André Faria Couto

O fascínio pela Ortopedia e Medicina Desportiva após lesões desportivas em criança

Enquanto criança, André Faria Couto teve o seu primeiro contacto com a Ortopedia e Medicina Desportiva após sofrer algumas lesões desportivas, que levaram ao término da sua carreira desportiva de alta performance; no entanto, estaria longe de imaginar que o doente viraria o profissional. Ao longo desta entrevista, André Faria Couto relata o seu percurso profissional e revela o que o levou a seguir o caminho da Ortopedia e Medicina Desportiva.

Perspetiva Atual: Desde 2010, ano em que completou o Mestrado Integrado em Medicina, muitos foram os hospitais em que trabalhou e as pessoas que ajudou. O que suscitou este amor pela medicina em geral e pela Ortopedia mais especificamente? Sempre soube que iria ser médico?

André Faria Couto: Na minha infância não existiu um contacto com a Medicina de uma forma direta; talvez esse desconhecimento geral da área me tenha despertado o fascínio e curiosidade de tornar-me médico, ao longo dos anos. Lembro-me bem do meu primeiro contacto com a Ortopedia e Medicina Desportiva sob a ótica do doente, no contexto de várias lesões desportivas a que fui sujeito ainda em criança e adolescente, como atleta no Varzim Sport Club e Rio Ave Futebol Clube. Quando, durante o curso de Medicina, pude conhecer o outro lado da Ortopedia, não houve grandes dúvidas de que esta seria a opção mais aliciante: especialidade com uma vasta abrangência, com possibilidade de diferenciação em diversas áreas sobreponíveis à Medicina Desportiva e que me permite exercer atividade cirúrgica, que foi algo que sempre me cativou.

PA: O que o fascina, ainda hoje, relativamente à especialidade de Ortopedia?

AC: A característica mais atrativa da Ortopedia diz respeito à constante evolução, a nível do conhecimento científico e cirúrgico: a tendência temporal é de se tornar cada vez menos invasiva, obtendo os mesmos resultados funcionais, com menor agressão cirúrgica.  É de destacar, neste sentido, a importância do desenvolvimento constante de técnicas como a Artroscopia e Minimamente Invasivas, que demonstraram um menor risco de fibrose cicatricial extensa, infeção perioperatória e/ou perdas hemáticas. O período pós-operatório torna-se mais confortável e o regresso à atividade pelo doente é mais célere.  A Ortopedia obriga a responder à necessidade de construção de um plano individualizado e talhado a cada caso clínico, uma aprendizagem contínua e à discussão dos casos mais complexos em equipa, algo que a mim me dá muito prazer no dia a dia.

Por outro lado, é muito gratificante poder inovar no conhecimento e tratar o doente à luz da evidência científica mais recente. Procurei sempre a melhor preparação possível. Com estágios formativos em diversos hospitais de referência nacionais e internacionais, nomeadamente em Barcelona, Madrid, Santander, Lyon, Viena e Londres e a oportunidade de contactar com diferentes Equipas, de diferentes Hospitais, permitiram adquirir um fascínio extra pelas subtilezas do membro inferior e cirurgia artroscópica / minimamente invasiva, destacando a envolvência pessoal com a patologia do Joelho e Pé.

PA: Mais recentemente, em 2015, concluiu a subespecialização em Medicina Desportiva. O que o levou a ter interesse por esta área? Qual era o seu objetivo com esta pós-graduação?

AC: O potencial para a saúde que o desporto constitui é uma forma de prevenção de doenças cardiovasculares e metabólicas com grande impacto socioeconómico: a sua prática regular reduz a incidência destas patologias, com ganhos significativos na saúde da população. A adesão à atividade física, quer no contexto de prática desportiva federada ou atletas de performance exigente, quer como lazer ou para prevenção e tratamento de doenças (como “fármaco prescrito”), tem aumentado exponencialmente, com as vantagens e os problemas inerentes à prática da mesma. A Ortopedia e os médicos ortopedistas têm muitas vezes a fama de, no seu percurso formativo, se afastarem da prática clínica não cirúrgica. A Medicina Desportiva, pela sua multidisciplinaridade, permite-me continuar a criar a ponte com essas áreas – medicina interna, cardiologia desportiva, antropometria, fisiologia do exercício, nutrição ou a prescrição de exercício físico – podendo aplicar os meus conhecimentos e ajudar os doentes / atletas a maximizar o seu desempenho e a alcançar os seus objetivos.

PA: Em 2016, concluiu também a subespecialização em Medicina do Trabalho. O que o levou a ter interesse por esta área? Qual era o seu objetivo com esta pós-graduação?

AC: A formação foi motivada pela necessidade de aumentar a minha capacidade de intervenção ao nível da prevenção da patologia musculosquelética: uma elevadíssima percentagem destas patologias é resultante da ausência de adequadas condições de higiene e segurança no posto de trabalho, da ausência de formação adequada do trabalhador e/ou por ato negligente deste, levando a Acidentes de Trabalho e Doenças Profissionais, que são, na sua maioria, relacionados com patologia do foro musculosquelético.

As competências adquiridas, são de inegável utilidade diária, exponenciando não só a capacidade de diagnóstico, tratamento e reabilitação de doentes com patologia do foro musculosquelético, mas, também, a capacidade de intervenção na prevenção dos acidentes e doenças laborais que estão na sua génese.

PA: Por que motivo seguiu, paralelamente à especialidade em Ortopedia e Medicina Desportiva, o caminho da subdiferenciação em Ortopedia Infantil?

AC: A Ortopedia Infantil, desde cedo, esteve presente no meu percurso formativo, que cruzou durante largos anos com a prática do Prof. Dr. Gilberto Costa, Ortopedista de referência na Ortopedia Pediátrica. A observação de situações complexas e frequentemente raras, em que pude participar durante mais de oito anos, criaram em mim uma vontade paralela de evoluir no domínio desta valência especifica. A cirurgia em idade pediátrica terá uma repercussão para toda a vida da criança e, portanto, torna-se fundamental a melhoria da acuidade diagnóstica, das decisões terapêuticas e dos resultados obtidos, promovendo cuidados prestados à criança/adolescente com excelência.

PA: Aprofundando melhor este tema, como é que as lesões ortopédicas em crianças podem afetar o seu desenvolvimento físico e emocional? Podemos dizer que até na saúde é necessário ter uma maior sensibilidade quando o assunto são as crianças?

AC: O desenvolvimento do aparelho locomotor das crianças e adolescentes e as suas patologias são muito específicos e necessitam de ser abordados de acordo com as suas particularidades, uma vez que as crianças não são “adultos em ponto pequeno”. Estas patologias, frequentemente, têm um impacto muito significativo nas crianças e nas suas famílias, tanto a nível emocional como social, pela ausência escolar e laboral por parte dos cuidadores. Torna-se de particular relevância a prática clínica de qualidade, derivada de atualização científica adequada e numa área tão vasta como é a Ortopedia Pediátrica. A Medicina Desportiva tem também um papel essencial na prevenção de lesões traumáticas desportivas e no desenvolvimento societal em idade pediátrica.

PA: Ao longo da sua carreira, já passou por vários hospitais, em diversas zonas do nosso país. Quais diria serem as maiores dificuldades e obstáculos enfrentados pelos médicos atualmente? Nota que os problemas/desafios que enfrentou variam de localidade para localidade?

AC: As principais dificuldades prendem-se com a falta de recursos humanos e materiais que impossibilitam, muitas vezes, que os profissionais de saúde prestem os cuidados de saúde com a qualidade que gostariam. Destaco a elevada qualidade de formação e experiência destes profissionais que trabalham diariamente no nosso país para servir a população, muitas vezes com condições de trabalho aflitivas e com prejuízo da sua própria saúde física e mental.  Outro problema transversal é precisamente a dificuldade no financiamento de investigação clínica e a sua conciliação com aquilo que é a nossa prática clínica de facto. Esta situação é acompanhada de uma sensação de impotência e insatisfação com o trabalho realizado diariamente nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde. O pouco investimento na investigação não permite um avanço na qualidade dos cuidados de saúde prestados no futuro.

PA: Muitos procuram prestígio e reconhecimento, outros estão apenas a cumprir um sonho. No seu caso, quais considera serem as suas maiores conquistas a nível profissional?

AC: O princípio hipocrático de Primum non nocere tem sido uma presença constante durante todo o meu percurso: a vontade de “fazer” associada ao ímpeto cirúrgico natural, nunca se sobrepôs à minuciosa avaliação, estudo e discussão com vista à melhor opção perante um problema. Foi este um dos principais ensinamentos que considero ter adquirido. Tenho de mencionar nas minhas conquistas os estágios a nível nacional e internacional com médicos de renome e considerados peritos nas áreas em que construí o meu percurso, com quem criei sólidas amizades e com quem mantenho contacto e troca de ideias. Em modo resumido, a principal conquista continua a ser a satisfação em evoluir diariamente a nível profissional e pessoal, mantendo sempre a vontade de fazer mais e melhor.

PA: Hoje, mais de uma década após ter iniciado o seu percurso profissional, como se descreve enquanto médico, em cada uma das suas áreas de especialidade?

AC: Acima de tudo, a dedicação é um atributo que considero particularmente importante quando nos referimos à saúde da população e às repercussões, positivas ou nefastas, que podemos ter na sua vida. Ao longo do meu percurso, inevitavelmente, cresci e tornei-me mais consciente das minhas capacidades e, das minhas limitações, que me fizeram procurar outros níveis de conhecimento e outras realidades. Esta evolução fez com que me tornasse num profissional que aceita o desafio diário da constante busca pelo saber e pelo aperfeiçoamento da técnica, mantendo o respeito pela condição humana. Tendo em conta a prática clínica que exerço em diferentes locais e por várias horas semanais, o desgaste profissional e familiar é real. Apesar disso, o nível de satisfação pessoal pesa mais na balança no fim do dia.

PA: Relativamente ao seu futuro, quais são as metas que ainda pretende alcançar? Tem algum grande sonho profissional que gostaria de ver realizado?

AC: Pretendo, no futuro, continuar a consolidar o meu trabalho na patologia ortopédica degenerativa, desportiva e pediátrica, fortalecer a relação médico-doente com a prestação do melhor cuidado aos doentes, adaptando as técnicas aos progressos que vão surgindo. O objetivo final será sempre tratar os doentes com dedicação e humanidade. Quero, ainda, deixar o meu contributo, o meu legado: irei manter, tanto quanto for possível, a atividade de docência no ensino superior e assim como o desenvolvimento de atividade de investigação clínica como estudante de Doutoramento da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Num mundo em que o ritmo do desenvolvimento é cada vez maior, tenho plena consciência e convicção que a cada nova etapa, novos desafios se colocam, sendo o aprofundamento dos conhecimentos cada vez mais fulcral. Não obstante, possuo algo bem definido: o ato contínuo de estudo, aperfeiçoamento e atualização do conhecimento, aliado à humildade profissional e ao bom senso e respeito pela condição humana, deverão sempre ser o farol. Só esta busca incessante da perfeição, aliada à humildade e boa prática enquanto Homem e enquanto Médico, pode levar a uma vida profissional gratificante e duradoura.

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