Enfº Nelson Guerra (Presidente da APEGEL), Enfº José Luis Cobros (Presidente do ICN), Enfº Luis Barreira (Bastonário da OE)
O papel dos enfermeiros gestores na qualidade, segurança e humanização dos cuidados de saúde
Nelson Guerra, à frente da Associação Portuguesa dos Enfermeiros Gestores e Liderança (APEGEL), parte dos temas discutidos no XVI Congresso Internacional para abordar os desafios da gestão de enfermagem perante novas ferramentas, falta de profissionais e com a urgência de valorizar quem está na linha da frente. Nesta entrevista, ficamos a conhecer as prioridades traçadas pela associação para os próximos anos.
Perspetiva Atual: Comecemos por conhecer melhor a APEGEL. Qual é a missão que orienta a associação e o trabalho que desenvolve?
Nelson Guerra: A APEGEL — Associação Portuguesa dos Enfermeiros Gestores e Liderança — é uma associação sem fins lucrativos que tem como missão valorizar os enfermeiros gestores e promover o desenvolvimento da gestão e da liderança em saúde. Orienta-nos uma convicção: a forma como organizamos os serviços, apoiamos os profissionais e tomamos decisões. O nosso trabalho passa pela formação, pela promoção da investigação e da inovação e pela partilha de boas práticas de gestão. Criamos espaços de encontro e debate, promovemos a cooperação com instituições nacionais e internacionais e participamos na reflexão sobre as políticas de saúde. Procuramos também contribuir para a definição das competências e responsabilidades dos enfermeiros gestores, desde a liderança das equipas até à direção das organizações.
A gestão influencia a disponibilidade dos profissionais, a organização dos cuidados e a capacidade de responder às necessidades de cada pessoa. Por isso, defendemos uma gestão sustentada no conhecimento, responsável na utilização dos recursos e atenta às condições em que os profissionais trabalham.
Valorizar os enfermeiros gestores é reconhecer o seu contributo para serviços mais seguros, mais humanos e capazes de responder melhor à população.

PA: Estiveram presentes, nos dias 8, 9 e 10 de outubro, no XVI Congresso Internacional da Associação, com o mote “Liderar com Visão. Empreender com Ética e Humanitude”, que incluiu também o II Seminário Ibero-Americano de Empreendedorismo em Enfermagem. Que temas estiveram em destaque ao longo destes dias?
NG: O congresso e o seminário aproximaram temas que importa pensar em conjunto: liderança transformacional, autonomia e inovação; inteligência artificial e transformação digital na gestão em enfermagem; governação ética e dados em saúde; saúde digital e telenfermagem; modelos de negócio em cuidados domiciliários e sustentabilidade das comunidades. A importância desta articulação está em relacionar as mudanças tecnológicas e organizacionais com as responsabilidades dos enfermeiros e as necessidades das pessoas. Uma das áreas centrais foi a gestão baseada na evidência: como utilizar a investigação e os dados para fundamentar decisões e demonstrar ganhos em saúde. Abordámos também a sustentabilidade do sistema, a segurança dos cuidados no SNS e o papel de lideranças capazes de mobilizar as equipas, com responsabilidade ética.
A liderança transformacional, a autonomia e a inovação estiveram em destaque. Para nós, esta ligação é essencial: mobilizar as equipas para uma visão partilhada exige criar condições para a sua participação nas decisões e para o desenvolvimento de novas respostas.
A inteligência artificial e a transformação digital na gestão em enfermagem foram abordadas a par da governação ética e dos dados em saúde. Consideramos fundamental que a adoção de tecnologia seja acompanhada de critérios de qualidade dos dados, proteção da informação, transparência e supervisão humana, com atenção ao risco de aprofundar desigualdades.
A saúde digital, a telenfermagem e os modelos de negócio em cuidados domiciliários trouxeram para o debate novas formas de organizar e aproximar os cuidados. A sua ligação à sustentabilidade das comunidades, que deve ser entendida para além da dimensão financeira, é particularmente relevante: interessa pensar em respostas economicamente viáveis que preservem a qualidade, a continuidade e a equidade no acesso, apoiando também as famílias e os cuidadores. Houve também espaço para o Intra empreendedorismo, isto é, a capacidade de desenvolver novas soluções dentro das próprias instituições. A partilha entre Portugal, Espanha e Brasil permitiu aproximar diferentes experiências de organização dos cuidados.

Brasil e de Espanha
PA: Mais do que um evento científico, este congresso é um espaço de encontro, de ligação e de construção conjunta. Que importância têm estes momentos de partilha e reflexão para quem está diariamente ligado à gestão e à liderança em enfermagem?
NG: Para quem está diariamente na gestão e na liderança em enfermagem, estes encontros representam uma oportunidade de parar, olhar criticamente para a prática e pensar com os outros. O quotidiano exige decisões difíceis, muitas vezes sob pressão, sobre equipas, recursos e necessidades de cuidados. Ter um espaço onde se podem partilhar dúvidas e dificuldades, ouvir outras experiências e confrontar formas de trabalhar tem um valor muito concreto.
A partilha permite transformar experiências individuais em aprendizagem coletiva. Conhecer a forma como outra equipa resolveu um problema pode ajudar a encontrar uma resposta no nosso serviço. Por outro lado, quem lidera precisa de apoio, de confiança e de sentir que pode conversar abertamente com quem enfrenta responsabilidades semelhantes. As relações construídas num congresso podem prolongar-se em redes de entreajuda, projetos de investigação e iniciativas conjuntas entre instituições.
PA: Os enfermeiros da área de gestão constituem uma estrutura fundamental para a garantia da qualidade dos cuidados de saúde prestados à população. Que iniciativas estão atualmente em curso para valorizar e reforçar o papel destes profissionais?
NG: A valorização dos enfermeiros gestores passa por reconhecer a responsabilidade que assumem na qualidade dos cuidados e por lhes dar condições para a exercer. São profissionais que associam conhecimento clínico a competências de gestão, tomando decisões sobre equipas, recursos e organização dos serviços que têm consequências na vida das pessoas.
Acreditamos também que esta valorização se deva traduzir nas organizações: reconhecimento das qualificações, oportunidades de desenvolvimento profissional e participação efetiva dos enfermeiros gestores nas decisões estratégicas. A responsabilidade pela qualidade e segurança dos cuidados deve ser acompanhada de autoridade, recursos e capacidade de intervenção.
PA: No seu exercício profissional, a APEGEL tem como objetivo fundamental a valorizar os enfermeiros gestores e promover o desenvolvimento da gestão e da liderança em saúde. Que parcerias têm sido fundamentais para reforçar este trabalho e potenciar uma maior colaboração entre profissionais e instituições de saúde?
NG: Destacaria a colaboração com a Ordem dos Enfermeiros e, no plano internacional, com a ANDE, associação espanhola de diretores de enfermagem, e com o Conselho Regional de Enfermagem de Santa Catarina, no Brasil. Esta cooperação tem expressão concreta na organização conjunta do seminário ibero-americano.
Estas relações permitem aproximar profissionais que trabalham em sistemas de saúde diferentes, mas enfrentam problemas comuns. Interessa-nos compreender como outras instituições organizam as equipas, desenvolvem a sua liderança e avaliam os resultados dos cuidados, para podermos discutir o que faz sentido adaptar à nossa realidade.
Desta forma, consideramos igualmente essencial reforçar a ligação entre as instituições de saúde e o ensino superior. A experiência dos serviços deve ajudar a orientar a formação e a investigação, e o conhecimento produzido deve chegar às decisões do dia a dia.

PA: Que desafios mais têm marcado enfermagem e exigido novas respostas por parte de quem está na gestão?
NG: Destacaria a capacidade de garantir equipas suficientes, qualificadas e motivadas para responder às necessidades das pessoas. Para quem gere, isso exige planear a contratação, criar condições para reter profissionais e adequar as competências da equipa à complexidade dos cuidados. Quando faltam recursos, a gestão tem de tornar essas necessidades visíveis e fundamentar as respostas necessárias. Não podemos aceitar a sobrecarga como uma solução permanente.
Outro desafio é cuidar de uma população envelhecida, com doença crónica e necessidades de acompanhamento prolongado. Precisamos de melhorar a ligação entre hospitais, cuidados de saúde primários, cuidados continuados e apoio domiciliário. Para a pessoa e para a família, a continuidade dos cuidados deve ser percetível em todo esse percurso.
A transformação digital e a inteligência artificial exigem também novas competências. Defendemos que os enfermeiros participem na escolha e avaliação destas soluções, garantindo que apoiam as decisões, protegem a informação e libertam tempo para cuidar. Tudo isto exige uma liderança próxima das equipas e capaz de demonstrar resultados. O enfermeiro gestor precisa de conhecer os custos, mas também de avaliar a segurança, a experiência das pessoas e as condições de trabalho.
PA: Olhando para os próximos anos, quais são as prioridades da APEGEL e que futuro gostariam de ajudar a construir para o setor?
NG: Queremos ajudar a construir um sistema de saúde em que cada pessoa tenha acesso, em tempo útil, a cuidados seguros e humanizados, e em que os profissionais sejam efetivamente valorizados e encontrem condições para desenvolver as suas competências e responder às necessidades da população com qualidade.
Para concretizar esta visão, consideramos fundamental reforçar a nossa influência junto do poder político, transformando o conhecimento e a experiência dos enfermeiros em propostas com consequências nas decisões públicas, por isso estruturámos os contributos da APEGEL para o Pacto para a Saúde, assentes em cinco pilares: conhecimentos seguros, organizações seguras, dotações seguras, práticas seguras e cuidados seguros.
Uma prioridade é garantir que o sistema de saúde utiliza plenamente as competências dos enfermeiros especialistas. Isso exige reconhecimento efetivo do papel da enfermagem nos cuidados de saúde, funções ajustadas à sua diferenciação e condições para exercerem em autonomia e responsabilidade clínica.
No plano do ensino, defendemos a revogação imediata do Decreto-Lei n.º 480/88, de 23 de dezembro, acompanhada de um novo enquadramento que consagre plenamente o ensino de enfermagem no subsistema universitário. Consideramos que a manutenção do enquadramento politécnico como referência legal para a disciplina constitui uma das mais graves injustiças históricas cometidas contra a enfermagem e os seus profissionais.
Defendemos também uma estratégia nacional de dotações seguras, para a contratação e retenção de enfermeiros, equipas adequadas à complexidade dos cuidados e prevenção do esgotamento profissional, neste sentido propomos a criação de equipas consultivas que apoiem a avaliação dessas necessidades, acompanhem os resultados e fundamentem o ajustamento dos recursos.
Outra prioridade é aproximar os cuidados das pessoas, reforçando as respostas na comunidade e no domicílio e a continuidade dos cuidados em articulação com os hospitais e os cuidados continuados.

