluidos, podendo separar os espermatozoides com menor fragmentação de DNA, visando um desenvolvimento embrionário mais adequado. 

Estamos também a desenvolver um programa de Diagnóstico Pré-Implantatório de Doença Machado Joseph com a colaboração da Universidade dos Açores e do Governo Regional, o que terá um impacto da maior importância na diminuição da prevalência dessa doença na nossa Região.  

Para os casais ou indivíduos que estão a considerar a doação de óvulos, de que forma é que a MekaCenter os orienta e fornece informações sobre as implicações legais, éticas e emocionais desse processo? 

Para a doação de oócitos temos desenvolvido algumas ações de sensibilização, uma delas com grande divulgação na Universidade dos Açores e com o apoio da SPMR. No entanto, a realidade ainda é que recorremos muito à importação de oócitos dos Centros autorizados de Portugal Continental. As dadoras seguem os trâmites que decorrem da Lei vigente e dos Requisitos do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida.  

Do ponto de vista médico, como é que a clínica garante a segurança e o bem-estar das Utentes? 

A MekaCenter tem Certificado de Qualidade ISO 9001, que implica auditorias internas e externas permanentes, é licenciada para Cirurgia de Ambulatório pela Direção Regional de Saúde, e cumpre com todos os Requisitos do CNPMA para o exercício da PMA, aspetos que são periodicamente verificados pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde. Convém lembrar que este rigor, aplicado aos Centros PMA, não tem, infelizmente, paralelo em mais nenhuma área da atividade médico-cirúrgica. 

Abordamos aqui de um conjunto de procedimentos e tratamentos que envolvem questões sensíveis, muitas vezes debatidos pela sociedade e colocando em causa direitos humanos. Qual é o posicionamento da MekaCenter relativamente a questões de ética e de apoio às pessoas que procuram ajuda profissional para conseguir realizar o sonho de ter filhos? 

A posição da MekaCenter é simples: respeitar a lei e os requisitos do CNPMA, com o objetivo de contribuir para a felicidade dos beneficiários e para o bem social. 

Quanto às nossas preocupações éticas, respondo com factos: desde 6 de setembro de 1997 que temos um protocolo com o Centro de Estudos de Bioética – Polo Açores.  Não será fácil encontrar muitos exemplos como este.  


(1) Os Beneficiários de Procriação Medicamente Assistida, hoje, para além dos casais inférteis, são mulheres sem parceiro, casais de mulheres, pessoas com doenças genéticas passíveis de Diagnóstico Pré-Implantatório e candidatos a Preservação do Potencial Reprodutor. 

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