Ética e Decisões na Cirurgia Plástica: Quando Dizer “Não” a um Procedimento

A cirurgia plástica é uma especialidade médica frequentemente mal compreendida e cercada por equívocos. Nesta entrevista exclusiva, adentramos no universo dessa disciplina com o Dr. Francisco Ibérico Nogueira, renomado cirurgião plástico com um impressionante histórico de mais de 11000 procedimentos realizados.

Ao longo dos anos, tem-se vindo a desmistificar o enquadramento e os propósitos da Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética, uma tarefa que o próprio Doutor tem assumido como parte do seu trabalho. O que o leva a ser tão ativo na contribuição para a educação do público em geral sobre os verdadeiros propósitos da cirurgia plástica?

A minha opinião é a de que um cirurgião plástico tem a obrigação de proporcionar ao público em geral, uma compreensão clara e precisa sobre o papel da cirurgia plástica, pois muitas vezes esta especialidade é mal interpretada e cercada por mitos e equívocos. Uma informação inadequada ou insuficiente sobre uma técnica cirúrgica pode levar a decisões precipitadas por parte dos pacientes.

Sempre reconheci a importância de uma informação científica detalhada para que as pessoas possam fazer escolhas acertadas em função das suas reais necessidades. Ao desmistificar a cirurgia plástica, o médico permite que as pessoas entendam que este não é apenas um recurso para alcançar uma aparência perfeita, mas sim uma especialidade médica que também visa corrigir deformidades, melhorar a saúde e, muitas vezes, restaurar a autoconfiança do paciente.

Recentemente, foi publicado um estudo realizado por investigadores australianos que demonstra que ferramentas de Inteligência Artificial já começam a ter impacto no contexto médico, sobretudo dentro da cirurgia plástica. Na sua visão, estas ferramentas podem realmente vir a ter um papel importante no desenvolvimento da medicina?

Sim, a Inteligência Artificial pode oferecer uma variedade de benefícios, como aprimorar o diagnóstico, ajudar na tomada de decisões clínicas e permitir uma comunicação mais eficiente entre médicos e pacientes.

No entanto, é importante ressaltar que as ferramentas de IA nunca substituirão a importância da interação humana e do cuidado médico personalizado. A IA deve ser encarada como uma ferramenta complementar que ajuda os médicos a tomar decisões com mais informação e melhorar a experiência e o envolvimento dos pacientes.

Continuando no assunto da evolução e desenvolvimento da cirurgia plástica, quais são os procedimentos e inovações recentes que mais o deixam entusiasmados com o caminho que a cirurgia plástica está a seguir?

Existem diversas inovações recentes que estão a transformar a cirurgia plástica e a deixar a comunidade especialista entusiasmada. Caso disso é, por exemplo, a cirurgia estética minimamente invasiva. Estes procedimentos usam incisões menores, resultando em cicatrizes discretas, recuperação mais rápida e menor risco de complicações, como a rinoplastia não cirúrgica, lifting facial minimamente invasivo e lipoaspiração assistida por laser.

A medicina regenerativa, com células-tronco, plasma rico em plaquetas (PRP) e fatores de crescimento, também promete revolucionar a cirurgia plástica. Isso acelera a regeneração de tecidos, melhora a cicatrização e apoia procedimentos como enxertos de gordura e cicatrização de feridas.

A impressão 3D é outra inovação, utilizada para criar implantes personalizados, como próteses mamárias e dispositivos de reconstrução facial. Isso oferece resultados precisos e minimiza riscos cirúrgicos. Já a realidade aumentada e virtual estão a ser usadas na cirurgia plástica para planeamento, simulação de resultados e treinamento cirúrgico.

Espera-se que a tecnologia continue a evoluir e fortalecer essas tendências, abrindo novas possibilidades no campo cirúrgico e em outras especialidades.

Sabemos que o Doutor também tem sido pioneiro em técnicas inovadoras na área. Pode partilhar connosco alguma das suas contribuições científicas no campo da cirurgia plástica?

Claro, aliás, estou muito satisfeito com uma nova técnica de rejuvenescimento facial que eu mesmo desenvolvi, em colaboração com o meu filho Francisco, que também é médico e meu colega de equipa, e à qual designamos por Micro-lift by Ibérico Nogueira. Utilizando esta técnica, somos capazes de eliminar rugas ou flacidez da face e do pescoço através de um procedimento ultrarrápido e totalmente indolor. No final, o paciente pode regressar à sua vida normal, sem qualquer tipo de curativo ou ligadura.

Este novo “micro-lift” tornou-se possível graças a uma técnica de anestesia local, também desenvolvida por nós, que dispensa o uso de agulhas. Esta microcirurgia demora cerca de 30 minutos e não exige qualquer tipo de sedativo. A recuperação é quase imediata e proporciona uma experiência muito mais confortável aos pacientes.

Com a crescente procura por procedimentos não invasivos, como descreve a relação entre tratamentos estéticos minimamente invasivos e a cirurgia plástica tradicional?

Podemos dizer que é uma relação bastante complexa, que depende de fatores como as necessidades do paciente, o tipo de procedimento desejado e as habilidades do cirurgião.

Os tratamentos estéticos minimamente invasivos oferecem muitos benefícios, como tempos de recuperação mais curtos, menor tempo de procedimento, menor risco de complicações graves, custo potencialmente menor e efeitos mais subtis. Geralmente, são usados para melhorar a aparência facial, reduzir rugas, aumentar o volume ou melhorar a textura da pele.

Por outro lado, a cirurgia plástica tradicional é mais invasiva, exigindo incisões cirúrgicas e, às vezes, anestesia geral. Estas práticas oferecem resultados mais dramáticos e duradouros, mas com um período de recuperação mais longo.

Em alguns casos, os tratamentos minimamente invasivos podem ser uma alternativa ou complemento à cirurgia plástica tradicional. No entanto, em situações que requerem correções mais significativas, a cirurgia tradicional pode ser a melhor opção.

Como é que os cirurgiões plásticos gerem as expectativas dos pacientes em relação aos resultados pós-operatórios?

Em primeiro lugar, é fundamental que os cirurgiões plásticos sejam honestos, éticos e realistas na gestão das expectativas dos pacientes. Antes da cirurgia, é crucial discutir todos os aspetos do procedimento com o paciente, como os resultados que podem ser alcançados, os possíveis riscos e complicações, bem como as limitações da cirurgia.

É importante explicar aos pacientes que a cirurgia pode melhorar a aparência, mas não pode produzir perfeição absoluta ou transformações drásticas. O paciente deve entender que cada situação é única e os resultados de uma cirurgia plástica podem variar de pessoa para pessoa. É por isso que o acompanhamento individual e personalizado é essencial nesta área. Assim, os cirurgiões podem responder a qualquer questão ou preocupação que os pacientes possam ter antes ou após a cirurgia.

Falando sobre limites, qual é o ponto em que um cirurgião deve considerar recusar um procedimento?

Esses limites variam entre cirurgiões e são geralmente determinados com base em considerações éticas e médicas.

Por exemplo, um cirurgião plástico pode recusar realizar um procedimento se o paciente apresentar riscos de saúde significativos, como condições subjacentes, que possam comprometer a segurança durante a cirurgia, ou até mesmo se houver evidências de problemas psicológicos que possam prejudicar o resultado da cirurgia.

Isso pode acontecer também quando o paciente demonstra ter expectativas irrealistas quanto aos resultados pós-operatórios. É muito importante que os pacientes tenham uma compreensão realista dos resultados que podem ser alcançados.

Além disso, temos, claro, o caso do abuso de procedimentos cirúrgicos. Embora não haja um limite específico para a quantidade de cirurgias a que um paciente possa ser submetido, em alguns casos, um grande número de cirurgias anteriores pode desencadear riscos desnecessários.

Após 40 anos de atividade cirúrgica intensa e cerca de 11000 cirurgias efetuadas, quem é, hoje, o Dr. Francisco Ibérico Nogueira?

É sempre difícil fazer uma autoavaliação. O que eu posso dizer é que foi com uma grande paixão que me envolvi profundamente, durante 40 anos, com a prática intensa da cirurgia plástica. Período este marcado por um compromisso incansável com a saúde e o bem-estar dos meus pacientes.

Francisco e Margarida Ibérico Nogueira com Ivo Pitanguy

Durante este longo percurso em que, baseado nos ensinamentos que me foram transmitidos pela Escola do Prof. Ivo Pitanguy no Brasil, efetuei esse número significativo de cirurgias, procurei sempre conectar-me emocionalmente com cada um destes pacientes a quem dediquei a minha prática cirúrgica para tentar melhorar as suas vidas e promover a sua autoconfiança e bem-estar.

Desejo ardentemente que a minha paixão e dedicação à cirurgia plástica e à medicina estética possam deixar uma marca duradoura nos meus discípulos e colegas, nos quais incluo o meu filho Francisco, encorajando-os a seguir os seus próprios passos e promover a diferença nas vidas dos seus pacientes.

Os Mitos e Verdades da Cirurgia Plástica, por Francisco Ibérico Nogueira
“A cirurgia estética proporciona resultados permanentes.”
Os resultados da cirurgia estética são duradouros, mas o envelhecimento, mudanças no estilo de vida e outros fatores podem afetar a aparência ao longo do tempo. Ter expectativas realistas é essencial, pois alguns procedimentos podem necessitar de revisões futuras.
“Qualquer cirurgião pode realizar procedimentos de cirurgia estética.”
A cirurgia plástica é uma especialidade que exige treinamento rigoroso e um longo período de aprendizagem. Cirurgiões plásticos passam por um programa de formação específico para obter a sua especialização. Escolher cirurgiões plásticos certificados é fundamental para garantir a segurança e eficácia dos procedimentos.

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