Inovação e avanço científico na aeronáutica e astronáutica

A unidade de investigação Aeronautics and Astronautics Research Center (AEROG) está integrada no Laboratório Associado em Energia, Transportes e Aeroespacial (LAETA), sendo o seu trabalho também procurado pelos setores da saúde e do desporto. O Coordenador Científico da AEROG, André Silva, fala-nos dos seus principais objetivos: melhorar a segurança e a proteção do ambiente, integrar consórcios europeus para reforçar a sua base científica na aeronáutica e astronáutica e voltar a obter a classificação de excelente da FCT.

André Silva, Presidente do AEROG

Perspetiva Atual: O AEROG é um centro de investigação centrado na Aeronáutica e Espaço, integrando diversos grupos multidisciplinares. Em que áreas de investigação está dividido o centro?

André Silva: Antes de responder à questão, permitam- -me fazer um enquadramento. O Aeronautics and Astronautics Reseach Center (AEROG) é uma unidade de investigação e desenvolvimento (I&D) do Laboratório Associado em Energia, Transportes e Aeroespacial (LAETA). O AEROG-LAETA tem como instituição de gestão a Universidade da Beira Interior, local da sua sede.

Os outros parceiros do AEROG no LAETA, são o Instituto de Ciência e Inovação em Engenharia Mecânica e Engenharia Industrial (INEGI), da Faculdade de Engenharia de Universidade do Porto, o Instituto de Engenharia Mecânica (IDMEC) do Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa, e a Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI) da Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade de Coimbra. Estas 4, incluindo o AEROG são as instituições de gestão do LAETA. Além delas, também participam no LAETA mais 28 instituições portuguesas, mas que não têm assento no Steering Board, que é uma espécie de Conselho de Administração. A equipa do LAETA é constituída por 670 colaboradores, dos quais 297 são alunos de doutoramento e 274 são membros integrados, isto é, com dedicação muito intensa e outputs que satisfazem critérios de desempenho muito elevado.

Após este enquadramento e respondendo à sua questão, cada colaborador do AEROG está integrado num dos cinco grupos do LAETA. Consultado a página de internet do LAETA, www.laeta.pt, podemos constatar que existem cinco grupos: Energia, Ambiente e Sustentabilidade (EES), Estruturas e Sistemas Mecânicos (SMS), Materiais e Processos de Fabrico (MMP), Sistemas Inteligentes e Controlo (ISC) e Biomecânica (BIO). Os grupos do LAETA não coincidem com Unidades de I&D ou instituições de acolhimento; pelo contrário, na procura da excelência, são bastante dinâmicos, integrando os melhores elementos para cada trabalho. Por exemplo, a nossa equipa desenvolve trabalho no grupo Sistema Mecânicos (SMS) onde estamos integrados, mas também, desenvolve investigação na área da Energia, Ambiente e Sustentabilidade (EES). E, se houver necessidade, um só elemento pode ser solicitado a contribuir numa tarefa de outro grupo qualquer. A estratégia do LAETA é ter sempre os melhores para cada tarefa e projeto (“best men for the job”). E, os melhores são os que já demonstraram eficácia em problemas semelhantes ou relevantes para a nova situação.

PA: O AEROG envolve-se, com o seu trabalho, em diferentes setores profissionais, como é o caso da saúde e do desporto. O vosso papel e impacto tem vindo a ser mais valorizado nos últimos anos? Com que outros setores costumam trabalhar e quais são os que mais vos procuram?

AS: Nos últimos anos temos sido contactados por outros setores da sociedade, como por exemplo na área da saúde e do desporto. No caso da saúde tivemos a oportunidade de colaborar com o Dr. Reinaldo Almeida e a Dra. Rita Borges, do Centro Hospitalar Universitário da Cova da Beira (CHUCB) e com a empresa JOALPE no desenvolvimento do projeto que originou na COVinBOX-BPA.

A COVinBOX-BPA é um dispositivo que impede a propagação das infeções nas unidades de saúde, ao criar um isolamento individual do doente infetado ou suscetível de ser infetado, por se encontrar debilitado, com uma ou várias patologias associadas, ou imunodeprimido. Começou por ser criado com objetivo de contribuir para a mitigação da Pandemia Covid-19, no entanto a COVinBOX-Barreira Protetora de Aerossóis permite a doente, em qualquer lugar de tratamento (seja em bloco operatório, unidade de cuidados intensivos ou intermédios, enfermarias, meio de transporte, exames de diagnóstico, etc.), tenha a possibilidade de ser tratado num ambiente de pressão relativa negativa. A COVinBOX permite o controlo da transmissão da infeção para doentes suscetíveis, como são aqueles que têm doenças crónicas e os imunodeprimidos, ex: doentes a fazer tratamentos de quimioterapia, e imunossupressores.

Na área do desporto, o AEROG teve a oportunidade de acompanhar durante dois anos os treinos e provas de preparação para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 dos velejadores Jorge Lima e José Costa, na classe 49er. Os portugueses conseguiram um brilhante sétimo lugar e um diploma olímpico. Ainda no desporto, o AEROG teve oportunidade de estudar experimentalmente no Centro de Alto Rendimento e numericamente nos nossos laboratórios as características da canoa com que o brasileiro Isaquias Queiroz viria a conquistar o título olímpico na prova dos C1 1000 metros da canoagem velocidade.

O AEROG tem como principal objetivo melhorar a segurança e a proteção do ambiente, promovendo o crescimento socioeconómico e a qualidade de vida dos cidadãos. As atividades do AEROG visam contribuir para o reforço da excelência da base científica europeia nos domínios científico e tecnológico da aeronáutica e da astronáutica. Na vertente do espaço, o foco recai em áreas como a estabilização de satélites, satélites ativos e passivos, e na segurança planetária. Na vertente da aeronáutica desenvolvem-se trabalhos na área de energia e propulsão, sobretudo de transporte aéreo, com grande enfoque na emissão de poluentes e redução de consumo de combustível. O AEROG tem desenvolvido atividades de investigação em combustíveis sustentáveis para a aviação, tendo como objetivo reduzir as emissões de CO2, e deste modo, a obter um crescimento neutro em carbono a partir de 2020, e uma redução de 50% nas emissões líquidas até 2050, em comparação com os níveis de 2005.

As nossas actividades têm sido influenciadas pelas solicitações para integrar equipas nacionais e internacionais constituídas por instituições de investigação e empresas, o que significa que nunca está fechada a colaboração em qualquer setor da economia e sociedade europeia para o qual o nosso portfolio seja considerado relevante.

PA: Na última entrevista à perspetiva Atual referiu que a internacionalização auxiliava a que colaboradores pudessem ingressar em empresas ou universidades de referência, tendo até alunos e professores a realizar as suas dissertações no exterior. Qual é a vossa relação com a universidade a que estão associados, a UBI (Universidade da Beira interior) e quais as vantagens de ter alunos a estudar em universidades internacionais?

AS: A internacionalização é extramente importante, permite a mobilidade de docentes, investigadores e alunos, permite acesso a novos equipamentos conhecimento desenvolvendo competências que no futuro poderão ser introduzidos nos nossos laboratórios. Permite ainda ter acesso a outros tipos financiamento em base competitiva que dificilmente teríamos acesso se ficássemos na Beira Interior ou em Portugal.

De uma maneira geral, a colaboração com Universidades, Laboratórios, Empresas nacionais e internacionais, contribui para a actualização e formação contínua ao longo da vida dos investigadores que também desempenham funções docentes na UBI. O ensino de Excelência só é possível com esse tipo de abordagem do Ensino Superior. Por isso, o AEROG-LAETA tem sido um grande contribuinte para a UBI uma vez que os seus alunos colaboradores, que vão estudar para o estrageiro, são sempre integrados em projectos comuns entre a duas (ou mais) instituições envolvidas. É uma abordagem diferente da habitual, mas é a que pratica no LAETA e os resultados muito positivos estão à vista.

 PA: Um dos principais objetivos do AEROG era “obter a classificação de Excelente no processo de avaliação periódica das Unidades de I&D”. Já a conseguiram alcançar?

AS: É verdade que já não falávamos algum tempo. No último processo de avaliação periódica das Unidades de I&D realizado pela FCT, o LAETA obteve a classificação de Excelente e recentemente renovamos o nosso estatuto de laboratório associado até 2030. Neste momento, estamos num novo ciclo de avaliação para o período 2025-2029, e o objetivo do AEROG é contribuir para que o LAETA obtenha a classificação máxima, isto é, obter a classificação de Excelente. Após a publicação dos resultados em 2020, e como coordenador científico do AEROG, iniciei os contatos com docentes da UBI para futuramente integrarem o AEROG, privilegiei alguns dos melhores investigadores da UBI nas suas áreas, que satisfazem os critérios de admissão do LAETA. Estes novos investigadores do AEROG vieram trazer novos conhecimentos e novas competências, permitindo ao AEROG ter colaboradores também nos grupos do LAETA, na Energia, Ambiente e Sustentabilidade (EES), nos Materiais e Processos de Fabrico (MMP), e na Biomecânica (BIO). O AEROG consegui quase triplicar a sua dimensão no LAETA e aumentou o leque de potenciais projetos em que poderá participar no futuro.

PA: Que projetos nacionais e/ou internacionais se encontram em curso?

AS: Neste momento estamos com parcerias com algumas empresas nacionais e internacionais, mas devido a acordos de confidencialidade já assinados, não os podemos referir. Podemos realçar que a nossa visão de estar presente nos festivais aéreos internacionais, Farnborough e Paris, participando em diversas iniciativas com empresas e investigadores internacionais, foram muito importantes para esboçar o nosso futuro a médio e longo prazo.

PA: Como é que descreve a sua atual relação com outros centros de investigação ou entidades internacionais?

AS: O LAETA integra as 4 unidades de investigação mais bem classificadas em Portugal nas suas áreas de actuação. As relações nacionais e internacionais são comuns a todos os seus membros, o que não impede que possa haver um aprofundamento das relações com outros grupos nacionais ou internacionais.

Atualmente, temos vários alunos de doutoramento em parcerias com universidades ou centros de investigação. Por exemplo, com a Universidade de Saragoça vamos produzir biocombustíveis a partir de resíduos de biomassa existente na Península Ibérica, com uma nova técnica com o objetivo de descarbonizar o transporte aéreo. As parcerias permitem a transferência de conhecimento, a troca de informação e recursos humanos e, por vezes acesso, a equipamento de ponta.

Há outras relações com empresas e centros de investigação nacionais e internacionais, que incluem, por exemplo os maiores construtores de motores, mas não é possível revelá-los por enquanto. No entanto, como os nossos parceiros têm aumentado sempres desde os anos 90, é fácil fazer uma ideia, vendo quais foram no passado e, para além de algumas mudanças de nome de algumas empresas e associações, sabe-se quem mais trabalha na nossa área e, certamente, poderá ser um parceiro potencial.

PA: Estando no início de 2024, que objetivos foram traçados e quais as perspetivas para este novo ano?

AS: O principal objetivo para este ano é o LAETA voltar a obter a classificação global de Excelente para o período 2025-2029 e o valor máximo possível em cada uma das componentes na avaliação que está a decorrer pela FCT. Paralelamente, continuar a desenvolver as diligências com o objetivo de integrar o AEROG em consórcios europeus de modo a contribuir para o reforço da excelência da base científica europeia nos domínios científico e tecnológico da aeronáutica e da astronáutica.

Finalmente, corresponder às expectativas nos consórcios já em funcionamento com vista à preparação de propostas de projectos internacionais até 2040.

PA: Como professor e investigador centrado na aeronáutica e espaço, como prevê que seja o futuro da investigação nestes setores em Portugal?

AS: Portugal apostou fortemente na área da aeronáutica e espaço, nos últimos anos foram tomadas iniciativas, por exemplo a abertura de novos cursos de Engenharia Aeronáutica e Aeroespacial, permitirá ao setor aeronáutica e espaço um de modo ainda mais acentuada.

O surgimento da Agência Espacial Portuguesa e o Cluster de Aeronáutica, Defesa e Espaço veio permitir reunir todas entidades, empresas, unidades e centros de investigação, com um objetivo, fazer crescer este setor. Obviamente, cada um poderá contribuir e beneficiar o que quiser da participação nesses clusters. Para isso, é necessário compreender e estar interessado em trabalhar para o escopo deles. O modo de funcionamento desburocratizado, verdadeiramente matricial e colaborativo do LAETA potencia de forma muito eficaz a participação efectiva no futuro do sector aeronáutico, aeroespacial.

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