Equipa de Cirurgia Plástica do Hospital da Prelada: Dr. Pedro Carvalho, Dr.ª Susete Pires, Dr. Paulo Costa, Dr. João Morais, Dr. Tiago Guedes e Dr.ª Marta Salgueiro

Uma equipa dedicada à recuperação e ao bem-estar dos pacientes

Em 1989, o Hospital da Prelada inaugurou a primeira Unidade de Queimados do Norte de Portugal. Hoje em dia, o Serviço de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética é composto por seis cirurgiões e atua em todas as áreas da Cirurgia Plástica. Marta Salgueiro aceita o convite da Perspetiva Atual para dar a conhecer o trabalho dos profissionais, assim como o seu contributo para a cura e a melhoria da qualidade de vida dos doentes.

Perspetiva Atual: O Serviço de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética do Hospital da Prelada realiza mais de 3.500 cirurgias por ano. Que retrato fazem estes números da atividade que desenvolvem?

Marta Salgueiro: O número de cirurgias realizadas anualmente é muito significativo, embora possa variar de ano para ano, traduzindo uma atividade com muita procura e confiança depositada no nosso Serviço. A grande procura reflete precisamente a diversidade da Cirurgia Plástica, que inclui a reconstrução após doença ou traumatismo, a recuperação da função e da imagem corporal, o tratamento de queimaduras e das suas sequelas, e a cirurgia estética. O nosso Serviço presta cuidados de saúde tanto a utentes do Serviço Nacional de Saúde como a beneficiários de seguros de saúde e a particulares, no âmbito da cirurgia estética.

Mas os números, por si só, não definem aquilo que fazemos. Cada intervenção corresponde a uma pessoa, com uma história, necessidades e expectativas próprias. O nosso compromisso é conjugar capacidade de resposta e rigor técnico com tempo para ouvir, esclarecer e acompanhar. É essa atenção individual, desde a primeira consulta ao seguimento após a cirurgia, que queremos que caracterize a experiência de quem nos procura.

Marta Salgueiro, Diretora do Serviço de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética e Unidade de
Queimados do Hospital da Prelada

PA: Por detrás desta atividade está uma equipa especializada. Quantos profissionais a integram atualmente?

MS: O Serviço assenta numa equipa de seis cirurgiões plásticos, apoiada por profissionais de enfermagem, assistentes operacionais e administrativos, e pela articulação com Anestesiologia, Medicina Interna, Medicina Física e de Reabilitação e outras áreas necessárias a cada situação clínica.

Mais do que a dimensão da equipa, importa a complementaridade das competências e a continuidade dos cuidados. No tratamento de um doente queimado, por exemplo, a recuperação depende de um trabalho conjunto e consistente ao longo do tempo. A qualidade desse trabalho resulta da competência de cada profissional, mas também da comunicação entre todos e da relação de confiança que se constrói com o doente e a família.

PA: A Unidade de Queimados do Hospital da Prelada acompanha casos que, muitas vezes, exigem várias intervenções ao longo do tempo. Que impacto tem a Cirurgia Plástica na vida destas pessoas e que resultados é possível alcançar?

MS: A Unidade de Queimados do Hospital da Prelada é um marco na história dos cuidados de saúde a nível nacional: abriu em junho de 1989 e foi a primeira Unidade de Queimados do Norte de Portugal. Este percurso confere-lhe uma importância particular na resposta especializada ao doente queimado e no conhecimento acumulado sobre situações de grande complexidade.

A Cirurgia Plástica intervém tanto no tratamento inicial das queimaduras como na reconstrução das sequelas cicatriciais, de modo a melhorar a qualidade de vida do doente queimado. O objetivo é permitir que a pessoa volte a realizar atividades quotidianas, recupere autonomia e retome, sempre que possível, a sua vida familiar, social e profissional.

Nem sempre é possível apagar todas as marcas de uma queimadura. Contudo, é possível alcançar melhorias muito relevantes. Este é frequentemente um percurso prolongado, com várias etapas, no qual o acompanhamento próximo, a escuta e a definição de objetivos realistas são tão importantes como a cirurgia.

PA: Na mesma linha de pensamento, além da recuperação da aparência, está em causa a função, a autonomia e a qualidade de vida do paciente. Quais são os principais desafios que estas situações colocam aos profissionais e que técnicas inovadoras utilizam nos tratamentos?

MS: A Cirurgia Plástica tem como objetivo recuperar a forma e a função em situações muito diversas, desde as sequelas de queimaduras e traumatismos à reconstrução após cirurgia oncológica e à correção de malformações. O desafio é encontrar, para cada pessoa, uma solução que permita restaurar estruturas, preservar ou recuperar capacidades e melhorar a qualidade de vida, considerando também o impacto emocional e social da doença.

A reconstrução mamária é um exemplo particularmente significativo. Para uma mulher submetida a uma mastectomia, reconstruir a mama pode representar uma etapa importante na recuperação da imagem corporal, da confiança e do bem-estar. No Hospital da Prelada são realizadas atualmente todas as técnicas de reconstrução mamária, incluindo a reconstrução microcirúrgica que representa o estado da arte nesta área. A reconstrução microcirúrgica permite reconstruir a mama com tecidos da própria doente e restabelecer a sua circulação através da união de pequenos vasos sanguíneos, oferecendo possibilidades de reconstrução adaptadas às características e necessidades de cada mulher. A microcirurgia exige elevada diferenciação técnica, planeamento rigoroso e um acompanhamento pós-operatório atento. Integra um conjunto mais amplo de opções reconstrutivas, como os retalhos locais e regionais e a utilização de próteses, quando indicados.

A escolha depende do defeito a reconstruir, do estado de saúde, dos tratamentos realizados ou previstos e das preferências da doente. Em qualquer destas situações, a inovação só faz sentido quando proporciona um benefício concreto à pessoa. Por isso, associamos a exigência técnica a uma relação próxima e humana: explicamos as alternativas e as limitações, definimos expectativas realistas e acompanhamos cada etapa da recuperação. O sucesso de uma reconstrução mede-se também pela autonomia recuperada, pelo regresso à vida quotidiana e como a pessoa volta a sentir-se consigo própria.

PA: Como é definida a abordagem mais adequada a cada doente, entre as diferentes opções cirúrgicas e não cirúrgicas?

MS: Primeiro, ouvir o doente. Compreender o que mais o preocupa e o que pretende recuperar ou melhorar é essencial. Segue-se uma avaliação clínica cuidadosa, que considera a patologia, a função, o estado geral de saúde, os tratamentos anteriores e as expectativas. Nos casos mais complexos, a decisão beneficia da discussão com todo o corpo clínico e entre diferentes profissionais.

A multidisciplinaridade e o envolvimento da Cirurgia Plástica com outras especialidades são normais na abordagem de situações clínicas complexas. Um exemplo é o caso de uma menina palestiniana de 15 anos, amputada de uma perna, que o Hospital da Prelada recebeu e está a preparar para a aplicação de uma prótese e posterior reabilitação, com o objetivo de lhe devolver autonomia. É um caso que pode implicar a intervenção articulada de várias áreas de especialidade, desde a Cirurgia Plástica à Medicina Física e de Reabilitação.

Apresentamos as alternativas, cirúrgicas e não cirúrgicas, explicando os benefícios esperados, os riscos, as limitações e o tempo de recuperação. A decisão é partilhada e deve respeitar as prioridades da pessoa. Há situações em que operar é a melhor opção, outras em que o tratamento conservador é preferível e outras em que uma combinação de abordagens oferece melhores resultados.

O plano é individualizado e reavaliado ao longo do acompanhamento. Esse cuidado personalizado implica também saber ajustar o ritmo do tratamento à recuperação física e emocional de cada doente.

PA: Por outro lado, a par do diagnóstico e tratamento das patologias, desenvolvem também um trabalho de investigação. Como se complementam estas vertentes?

MS: O Serviço de Cirurgia Plástica integra o Núcleo de Investigação e Atividade Científica (NIAC) do Hospital da Prelada, uma equipa multidisciplinar que procura dinamizar e potenciar a atividade científica da instituição. Estabelecemos previamente parceria com a Universidade do Minho em investigação na área da engenharia de tecidos.

A prática clínica coloca perguntas que a investigação ajuda a responder: que técnicas oferecem melhores resultados, como podemos reduzir complicações e de que forma os tratamentos melhoram a função e a qualidade de vida? Por sua vez, o conhecimento produzido deve regressar à prática e apoiar decisões mais fundamentadas.

A avaliação sistemática dos resultados, o estudo das complicações e a comparação de abordagens são particularmente relevantes numa especialidade com necessidades tão diferentes. Importa medir não apenas o resultado cirúrgico, mas também a recuperação funcional e a perspetiva do doente.

PA: A formação dos profissionais e a promoção de iniciativas na área são importantes para o progresso da especialidade. Que ações têm em curso?

MS: A formação contínua é essencial para manter a qualidade e a segurança dos cuidados. Num Serviço de Cirurgia Plástica e numa Unidade de Queimados, deve abranger tanto a atualização técnica como o trabalho em equipa e a comunicação com o doente.

Entre as iniciativas a valorizar estão a discussão de casos clínicos, a análise de resultados e complicações em reuniões periódicas de morbimortalidade, a atualização de protocolos e a partilha de experiência em reuniões científicas, nacionais e internacionais, onde o Serviço de Cirurgia Plástica marca a sua presença assiduamente. Por seu lado, a Academia da Misericórdia do Porto e o NIAC promovem sessões formativas, cursos e workshops periódicos adaptados às necessidades de cada Serviço. Este foco na melhoria contínua e na evolução técnica e científica torna-se ainda mais crucial perante a responsabilidade do Serviço de Cirurgia Plástica em formar médicos internos de formação específica e nossos futuros especialistas, da nossa própria especialidade e de outras.

Há ainda uma dimensão humana da formação que consideramos fundamental: saber explicar uma cirurgia, comunicar uma dificuldade e acompanhar alguém num momento de vulnerabilidade. A competência técnica e a qualidade da relação terapêutica devem evoluir em conjunto.

PA: Que objetivos estão definidos para o futuro? O que gostariam ainda de desenvolver e concretizar?

MS: A nossa ambição é continuar a desenvolver um Serviço capaz de responder à complexidade crescente das necessidades dos doentes, preservando a proximidade e o acompanhamento personalizado que queremos associar ao Hospital da Prelada e à missão da Misericórdia do Porto, nomeadamente em outras áreas da Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética.

No tratamento dos queimados, importa reforçar a continuidade entre a fase aguda, a reconstrução das sequelas e a reabilitação, honrando o papel histórico da Unidade no País. Na atividade global do Serviço, queremos aprofundar a avaliação dos resultados, promover a atualização dos profissionais e incorporar inovação com benefício demonstrado.

Gostaríamos também de tornar cada vez mais consistente a participação do doente nas decisões e a avaliação da sua experiência ao longo do tratamento. O objetivo final é que cada pessoa se sinta escutada, informada e acompanhada: receber cuidados tecnicamente exigentes e, ao mesmo tempo, sentir que há uma equipa que conhece o seu percurso e cuida de si.

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