“É urgente investir na prevenção e diagnóstico precoce, algo em que o SNS não está suficientemente focado”

A exposição prolongada ao som, a perda auditiva não reabilitada e o estigma que acompanha quem utiliza aparelhos auditivos são bons exemplos de como a saúde auditiva ainda é desvalorizada. Em entrevista exclusiva, Melissa Cravo, Presidente da Associação Portuguesa de Audiologistas, apela ao reforço da especialidade no SNS, onde existem pouco mais de 100 profissionais, e aponta a criação da Ordem Profissional como determinante para o futuro da profissão.

Perspetiva Atual: Para contextualizar os leitores, o que é a Audiologia e qual é o papel do Audiologista na prevenção, diagnóstico e intervenção nas perturbações da audição e do equilíbrio?

Melissa Cravo: A Audiologia é uma ciência da saúde que estuda a audição e o equilíbrio. É uma área científica muito interessante que conjuga ciências como Física, Psicologia, Neurociência, Acústica, Linguística, entre outras. O Audiologista é o profissional de saúde autónomo que atua na prevenção, identificação precoce, avaliação e diagnóstico funcional, intervenção, tratamento não médico, aconselhamento e reabilitação de pessoas com perturbações auditivas e/ ou do equilíbrio. A atividade é muito variada, com atuação desde o nascimento até aos idosos, assim como na investigação e docência, o que faz com que haja uma elevadíssima procura por Audiologistas. Trabalha em clínicas e hospitais privadas, centros de reabilitação auditiva e hospitais do SNS.

Melissa Cravo, Presidente da Associação
Portuguesa de Audiologistas

A criação das ULS permitiu criar projetos que vão aproximar a Audiologia da população, nomeadamente com rastreios pré-escolares. A Audiologia é uma ciência recente, em Portugal a formação tem 40 anos, mas a evolução da ciência tem sido rápida permitindo ao Audiologista alargar as áreas de atuação e competências. As necessidades da população mudaram ao longo dos tempos. Estamos expostos a mais fatores que podem causar alterações auditivas e vestibulares mais precoces, temos vida ativa até mais tarde, vivemos mais anos, com maior exigência social e é preciso garantir qualidade de vida. Temos uma população envelhecida que precisa de acesso à reabilitação auditiva precoces, mas também é necessário intervir na prevenção da queda no idoso.

PA: Ouvir é uma experiência sensorial que damos muitas vezes como garantida. Para quem enfrenta uma perda auditiva, que impacto pode ter na sua vida e na forma como se relaciona com os outros?

MC: A perda auditiva ainda tem muito estigma associado e um impacto deveras significativo na qualidade de vida. Pode impactar muitos aspetos da vida: comunicação e linguagem, cognição, educação, empregabilidade, saúde mental, relacionamentos interpessoais, autoestima, autonomia, isolamento social e solidão. Estudos sugerem que pessoas com perda auditiva não reabilitada têm um maior risco de quedas.

O impacto da perda auditiva vai depender da idade em que ocorre, do grau, e estilo de vida da pessoa. A maioria das situações de perda ocorre lentamente e as pessoas vão fazendo adaptações no seu dia-a-dia, arranjam estratégias para tentar compensar. Frequentemente, há dificuldade da pessoa em reconhecer que a perda auditiva existe e são as pessoas com quem priva que alertam. Têm dificuldade em compreender o que é dito, pedem para repetir, o que causa vergonha, desconforto, impaciência das outras pessoas, e leva a afastamento do convívio social e familiar. Sentem medo de andar na rua, de cair, fecham-se em casa, sentem-se menos capacitadas, perdem a sua autonomia, ficam dependentes de familiares, e têm dificuldades no contexto laboral.

Estudos mostram que a perda auditiva pode ter influência nos processos demenciais, sendo um dos poucos fatores modificáveis. Para além do estigma à volta da perda auditiva, há também vergonha no uso de próteses ou implantes auditivos. A OMS estima que atualmente 1 em 5 pessoas tenha alterações auditivas, e prevê-se que em 2050 seja 1 em 4 pessoas. É urgente investir na prevenção e diagnóstico precoce, algo em que o SNS não está suficientemente focado.

PA: O Rastreio Auditivo Infantil tem um papel fundamental na deteção precoce de alterações auditivas. De que forma pode minimizar o impacto destas alterações no desenvolvimento da criança, nomeadamente na aquisição da linguagem, percurso escolar e inclusão social?

MC: Ao falar em rastreio infantil temos que pensar em 2 momentos. Primeiro, ao nascimento o Audiologista faz o rastreio auditivo neonatal. Apesar de não ser obrigatório, está implementado na maioria das maternidades. Antes da sua implementação, a maioria das crianças eram diagnosticadas entre os 3 e os 6 anos, por demonstrarem alterações de linguagem. Hoje reduzimos a idade de diagnóstico e início de reabilitação bem como o impacto no desenvolvimento da criança. O outro momento de rastreio é na idade pré-escolar, por volta dos 5/6 anos. Na escola, crianças com perda de audição permanente ou temporária, por exemplo causadas por inflamações e infeções como as otites recorrentes, são apelidadas de distraídas, irrequietas e com dificuldades de aprendizagem ou linguagem. Na realidade estão a ouvir mal e precisam de acompanhamento clínico. Com a criação das ULS começamos a ver os Audiologistas a desenvolver projetos de rastreio audiológico pré-escolar, fundamentais para garantir que as crianças iniciam a escolarização sem alterações auditivas pelo que esperamos ver um aumento de projetos.

“A criação da Ordem Profissional é essencial para a que possamos ter um papel ativo nas políticas de saúde”

PA: A utilização de auscultadores e de outros dispositivos de áudio é cada vez mais comum, sobretudo entre os mais jovens. Quais os riscos associados e como pode ser protegida a audição?

MC: Utilizamos cada vez mais dispositivos como auscultadores e auriculares em atividades recreativas. Segundo a OMS mais de 1 bilhão de jovens enfrentam risco de perda auditiva devido a esta exposição excessiva. O problema não é a utilização por si, é ser de forma desadequada, com volume e tempo demasiado elevados. Há dispositivos que contam o tempo de utilização e volume excessivo, emitindo alertas aos utilizadores, e alguns produtos já têm funções de proteção auditiva. É positivo, pois alerta para o risco, mas pode dar uma falsa ideia de segurança já que apenas contabiliza a exposição naquele dispositivo. Prevenir não é deixar de usar os dispositivos ou ir a concertos, é saber utilizá-los e conhecer medidas de autoproteção. É aqui que o Audiologista tem um papel importante. A proximidade com os jovens, através de programas de saúde auditiva em escolas, permite sensibilizar para os cuidados como a utilização de protetores auditivos, o afastamento das colunas ou a utilização de apps de medição sonora. Referimos os jovens, mas todos estamos suscetíveis.

PA: Que desafios existem atualmente no acesso ao rastreio, diagnóstico e acompanhamento audiológico ao longo das diferentes fases da vida?

MC: O grande desafio é o número de Audiologistas que existe o SNS, que atualmente em pouco ultrapassa os 100, o que é manifestamente insuficiente. A maioria dos profissionais exerce no particular, centros de reabilitação auditiva e clínicas ou hospitais privados. Há necessidade de contratar um número muito elevado de Audiologistas e ainda temos que considerar os colegas próximos da reforma. Outro desafio, é que atualmente, no SNS, o Audiologista apenas exerce no hospital. Há um elevado número de pessoas encaminhados para consulta de Audiologia no hospital, que poderiam ter avaliação e/ou resolução nos cuidados de saúde primários, quer pela intervenção isolada do Audiologista quer articulada com o MGF.

A referenciação direta para Audiologia ou o agendamento direto pela população iria potenciar o aumento do acesso das pessoas a estes cuidados de saúde, aumentando a internalização dos cuidados no SNS e, redução de custos. Ao tirar o Audiologista do hospital e ao trazê-lo para os cuidados de saúde primários, é possível criar as respostas necessárias desde o rastreio pré-escolar ao adulto, ao diagnóstico e a reabilitação. Neste momento, há uma dependência no privado ou, para quem não tem condições financeiras, uma espera significativa no público. É preciso equilibrar este paradigma.

“O grande desafio é o número de Audiologistas que existe o SNS, que atualmente em pouco ultrapassa os 100, o
que é manifestamente insuficiente”

PA: Uma das áreas de atuação do Audiologista é a reabilitação auditiva. Vemos muita publicitação acerca de aparelhos auditivos, mas também situações irregulares.

MC: A reabilitação auditiva é uma das áreas que mais preocupação nos causa. Assistimos a um crescendo de publicitação e abertura de centros. A preocupação não é a sua abertura, mas sim o facto de não terem Audiologistas. Também, a reabilitação auditiva está a ser banalizada e tratada como uma transação comercial, reduzida à aquisição de aparelhos auditivos. A reabilitação auditiva é muito mais que isso. É um processo de saúde, desde a avaliação, recomendação e seleção, adaptação do aparelho auditivo e consultas de acompanhamento. Todos estes passos são atos clínicos dos Audiologistas. Qualquer pessoa que interfira, e que não seja Audiologista, está a cometer um crime e a por em risco a saúde pública.

Não podemos continuar com a atual desregulação. Temos conhecimento de várias situações irregulares como pessoas que adquiriram aparelhos auditivos sem terem indicação clínica, que adquiriram aparelhos após um rastreio ou empresas que se deslocam ao domicílio. Um rastreio não permite decidir se tem indicação para usar aparelhos auditivos. Estes procedimentos não são realizados no domicílio, mas sim numa clínica onde existem as condições acústicas e técnicas adequadas. Também há promessa de resultados irrealistas em que a pessoa irá voltar a ouvir na perfeição ou a publicitação de amplificadores, como se fossem uma alternativa aos aparelhos auditivos, quando são dispositivos muito diferentes.

Os aparelhos auditivos são ajustados e adaptados especificamente para a perda auditiva da pessoa e somente as frequências em que tem dificuldade em ouvir serão amplificadas, de forma controlada, impedindo a degradação da audição residual. Já os amplificadores aumentam tudo de forma igual, pois não permitem regulação frequencial. Isto poderá levar a sobreamplificação, em particular nas frequências sem perda, causando danos à saúde. É falsa informação, publicidade enganosa e de risco para a saúde pública. Criam-se expectativas irrealistas que levam as pessoas a adquirir os dispositivos, sentem-se enganadas, e toda uma área de intervenção em saúde é descredibilizada. Lamentavelmente, as autoridades de saúde não só não inspecionam como não intervêm na regulação efetiva deste sector. É importante que as pessoas apresentem queixa destas situações, só assim será possível combater estas fraudes.

“Ao tirar o Audiologista do hospital e ao trazê-lo para os cuidados de saúde primários, é possível criar as respostas necessárias desde o rastreio pré-escolar ao adulto, ao diagnóstico e a reabilitação”

PA: Acredita que o associativismo pode ser decisivo para unir profissionais, dar visibilidade à Audiologia e reforçar a sua representação no país, e fora dele?

MC: Portugal não tem uma cultura forte de associativismo, mas é a união dos profissionais que permite que a profissão tenha força, voz coletiva, identidade, proporcionando reconhecimento e, valorização social e político. A nível nacional, a APtA integra o Fórum Tecnologias da Saúde, juntamente com mais 12 associações profissionais da área das ciências e tecnologias da saúde. O nosso foco é a criação da Ordem Profissional, que consideramos de inequívoco interesse público para reforçar a qualidade do exercício, elevar padrões éticos e deontológicos, consolidar mecanismos de responsabilidade e incentivar o desenvolvimento profissional contínuo. A nível internacional, destaco a AEA – Associação Europeia de Profissionais de Saúde Auditiva onde discutimos os problemas e práticas de cada país, colaboramos na produção de documentos focando na melhoria da prestação de cuidados. Também fazemos parte do World Hearing Forum, organismo da OMS, específico sobre perda auditiva, tendo sido criado o Dia Mundial da Audição, em que a ideia é captar a atenção da população e políticos para mostrar a necessidade das políticas de saúde de prevenção, diagnóstico precoce e reabilitação.

PA: No dia 10 de outubro celebra-se o Dia Mundial do Audiologista. Qual é a importância desta data para a profissão?

MC: É uma data em que conseguimos dar destaque à profissão perante a sociedade, mas também é um momento de autorreflexão e iremos comemorar com um evento entre profissionais. Não nos podemos fixar nesta data para dar a conhecer a nossa profissão. É um trabalho que temos de fazer ao longo do ano enquanto Associação, mas também cada Audiologista diariamente mostrar o seu papel, importância e responsabilidade na prestação de cuidados. Somos todos responsáveis por mostrar quem somos. É uma ciência com um imenso potencial de desenvolvimento e o Audiologista tem uma margem de crescimento e atuação extraordinário. Continua a ser uma profissão pouco conhecida, mas com um perfil profissional e atuação muito vasto. É preciso continuar a ter ambição e competência em Audiologia.

PA: Enquanto Presidente da Direção da Associação Portuguesa de Audiologistas, que objetivos e prioridades gostaria de ver concretizados nos próximos anos?

MC: Já abordei algumas questões. Há urgência no aumento do número de Audiologistas no SNS, e de reorganizar o acesso, pelo que gostaria de ver criada a consulta de Audiologia nos cuidados de saúde primários. Penso que seria uma mais-valia muito relevante para o acesso atempado à saúde auditiva e para o reconhecimento da relevância deste profissional na saúde auditiva e vertigem. A criação da Ordem Profissional é essencial para a que possamos ter um papel ativo nas políticas de saúde. Temos de formar mais Audiologistas. É importante realçar que o Audiologista português, e a formação em Audiologia em Portugal, tem uma imagem internacional muito positiva. Foram reabertos Mestrados em Audiologia, e o próximo passo será a abertura do Doutoramento. A formação contínua específica em Audiologia, é de extrema importância para o desenvolvimento da ciência e da profissão, permite diferenciação especializada certificada dos profissionais e o crescimento da investigação. Temos formação e atuação clínica de qualidade, e temos de continuar a evoluir para manter estes níveis de excelência. É motivo de orgulho ser Audiologista português.

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