“Hoje somos, por mérito próprio, a maior instituição de ensino politécnico entre Lisboa e Coimbra”
A Perspetiva Atual esteve à conversa com João Moutão, presidente do Politécnico de Santarém, para conhecer as suas ambições para o próximo ano letivo. Com cerca de 5.500 estudantes e quase meio século de história, o responsável assume que os estudantes vão encontrar uma instituição que se prepara para ver o seu alcance crescer além-fronteiras. Entre as principais novidades estão a nova licenciatura em Fisioterapia, o investimento de 7,6 milhões de euros no alojamento estudantil e a aposta na internacionalização, através da aliança europeia ACE2-EU e da participação na Web Summit Rio 2026.
Perspetiva Atual: Entre o ritmo urbano de Santarém e a tranquilidade de Rio Maior existe um projeto de ensino superior que, desde a sua criação em 1979, tem vindo a conquistar cada vez mais estudantes. Para quem ainda não conhece o IP de Santarém, o que pode encontrar quem o escolhe para construir o seu futuro?

de Santarém
João Moutão: Quem escolhe o Politécnico de Santarém encontra uma instituição que se reinventou. Em quase cinco décadas, tornarmo-nos numa instituição que produz conhecimento e dialoga com o mundo.
Hoje somos, por mérito próprio, a maior instituição de ensino politécnico entre Lisboa e Coimbra, acolhendo cerca de 5500 estudantes, não só em Santarém e Rio Maior, mas também em Azambuja, Vila Franca de Xira, Alcobaça, Torres Vedras e muitas outras localidades. Estamos, na prática, a dar resposta à nova região Oeste e Vale do Tejo — a nova NUT II que redesenha o território, e na qual o Politécnico assume um papel central.
Mas a dimensão é o menos importante. O que nos distingue é a proximidade: aqui o estudante não é um número. Tem acompanhamento próximo, ligação forte à prática e ao tecido económico da região, e uma porta aberta para a Europa desde o primeiro dia. Encontra cinco escolas com áreas complementares — educação, saúde, desporto, ciências agrárias, gestão e tecnologia — e um percurso que vai da licenciatura ao doutoramento sem sair do Ribatejo. É uma instituição à escala humana, com ambição nacional e europeia.
“Hoje somos, por mérito próprio, a maior instituição de ensino politécnico entre Lisboa e Coimbra, acolhendo cerca de 5500 estudantes, não só em Santarém e Rio Maior, mas também em Azambuja, Vila Franca de Xira, Alcobaça, Torres Vedras e muitas outras localidades”
PA: Quando diferentes áreas do conhecimento se cruzam, surgem as ideias mais inovadoras. Uma vez que este Politécnico integra cinco escolas com áreas distintas, acredita que esta diversidade tem potencial para impulsionar projetos conjuntos e experiências de aprendizagem mais enriquecedoras?
JM: Acredito, e é uma das nossas maiores forças. Ter cinco escolas com áreas tão distintas — da educação à saúde, do desporto à agricultura, da gestão à tecnologia — significa reunir competências que raramente se encontram juntas. E é no cruzamento dessas áreas que nascem as respostas mais inovadoras.
Dou exemplos concretos: a saúde e o desporto encontram-se na prevenção e na reabilitação; as ciências agrárias e a tecnologia cruzam-se na inovação alimentar; a educação atravessa tudo, porque formar quem vai ensinar é formar o futuro. O nosso primeiro doutoramento, em Ciências do Desporto, nasceu desta lógica de somar forças — em consórcio com cinco outros politécnicos. A diversidade não é um somatório de escolas isoladas: é uma plataforma de colaboração que prepara melhor os estudantes para um mundo que já não vive em compartimentos estanques.
PA: Embora a empregabilidade continue a ser um dos maiores desafios do ensino superior, este Politécnico tem apresentado resultados bastante positivos nesse campo. Como preparam os seus estudantes para o mercado de trabalho e que papel desempenha a rede antigos estudantes (Alumni) nesse percurso?
JM: Os nossos resultados de empregabilidade estão entre os melhores do país, e isso não acontece por acaso. O ensino politécnico tem uma vocação clara: formar profissionais preparados para o mercado de trabalho. Por isso o contacto com o mundo real começa cedo — em estágios, em projetos com empresas e instituições da região, e com docentes que conhecem o terreno onde os nossos diplomados vão trabalhar. A rede de antigos estudantes é cada vez mais importante neste percurso. Os nossos Alumni são a melhor prova do que fazemos: estão hoje em empresas, escolas, hospitais, clubes e autarquias por todo o país e além-fronteiras. Queremos que regressem — como mentores, parceiros de estágio e elos com o mercado. Um antigo estudante que abre uma porta a quem agora termina o curso vale mais do que qualquer folheto. É também assim que ajudamos a fixar talento qualificado na região.
PA: Se o ensino forma profissionais, a investigação é o passo seguinte, levando o conhecimento para a sociedade. Como têm as unidades de investigação contribuído para o desenvolvimento de projetos com impacto na comunidade e no tecido empresarial?
JM: É aqui que está, para mim, a transformação mais profunda dos últimos anos. O Politécnico de Santarém é hoje o terceiro politécnico do país em produção científica, segundo o ranking SciMago. Deixámos de ser uma instituição centrada apenas no ensino para passar a investigar e a levar esse conhecimento à sociedade. As nossas unidades de investigação trabalham lado a lado com empresas, autarquias e instituições — na saúde, no desporto, na educação, na agricultura e no ambiente. Investigamos para resolver problemas reais e criar valor no território. Foi esse percurso que nos permitiu dar um passo histórico — passámos a poder conferir o grau de doutor, ao abrigo da Lei n.º 16/2023. Para um politécnico, chegar ao topo da formação avançada é a prova de que a ciência feita em Santarém tem qualidade reconhecida e impacto real.

PA: Que importância assume a mobilidade académica na formação dos estudantes e na projeção internacional da instituição, tendo em conta iniciativas como o Erasmus+ e a participação em eventos como a Web Summit Rio 2026?
JM: A mobilidade é hoje parte essencial da formação. Lideramos a ACE2-EU, uma aliança de nove universidades europeias de nove países. Um politécnico do Ribatejo a coordenar uma universidade europeia: é esta a dimensão a que chegámos. Em outubro de 2025 realizámos o primeiro congresso anual da aliança e, ao longo do ano, levamos e recebemos estudantes e docentes em mobilidade permanente.
O Erasmus+ continua a ser a base — abre horizontes e muda vidas. Mas vamos mais longe: estar em palcos como a Web Summit Rio 2026 mostra que queremos projetar Santarém e o Ribatejo no mundo e atrair o mundo até cá. Costumo dizer que, hoje, estudar em Santarém é estudar na Europa. E não é uma frase de circunstância: é uma realidade que o estudante vive desde o primeiro ano, sem ter de mudar de cidade.
PA: Escolher uma instituição é também pensar na qualidade de vida que pode proporcionar aos estudantes. De que forma o investimento em novas residências e no apoio ao alojamento tem melhorado as condições para os estudantes e tornado Santarém uma verdadeira cidade académica?
JM: A qualidade de vida dos estudantes é uma prioridade, porque ninguém estuda bem sem condições para viver. Nos últimos anos investimos cerca de 7,6 milhões de euros, com apoio do PRR, em alojamento estudantil — requalificámos centenas de camas e criámos novas residências. É um investimento de justiça: garante que estudar em Santarém não depende do código postal nem do rendimento de cada família. Mas uma cidade académica é mais do que camas — é vida. Os nossos estudantes dão energia a Santarém, ao comércio, à cultura, ao centro histórico, e queremos que se sintam em casa. Apostar no alojamento é apostar na fixação de jovens: muitos dos que vêm estudar acabam por construir aqui a sua vida. Quando alguém encontra em Santarém um sítio onde vale a pena ficar, ganha o estudante, ganha a instituição e ganha toda a região.
“Reforçámos a oferta formativa para responder às necessidades da região, com destaque para a nova licenciatura em Fisioterapia, que responde ao envelhecimento e à procura crescente de cuidados, e continuamos a alargar a formação avançada, do mestrado ao doutoramento”
PA: As regras que moldam uma instituição acabam, muitas vezes, por definir a velocidade a que consegue evoluir. Na sua perspetiva, de que forma a revisão do RJIES poderá criar novas condições para que o Politécnico continue a crescer e a reforçar a sua projeção?
JM: O enquadramento legal conta, e muito — pode acelerar ou travar uma instituição. O novo RJIES, aprovado este ano, abre um caminho decisivo: prevê que os politécnicos sejam reconhecidos como universidades politécnicas. Para o Politécnico de Santarém, isto não é uma mudança de nome — é o reconhecimento de uma realidade já construída: produção científica de excelência, doutoramentos próprios e uma presença europeia consolidada.
Valorizo sobretudo o reforço da autonomia que a nova lei traz: estratégica, financeira e patrimonial. Mais autonomia significa decidir mais depressa, planear a longo prazo e responder às necessidades concretas da região. A Universidade Politécnica do Ribatejo é um projeto da região — e o novo quadro legal dá-nos as condições para o concretizar.
PA: Daqui a poucos meses arranca um novo ano letivo. Que novidades apresenta o Politécnico de Santarém?
JM: O próximo ano letivo é de afirmação. Reforçámos a oferta formativa para responder às necessidades da região, com destaque para a nova licenciatura em Fisioterapia, que responde ao envelhecimento e à procura crescente de cuidados, e continuamos a alargar a formação avançada, do mestrado ao doutoramento.
Nas infraestruturas, concluímos um ciclo de investimento de cerca de 40 milhões de euros, onde se destaca o novo auditório de um Living Lab no Complexo Andaluz, a par do forte reforço do alojamento estudantil.
Mas a maior novidade é o rumo. Tudo o que fazemos serve quatro propósitos simples: atrair talento, produzir conhecimento, apoiar as empresas e fixar população no território. É esta a missão de um politécnico que se prepara para ser a Universidade Politécnica do Ribatejo — uma instituição da região, para a região e com o mundo à vista.

