Paulo Mergulhão, Presidente da SPCI

“A Medicina Intensiva está onde está o doente crítico”

Paulo Mergulhão, Presidente da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos (SPCI), reforça a importância da divulgação do papel da medicina intensiva e revela as estratégias utilizadas pela SPCI para aprimorar constantemente os cuidados prestados ao doente crítico e melhorar as condições dos profissionais da especialidade.

Perspetiva Atual: A Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos (SPCI) é a organização que representa e acolhe os profissionais de saúde da Medicina Intensiva, sejam médicos ou enfermeiros. Qual é o papel desta Sociedade e que características são essenciais para garantir a proteção dos interesses destes profissionais e o desenvolvimento desta especialidade médica?

Paulo Mergulhão: O papel fundamental da SPCI é a melhoria contínua e sustentada dos cuidados prestados ao doente crítico. Na persecução deste importante e fundamental objetivo, a SPCI dispõe e utiliza diversas estratégias, nomeadamente, uma forte aposta na disponibilização de ferramentas de formação multifacetadas e acessíveis, que permitem a obrigatória atualização de conhecimentos nas diversas áreas da Medicina Intensiva, a elaboração de recomendações sobre temas relevantes, como as recentemente revistas e publicadas recomendações sobre abordagem do doente crítico com COVID-19, e a fomentação de investigação de qualidade, seja através de estudos patrocinados diretamente pela SPCI, seja pelo apoio a trabalhos relevantes liderados por outras entidades que o solicitem. Acreditamos que estas diferentes facetas são complementares e sinérgicas, confluindo todas para o objetivo comum da melhoria dos cuidados prestados ao doente crítico.

PA: A SPCI tem também o papel de divulgar a realidade da Medicina Intensiva junto da sociedade, como forma de promover e proteger o seu desenvolvimento futuro e realçar a sua relevância social. Que temas devem ser mais abordados junto da população e quais as estratégias de divulgação que utilizam? De que forma é que a consciencialização da população em geral para as condições de trabalho e para a importância deste setor pode ter impacto no desenvolvimento da especialidade?

PM: Este é um aspeto de enorme importância e onde ainda existe um caminho a percorrer. É fundamental que o cidadão entenda as possibilidades e limites da prática da Medicina Intensiva de forma a ser capaz de tomar decisões devidamente informadas e esclarecidas.

A Medicina Intensiva deixou de circunscrever-se às unidades de Cuidados Intensivos e presta cuidados em todos os serviços do hospital. A Medicina Intensiva está onde está o doente crítico, o que faz com que esta abrangência de cuidados, centrados no doente e nos seus familiares, seja uma importante mensagem para a população.

Por outro lado, é missão da SPCI promover, na sociedade, a discussão sobre o desenvolvimento da saúde em Portugal, em particular da Medicina Intensiva, promovendo o esclarecimento da população sobre a carência e reais necessidades desta fundamental especialidade médica.

Sem pôr em causa o valor social da Medicina Intensiva (colocado em grande evidência durante a pandemia), é verdade que a nossa capacidade de o comunicar de forma clara e acessível à população carece de melhoria.

PA: Assumiu a presidência da SPCI em 2021, a meio de um período único para a medicina em geral e para toda a população mundial. Ser presidente de uma associação como a SPCI, em momentos conturbados como este, exige esforços redobrados? Como a Sociedade conseguiu (e consegue ainda) dar o apoio necessário aos profissionais que representa?

PM: É certo que o período crítico da pandemia representou um momento de crise e enorme desafio. Há que realçar a exemplar resposta que a Medicina Intensiva (em estreita parceria com muitas outras) conseguiu dar, o que permitiu ampliar de forma extraordinária a capacidade instalada. Este aumento de capacidade, alicerçado no enorme esforço de um grande número de profissionais, permitiu dar uma resposta adequada aos principais momentos de sobrecarga assistencial sem situações de colapso do sistema, como aquelas a que se assistiu noutros países. Este esforço titânico, uma dedicação ímpar e uma resposta integrada contribuiu para salvar inúmeras vidas.

A título de exemplo, salientar apenas que no pico da 3.ª vaga (no início de fevereiro de 2021) chegaram a estar internados nos Serviços de Medicina Intensiva Nacionais mais de 900 doentes com COVID-19, relembrando que antes do início da pandemia o número total de leitos disponíveis era inferior a 650. Através dos mecanismos já mencionados, a SPCI tentou dar o apoio possível a todos, mas não há dúvida nenhuma que o sucesso da resposta se deve ao enorme esforço de todos os que dela participaram.

A SPCI através do seu website, da realização de webinars e fóruns de discussão, contribui e contribuiu para a formação continua de todos os profissionais envolvidos no combate à pandemia.

PA: Na mensagem que dirige aos seus colegas de profissão e que se pode consultar no website da SPCI, afirma o seguinte: “A SPCI deve pugnar por ser reconhecida como um centro de formação e investigação na área da Medicina Intensiva.” São estes os grandes pilares que podem garantir um maior desenvolvimento e evolução da especialidade? Porquê?

PM: A Medicina Intensiva é uma disciplina relativamente recente, com uma componente tecnológica importante e em constante evolução. Neste contexto é muito importante a capacidade de manter atualizado o conhecimento sobre as melhores práticas contemporâneas, o que remete para a questão da formação médica contínua. Estes programas educativos estão em constante evolução num esforço de se manterem atuais e úteis para o seu objetivo final que é a melhoria dos cuidados prestados aos doentes.

Por outro lado a eficácia das ações de formação é reforçada quando as mesmas são alicerçadas em investigação local e não apenas usando dados gerados noutras geografias. É com base neste racional que existe a dupla aposta em formação e investigação.

PA: Relativamente à formação, a Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos tem vindo a desenvolver a SPCI School. Como funciona esta escola e qual é a oferta formativa atual? Que acreditação está associada a estes cursos?

PM: Em 2017, a SPCI desenvolveu o conceito da SPCI School. Na verdade, foi uma forma de organizarmos, sob uma perspetiva mais formal, toda a atividade formativa já em desenvolvimento na SPCI. Com isso, candidatamo-nos à certificação pela DGERT e conseguimos tornar a SPCI uma entidade formativa certificada. 

Entendemos a Medicina Intensiva como uma área disciplinar da Medicina, que, por excelência, tem a sua prática assistencial baseada num trabalho de equipa multidisciplinar e multiprofissional. Daí que a nossa oferta formativa tenha como alvo, fundamentalmente, médicos e enfermeiros. Mas não só. Neste momento, nutricionistas, farmacêuticos, fisioterapeutas e outros profissionais envolvidos, por exemplo, nos programas de reabilitação precoce dos doentes críticos, têm acesso aos nossos programas de formação que continuamos a desenvolver. Dentro da formação médica, o nosso portfólio assenta em múltiplas frentes: médicos intensivistas, muito mais vocacionada para temáticas muito específicas da Medicina Intensiva, alguns cursos com níveis básico e avançado; médicos não intensivistas, onde o foco assenta, sobretudo, na abordagem e gestão inicial do doente crítico, enfermeiros de Medicina Intensiva e de outras áreas que nos são próximas e outros profissionais de saúde. Acreditamos num modelo de formação multimodal e o mais consequente possível naquilo que é o seu papel modificador da prática clínica, em prol de uma melhoria do prognóstico do doente crítico. Daí que, estejamos a apostar na inclusão de programas de simulação clínica na nossa oferta formativa. Por outro lado, a parceria com outras instituições de formação, detentoras de uma estrutura forte do ponto de vista, por exemplo de simulação, ou com entidades de ensino superior, como a Faculdade de Ciências da Nutrição do Porto ou a ESE da Cruz Vermelha Portuguesa, tem e vai permitir-nos continuar a garantir a qualidade e eficiência dos nossos programas de formação. Finalmente, não podemos deixar de salientar o papel da SPCI School na formação em Medicina Intensiva de médicos e enfermeiros dos PALOP, onde desde 2021 temos marcado presença constante, presencial e à distância, em projetos desenvolvidos em parceria com o Camões IP.

PA: Sobre a investigação, como é que a SPCI promove oportunidades relevantes para a prática clínica? A Sociedade fomentou algumas parcerias relevantes neste sentido?

PM: A investigação na área da Medicina Intensiva é um desafio complexo em várias dimensões. O relativo baixo número de doentes e a enorme heterogeneidade de síndromes abordados dificultam a condução, em tempo útil, de estudos com volume relevante. Uma estratégia possível para ultrapassar esta barreira é a participação em investigação colaborativa multicêntrica. Trabalhos seminais na área da COVID-19 como o  estudo RECOVERY, que mudou profundamente a abordagem dos doentes com infecção grave pelo SARS-CoV-2 são um bom exemplo disto. No âmbito Nacional o valor destas estratégias é realçado pelo sucesso da participação Nacional no projeto ISARIC, coordenada a nível Nacional pelo Dr. Rui Pereira.

O projeto fundamental da SPCI, em parceria com o Colégio da especialidade de Medicina Intensiva da Ordem dos Médicos (CEMIOM) e com a Associação dos Internos de Medicina Intensiva (AIMINT), para o próximo triénio é precisamente a criação de uma plataforma digital facilitadora da condução deste tipo de projetos. Esta ferramenta está a ser desenvolvida em colaboração com duas empresas (AfterMath e Starkdata) que irão garantir o bom funcionamento das suas diferentes características. Espera-se que a versão de teste inicial desta importante ferramenta esteja operacional no final de Maio deste ano.

Outra área de interesse é a da criação de grupos de trabalho específicos em diversas áreas como a hemodinâmica, o trauma ou a sedação e analgesia. Alguns destes grupos estão já em funcionamento há vários anos e têm produzido resultados muito interessantes enquanto outros estão agora a arrancar. Estes grupos podem aceder a financiamento específico concedido pela SPCI para a implementação de projetos de investigação ou educação médica.

Mais recentemente foi criado um programa de apoio à formação diferenciada na área da monitorização hemodinâmica que visa permitir aos internos de formação específica de Medicina Intensiva a realização de estágios em centros de referência com o apoio logístico e financeiro da SPCI.

PA: Na mesma mensagem que mencionei anteriormente, o Doutor Paulo Mergulhão refere que a realização de congressos e outros eventos representam momentos de encontro das linhas estratégicas estabelecidas para este triénio. É o caso do XI Congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva que se vai organizar em Oeiras, de 10 a 12 de maio? Pode-nos apresentar um pouco da dinâmica deste congresso? Que temas serão abordados e qual é a importância desta ligação entre Portugal e Brasil que justifica 11 edições deste evento?

PM: Os congressos médicos são momentos de encontro e troca de experiências fundamentais para o desenvolvimento e atualização das boas práticas. Existe uma proximidade natural com a Associação de Medicina Intensiva Brasileira que se tem mantido e desenvolvido ao longo dos anos. A realização regular do congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva (CLBMI) é a expressão máxima desta relação que se pretende manter e reforçar no futuro.

O CLBMI é realizado de forma anual, alternando o local entre Portugal e o Brasil e tem sido muito bem recebido em ambos os lados do Atlântico.

A edição de 2023 realiza-se em Portugal, mais precisamente no Tagus Park, em Oeiras, em Maio.

Tem uma participação de palestrantes internacionais de grande renome de entre os quais não podemos deixar de salientar a presença do Presidente da Sociedade Europeia de Medicina Intensiva, o Prof Jan de Waele.

Vão ser principais tópicos de discussão, o planeamento do desenvolvimento da Medicina Intensiva, o cuidados dos doentes críticos cirúrgicos, o inevitável SARS-CoV-2 e a perspetiva da terapêutica individualizada em várias áreas da gestão do doente crítico.

Aqui é também necessária uma palavra de agradecimento aos parceiros institucionais da SPCI. Sem o seu apoio continuado seria impossível continuarmos a desenvolver este tipo de iniciativas que são, na nossa perspetiva, fundamentais para o desenvolvimento sustentado da nossa especialidade.

PA: Estamos no último ano do seu mandato enquanto Presidente da SPCI. Quais foram as suas maiores realizações à frente da Sociedade e que metas ainda pretende alcançar? 

PM: É claro que este mandato foi fortemente condicionado pela pandemia. Neste contexto, não posso deixar de referir o trabalho desenvolvido pela SPCI, que em estreita colaboração com outras instituições, foi fundamental na vitória sobre a “peste do século XXI”.

A formação e a investigação foram instrumentais para o sucesso desta resposta e continuarão a ser apostas fortes da SPCI.  

Outro aspeto que merece destaque é o boa colaboração com todos as entidades com interesse no desenvolvimento da Medicina Intensiva entre as quais não podemos deixar de salientar o Colégio da Especialidade de Medicina Intensiva de Ordem dos Médicos e a Associação dos Internos de Medicina Intensiva. O recente reconhecimento da Medicina Intensiva como uma especialidade autónoma representa um enorme desafio na medida em que é necessário garantir os mais elevados padrões na formação destes novos especialistas. Saudamos a conclusão do internato de formação especifica em Medicina Intensiva dos primeiros Colegas, durante o ano de 2022 e estamos comprometidos em colaborar com o desenvolvimento contínuo da nossa especialidade.

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