Rita Valença, Médica e Especialista em Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética

Um olhar atento à complexidade das formas humanas

Em criança, desenhava plantas de casas e imaginava cada divisão ao pormenor. Anos mais tarde, a sensibilidade às formas e às proporções encontraria expressão na Cirurgia Plástica. Atualmente, Rita Valença dedica-se à cirurgia mamária, à lipoescultura de alta definição e à harmonização glútea, áreas que atraem também pacientes de outros países. Entre o trabalho clínico e os projetos que ainda guarda para o futuro, continua a investigar questões que levantam dúvidas e podem trazer avanços à prática cirúrgica.

Perspetiva Atual: A Medicina foi, desde cedo, a área que pretendia seguir ou essa decisão foi sendo consolidada ao longo do tempo? Houve alguma influência familiar nessa escolha?

Rita Valença: Não diria que soube desde cedo que queria ser médica ou cirurgiã plástica. Mas, olhando para trás, reconheço características que já existiam em mim antes de saber onde me levariam profissionalmente. Em criança, com sete ou oito anos, desenhava plantas de casas, imaginava a decoração das divisões e pensava nas proporções e nos detalhes. Sempre tive alguma sensibilidade para a estética, a arte e o belo — não como procura da perfeição, mas da harmonia.

A Medicina surgiu mais tarde, da vontade de cuidar. A Cirurgia Plástica reuniu duas dimensões muito minhas: o rigor da ciência e a sensibilidade estética.

PA: Certamente, tantos anos de experiência trazem consigo memórias. Recorda algum caso que a tenha marcado particularmente?

RV: É difícil escolher um único caso. A minha formação e os primeiros anos de carreira estiveram ligados à cirurgia reconstrutiva, aos grandes traumatizados, queimados e, mais tarde, à oncologia. Contextos que me ensinaram muito sobre cirurgia, mas sobretudo sobre pessoas.

O que mais me marca é perceber como uma cirurgia pode transformar a forma como alguém vive. Na reconstrução ou na estética, ajudamos pessoas a recuperar confiança, o que é extremamente gratificante.

Costumo dizer que poderia escrever um livro com tantas peripécias e histórias felizes que já vivi nesta profissão.

PA: O seu percurso começou na Cirurgia Reconstrutiva. Como evoluiu até à cirurgia estética que pratica hoje?

RV: A cirurgia reconstrutiva deu-me bases fundamentais: conhecimento anatómico, rigor técnico e capacidade de resolver situações complexas. Trabalhei em microcirurgia, reconstrução oncológica, cirurgia mamária, trauma e queimados.

Aprendi com referências internacionais como Pedro Cavadas, Ivo Pitanguy, Jaume Masia, Jobe Fix, Luiz Haroldo, Alfredo Hoyos, Raul Manzaneda e Luís Vasconez, experiências que marcaram a minha forma de exercer.

Progressivamente, direcionei a atividade para a cirurgia mamária e de contorno corporal, onde a precisão técnica se cruza com o gosto pela forma, proporção e harmonia.

PA: O contorno corporal tornou-se uma das suas principais áreas de diferenciação. O que caracteriza a sua abordagem?

RV: Atualmente a lipoescultura vai muito além da remoção de gordura: permite trabalhar proporções, definição muscular e transições entre regiões do corpo.

Sou certificada como Total Definer Master em lipoescultura de alta definição e complemento essa formação com técnicas de remodelação costal e tecnologias de retração da pele, individualizando cada cirurgia.

Procuro resultados definidos e equilibrados. O contorno corporal tem uma componente artística fascinante, mas só faz sentido quando sustentada por conhecimento anatómico, experiência e rigor científico.

PA: A região glútea ocupa hoje um lugar importante no seu trabalho. O que despertou esse interesse?

RV: Percebi que as preocupações das pacientes iam muito além do volume: forma, celulite, depressões e flacidez da pele, que exigem abordagens diferentes e complementares.

Isso levou-me a investir em formação específica em harmonização glútea e na técnica GoldIncision, na qual sou certificada como Expert. Investigo também esta área para desenvolver uma abordagem mais completa, sistematizada e individualizada.

PA: Mesmo com uma carreira consolidada, continua a investir em formação internacional, com a inovação como uma constante. O que a motiva?

RV: A Medicina não nos permite ficar parados, e a Cirurgia Plástica evolui a um ritmo alucinante. Tenho uma curiosidade permanente e nunca gostei de sentir que já sei o suficiente.

Procurei aprender com cirurgiões de referência em diferentes países e escolas, incluindo Espanha, Estados Unidos e Brasil. Continuo a participar em cursos e congressos internacionais, tendo certificações em lipoescultura de alta definição, remodelação costal, harmonização glútea e tratamento da celulite que entendo serem ferramentas valiosas para a minha prática.

Não se trata de colecionar técnicas ou certificados, mas de nunca assumir que aquilo que fazemos hoje é necessariamente a melhor forma de o fazer amanhã.

Quanto mais experiência tenho, maior é a minha vontade de continuar a aprender, ao jeito do filósofo Sócrates, “Só sei que nada sei”.

PA: A investigação científica e o ensino têm acompanhado o seu percurso. De que forma chegam à prática clínica?

RV: A investigação deve nascer de perguntas reais, muitas delas surgidas no bloco operatório: podemos reduzir complicações, preservar melhor os tecidos, recuperar mais depressa ou tornar uma técnica mais previsível?

O meu doutoramento em Medicina foi dedicado à redução da morbilidade em abdominoplastia, dando origem a estratégias que aplico na prática clínica, que foram publicadas e cientificamente comprovadas. Atualmente, estou envolvida em três projetos de investigação e continuo a publicar artigos científicos em diversas áreas. É uma parte do nosso “trabalho que não se vê” e que exige uma enorme dedicação.

O mais gratificante é quando a investigação regressa ao ponto onde começou: o paciente. Quando se traduz numa cirurgia mais segura ou numa recuperação mais simples, a ciência cumpriu o seu propósito.

Não me interessa apenas saber que uma técnica funciona. Interessa-me perceber porquê e como podemos fazê-la melhor.

Ensinar obriga-me a estudar e a questionar continuamente. E isso agrada-me genuinamente, não só pela partilha do conhecimento como pelo aprofundamento do mesmo. Colaboro com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto há mais de 16 anos, desde há uns anos como Professora Auxiliar Convidada, e a motivação para ensinar mantém-se.

E, tal como Aristóteles referia, acredito que “Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito”.

PA: Como gere as expectativas dos pacientes numa época tão influenciada pelas redes sociais?

RV: As redes sociais facilitaram o acesso à informação, mas também criaram padrões de beleza uniformizados e expectativas nem sempre realistas.

Na consulta, procuro compreender o que verdadeiramente incomoda cada pessoa e o que podemos alcançar respeitando a sua anatomia. Não tenho dificuldade em recusar um procedimento quando considero que não é seguro ou adequado.

A cirurgia estética deve ajudar alguém a sentir-se melhor consigo próprio, não a corresponder a um padrão imposto pelos outros.

Não opero uma fotografia nem uma tendência. Opero uma pessoa.

PA: Recebe pacientes que viajam de outros países para serem operados por si. A que atribui essa procura?

RV: Hoje, os pacientes acompanham cirurgiões em qualquer parte do mundo. Muitos chegam até mim pelos resultados, sobretudo em cirurgia mamária, de contorno corporal e da área glútea, muitas vezes recomendados por outros pacientes e até pelos pares estrangeiros.

A formação, a experiência, a segurança e a confiança são determinantes.

Procuro manter uma relação próxima, desde a primeira consulta até ao pós-operatório, com uma equipa disponível e acompanhamento individualizado. Quando alguém viaja para ser operado por nós, essa confiança representa uma responsabilidade acrescida, que valorizo muito.

PA: Defende uma visão integrada da Cirurgia Plástica, que vai além do procedimento. Qual a importância da preparação, recuperação e manutenção dos resultados?

RV: Acredito que esta será uma das grandes evoluções da nossa especialidade.

O estado nutricional, a composição corporal, a massa muscular, a qualidade da pele e os hábitos de vida influenciam a segurança, a recuperação e os resultados a longo prazo. Identificar fatores de risco, corrigir défices e preparar cada paciente pode fazer uma diferença significativa. A manutenção de um resultado exige estabilidade do peso e hábitos saudáveis.

Valorizo o acompanhamento pós-operatório e o trabalho multidisciplinar, nomeadamente com a Fisioterapia Dermatofuncional, Terapia Pós-operatória e Nutrição.

Interessa-me cada vez mais a aproximação entre Cirurgia Plástica, saúde preventiva e longevidade. Vivemos mais anos e queremos vivê-los com qualidade. A aparência faz parte do bem-estar, mas não deve ser dissociada da saúde. Vejo o futuro da Cirurgia Plástica numa abordagem mais completa, que começa antes da cirurgia e continua muito para além dela.

PA: O que continua a ser mais importante na relação com os seus pacientes?

RV: A confiança. Uma cirurgia envolve expectativas, receios e, muitas vezes, decisões ponderadas durante anos. Procuro conhecer cada pessoa e esclarecer o que podemos ou não alcançar.

Sou exigente comigo e com a minha equipa, mas procuro aliar essa exigência à proximidade, disponibilidade e a um seguimento cuidadoso. A relação médico-paciente não termina no bloco operatório. A experiência ensinou-me que, por mais semelhantes que duas cirurgias possam ser, nunca estamos perante duas pessoas iguais.

PA: Olhando para o futuro da Cirurgia Plástica e para o seu próprio percurso, o que ainda gostaria de concretizar?

RV: Continuo entusiasmada com o que faço. Quero aprofundar o meu trabalho em cirurgia mamária, contorno corporal e, particularmente, na região glútea, onde desenvolvo uma abordagem própria que pretendo continuar a investigar e partilhar.

O ensino e a investigação continuarão presentes, assim como o interesse por uma visão mais abrangente da saúde, prevenção e longevidade.

Sou uma pessoa de projetos. Gosto de criar, de pensar mais além e de me desafiar. Não me vejo a ficar parada ou a limitar-me ao que já construí.

Há caminhos que venho a desenhar há algum tempo e que agora começam a ganhar forma. Nem tudo o que se constrói precisa de ser anunciado. Algumas coisas merecem simplesmente o seu tempo para acontecer.

About Post Author

Deixe um comentário

Outra Perspetiva

O papel dos enfermeiros gestores na qualidade, segurança e humanização dos cuidados de saúde

Nelson Guerra, à frente da Associação Portuguesa dos Enfermeiros Gestores e Liderança (APEGEL), parte dos temas discutidos no XVI Congresso...

“A nossa prioridade é garantir que cada doente é acompanhado por profissionais qualificados, num contexto de rigor, segurança e confiança”

É na honestidade, na ética e no respeito pela individualidade de cada doente que assenta o trabalho do Centro de...

O trabalho em equipa como impulso da cirurgia plástica

Nuno Fradinho, diretor clínico da MyMoment, dá a conhecer à Perspetiva Atual a “cirurgia a quatro mãos”, um método que...

Uma visão que respeita a identidade e os desejos de cada pessoa

Luísa Magalhães Ramos não encara a Cirurgia Plástica apenas como uma possibilidade de transformação, mas como uma forma de valorizar...

Uma equipa dedicada à recuperação e ao bem-estar dos pacientes

Em 1989, o Hospital da Prelada inaugurou a primeira Unidade de Queimados do Norte de Portugal. Hoje em dia, o...