Direção da Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica (SPAP)
SPAP propõe solução digital para promover cooperação entre hospitais
A Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica (SPAP) prepara-se para apresentar uma proposta que poderá marcar o futuro da especialidade em Portugal: a criação de uma Rede Nacional de Patologia Digital. Carla Bartosch, presidente da SPAP, revela que, através desta iniciativa, vai ser possível “pedir uma segunda opinião a outro hospital em minutos e não em semanas”, facilitando o acesso a diagnósticos especializados no interior do país e nas regiões autónomas.
Perspetiva Atual: Não podemos conhecer a SPAP sem perceber, primeiro, em que consiste a Anatomia Patológica enquanto especialidade. O que nos pode dizer sobre esta área da Medicina?
Carla Bartosch: A Anatomia Patológica é a especialidade médica que faz diagnósticos a partir dos tecidos e das células do próprio doente. Sempre que se retira um sinal da pele, se faz uma biópsia a um nódulo da mama ou do pulmão, se remove um pólipo do intestino ou se faz uma cirurgia a um órgão, esse material segue para um serviço de Anatomia Patológica. Aí, os técnicos de Anatomia Patológica preparam-no, e os médicos anatomopatologistas analisam-no ao microscópio, e cada vez mais também no ecrã, em imagem digital. É neste trabalho que se responde às perguntas que decidem o tratamento: é benigno ou maligno? Que tipo de tumor é? Foi totalmente removido? Que alterações moleculares tem? Hoje, um relatório de Anatomia Patológica é muitas vezes o guia que indica ao oncologista qual a terapêutica mais adequada; contudo a sua intervenção não se esgota em doenças oncológicas, tendo um papel importante em doenças inflamatórias e auto-imunes, por exemplo.
É uma especialidade pouco visível. A maioria dos doentes nunca conhece o patologista que fez o seu diagnóstico, nem sabe que ali passou um médico. O que se vê no consultório é apenas um relatório em papel, mas a nossa atividade passa por blocos de parafina, equipamentos sofisticados, horas ao microscópio, muito estudo e frequentemente discussão com colegas sobre todos os achados de cada doente específico. A anatomia patológica está no centro da medicina moderna, em particular da oncologia, e também dos rastreios, como o do cancro do colo do útero.

PA: A 25 de outubro de 1963 nascia a Sociedade Portuguesa de Anatomia Patológica. Recuando a essa época, qual era a sua grande missão e que ainda hoje se mantém?
CB: A SPAP nasceu da vontade de um grupo de patologistas de criar um espaço comum para partilhar conhecimento, formar as gerações seguintes e afirmar a Anatomia Patológica como especialidade de pleno direito. Essa missão mantém-se, mais de seis décadas depois: promover a qualidade do diagnóstico, apoiar a formação contínua e a investigação, e representar a especialidade junto das instituições e da sociedade. O que mudou foram as ferramentas. Passámos do microscópio ótico à biologia molecular e à patologia digital, e o trabalho é hoje feito por equipas multiprofissionais. Mas a razão de ser é a mesma: cada doente merece um diagnóstico rigoroso, seja qual for o hospital onde é tratado.
PA: Entre os projetos desenvolvidos destaca-se o Projeto Linfadenopatias. Que impacto poderá ter este estudo na prática da especialidade?
CB: A medicina está cada vez mais complexa, e dentro da AP já existem subespecialidades, onde muitos colegas se dedicam a áreas específicas, procurando um diagnóstico preciso e rápido em benefício do doente. O projeto surgiu da necessidade de educação continuada em uma área muito específica da Patologia, a hematopatologia. A formação dos patologistas ocorre em diferentes serviços, com diferentes casuísticas e especialidades, e durante muitos anos e em alguns serviços, o diagnóstico de um gânglio linfático limitava-se a dizer se tinha ou não um linfoma (cancro dos glóbulos brancos). Mas com a evolução da anatomia patológica começámos também a ajudar a diagnosticar melhor diversas doenças inflamatórias, autoimunes, e também doenças raras, como por exemplo a Doença de Castleman. Alguns patologistas vão ter estes casos raros apenas uma ou duas vezes na sua vida, e a troca de experiências e a informação continuada são essenciais para que consigam estar preparados para os identificar.
Este projeto tem apoio da indústria, é de livre acesso, e começou com um grupo de hematopatologistas e internos de norte a sul do país, sócios da SPAP e em atividade 100% pro bono, que em conjunto desenvolveram e contribuíram para a construção dos conteúdos. Continua a crescer, e no futuro contamos ter mais informação, incluindo vídeos e casos clínicos.
Esperamos contribuir para uniformizar a abordagem destas amostras em todo o país: que exames complementares devem ser feitos e como se deve comunicar o resultado. Precisamos de diagnósticos mais rápidos e precisos, não apenas na oncologia. É uma chamada de atenção às doenças raras, para que os doentes cheguem sem atrasos ao melhor tratamento possível.
PA: Nos dias 19 e 20 de novembro realiza-se o AI & Digital Pathology Summit. Que perfil de convidados e palestrantes marcarão presença no evento? E relativamente ao tema do evento, acredita que reflete os desafios e oportunidades atuais da Anatomia Patológica em Portugal e no resto mundo?
CB: O AI & Digital Pathology Summit vai realizar-se no IPO Porto. A inovação em patologia só tem impacto real quando os profissionais de saúde, investigadores e indústria trabalham lado a lado. Por isso, o Summit junta patologistas e técnicos de Anatomia Patológica, investigadores, engenheiros que desenvolvem algoritmos de inteligência artificial, gestores hospitalares e decisores, e as empresas que estão a desenvolver as soluções de patologia digital e IA. Não queremos que seja apenas um evento de palestras. Queremos que seja também um espaço de demonstração e de contacto direto com as ferramentas que estão a moldar o futuro da especialidade. Os profissionais de saúde vão poder ver em funcionamento, explorar e comparar as principais soluções de patologia digital e inteligência artificial hoje disponíveis no mercado, e conversar diretamente com quem as desenvolve. É essa proximidade entre a tecnologia e quem a vai usar no dia a dia que acelera a passagem da inovação para a prática clínica.
O tema reflete bem o momento que vivemos. Em todo o mundo, a Anatomia Patológica enfrenta mais casos, casos mais complexos e falta de especialistas. A patologia digital e a inteligência artificial são parte da resposta. Não substituem o patologista, mas ajudam a trabalhar melhor e mais depressa, a obter segundas opiniões à distância e a medir com mais precisão. Em Portugal, a adoção ainda é desigual entre hospitais, e o desafio é fazer esta transição de forma organizada, interoperável e equitativa, para que nenhum doente fique para trás por depender de um hospital com menos meios.

PA: Sabemos que, em breve, será apresentada uma proposta que poderá trazer mudanças à especialidade. Sem revelar ainda todos os detalhes, quais são os objetivos desta iniciativa?
CB: A iniciativa tem um objetivo simples de enunciar e ambicioso de concretizar: que todos os serviços de Anatomia Patológica do país possam trabalhar em formato digital e ligados entre si, numa rede nacional. Esta já é uma prática comum em muitos países, sendo o exemplo mais próximo a Espanha, que conta já com várias redes inter-hospitalares em diferentes regiões.
Na prática, isso permitirá pedir uma segunda opinião a outro hospital em minutos e não em semanas, encaminhar casos raros ou complexos para equipas com maior diferenciação e equilibrar a carga de trabalho entre serviços mais e menos sobrecarregados. Também prepara o terreno para a utilização segura de ferramentas de inteligência artificial. Para os doentes, sobretudo os do interior e das regiões autónomas, significa um acesso mais equitativo a diagnósticos especializados.
PA: Olhando para o trabalho desenvolvido pela direção desde 2024, o que foi alcançado até ao momento e é motivo de orgulho?
CB: O que nos dá mais orgulho é ver a especialidade a trabalhar em conjunto. A SPAP conta hoje com 295 sócios, e nunca tivemos tantos colegas de todo o país envolvidos nas iniciativas da Sociedade. Isso nota-se em tudo o que fizemos nestes dois anos.
Reativámos também os clubes de estudo da SPAP: grupos de patologistas dedicados a determinadas áreas da patologia, que se reúnem periodicamente para discutir casos, partilhar experiência e harmonizar práticas.
Apostámos muito na formação. Organizámos formação nacional sobre novos biomarcadores que estão a mudar o tratamento dos doentes: o FOLR1 no carcinoma do ovário e a claudina 18.2 no cancro gástrico, ambos associados a novas terapêuticas dirigidas. Realizámos cursos e webinares sobre linfadenopatias, patologia do neurodesenvolvimento, biomarcadores preditivos, entre outros.
O nosso Congresso Nacional foi muito abrangente e com uma participação acima do esperado. Para além do programa científico, abriu espaço às questões profissionais que hoje preocupam os serviços, como a carga de trabalho, a organização das equipas e o futuro da carreira. Mantivemos um apoio contínuo aos nossos internos, através do NISPAP, o núcleo de internos da SPAP, e instituímos uma bolsa dirigida aos internos. Reforçámos a aproximação aos técnicos de Anatomia Patológica, sem os quais nada disto funciona.
Também abrimos mais a SPAP ao exterior. Fazemos parte da International Academy of Pathology (IAP), o que permite aos nossos sócios participar nos seus projetos educativos. Estabelecemos várias parcerias. Participamos na SELNET, uma rede europeia e latino-americana dedicada aos sarcomas, com atividade científica e clínica e celebrámos um protocolo com a Sociedade Espanhola de Anatomia Patológica (SEAP) para intercâmbio entre as duas sociedades.
PA: A poucos meses do fim do ano, que prioridades tem para a SPAP até 2027?
CB: A grande prioridade é passar da proposta à implementação da Rede Nacional de Patologia Digital, com o envolvimento dos diretores de serviço e das entidades da saúde.
Queremos também começar a harmonizar os programas de garantia de qualidade entre hospitais, para que os critérios de qualidade sejam comparáveis em todo o país. Vamos continuar a investir na formação em patologia molecular e na organização do acesso a esta tecnologia, e defender a valorização das equipas de Anatomia Patológica, técnicos e médicos, que enfrentam uma carga de trabalho crescente e uma carência de profissionais.
Por fim, queremos dar mais visibilidade à especialidade junto do público. Uma entrevista como esta é um bom começo.

