CITTA volta a ser distinguido com classificação de EXCELENTE
Desenvolver investigação centrada nas questões relativas ao planeamento do território, aos transportes e aos assuntos relacionados com a qualidade do ambiente é o foco do Centro de Investigação, Território, Transportes e Ambiente (CITTA). O processo de avaliação das Unidades de Investigação e Desenvolvimento Portuguesas decorreu em 2025, tendo o CITTA renovado a classificação de excelente, à semelhança de 2018, e o 1.º lugar na sua área de investigação em Portugal. Adelino Ferreira, vice-diretor e coordenador do CITTA na Universidade de Coimbra (UC), apresenta à Perspetiva Atual a dinâmica deste espaço gerador de conhecimento maioritariamente aplicado.
Investigação inter e pluridisciplinar

Coordenador na UC
Para responder de forma eficaz aos novos desafios que se apresentam à sociedade atual, é fundamental a ação concertada dos centros de investigação, das instituições de ensino e das empresas. Centrando a sua atuação nas questões relativas ao planeamento do território, aos transportes e ao ambiente, a investigação desenvolvida no CITTA decorre numa lógica que Adelino Ferreira designa por “Promover as Transições nas Cidades – Fostering City Transitions”, ou seja, com um firme compromisso em influenciar a transformação urbana de modo sustentável.
O CITTA, utilizando a inovação e uma visão de futuro, compromete-se a enfrentar questões prementes como a dependência do automóvel e a falta de segurança na mobilidade das pessoas, as alterações climáticas, a escassez e o custo dos recursos energéticos e materiais, num contexto de transição para modelos mais circulares e resilientes, a crise da habitação, a desigualdade social, entre outras problemáticas.
Este conceito assenta na sua missão de contribuir para que as cidades, na interação dos seus componentes, móveis (fluxos de pessoas, bens e serviços) e imóveis (edifícios, infraestruturas e equipamentos), sejam sistemas eficientes, sustentáveis e que contribuam para a qualidade de vida das pessoas. Falamos de um centro de investigação ímpar a nível nacional, que o seu Vice-Diretor caracteriza como “genuinamente inter e pluridisciplinar”.
O CITTA acolhe cerca de 100 investigadores (cerca de 55% investigadores seniores e 45% investigadores juniores) que se dividem entre dois polos, um na Universidade de Coimbra (UC) e o outro na Universidade do Porto (UP), este último coordenado por Cecília Silva, que é a Diretora do CITTA.
Na UC encontram-se os laboratórios mais relacionados com a engenharia de transportes (Laboratório de Pavimentos Rodoviários e Laboratório de Geotecnia). Na UP encontram-se o Laboratório de Análise de Tráfego e o Laboratório de Sistemas de Informação Geográfica.

No Plano de Atividades para 2025-2029, submetido à Fundação para a Ciência e Tecnologia, foi proposto um novo laboratório (City Analytics Lab) que pretende aumentar as capacidades de investigação e de transferência do conhecimento dos membros do CITTA através do uso de ferramentas de inteligência artificial, incluindo data mining e machine learning, aplicadas à análise de dados territoriais, urbanos, de mobilidade e ambientais.
“Embora vinculados a duas Escolas de Engenharia Civil, uma parte significativa de investigadores do CITTA tem formações diversas para além da Engenharia Civil, designadamente Engenharia do Ambiente, Engenharia Informática, Economia, Geografia, Sociologia, Arquitetura, entre outras formações”, salienta o Vice-Diretor do CITTA.
É neste contexto que destaca que “a investigação produzida é genuinamente inter e pluridisciplinar. Os problemas do território, nas suas diferentes escalas e expressões — das áreas urbanas aos sistemas regionais — são tópicos de investigação muito complexos e temos de recorrer a todos os saberes para os compreendermos e sermos capazes de propor as soluções mais adequadas”, reforça.
“Um projeto de investigação deste tipo é o projeto AllAboard – Inclusive Accessibility in Transport Hubs. Este projeto pretende contribuir para a promoção da acessibilidade inclusiva em interfaces de transportes, focando-se nas barreiras físicas, ao nível da infraestrutura, e não físicas, ao nível da informação e dos serviços digitais que os utilizadores com necessidades especiais de mobilidade encontram no acesso ao transporte público.
A avaliação e a proposta de soluções cocriadas, ajustadas à necessidade dos diferentes grupos, será baseada: (i) na construção de gémeos digitais de estações e na manipulação da infraestrutura e da informação ao público com recurso a realidade virtual; e (ii) na prototipagem de serviços digitais que colmatem necessidades e cumpram os requisitos previamente definidos.
No final, os resultados serão consolidados numa ferramenta de avaliação da acessibilidade e de fornecimento de diretrizes para apoio à gestão das infraestruturas e dos serviços de transporte público, com vista à melhoria da experiência global dos utilizadores.”
“Um outro projeto deste tipo é o projeto WSmart Route+: Towards a Smart Waste Collection Route Planning System, que tem como objetivo promover a eficiência dos sistemas de recolha de resíduos sólidos urbanos com base na sensorização de contentores e otimização de rotas de recolha dos resíduos da empresa ERSUC – Resíduos Sólidos do Centro, S.A.”

Além dos membros integrados e membros colaboradores do CITTA, existem atualmente vários alunos de doutoramento e de mestrado envolvidos em trabalhos de investigação no âmbito dos vários cursos nos quais lecionam os membros do CITTA: Programa Doutoral em Sistemas de Transportes; Programa Doutoral em Planeamento do Território; Programa Doutoral em Engenharia Civil; Programa Doutoral em Engenharia do Ambiente; Mestrado em Gestão de Cidades e Engenharia de Transportes; Mestrado em Engenharia Civil; e Mestrado em Engenharia do Ambiente.
A equipa do CITTA está em constante renovação. Por exemplo, neste momento está a decorrer um concurso para ocupação de um posto de trabalho de investigador(a) doutorado(a) de nível inicial que será mais um membro integrado do CITTA na UC.
Áreas de investigação
Organizado em quatro grandes grupos de investigação, o CITTA direciona a sua investigação em Engenharia e Gestão dos Transportes sob coordenação de Sara Ferreira; um segundo grupo, liderado por Oxana Tchepel, trabalha na área do Planeamento dos Transportes e Ambiente; um terceiro grupo, coordenado por Vitor Oliveira, foca-se nas questões do Planeamento do Território e Ambiente; e um quarto grupo trata das questões da Governação, Políticas Públicas e Habitação, sendo liderado por Paulo Conceição. Os dois primeiros grupos têm maior massa crítica na UC; os dois últimos, na UP.
A natureza do conhecimento produzido no CITTA é, nas palavras do seu Vice-Diretor, “investigação aplicada”, dado que a área do Planeamento, da Engenharia e da Gestão do Território, Transportes e Ambiente distingue-se de outras áreas científicas pelo facto de o produto da sua investigação se traduzir em ações concretas (políticas, planos, projetos, intervenções, etc.). Daí surgem muitos trabalhos de transferência e aplicação de conhecimento, sendo muitas vezes a investigação aplicada a impulsionar o estudo de questões mais relacionadas com a investigação fundamental.
É comum ouvir-se a afirmação de que “em Portugal não existe uma grande cultura de planeamento”, pelo que não pudemos deixar de questionar Adelino Ferreira sobre a qualidade do planeamento do território e dos transportes praticado em Portugal.
O nosso interlocutor entende que “em algumas áreas temos cometido alguns erros, nomeadamente no planeamento e na manutenção de algumas infraestruturas, o que ficou evidenciado, por exemplo, pelo encerramento da A1 em Coimbra devido ao colapso de um troço da autoestrada, resultante das cheias que ocorreram devido às alterações climáticas.
Outro exemplo tem a ver com a elevada sinistralidade rodoviária que tem ocorrido em Portugal. De acordo com os relatórios da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), no Continente e nas Regiões Autónomas, em 2023 registaram-se 36.595 acidentes de viação com vítimas, 642 vítimas mortais, 2.500 feridos graves e 42.873 feridos leves, o que corresponde a um custo económico e social de cerca de 7.200 milhões de euros (incluindo os danos materiais), cerca de 3,0% do PIB desse ano.
Em 2024 e 2025, os valores da sinistralidade rodoviária em Portugal foram idênticos. Reduzir a sinistralidade rodoviária significa poupar recursos financeiros e poupar vidas humanas. Portugal necessita urgentemente de uma Estratégia de Segurança Rodoviária de curto, médio e longo prazo, alinhada com as melhores práticas adotadas internacionalmente e que defina os objetivos a atingir, as medidas e ações mais adequadas, os recursos necessários e os responsáveis pela sua execução.

Outro exemplo é a atual escassez e custo elevado da habitação em Portugal devido à falta de planeamento da construção que se tem verificado nos últimos anos. Espero que 2026 seja um ano melhor do que os anos anteriores nestes e em muitos outros assuntos importantes para Portugal.”
No entanto, o Professor Adelino Ferreira não deixa de reforçar que Portugal tem feito muitos progressos nos últimos anos. Por exemplo, em 2019, Portugal estava em 5.º lugar a nível mundial em termos de qualidade da rede rodoviária nacional, só atrás de Singapura, Suíça, Países Baixos e Hong Kong, tendo-se mantido sempre nos primeiros lugares.
Em termos de rede ferroviária já não se pode afirmar o mesmo, já que esta rede não teve o investimento necessário em conservação e reabilitação ao longo das últimas décadas, em contraciclo com a realidade verificada noutros países europeus.
O debate sobre estas questões faz parte da missão do CITTA, pelo que nos próximos dias 11 e 12 de junho de 2026 vai decorrer em Coimbra o 17th International Conference on Territory, Transports and Environment, sob o mote “Digital Transformation: Rethinking Spatial and Transport Planning” (https://www.uc.pt/fctuc/dec/citta2026/).
Até ao final do ano de 2026 estão previstas outras iniciativas, algumas das quais no âmbito dos projetos de investigação em curso.


