“Mais do que uma escola, uma família”

Sonhado pela Madre Teresa de Saldanha, o Externato de São José concretiza a missão das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena e prolonga, no presente, um legado educativo com quase sete décadas, alicerçado em valores como a humanidade, a fé e a responsabilidade social. À conversa com a Perspetiva Atual, a irmã Maria do Rosário explica como esta herança tem inspirado o percurso da instituição e os objetivos já traçados para o futuro.

Perspetiva Atual: Considerando a herança desta instituição, como é que o passado influencia as convicções e práticas educativas que transmitem aos alunos no presente?

Irmã Maria do Rosário: Falar do ESJ é falar de uma história que ultrapassa gerações. É falar de um projeto educativo que não nasceu apenas de uma necessidade académica, mas de uma vocação: a de formar integralmente a pessoa humana. Inspiradas pelo legado de Madre Teresa de Saldanha, fundadora da Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, estas assumiram, desde cedo, a missão de educar com exigência intelectual, mas também com humanidade, fé e sentido de responsabilidade social. Ao longo de quase sete décadas de história, atravessámos transformações profundas — nos programas, nas metodologias, nas tecnologias e até nas mentalidades. O quadro de giz deu lugar aos projetores, aos computadores e às plataformas digitais.

As turmas cresceram em diversidade e complexidade. Contudo, algo permaneceu inalterado: a centralidade do aluno como pessoa única e irrepetível. A nossa casa nunca foi apenas um espaço de transmissão de conhecimentos. É uma comunidade educativa onde se aprende a pensar criticamente, a dialogar, a respeitar e a servir. A pedagogia dominicana, assente no estudo, na reflexão e na busca da verdade, continua a ser um pilar estruturante. Ainda hoje, a presença das Irmãs Dominicanas não se limita a uma herança. É uma presença viva, discreta e firme, que recorda diariamente que educar é um ato de esperança.

Num mundo frequentemente marcado pelo imediatismo e pela fragmentação, esta visão oferece profundidade e sentido. E enquanto houver educadores dispostos a ensinar com dedicação e instituições comprometidas com valores duradouros, haverá esperança no futuro. Porque educar, como nos ensina a tradição dominicana, é sempre um ato de fé na pessoa e na sociedade. Ontem e hoje.

PA: A oferta educativa do externato abrange as etapas mais significativas do crescimento e da aprendizagem, desde o jardim de infância até ao ensino secundário. Como estas propostas pedagógicas são organizadas e renovadas continuamente para assegurar uma sólida formação académica aos jovens?

IMR: A oferta educativa do ESJ organiza-se de forma contínua e articulada, acompanhando todas as etapas de desenvolvimento dos alunos. No pré-escolar, valorizam-se as competências essenciais e o envolvimento das famílias, integrando áreas como Inglês, Música e Educação Física desde os três anos, asseguradas por docentes especializados, e Despertar da Fé, nos cinco anos.

Nos ciclos do ensino básico e no secundário, mantêm-se princípios comuns: rigor, responsabilidade, criatividade e a utilização adequada das tecnologias. O currículo integra disciplinas estruturantes, oferta complementar, apoio ao estudo e incentivo ao ensino experimental, reforçado por projetos e pelo trabalho cooperativo entre professores, de que a lecionação de Educação Visual e Educação Tecnológica em par pedagógico é um exemplo.

A renovação pedagógica é contínua: no início de cada ano definem-se articulações e pré-requisitos; após cada avaliação ajustam-se práticas e estratégias e os resultados das provas externas são analisados de modo a proceder aos reajustamentos necessários e garantir um ensino de qualidade.

PA: No âmbito do projeto “ConTigo”, os alunos participam numa experiência interdisciplinar, onde têm contacto direto com uma pequena comunidade rural, ao longo de uma semana durante o período letivo. Como esta experiência enriquece a formação pessoal e académica dos estudantes?

IMR: O “ConTigo” é um dos projetos mais queridos do nosso ESJ. Ao longo de uma semana, os alunos voluntários, sobretudo do oitavo ano de escolaridade, estão disponíveis e ao serviço da comunidade que visitamos. Para tudo: cozinhar, ajudar no campo, tratar dos animais, fazer companhia e ouvir. Sobretudo ouvir. E acreditem, na despedida, há sempre muitas lágrimas, nossas e das pessoas com quem estivemos. Perguntam como é que esta experiência enriquece a formação pessoal e académica dos nossos alunos?

Muito simples: promove o contacto com as pessoas, desenvolvendo o sentido comunitário e a noção de missão, de encontro intergeracional e de contribuição para a felicidade do outro; possibilita um conhecimento profundo da realidade, confrontando os jovens com o isolamento, com o envelhecimento e, por vezes, com o desconforto; incute o gosto pelo voluntariado; desenvolve a proatividade e a criatividade, desafiando os alunos à iniciativa, à ação e à resolução de problemas, e treina competências transversais como comunicação, adaptação, responsabilidade, respeito e cooperação.

PA: Que outras ações promovem para integrar a dimensão religiosa e pastoral no quotidiano escolar, garantindo o bem-estar e o espírito de pertença entre toda a comunidade educativa?

IMR: No ESJ desejamos que a dimensão religiosa e pastoral não seja mais uma dimensão entre outras, mas, sim, a dimensão que une todas as outras no desenvolvimento integral dos nossos alunos, assim como do pessoal docente e não docente. As diferentes ações que promovemos são pensadas e preparadas, para que a mensagem cristã possa chegar a todos, independentemente do seu credo religioso.

Na nossa componente letiva temos integrados o Despertar da Fé, a catequese (1.º CEB) e a disciplina de Crescer na Fé (2.º e 3.º CEB), além de EMRC. Diariamente, temos oração da manhã em todos os ciclos e promovemos ações como a preparação e celebração dos sacramentos de iniciação cristã; retiros; Bênção das Famílias (JI); Procissão de Nossa Senhora; Festa da Palavra (4.º ano); À descoberta da Torre (5.º ano); Visita ao Museu Teresa de Saldanha; Caminhar com Maria (Secundário); Eucaristias assinalando dias especiais da comunidade educativa; Mês Missionário; Campanhas de Advento e Quaresma; ESJ em Caminho (JMJ 2023, Peregrinação a Santiago de Compostela, Jubileu Roma 2025, Missão Madeira 2026); Peregrinação do Rosário e da Família Dominicana; momentos de formação e Jornadas Pedagógicas Teresa de Saldanha (docentes e não docentes).

Em toda esta dinâmica da Pastoral contamos com a colaboração e presença diária da comunidade das Irmãs Dominicanas e dos Frades da Ordem dos Pregadores.

PA: Sendo a arquitetura uma das mais-valias desta instituição, concebida por Vasco Regaleira, com galerias amplas, salas generosas e corredores decorados com azulejos da Fábrica Sant’Anna, como é garantida a qualidade e modernidade das infraestruturas?

IMR: A nossa fundadora, Madre Teresa de Saldanha, valorizava profundamente a qualidade dos espaços educativos, defendendo que estes deveriam ser dignos, organizados e cuidados, pois o ambiente físico é essencial para a formação integral dos alunos.

A arquitetura é, efetivamente, uma das grandes mais-valias da nossa instituição. E nós procuramos honrar diariamente esse legado, preservando a traça original que nos distingue. As galerias amplas, as salas generosas e os corredores e azulejos que referem são cuidadosamente mantidos, através de um plano rigoroso de conservação e valorização do património.

A qualidade e modernidade das infraestruturas são garantidas por um investimento contínuo na atualização tecnológica e funcional, na renovação dos equipamentos, na manutenção preventiva e na melhoria dos sistemas técnicos, sempre através de soluções discretas e integradas que respeitam a identidade arquitetónica do edifício. Adaptamos o mobiliário e os recursos pedagógicos para responder às exigências do ensino moderno, mantendo o ambiente solene e acolhedor que só um edifício com esta história pode proporcionar. Assim, conseguimos equilibrar tradição e inovação.

PA: Na formação das novas gerações e num contexto cada vez mais marcado pela era digital, o externato enfrenta o desafio de preservar os seus valores e conciliar a inovação com a sua identidade. Como capacitam os alunos para esta nova realidade? O que há de singular nesta instituição?

IMR: O digital não nos assusta. Enquanto escola de identidade católica, assumimos a responsabilidade de formar jovens capazes de habitar este mundo digital com competência, espírito crítico e uma consciência ética, enraizada nos valores que transmitimos. A tecnologia é integrada com discernimento, subordinada à dignidade humana e ao bem comum. Promovemos uma literacia digital crítica, consciente e responsável, iluminada por princípios éticos claros. O que nos distingue é esta síntese entre fé, cultura e vida.

Não vemos contradição entre inovação e identidade; vemos complementaridade. Somos uma escola que integra a modernidade tecnológica com uma visão cristã da pessoa humana. Conhecemos os nossos alunos pelo nome, acompanhamos o seu crescimento com proximidade e somos exigentes com eles, porque o mundo também o vai ser. Este mundo. O de agora. O digital. Se isto é fácil de concretizar? Não é. É uma luta diária e constante. Mas um educador não desiste de educar. Está-nos na alma. E uma casa, mesmo esta com quase sete décadas de existência, constrói-se todos os dias. Num permanente jogo de equilíbrio entre inovação e identidade.

PA: “Mais do que uma escola, uma família” é o lema do externato. Em retrospetiva, como é que este lema tem sido concretizado ao longo de tantos anos?

IMR: Uma das decisões mais importantes que os pais tomam, enquanto pais, é a escola que escolhem para os seus filhos. É na escola que estes passam grande parte dos seus dias até se tornarem jovens adultos; é onde crescem, aprendem, moldam o seu carácter e adquirem as bases académicas para o futuro. O percurso desta formação só pode ser vivido em harmonia e equilíbrio com os pilares e valores transmitidos em família. Todas as manhãs o ESJ recebe os filhos que nos são confiados, com dedicação, amor e sentido de missão.

Os nossos pais dizem-nos que, de dia para dia, sentem que os seus filhos crescem felizes e com as aprendizagens certas, o que lhes permite crescer seguros e ter um sólido percurso académico. Para os nossos pais, o coração de um filho bate de forma mais confiante e segura quando encontra harmonia e significado no seu caminho. É isso que tentamos ser: uma real complementaridade dos valores ensinados em casa.

PA: Com a chegada de uma nova direção, o colégio traça uma linha estratégica renovada para orientar o seu desenvolvimento. Quais são as prioridades para 2026?

IMR: A bem da verdade, o atual ano letivo tem sido um ano de transição. Um ano de dar resposta às solicitações diárias, enquanto se prepara um novo Projeto Educativo de Escola, para o período de 2026 a 2029. E o que pretendemos para os próximos três anos? Consolidar uma cultura de excelência, coerente com a nossa missão católica. E isto passa por reforçar a excelência académica com sentido vocacional.

Queremos resultados sólidos, mas sobretudo jovens que descubram o sentido da sua vocação. Apostaremos na formação contínua do corpo docente, em práticas pedagógicas exigentes e numa avaliação rigorosa, transparente e orientada para a melhoria. Quer de alunos, quer de professores. Por outro lado, pretendemos consolidar a identidade católica no quotidiano escolar. A fé não é um elemento decorativo, mas estruturante.

Reforçaremos a dimensão pastoral, os momentos de oração e reflexão, e a integração dos valores cristãos nas diversas áreas curriculares. Pretendemos que a nossa identidade seja visível nas relações, no ambiente e nas decisões.

Por fim, fortalecer a aliança educativa com as famílias. Enquanto escola católica, reconhecemos os pais como primeiros educadores. Desejamos que sejam exigentes e alinhados com os valores do respeito, compromisso, honestidade, responsabilidade. Sobretudo para bem dos nossos alunos. A nossa ambição é clara: formar jovens academicamente competentes, espiritualmente sólidos e humanamente comprometidos. Jovens capazes de excelência, mas também de compaixão; preparados para o ensino superior e para o mundo do trabalho, mas sobretudo preparados para viver com sentido, fé e responsabilidade. E duas ou três pitadas de sonho.

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