Carreiras em ascensão: as oportunidades no setor marítimo-portuário

Com uma taxa de empregabilidade invejável, a Escola Superior Náutica Infante D. Henrique (ENIDH) é a única, em Portugal, a conferir cursos acreditados pela European Maritime Safety Agency, permitindo que as carreiras dos seus alunos não estejam limitadas ao mercado nacional e ajudando, assim, a combater a escassez de oficiais para a marinha mercante que se verifica a nível internacional. Em entrevista à Perspetiva Atual, o Presidente da escola, Vítor Franco, discute como a instituição tem trabalhado para formar profissionais qualificados para a indústria náutica.

Perspetiva Atual: A Escola Superior Náutica Infante D. Henrique (ENIDH) é uma instituição de ensino superior público politécnica e a única escola nacional vocacionada para a formação de Oficiais da Marinha Mercante e quadros superiores do setor Marítimo-Portuário nas áreas da Intermodalidade, Gestão e Logística. Pode-nos apresentar melhor esta escola?

Vítor Franco: A história da ENIDH tem início em 1924 com a criação da Escola Náutica, na dependência do Ministério da Marinha, com o objetivo de formar oficiais para a marinha mercante. Com algumas alterações de designação e instalações pelo meio, em 2008 passou a designar-se Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, sendo hoje uma instituição pública de ensino superior politécnico com autonomia plena.

Atualmente, de acordo com os seus Estatutos, a ENIDH assume como seus objetivos formar oficiais da marinha mercante e outros quadros superiores para os setores marítimo-portuário, logística, transportes e áreas afins; promover a investigação nas mesmas áreas, bem como das tecnologias e das ciências do mar; promover o conhecimento, a investigação e o desenvolvimento tecnológico, nomeadamente nos domínios da segurança ambiental e marítima, bem como das atividades relacionadas com a náutica de recreio; e contribuir para a atualização de conhecimentos e especialização dos quadros do setor marítimo-portuário, logística, transportes e áreas afins, promovendo a formação ao longo da vida.

PA: Ser a única escola nacional centrada na formação superior nestas áreas de atividade acrescenta uma maior responsabilidade à sua missão?

VF: Apesar dos seus cursos serem acreditados pela A3ES, como qualquer outra instituição de ensino superior em Portugal, acresce que os cursos da ENIDH  são também acreditados pela EMSA (European Maritime Safety Agency), com requisitos específicos que nenhuma outra instituição de ensino superior portuguesa tem. Este fator acrescenta uma enorme responsabilidade à missão da instituição, que consiste em oferecer um ensino superior de excelência, promover a formação ao longo da vida, conferir as certificações marítimas reconhecidas internacionalmente, e desenvolver atividades de investigação, promovendo, assim, o conhecimento, a inovação e o desenvolvimento sustentável, bem como a segurança ambiental e marítima.

PA: Com a falta de opções de cursos superiores para quem quer seguir uma carreira ligada ao Mar, é extremamente necessário que os cursos oferecidos sejam pensados e planeados de forma a responder às necessidades do mercado. Como está organizada a oferta formativa atual da ENIDH e por que motivo são estes os cursos que mais fazem sentido lecionar?

VF: A Escola Superior Náutica mantém um diálogo frequente com os empregadores do setor marítimo e portuário de modo a identificar as necessidades de formação e procurar responder às oportunidades de melhoria apontadas pelos diversos stakeholders. No que se refere aos cursos marítimos é necessário que os mesmos cumpram os requisitos internacionais de formação expressos na Convenção STCW (Standards of Training, Certification and Watchkeeping for Seafarers), pois só assim os cursos são acreditados e conferem as certificações reconhecidas internacionalmente.  Esta convenção STCW é um instrumento internacional fundamental que estabelece um conjunto vasto de disposições que regulamentam, na sua essência, os requisitos de formação e certificação exigidos aos marítimos para o exercício de funções a bordo de navios de mar. Assim sendo, a nossa oferta formativa atual é constituída pelos cursos que, no nosso entendimento, respondem às necessidades do setor marítimo-portuário, considerando também os desafios da transição digital que está a ocorrer no transporte marítimo e nos portos, bem como a transição energética e as necessidades de novos combustíveis mais sustentáveis para os navios.

PA: O ensino em sala de aula deve ser complementado pela vertente prática, de modo que os alunos possam ter contacto direto com os conhecimentos que vão adquirindo ao longo dos cursos. A ENIDH oferece oportunidades para aprendizagem prática em embarcações e portos através de parcerias com empresas do setor marítimo?

VF: O ensino em sala de aula na Escola Náutica tem sido sempre complementado por uma forte componente prática, que é fundamental para um bom desempenho a bordo dos navios.  A Escola tem laboratórios bastante completos nas várias áreas fundamentais dos cursos e essas valências vão, agora, ser reforçadas e modernizadas com investimentos financiados pelo PRR através do projeto Blue Hub School, que prevê um total de 7.5 milhões de Euros de investimento.  Este projeto, para além da modernização dos equipamentos dos laboratórios, prevê a construção de um moderno Centro Internacional de Segurança Marítima, muito importante para a formação prática em segurança marítima, combate a incêndios, etc.

Em junho de 2022, a Escola inaugurou novos simuladores de navegação e de máquinas marítimas, que não só permitem a formação com os modelos de navios mais modernos, como também a realização de estudos de investigação aplicada com muita relevância para o setor marítimo-portuário.

Existem, também, muitos protocolos firmados com empresas com objetivos específicos de realização de estágios.

PA: Como classifica a taxa de empregabilidade dos cursos marítimos em Portugal? São áreas que permitem o crescimento profissional dos trabalhadores?

VF: A taxa de empregabilidade dos cursos marítimos é muito elevada e existe uma escassez de oficiais para a marinha mercante a nível internacional. Os diplomados da Escola ficam habilitados com certificações marítimas reconhecidas internacionalmente, por isso as suas possibilidades de trabalho não estão limitadas às empresas portuguesas e ao mercado português. Os diplomados dos cursos marítimos de Pilotagem, de Engenharia de Máquinas Marítimas e de Engenharia Eletrotécnica Marítima têm de fazer um estágio de praticante com a duração de 12 meses a bordo de navios e a Escola tem procurado dar o apoio para concretização desses estágios através de protocolos com as empresas.  Em 2022 e 2023, foram atribuídas bolsas financiadas pelo projeto Marin Cadet do Fundo Azul que têm permitido apoiar com muito sucesso os contratos dos diplomados para este período de praticante.  

É importante notar que uma carreira marítima confere uma experiência profissional notável, particularmente ao nível das Engenharias Marítimas, que é muito reconhecida e valorizada pelas empresas.

A estatística publicada recentemente pela BIMCO, identificou as necessidades, a nível internacional, de oficiais de pilotagem, máquinas marítimas e eletrotécnicos marítimos para os próximos anos. No ano de 2021 foi reportado um défice de cerca de 26.240 oficiais de pilotagem e de máquinas.

Estimou-se, nesse estudo, que a procura de oficiais deverá aumentar cerca de 2% ao ano entre 2021 e 2026 e antecipou-se um aumento mais forte de procura para navios LNG e Cruzeiros, o que abre interessantes perspetivas para o futuro da atividade profissional no transporte marítimo.

Acresce que as remunerações para os oficiais de Engenharias Marítimas e de Pilotagem são bastante atrativas e muito acima da média praticada em Portugal para um licenciado. 

Quantificando a empregabilidade dos cursos é importante mencionar que o índice de empregabilidade do curso de Engenharia de Máquinas Marítimas é de 99,2%, para o curso de Pilotagem é de 98.5% e para o curso de Gestão de Transportes e Logística é de 98.4%.

PA: Podemos afirmar que para Portugal, um país com forte ligação ao Mar, o setor marítimo-portuário pode assumir um papel relevante para o desenvolvimento do país? Se sim, em que sentido?

VF: A forte ligação ao mar que Portugal tem, precisa de ser atualmente reforçada com ações que permitam desenvolver, nos jovens, o gosto pelo mar e pelas atividades marítimas. A designada literacia do mar é de extrema importância ao nível do ensino secundário. Consideramos ser necessário divulgar mais as oportunidades que existem para os jovens nas carreiras marítimas.

É fundamental que se preserve o importante conhecimento marítimo que possuímos e que em paralelo se desenvolvam outras valências e competências em áreas emergentes da designada Economia Azul, com forte importância no desenvolvimento económico do país, com destaque para as atividades marítimo-turísticas, pesca sustentável, aquicultura, geração de energia offshore, entre outras.

PA: Como a ENIDH adapta o seu modelo de ensino às mudanças no setor marítimo, como a transição para fontes de energia mais limpas e sustentáveis e tecnologias mais avançadas?

VF: Como se sabe, o transporte marítimo e os portos enfrentam grandes desafios:  a transição energética, a transição digital e a necessidade de adoção de práticas enquadráveis na designada economia circular.  A Escola Náutica terá necessariamente de se manter muito atenta a estas tendências para o futuro do transporte marítimo e dos portos, atualizando os conteúdos lecionados nos seus cursos e preparando os futuros diplomados para estas novas realidades com novas competências.  As competências digitais, automação e robótica são um exemplo de competências que se têm vindo a reforçar na Escola.

Igualmente, será necessário promover a atualização dos profissionais no ativo através de cursos de curta duração e pós-graduações que precisam de complementar, de forma continuada e organizada, a oferta dos cursos de licenciatura, mestrados e TeSP.

PA: Relativamente à vertente de investigação, a ENIDH está envolvida em pesquisas e projetos de inovação no setor marítimo? Como esses projetos de pesquisa se traduzem em benefícios para os alunos e para a indústria marítima, em geral?

VF: Sim, a Escola Náutica tem estado envolvida em vários projetos de investigação e desenvolvimento no âmbito de parcerias estabelecidas com outras instituições de ensino superior europeias e empresas do setor marítimo-portuário.

Entre eles encontram-se o envolvimento da Escola Náutica no Projeto eShip para o desenvolvimento de um software-as-a-service para a otimização de transportes marítimos, automatização de procedimentos de back-office e utilização da análise de dados para otimização de toda a cadeia logística; o projeto SmartSea, já finalizado, que teve como objetivo desenvolver um curso de mestrado avançado interativo relacionado com aplicações IoT em inspeções marítimas; o projeto AT-Virtual, que está prestes a finalizar também, que visa melhorar o desempenho dos Centros de Formação Marítima, permitindo que as empresas de tecnologias de informação desenvolvam soluções emergentes de base tecnológica para resolver as necessidades de formação dos Centros, com recurso a novas tecnologias emergentes relacionadas com a Indústria 4.0; e, também, o projeto NuProShip, que está a decorrer em parceria com diversas universidades e empresas da Noruega, e outros países, para estudo da viabilidade de uma propulsão de base nuclear nos navios mercantes, em que o papel da Escola está relacionado com os aspetos da segurança.

Estes são apenas alguns exemplos de projetos que produzem conhecimento relevante para o setor marítimo-portuário e que, obviamente, têm um impacto na transmissão de conhecimentos atualizados e com relevância para o futuro dos estudantes.

PA: A atual direção da ENIDH assumiu funções em setembro de 2022, pelo que é importante dar a conhecer a nova linha estratégica que vai guiar a atividade da escola até 2026. Quais são os objetivos e metas para este quadriénio e quais são as principais iniciativas em andamento para alcançar esses objetivos?

VF: Foram definidos, para o período 2023-2026, um conjunto de objetivos estratégicos suportados na análise da situação atual da Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, enquanto espaço do conhecimento marítimo e portuário e áreas afins, considerando os contextos económico, social e político que maior impacto têm na ação da instituição. Alguns desses objetivos concentram-se na melhoria contínua da qualidade dos cursos e dar resposta às necessidades atuais e tendências futuras do setor marítimo, portuário e dos oceanos; aumentar a importância e competência da Escola com atividades de II&D no setor marítimo, portuário e áreas emergentes da economia do mar; reforçar o envolvimento com a comunidade e promover as atividades relacionadas com o mar; promover a modernização administrativa e desmaterialização dos processos e intensificar a digitalização na educação e formação; desenvolver a sustentabilidade do seu Campus e promover e divulgar práticas ambientalmente sustentáveis; e dinamizar a área da formação especializada conducente a certificações marítimas e na formação ao longo da vida.

Com base nestes objetivos estratégicos, foram identificadas áreas de atuação que incluem diversas linhas de ação que nos propomos desenvolver e para as quais foram definidos indicadores e metas que pretendemos atingir.

Existem compromissos que considerámos muito importantes para o sucesso do plano estratégico proposto, por um lado, o compromisso com a Comunidade da Escola Náutica; o compromisso com a Qualidade é fundamental, com um foco na melhoria contínua dos processos; o compromisso com a sustentabilidade ambiental, a responsabilidade social e com a saúde da comunidade académica; o compromisso com a eficiência organizacional que, aliada à sustentabilidade, exige a desmaterialização de processos administrativos, académicos e de certificação.

Consideramos que a comunicação assume uma importância fundamental. Importa dar mais visibilidade à Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, às profissões e carreiras marítimas, aos projetos desenvolvidos na instituição, atrair mais alunos e contribuir para aumentar a importância da economia azul no nosso País.

PA: Gostaria de acrescentar alguma informação que não foi abordada nas perguntas anteriores?

VF: Gostaria apenas de mencionar que, segundo um trabalho recente da jornalista Joana Nabais Ferreira, publicado a 3 de janeiro de 2023, o Engenheiro naval e marítimo ocupa o segundo lugar do pódio das profissões mais bem pagas em Portugal, com um salário bruto anual entre os 100.000 e os 120.000 euros. Este é um facto importante que importa divulgar e que pode ter alguma importância quando um jovem atualmente procura definir o seu rumo profissional. 

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