Tradição aliada à Inovação nas Línguas, Literaturas e Culturas

O Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas (DLLC) da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, reconhecido pela sua tradição académica e científica, enfrenta os desafios contemporâneos com resiliência e compromisso. Paula Barata Dias, diretora do DLLC, realça a importância de preservar a qualidade, legada por gerações de professores e investigadores de excelência, enquanto se abraça novos  desafios, saberes e descobertas.

Perspetiva Atual (PA): O maior Departamento da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra possui uma reputação consolidada, a nível nacional e internacional. Quais são os principais valores inalteráveis que guiam a instituição?

Paula Barata Dias (PBD): Como subunidade da Faculdade de Letras, o DLLC reúne o histórico da docência e investigação de uma escola centenária, muito influenciada pela organização da filologia das universidades inglesas e alemãs:  Estudos Clássicos, Românicos e Germanísticos. A especialização, evolução científica e novos desafios societais conduziram a uma estrutura mais flexível e atual. É, agora, a casa de 70 docentes-investigadores (metade da FLUC!), organizados por secções: Estudos Anglo-Americanos, Clássicos (Latim e Grego), Espanhóis, Franceses, Germanísticos, Italianos, Português e Tradução, responsáveis pelo ensino de três primeiros ciclos: Estudos Clássicos, Português e Línguas Modernas, que atraem para os estudos superiores em Línguas, Literaturas e Culturas, estudantes nacionais e internacionais.

Como valores estruturantes, o DLLC mantém, em alinhamento com a Universidade de Coimbra, o princípio da coerência e da harmonização curricular. Compaginados com a integridade científica e as boas práticas pedagógicas, concentram o valor do serviço público. Somos uma universidade pública, financiada pelos impostos dos portugueses e das portuguesas. A formação especializada em Línguas, Literaturas e Culturas deve ir ao encontro das carências formativas e gerar retorno no capital cultural, material e imaterial, do país. Este compromisso ético leva ao investimento consolidado em saberes altamente exigentes e fundamentais, como são os estudos de Latim e de Grego antigos (língua, cultura, história, literatura), que nos garantem a participação competitiva no diálogo científico global.

Um valor que muito prezamos reflete a coerência que mencionámos: não ensinamos nada que não investigamos. Acolhemos três Centros de Investigação de elevada reputação nacional e internacional, que congregam, enquanto investigadores, docentes do DLLC e de outras instituições. Inalterável é também é o nosso investimento na formação de professores. Muitas instituições do Ensino Superior reduziram a formação de professores, pelo facto de, a dado momento, não ser uma profissão atrativa. Nós mantivemos e reforçámos a nossa oferta formativa de 2.º ciclo, com uma equipa de docentes especializada em didática das áreas específicas. A solidez da nossa formação de professores em Português, Línguas Clássicas, Inglês, Francês, Alemão e Espanhol, com a cooperação das imprescindíveis instituições de acolhimento, escolas que connosco colaboram numa rede de estágios, orgulha-nos muito.  

O DLLC fornece ainda, ao nível do 1.º ciclo, uma sólida formação nas línguas europeias, com um reforço maior nas horas de contato dedicadas à lecionação das línguas e metodologias interativas. Este esforço é absolutamente necessário, considerando que o ensino não-superior atual tem prestado pouca atenção ao multilinguismo. Sabemos que muitos jovens suprem o défice em línguas estrangeiras com a frequência de escolas de línguas privadas. Mas nem todos, por razões económicas ou geográficas, o podem fazer. No DLLC, é possível um estudante especializar-se em uma língua, duas línguas, ou mesmo três línguas estrangeiras. A partir do mestrado, ou 2.º ciclo, temos propostas já adaptadas ao exercício profissional, com acesso a estágios: é o caso do mestrado em Tradução (de uma língua a três línguas), dos mestrados em Ensino ou do mestrado em Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda.

PA: O mercado de trabalho atual exige, cada vez mais, candidatos com competências diversificadas e especializadas.  Como é que a oferta formativa do DLLC responde a esta exigência? Há novos cursos ou programas recentemente introduzidos?

PBD: O investimento em formação pós-graduada vai ao encontro das competências diversificadas e específicas do mercado de trabalho, exigindo respostas atualizadas, flexíveis e dinâmicas, mas também decorre do nosso sentido de missão de contribuir para a elevação da qualidade dos recursos humanos no tecido nacional. Salientamos o mestrado e o doutoramento em Tradução, com especialização em ambientes profissionais (jurídico, económico, diplomático, jornalístico, literário, comunicação científica). A imigração, e a sua desejável integração educativa, social e económica motivou a criação do mestrado em Português Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS), um curso lecionado em b-learning, dirigido aos professores-formadores que têm a seu cargo alunos e alunas que aprendem português pela primeira vez, seja no nosso país, seja em leitorados, no estrangeiro. A modalidade b-learning também está disponível para o mestrado em Estudos Clássicos. Igualmente recente é o mestrado em Escrita Criativa, que desenvolve as potencialidades das línguas naturais enquanto veículo pragmático e criativo. Dominar a comunicação linguística passa, em primeiro lugar, pelo conhecimento intrínseco das qualidades das línguas e, enquanto instrumento de trabalho, estas competências têm aplicações no marketing e na publicidade, na escrita jornalística, na criação de conteúdos analógicos ou digitais, em qualquer exercício profissional que requeira o domínio plástico da língua, na oralidade e na escrita. Patrimónios Alimentares: Culturas e Identidades é um doutoramento único no país e de elevada procura internacional, dirigido para o estudo da Alimentação como fenómeno cultural, histórico e patrimonial. A economia do lazer, do turismo cultural e das novas formas de valorização patrimonial (material e imaterial) requer este investimento altamente especializado. O Doutoramento interdisciplinar em Estudos Feministas reflete sobre a emergência e a presença recente (história, realidades, condicionalismos) das mulheres como atores sociais, culturais, económicos e políticos e visa formar atores para as organizações, públicas ou privadas, com trabalho e aplicação na promoção da igualdade de género e do potencial feminino.

Destaquei a oferta temática, com forte implicação no exercício profissional. Mas a coerência, a consistência formativa e o rigor levam-nos a sustentar a oferta dos mestrados e doutoramentos, em continuidade, de Estudos Clássicos, de Literaturas de Expressão Portuguesa, de Línguas, Literaturas e Culturas Modernas, com foco em todas as línguas estrangeiras que ensinamos.

PA: Que prioridades e iniciativas o DLLC pretende implementar no futuro para impulsionar o desenvolvimento académico, científico e institucional? Da mesma forma, quais são os principais desafios que anteveem enfrentar e como planeiam superá-los?

PBD: O principal desafio que enfrentamos, no presente, é a resposta aos estudantes que nos procuram, atendendo às profundas mudanças paradigmáticas. Reformar modos de ensino, mantendo a exigência e o rigor, para chegar a públicos com um perfil distinto, mais disperso e diverso. Além disso, enfrentamos a necessidade de acompanhar, com programas de especialização, cursos não conferentes de grau, mestrados e doutoramentos, jovens adultos, ou não tão jovens, para uma formação ao longo da vida, que compagine, por um lado, a atualização de conhecimentos requeridas por uma sociedade sempre em mudança, tecnológica e em mentalidades, e, por outro, a necessidade de preservar o que é essencial, considerando o desenvolvimento integral do ser humano e o seu cabimento num coletivo próspero e feliz. Planeamos superar estes desafios com criatividade e escrutínio (para distinguir o que é instrumental do que é essencial), preservando, como está na nossa natureza, a qualidade, legada por gerações de professores e investigadores de excelência com a novidade do abraçar de novos saberes, descoberta e desafios.

PA: Qual é a importância das áreas de estudo do DLLC na sociedade contemporânea? Considera que as Humanidades e Ciências Sociais deveriam receber maior reconhecimento e apoio?

PBD: Portugal está integrado no grupo dos países desenvolvidos, mas é consensual o facto de se registar um défice de desenvolvimento integral em áreas tão relevantes como as competências na língua materna e línguas estrangeiras, a literacia lógico-matemática, os baixos índices de consumo cultural. A competência linguística, oral e escrita, está na base da estruturação para qualquer ordem de saberes, sua comunicação e mobilização em qualquer instituição produtiva avançada. A capacidade cognitiva, o pensar bem, que depois se aplica a qualquer ordem de saberes, radica na configuração cerebral de acordo com a estrutura verbal. Tanto melhor pensamos quanto melhor dominamos as línguas!

Há um longo caminho a percorrer na aceitação de que as Línguas, Culturas, Artes e Ciências Sociais estão na base de todo o ser humano e de todas as comunidades. A compreensão e a capacidade de entender os outros, visando sociedades mais prósperas, mais solidárias, mais felizes, é a finalidade dos estudos em Humanidades. A vitimização não é o nosso mote, porque nos consideramos relevantes, na educação e na produção científica da UC. No entanto, Portugal ainda investe pouco na ciência e na educação.

PA: O DLLC promove colaborações com outras universidades, instituições culturais ou organizações internacionais? Quais são as principais parcerias estabelecidas e de que maneira contribuem para o desenvolvimento académico e profissional dos estudantes e docentes?

PBD: Os protocolos ERASMUS celebrados pela Universidade de Coimbra, bem integrada nas redes universitárias de maior prestígio, asseguram a mobilidade de docentes e de estudantes. Estimulamos a saída dos nossos estudantes para as universidades parceiras, que são muitas, considerando que o Alemão, o Espanhol, o Italiano, o Francês, o Inglês, o Grego, o Latim e também o Português como Língua Não Materna são línguas de cultura, de comunicação e/ou de estudo. A boa saúde dessas parcerias mede-se pela quantidade de estudantes ERASMUS que nos procuram, assim como dos EUA, Turquia, China, Japão, mas também pelo contingente dos estudantes vindos dos países da CPLP, de que se destaca o Brasil. O DLLC fornece o ensino de Português para estrangeiros em várias modalidades, disciplinas isoladas, Curso Anual de Português para Estrangeiros e o Curso de Férias de Língua e Cultura Portuguesa, que este ano comemora os seus 100 anos de existência! Os dois mestrados, em consórcio com universidades estrangeiras (Joint Master Erasmus-Mundus), o ReD Global (Religious Dialogue in a Globalised World) e o Ect2U (European Languages, Cultures and Societies in Contact), mostram essa aposta na internacionalização.

PA: A tecnologia tem sido um fator transformador no Ensino Superior. De que forma o DLLC tem integrado recursos digitais e novas metodologias pedagógicas para enriquecer a experiência educativa? Pode dar alguns exemplos de ferramentas ou iniciativas que têm sido particularmente eficazes?

PBD: Gostava de destacar o investimento efetuado na divulgação de materiais pedagógicos e científicos em acesso aberto, concentrados, a partir dos seus criadores, nos repositórios digitais da UC a partir da Biblioteca Geral. Já antes da pandemia, o DLLC, em alinhamento com a FLUC e a UC, desenvolveram ofertas formativas em regime misto, presencial e não presencial, o chamado ensino em b-learning. Os mestrados em Estudos Clássicos e em Português como Língua Estrangeira e Língua Segunda (PLELS) destacam-se neste domínio. As salas de aula e as bibliotecas estão equipadas com computadores, monitores e câmaras que permitem, simultaneamente, aceder a públicos presenciais e a distância. As dificuldades da última pandemia tornaram-se oportunidades para o desenvolvimento de ferramentas de ensino, comunicação e contacto entre os participantes na comunidade educativa de grande eficácia, de que é exemplo o UCTeacher, premiado e publicamente reconhecido.

PA: O Departamento está ligado a vários centros de Investigação (CI) da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, nomeadamente, o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH), o Centro de Estudos de Linguística Geral e Aplicada (CELGA-ILTEC), o Centro de Literatura Portuguesa (CLP). Poderia destacar algumas das principais investigações desenvolvidas nestes Centros?

PBD: Toda a oferta formativa, de 1.º, 2.º e 3.º ciclos, se sustenta numa sólida vinculação com a investigação realizada nos Centros que mencionou, todos classificados com Muito Bom ou Excelente pela FCT. Esta premissa de excelência é a nossa matriz: os melhores professores, os que lideram as formações mais inovadoras são, também, os mais creditados investigadores. O CECH tem uma estratégia científica comprometida com o serviço à comunidade: Ciência Aberta e tradução dos autores antigos, com o maior acervo literário de autores gregos e latinos em Português disponibilizado em acesso aberto. O CELGA-ILTEC estuda o Português na sua diversidade, como língua pluricêntrica e cria recursos de apoio à investigação, ao ensino e, também, ao utilizador comum, como, por exemplo, o Portal da Língua Portuguesa, o Portal dos Géneros Académicos, jogos, aplicações e cursos online e vários corpora linguísticos. O CLP dinamiza diversos projetos atendendo à realidade global da cultura portuguesa. Damos o exemplo de Identidades Nacionais em Diálogo: Construções de Identidades Políticas e Literárias em Portugal, Angola e Moçambique (1961-presente). Para esta equipa, este é o ano da celebração do meio milénio de Luís de Camões, em que se empenham dois dos mais destacados docentes e investigadores, Rita Marnoto e José Cardoso Bernardes.

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