“A preocupação com a imagem resiste a todas as crises”

Francisco Ibérica Nogueira, famoso cirurgião estético português com mais de 11000 cirurgias plásticas no seu currículo, fundou, em 1995, a Clínica Ibérico Nogueira, em Lisboa. Esta instituição de nome próprio é reconhecida atualmente como uma das clínicas de cirurgia estética mais prestigiadas do nosso país. Este reconhecimento deve-se, sobretudo, à sua equipa que agrega vários profissionais experientes, entre eles cirurgiões plásticos, anestesistas, enfermeiros, nutricionistas e médicos de diversas especialidades.

Perspetiva Atual: Como surgiu o gosto pela medicina e, mais especificamente, pela cirurgia plástica?

Francisco Ibérico Nogueira: Em 1969, quando terminei o ensino liceal em Coimbra, tinha pensado fazer a aptidão à Faculdade de Direito, mas na véspera desse dia optei por me candidatar ao curso de Medicina. Talvez tenha sido o enorme respeito e admiração que eu nutria pelo meu pai, um notável Professor de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade de Coimbra, que me levou a abraçar esta carreira profissional.

Mais tarde, já em 1975, foi no Brasil, no Rio de Janeiro que me apaixonei pela cirurgia plástica no dia em que pela primeira vez assisti a uma cirurgia estética, um face-lift, na clínica do Professor Ivo Pitanguy, um extraordinário cirurgião, e mundialmente famoso de quem me tornei discípulo e grande amigo.

PA: Sempre foi um objetivo pessoal criar a sua própria clínica?

FIN: Quando concluí no Rio de Janeiro a minha especialidade em cirurgia estética e reconstrutiva, decidi regressar ao meu país, e nessa época, nos anos 80, Portugal ainda era um país um pouco fechado e pouco recetivo para quem regressava com títulos académicos obtidos no estrangeiro.

Francisco Ibérico Nogueira

Ao contrário do Brasil, em que existia um grande intercâmbio científico entre pares, e onde as clínicas de cirurgia plástica estavam abertas a todos os cirurgiões que quisessem atualizar-se, em Portugal senti uma certa barreira corporativa e as portas a fecharem-se à minha volta, e esse foi talvez o principal motivo que me levou a dar um passo decisivo na minha vida ao criar a minha própria clínica.

Foi o início de um trajeto magnífico, no decorrer do qual para além das realizações pessoais alcançadas, tive o prazer de contribuir para divulgar em Portugal as técnicas cirúrgicas da escola Pitanguy, e a felicidade de ter transmitido a outros colegas a experiência adquirida no Brasil.

PA: Hoje em dia, como se define enquanto profissional de saúde?

FIN: 40 anos de atividade cirúrgica intensa, e cerca de 11000 cirurgias efetuadas, permitem-me afirmar que a cirurgia plástica exige uma longa curva de aprendizagem e que o sucesso de um cirurgião depende de grande dedicação, de seriedade absoluta e do maior respeito pelos pacientes.

Durante toda a minha vida nunca me esqueci e procurei sempre seguir um conselho que um dia o meu pai me deu: “quando por vezes te surgirem dúvidas nas opções a tomar no tratamento dos teus pacientes, pensa como tratarias, na mesma circunstância, a tua mulher ou os teus filhos e assim obterás a resposta adequada às tuas dúvidas”.

É esta a ética que tem vindo a ser transmitida pela geração de médicos de que faço parte, e que terá seguramente continuidade no meu filho, um jovem médico, com quem me orgulho de estar a trabalhar.

PA: O que tem a dizer a quem pensa que a cirurgia estética faz parte de uma medicina dita “superficial” e de menor importância?

FIN: Muito sinceramente devo dizer que a minha experiência ao longo dos anos tem-me mostrado que a cirurgia estética não tem nada de superficial e, pelo contrário, pode ajudar muitas pessoas a recuperar a sua autoestima e melhorar a qualidade de vida.

As pessoas, para serem felizes, precisam de se sentir bem consigo próprias e isso inclui a manutenção do seu equilíbrio estético.

Claro que existem casos da chamada dismorfofobia, situação essa em que, pessoas num estado de desequilíbrio psicológico nunca estão contentes com a sua imagem e procuram continuamente, e através da cirurgia estética, obter resultados inatingíveis, mas estas situações são muito raras. A esmagadora maioria dos nossos pacientes são pessoas comuns, que apenas pretendem, através da cirurgia estética, recuperar traços de juventude perdida, tratar sequelas cicatriciais de traumas ou queimaduras, corrigir defeitos congénitos, etc. Desejos estes que nada têm a ver com “superficialidade” e sim a ver com a necessidade de restaurar o seu equilíbrio emocional.

PA: Quais os procedimentos mais recorrentes e quais aqueles que lhe dão um maior gosto de realizar?

FIN: A avaliação de mais de uma dezena de milhar de cirurgias que efetuei ao longo da minha vida mostra que o principal contingente de procedimentos foi relacionado com a cirurgia estética da face e pálpebras (face-lift e blefaroplastia), seguido pela cirurgia mamária (aumento, redução e lift mamário), cirurgia do nariz (rinoplastia) e cirurgia do contorno corporal e abdominal (abdominoplastia e lipoaspiração). No que se refere à cirurgia reconstrutiva, um capítulo fascinante da cirurgia plástica, efetuámos um elevado número de reconstruções mamárias pós-mastectomia, correção de cicatrizes causadas por traumatismos ou queimaduras, e correção de lábio leporino.

Devo confessar que tenho uma predileção pelas cirurgias de rejuvenescimento facial, rinoplastias e também pela cirurgia mamária seja de aumento, redução ou lift mamário.

PA: Depois de tantos anos de experiência, ainda se sente desafiado profissionalmente com alguns casos que lhe aparecem na clínica?

FIN: Por mais experiência que possamos ter, existem situações extremamente difíceis de resolver e que constituem desafios importantes para qualquer cirurgião.

É de extrema importância que todos os pacientes sejam perfeitamente informados acerca do alcance e limites dos procedimentos a que se propõem submeter, assim como também é fundamental que o cirurgião saiba decidir quando deve excluir de cirurgia pacientes com expectativas irrealistas e inalcançáveis que podem vir a gerar uma grande conflitualidade entre paciente e médico.

PA: Qual o seu maior objetivo enquanto cirurgião plástico?

FIN: Ao longo de toda a minha vida profissional, o meu objetivo principal como cirurgião tem sido utilizar todos os recursos de que disponho para procurar ir ao encontro das expectativas dos pacientes que me consultam e se entregam aos meus cuidados.

Outro dos meus principais objetivos tem sido exercer a minha atividade com uma ética profissional rigorosa, preocupação esta que infelizmente, e um pouco por todo o mundo, tem vindo a ser menosprezada.

Na realidade, é com muita tristeza que observo o modo como a medicina e cirurgia estética se tornaram num “negócio” mundial que pouco a ver tem com a nobreza que deveria presidir a todos os atos médicos.

PA: Qual o perfil dos especialistas que compõem a equipa da Clínica?

FIN: Na minha clínica, para além da minha equipa de cirurgia plástica, conto com o apoio de colegas de várias especialidades entre as quais, cirurgia vascular, medicina estética, dermatologia, medicina interna, ginecologia e psiquiatria.

A clínica dispõe também da colaboração de uma nutricionista, uma esteticista e uma enfermeira especialista em instrumentação cirúrgica.

PA: Estudou e trabalhou fora de Portugal. É importante para alguém da área da saúde procurar abrir os seus horizontes através do contacto com sistemas de saúde diferentes do nosso?

FIN: Qualquer médico que queira ter uma noção abrangente de outras realidades no campo da medicina e se queira manter atualizado necessita de se manter envolvido no intercâmbio científico mundial, através da frequência de estágios, cursos, congressos e reuniões científicas, que lhe permitam acompanhar a evolução da medicina nas diversas áreas e estabelecer contacto com colegas de outros países.

PA: A última vez que o entrevistámos foi há precisamente um ano. O que mudou desde então?

FIN: Neste último ano, e após a pandemia que alterou as nossas vidas durante dois anos, as pessoas puderam finalmente regressar à normalidade e foi com alguma surpresa, mas também com satisfação que voltei a receber na minha consulta pessoas desejosas de se submeterem a diversas cirurgias para se rejuvenescerem e embelezarem.

Do mesmo modo, o capítulo da medicina estética, com os seus tratamentos não cirúrgicos e pouco invasivos, registou um enorme crescimento. Na realidade, a preocupação com a imagem resiste a todas as crises. É um fenómeno transversal na sociedade e independente dos diversos estratos sociais.

PA: A área da saúde é uma área em constante evolução, onde a investigação é imprescindível. Gostaria de destacar alguma nova técnica que esteja a inserir na sua clínica ou que foi desenvolvida recentemente pelos investigadores da medicina estética?

FIN: A rara oportunidade que tive de ter efetuado a minha formação profissional ao lado de alguns dos grandes mestres da cirurgia plástica mundial permitiu-me acompanhar a criação de novas técnicas cirúrgicas, essencialmente no campo da cirurgia mamária e facial.

Ao longo dos anos tenho procurado dar a minha contribuição através da publicação e apresentação de trabalhos científicos em congressos internacionais. Nos últimos dois anos, juntamente com o meu filho, temos vindo a desenvolver uma técnica de rejuvenescimento que designámos por “Microfilling de alta precisão” que tem demonstrado uma grande eficácia no tratamento de rugas pálpebras e labiais, a qual tencionamos apresentar à comunidade científica no decorrer do próximo ano.

PA: Quais são os seus planos para o seu futuro enquanto médico cirurgião e para a sua clínica?

FIN: No futuro próximo, tenciono manter a minha atividade cirúrgica habitual e, paralelamente, desenvolver novos projetos na área da saúde.

Francisco Ibérico Nogueira (filho) durante um tratamento

Gostaria muito que, no futuro, a metodologia de trabalho que fomos desenvolvendo ao longo de 40 anos na nossa clínica, e que se tem mostrado muito eficaz, pudesse perdurar através do meu filho e dos nossos colaboradores.

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