Um colégio de famílias para famílias

Ricardo Roque Martins é o diretor do Colégio Planalto, em Telheiras, onde os alunos iniciam a sua aprendizagem na creche com o Projeto Optimist e evoluem até ao International Baccalaureate. Neste colégio, as famílias têm um papel particularmente ativo, acompanhando de perto cada etapa, já que “uma escola só educa bem quando educa com as famílias”.

PA: O Colégio Planalto partilha o ideário educativo dos Colégios Fomento e está fundamentado numa visão cristã da pessoa, como um ser “único e irrepetível”. Afinal, o que é a Educação Personalizada?

Ricardo Roque Martins, diretor do Colégio Planalto

RRM: É um conceito muito falado, mas nem sempre bem entendido. Durante décadas dominaram modelos “humanistas”, “libertários”, “não diretivos”, “orgânicos”, “livres”, enfim… toda uma escola de pensamento que confundiu “bem-estar” com “bem-ser”. Esses modelos criaram adolescentes frágeis, adultos inseguros, vínculos provisórios e uma crise da figura dos professores e das famílias.

O problema não é o saber — é o carácter. É então preciso educar o carácter com um plano longo, persistente e exigente. Porque os alunos não são máquinas biológicas para aperfeiçoar; são pessoas que precisam de formação profunda para serem felizes.

PA: Que aspetos o distinguem de outras propostas de ensino e que vantagens a sua localização na capital oferece à vida escolar dos alunos?

RRM: Estamos no coração de Telheiras. Um bairro pensado nos anos 70 e 80 como uma espécie de “cidade dos 15 minutos”. Aqui tudo está à distância de um passeio: comércio, serviços, jardins, cultura, desporto… é mesmo daqueles sítios onde todas as pessoas gostam de viver. Aqui ao pé temos de tudo um pouco: a Quinta da Paz, o Museu do Traje e do Teatro, a Biblioteca Orlando Ribeiro e, claro, clubes desportivos de dimensão nacional como o Sporting. Uma das nossas prioridades é mesmo fortalecer essa relação com estas e outras instituições. Fazemos parte deste lugar e gostamos de o viver com quem cá está.

PA: Esta instituição acompanha os alunos desde a infância até ao final do secundário, do programa Optimist ao IB. Como cada etapa do seu percurso constrói a base necessária para terem sucesso nas fases seguintes?

RRM: No Planalto, tudo começa com rigor académico, mas também com a ambição de formar boas pessoas, e não apenas bons alunos. O percurso é pensado em etapas: no Optimist ganham autonomia, linguagem, memória e motricidade; no 1.º e 2.º ciclos consolidam hábitos de trabalho; no 3.º ciclo desenvolvem pensamento crítico e maturidade; e no secundário — especialmente com o International Baccalaureate — chegam à autonomia intelectual, à investigação e à capacidade de atuar num mundo global.

PA: E o desenvolvimento pessoal acompanha esse percurso?

RRM: Acompanha sempre. As virtudes entram em todas as fases, mas de forma adequada à idade. Cada etapa prepara a seguinte — académica, pessoal e moralmente. O Plano de Formação dirige-se à pessoa no seu todo, o coração e o carácter, com exigência e sentido.

PA: A adesão ao programa International Baccalaureate foi um passo importante na evolução do Colégio. Que impacto tem este currículo internacional no acesso ao ensino superior e na preparação dos alunos para contextos globais? Que protocolos existem para enriquecer esta oferta educativa?

RRM: O IB encaixa diretamente no nosso projeto educativo: educar a pessoa significa também abrir portas ao mundo. Queremos que os alunos pensem o futuro, compreendam o seu lugar na sociedade e se tornem cidadãos ativos e confiantes. É um currículo internacional de topo, ensinado globalmente, que desenvolve investigação, pensamento crítico e autonomia — competências essenciais para o século XXI.

Temos parcerias com universidades, centros culturais e instituições científicas. Isso traduz-se em voluntariado, projetos de investigação e certificações linguísticas que completam a formação global dos nossos alunos e lhes dão experiências reais fora da sala de aula.

PA: O Projeto Educativo assenta numa tríade: educação personalizada, diferenciada e integral. Como se conciliam estes princípios para promover, simultaneamente, o desenvolvimento curricular, o crescimento pessoal e a formação cívica dos estudantes?

RRM: A educação personalizada começa por ver cada aluno como único. Ajudamo-lo a descobrir o seu projeto de vida, a tomar decisões livres e responsáveis e a crescer com critérios próprios. Isso faz-se no dia a dia através de uma relação próxima com os professores, no preceptorado, no ambiente familiar e acompanhamento real do ritmo de cada um.

PA: E onde entra a educação diferenciada?

RRM: Do 1.º ano em diante, somos um colégio só de rapazes — um modelo muito prestigiado no estrangeiro, sobretudo no mundo anglo-saxónico. Acreditamos que a educação diferenciada não separa, potencia. Rapazes e raparigas têm ritmos e necessidades formativas diferentes; trabalhar apenas com rapazes permite adaptar métodos, criar um ambiente de amizade muito próprio e ajudar cada um a crescer de forma coerente.

PA: E a educação integral?

RRM: No Planalto dizemos que “tudo forma”. E é mesmo assim. O uniforme, os encargos, o Chefe de Dia, os intervalos, as atividades, as excursões, o modo como lidam com problemas… tudo conta para formar carácter. Por isso, todos os colaboradores são educadores no seu lugar e nas suas circunstâncias. Personalizada para chegar a cada aluno, diferenciada para potenciar o seu desenvolvimento e integral para formar a pessoa toda — cabeça, coração e carácter.

PA: A missão do corpo docente é primordial na transmissão de conhecimentos e na formação do carácter dos seus alunos. Como é constituída a equipa pedagógica e como incutem valores de generosidade, compaixão e alegria?

RRM: Começa logo na escolha: os professores são escolhidos para educar, não apenas para ensinar. Acreditamos que as virtudes não são ideias bonitas — são hábitos bons, repetidos até fazerem parte de nós. Com exemplo, exigência e proximidade. Um professor que ajuda o aluno a evitar a batota, a enfrentar as consequências das suas decisões e a procurar a verdade está a formar carácter. O mesmo vale para treinadores e monitores: o desporto só melhora pessoas quando há quem eduque dentro dele.

PA: E qual é o clima educativo que procuram criar?

RRM: Um clima de esperança e otimismo. Acreditamos no que cada aluno pode vir a ser. Encaramos as dificuldades com realismo, mas com confiança e criamos uma atmosfera positiva onde todos se sentem capazes de crescer e dar o melhor de si.

PA: Não se pode falar de ensino sem mencionar as infraestruturas que o tornam possível. Como caracterizam as instalações do colégio e de que forma apoiam a aprendizagem?

RRM: O Planalto está quase a celebrar 50 anos e estamos numa fase forte de modernização. Este ano vamos inaugurar novos laboratórios, melhorámos a biblioteca — agora com acompanhamento permanente ao estudo e à leitura — e estamos a acelerar obras exteriores para reforçar o desporto. Temos ainda um salão nobre para conferências e cursos.

PA: E a dimensão espiritual?

RRM: A capela é um ponto central da vida do colégio: há duas missas diárias abertas a pais, professores, alunos e vizinhos.

“No Planalto, tudo começa com rigor académico, mas também com a ambição de formar boas pessoas, e não apenas bons alunos”

PA: O desporto parece ser uma grande aposta.

RRM: E é mesmo. Queremos ser uma referência. Atualmente, temos cinco campos de relva sintética para futebol e rugby, um pavilhão para futsal, andebol, esgrima, ginástica e judo, três campos de street basket, um campo de voleibol e duas mesas de ping-pong. Em breve teremos também uma parede de escalada.

PA: E para quem não é tão desportivo?

RRM: Também pensamos neles. Criámos zonas de leitura e percursos ajardinados, e espalhámos tabuleiros de xadrez por todo o colégio.

PA: Em resumo, que papel têm as instalações na educação?

RRM: Um papel enorme. Acreditamos que o espaço físico é também educativo: salas, biblioteca, capela, zonas desportivas e recreios criam bem-estar, promovem convivência e ajudam a formar hábitos de ordem, concentração e pertença.

PA: Nas primeiras etapas educativas, como a creche e o ensino infantil, as atividades extracurriculares diferem, naturalmente, daquelas que são realizadas nas idades mais avançadas. Como são organizadas estas atividades para desenvolver habilidades fundamentais desde cedo?

RRM: No Planalto tudo começa com o Projeto Optimist, uma proposta muito pensada para o desenvolvimento global da criança — intelectual, social, espiritual, afetivo, estético e desportivo. Dentro do horário letivo, as educadoras trabalham programas como abc da linguagem, saber mais, matemáticas divertidas, magic dragon, crescer felizes e passo a passo. A ideia é simples: chegar a todas as áreas de formação desde cedo.

PA: E as atividades extracurriculares onde entram?

RRM: Entram como complemento aos interesses pessoais de cada criança. Ballet, música, futebol, judo, Aloha ou Inventors não fazem parte do Optimist — existem para ajudar as famílias e dar espaço às preferências individuais.

PA: E como as conciliam com a vida familiar?

RRM: Sabemos que recolher as crianças às 16h00 nem sempre é fácil, mas também é importante lembrar que os nossos filhos precisam de tempo de qualidade com os pais. Ficar demasiado tempo na escola não substitui o papel valioso da família.

PA: Por outro lado, para as restantes idades, o colégio disponibiliza um conjunto de dezasseis atividades extracurriculares. Quais são essas ofertas e de que forma ajudam os alunos a descobrir as suas vocações, promovendo igualmente um percurso mais realizado e feliz?

RRM: Estas atividades completam o que já acontece nas primeiras etapas. Temos desporto, música, programação, clubes académicos, xadrez, voluntariado e muito mais. São oportunidades para os alunos experimentarem, descobrirem talentos e perceberem o que realmente os entusiasma.

PA: Portanto, vão além da sala de aula?

RRM: Muito além. Ajudam a desenvolver competências sociais, responsabilidade, criatividade e espírito de equipa. E claro, ajudam cada aluno a perceber os seus interesses e vocações, contribuindo para um percurso mais realizado.

PA: Além dos estudantes, as suas famílias são também uma prioridade para o colégio. Prova disso são as iniciativas “Tempo Para Nós”, “Tempo para Deus” e “Tempo para Todos” que colocam os pais como “protagonistas” e no centro da comunidade educativa. Que papel desempenham estes momentos na construção de uma cultura familiar mais consciente e participativa?

RRM: Estas iniciativas colocam as famílias no centro da vida do colégio — como deve ser. Criam momentos de diálogo, reflexão e convivência que fortalecem a cultura familiar e tornam os pais verdadeiros protagonistas da educação dos filhos.
Uma escola só educa bem quando educa com as famílias, nunca apesar delas. Estes encontros promovem consciência, corresponsabilidade e unidade, ajudando cada família a viver a educação de forma mais participativa e consciente.

PA: Ao longo do ano letivo, os eventos assumem um papel importante na vida da comunidade escolar, incentivando o convívio, a partilha e a identidade do colégio. Que iniciativas e projetos se vão realizar em 2026?

RRM: São muitas, mas vale a pena destacar que grande parte delas está aberta a famílias, amigos e a quem nos queira conhecer melhor. Em 2026 continuaremos a apostar na formação para famílias, mantendo a tradição de envolver pais, alunos e comunidade em momentos de aprendizagem e convívio.

PA: O que já aconteceu este ano e o que ainda vem aí?

RRM: Já tivemos a sessão solene de abertura do ano letivo e o nosso Dia Aberto de janeiro. Mas o calendário continua cheio: torneios desportivos regulares ligados às nossas escolinhas, debates políticos, conferências culturais. Um dos destaques de 2026 é o Family Day, um grande encontro para pais, filhos, avós e amigos, com formação, missa, almoço e atividades para todas as idades — desde caça ao tesouro a torneios de futebol pais e filhos. É um dia inteiro dedicado à vida familiar e ao espírito de comunidade.

“Crescer com autenticidade e visão. Queremos continuar a ser uma escola que forma pessoas inteiras — com carácter, fé, cultura, alegria e esperança — e que prepara cada aluno para deixar uma marca positiva no mundo”

PA: Com quase cinco décadas de história, o Colégio Planalto prepara-se para celebrar mais um marco simbólico. Que objetivos pretendem alcançar no futuro?

RRM: Entramos nesta nova etapa com entusiasmo e sentido de missão. Hoje vemos muitas famílias a valorizar cada vez mais a formação humana e espiritual — algo que sempre fez parte da identidade do Planalto. Há um desejo renovado por modelos educativos sólidos, exigentes e centrados na pessoa.

PA: E qual é o outro cenário que observam?

RRM: Vivemos um momento em que a educação ganhou grande visibilidade. Surgem novos projetos, novos grupos e novas abordagens. É um sinal de vitalidade, mas também um convite à prudência: quando a lógica do mercado se sobrepõe à missão educativa, corre-se o risco de perder o essencial — o crescimento integral de cada aluno. No Planalto, queremos continuar a colocar a pessoa no centro, com tempo, cuidado e propósito.

PA: Em poucas palavras, qual é a ambição para os próximos anos?

RRM: Crescer com autenticidade e visão. Queremos continuar a ser uma escola que forma pessoas inteiras — com carácter, fé, cultura, alegria e esperança — e que prepara cada aluno para deixar uma marca positiva no mundo.

About Post Author

Deixe um comentário

Outra Perspetiva

Inovação e excelência no ensino personalizado

Localizada no centro histórico de Loulé, a Educan é um learning centre que combina tradição, cultura e inovação educativa. Fundada...

90 anos de uma oferta de qualidade educativa inclusiva e bilingue Português-Inglês

Queen Elizabeth's School (novembro de 1935 a 2025) - Fundação Denise Lester (fevereiro de 1965 a 2025) “Time and time...

“Our goal is to prepare young people not only for university, but for life as thoughtful and kind global citizens”

St. Julian’s School has developed its identity around a holistic vision of education that combines academic learning with the personal...

OIS entre as 10 melhores escolas IB da Europa e as 100 melhores do mundo

A Oeiras International School aposta num modelo educativo que incentiva o pensamento crítico e a coragem de errar para evoluir....

Um colégio de famílias para famílias

Ricardo Roque Martins é o diretor do Colégio Planalto, em Telheiras, onde os alunos iniciam a sua aprendizagem na creche...