IAP-PM abre portas à inovação tecnológica
Compreender o que acontece dentro das células, nos genes e nas vias de sinalização é fundamental para decidir tratamentos e antecipar respostas. No Instituto de Anatomia Patológica e Patologia Molecular (IAP-PM), com mais de 100 anos de vida, a investigação alia-se a uma visão que procura “caminhar para o futuro de mãos dadas com o passado”. À frente de uma nova direção, Vítor Sousa lidera uma fase de transição assente na patologia digital e na inteligência artificial. Esta renovação estende-se também ao Museu de Anatomia Patológica que passa a integrar um museu virtual interativo com modelos 3D de peças selecionadas do espólio.
Perspetiva Atual: É inevitável abordar o papel do Instituto de Anatomia Patológica e Patologia Molecular (IAP-PM) na formação de profissionais e na produção de conhecimento em Portugal. De que forma essa trajetória histórica tem influenciado as práticas pedagógicas e os valores atualmente promovidos pelo Instituto?
Vítor Sousa: Com mais de um século de história, o Instituto de Anatomia Patológica e Patologia Molecular (IAP-PM) destaca-se pelo rigor técnico e científico, pela consciência ética, compromisso dos colaboradores e a proximidade com a comunidade, com vista na inovação constante. Sediado no Polo I da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), desde 1956, o Instituto continua a contribuir de forma decisiva para formação de gerações de profissionais, que aplicam saberes alicerçados no espírito crítico e exigência científica ligados a novas tecnologias, sem nunca esquecer a sua vasta História e os ensinamentos e valores dos antigos mestres, patentes no Museu do mesmo.

PA: A entrada de uma nova direção, após 22 anos, marca o início de uma nova etapa institucional. Que desafios e mudanças se antecipam nesta fase?
VS: A nova direção chega ao IAP-PM com a consciência de que herda uma casa cheia de História e ainda com potencial para explorar. No entanto, existem desafios relacionados com a revolução tecnológica aplicada à pedagogia, no que toca à combinação de novas metodologias e aos laboratórios, com o desenvolvimento da patologia digital. Além disso, relativamente ao Museu de Anatomia Patológica (MAP), a organização do acervo histórico e a modernização tecnológica e virtualização do mesmo representam uma preocupação emergente.
Apesar destes desafios, esperam-se grandes desenvolvimentos no serviço prestado à comunidade através do desenvolvimento e disponibilização de novos testes de patologia molecular nas áreas do cancro do pulmão, mama, bexiga e colorretal. Neste sentido, estão a ser desenvolvidas e implementadas tecnologias de digitalização, aplicações digitais e a dinamização e incremento de equipa de colaboradores que permitem estes desígnios.
PA: Como está estruturada a oferta formativa e de que forma responde às necessidades de estudantes, profissionais e investigadores?
VS: O IAP-PM tem como principais objetivos o ensino pré e pós-graduado de Anatomia Patológica, auxiliando o desenvolvimento de dissertações de Mestrado e teses de Doutoramento em várias áreas do domínio científico, colaborando com profissionais e estudantes de diferentes formações, tais como Medicina, Biologia, Ciências Biomédicas, História, Antropologia e Museologia. Além disso, organiza de forma regular cursos na área da Patologia Molecular, contribuindo para a formação de Internos de Especialidade em Anatomia Patológica, nomeadamente na valência de Patologia Molecular.

PA: Que resultados têm vindo a ser alcançados, tendo em conta a diversidade de áreas de investigação deste Instituto? E, dentro desse contexto, poderia destacar alguns projetos e parcerias em curso, explicando de que modo contribuem para o avanço do conhecimento?
VS: O IAP-PM tem desenvolvido projetos de elevado valor científico e tecnológico com vista à transição digital dos laboratórios e do Museu, com o apoio de centros de tecnologia e informação, como a BMD e a CCG, através da criação de aplicações pedagógicas para o ensino e divulgação da saúde. Destacamos três projetos com financiamento europeu, impulsionados pela agenda HfPT (Health from Portugal) – PRR.
Destacando-se a plataforma Pathobox, que permite o arquivo de imagens digitais, evidenciando a evolução do laboratório em direção à patologia digital; esta plataforma permite desenvolver e integrar algoritmos de inteligência artificial e outras ferramentas digitais aplicadas ao diagnóstico e investigação científica.
Relativamente ao desenvolvimento pedagógico, está a ser implementado um simulador virtual de macroscopia, que permitirá o ensino de forma interativa através de virtualização 3D, com impacto no ensino pré e pós-graduado.
Por último, assumindo o valor do nosso passado, foram concebidas soluções tecnológicas inovadoras e orientadas para a digitalização das peças do Museu, com vista à criação de um Museu Virtual interativo. Esta plataforma incorporará modelos 3D de peças selecionadas do espólio, permitindo a acessibilidade da coleção a um público amplo e diversificado, bem como à comunidade académica e científica, potenciando a investigação em diversas áreas do conhecimento.
O mesmo investimento permitiu modernizar o discurso expositivo do Museu, com a introdução de ecrãs interativos, que exploram de forma dinâmica a história da instituição e o processo de digitalização do seu espólio.

PA: Considera que os laboratórios e as infraestruturas potenciam estes resultados? Estes recursos têm melhorado a qualidade do ensino e a pesquisa?
VS: É de evidenciar a importância do investimento impulsionado por estes projetos PRR, que possibilitaram a modernização do Instituto através da aquisição de numerosos equipamentos, que proporcionaram a difusão da digitalização nos laboratórios, como scanners de alta resolução, sistemas de gestão digital, plataformas de análise, que modernizaram o fluxo de trabalho e criaram as bases para integrar inteligência artificial e métodos avançados de apoio ao diagnóstico.
Esta modernização liberta tempo, minimiza erros e aproxima o Instituto dos padrões internacionais de excelência, com ganho na qualidade de ensino e no potencial de investigação.

PA: Desde 2004, o IAP-PM tem vindo a alargar significativamente o leque de testes genéticos de diagnóstico, prognóstico e terapêutica em Patologia Molecular. O que é que esta evolução nos diz acerca das novas exigências da medicina e o papel do Instituto em resposta a essas necessidades a nível nacional e internacional?
VS: O Instituto de Anatomia Patológica e Patologia Molecular da FMUC engloba vários laboratórios nas áreas de anatomia patológica e patologia molecular que prestam serviços em diagnóstico anátomo-patológico e de patologia molecular à comunidade geral e científica, sendo reconhecido como laboratório de referência a nível nacional e, em áreas específicas, a nível internacional.
O foco do IAP-PM é a concretização do desígnio da Medicina Personalizada/Medicina de Precisão através da pesquisa de biomarcadores moleculares com impacto clínico no diagnóstico, prognóstico e tratamento, na área da oncologia com ênfase nas neoplasias mais frequentemente diagnosticadas, como o cancro do pulmão, cancro da mama, cancro colorretal e cancro da bexiga.
Para conseguir dar esta resposta, o IAP-PM fez um considerável investimento na área da Patologia Molecular, com recurso a diferentes tecnologias como a sequenciação de nova geração (NGS), PCR em tempo real, Digital PCR e FISH, que têm impacto a nível da formação, da investigação, inovação em ciência e prestação de serviço altamente diferenciado à comunidade.
A medicina atual deixou de olhar para a doença apenas através da morfologia. Hoje, compreender o que acontece dentro das células, nos genes e nas vias de sinalização tornou-se essencial para decidir tratamentos, prever respostas e personalizar cuidados.
PA: O Museu de Anatomia Patológica do IAP-PM reúne um espólio único que cruza história, ciência e ensino, com peças que remontam ao século XIX e uma forte ligação à evolução da disciplina em Coimbra. Considera que este património contribui para a formação dos estudantes e para a preservação da identidade científica do instituto?
VS: O Museu de Anatomia Patológica do Instituto tem origem nas primeiras décadas do séc. XIX, com o Dr. Carlos José Pinheiro, preparador no Teatro Anatómico, que reuniu e inventariou cerca de 300 espécimes, formando um primeiro conjunto de materiais didáticos destinados ao estudo de lesões e doenças.
Em 1861, sucede a continuação deste projeto, através da criação oficial do Gabinete e cadeira de Anatomia Patológica, pelo Prof. Dr. Francisco António Alves, que assume o papel de primeiro Diretor e Professor, estruturando este espaço dedicado ao estudo das patologias, base do atual Instituto, assim oficializado pelo Decreto de 22 de fevereiro de 1911.
Hoje, o Museu tem vindo a redefinir o seu papel, assumindo novas práticas expositivas e renovando as suas estratégias educativas, integrando e resguardando o acervo através de práticas museológicas atuais. As coleções constituem o eixo central da identidade do Museu de Anatomia do IAP-PM, distinguindo-o pelo seu relevante valor histórico e científico.
O seu acervo documenta a História da Medicina, da investigação científica e do ensino médico, convidando à reflexão ética, académica e social em torno da saúde e da doença. O seu espólio é composto por diversas coleções de reconhecido interesse histórico e científico — Coleção Osteológica, Modelos Anatómicos, Peças Anatómicas em Líquido Conservante, Cálculos, Peças Anatómicas Desidratadas, Coleção Animal, Instrumentos, Reagentes Químicos e Documentação — constituindo um testemunho singular da medicina portuguesa dos séculos XIX e XX.
O Museu constitui um testemunho vivo da História da Medicina em Coimbra, guardando um património de valor inestimável que exige meios renovados para a sua preservação e divulgação. Foi precisamente neste sentido que o projeto HfPT (Health from Portugal), integrado no PRR (Programa de Recuperação e Resiliência), abordado anteriormente, veio possibilitar um investimento estruturado na investigação, gestão e valorização deste acervo, complementada por uma análise histórica rigorosa, além da inventariação e conservação integral do mesmo, num esforço de interpretar, preservar e partilhar este legado com as gerações presentes e futuras.


PA: Certamente, com os avanços contínuos nas áreas da Anatomia Patológica e Patologia Molecular, o Instituto tem de enfrentar várias mudanças e oportunidades. Quais são as principais prioridades ainda para este ano?
VS: Atualmente, procura-se o desenvolvimento de novas metodologias pedagógicas que tornem o ensino da Anatomia Patológica mais atual e apelativo, mantendo os mais elevados padrões de qualidade, rigor e ética ao serviço da comunidade.
Procuramos também desenvolver e disponibilizar novos testes para dar resposta aos vários desafios diagnósticos que surgem. Pretendemos dinamizar novas parcerias de investigação, potenciando a evolução da transição digital operada no Instituto, mais concretamente a exploração da análise de imagem digital e do algoritmo da Inteligência Artificial.
Pretende-se dar continuidade aos trabalhos desenvolvidos no Museu e alargá-los ao acervo histórico da FMUC, caminhando para o futuro de mãos dadas com o passado.
É de igual importância a formação e a incorporação de uma equipa de colaboradores multidisciplinares cruciais para a concretização dos nossos objetivos, sendo necessária a captação de novos fundos de investimento para a evolução do Instituto.
Com um compromisso contínuo com a inovação e a preservação do seu legado histórico, o IAP-PM e o seu Museu continuam a desempenhar um papel fundamental na evolução da Medicina, unindo ciência, tecnologia e ensino em benefício da saúde e da sociedade. O futuro do Instituto está, assim, alinhado com a missão de transformar e aprimorar a prática médica através da excelência e da colaboração interdisciplinar.


