Um ensino de excelência da Engenharia Química

Formar as futuras gerações de Engenheiros Químicos com uma sólida e abrangente capacidade técnica e com aptidões interpessoais desenvolvidas é a principal missão do Departamento de Engenharia Química (DEQ) da Universidade de Coimbra. Em entrevista à Perspetiva Atual, entre outros temas, Marco Reis, professor associado da instituição, aborda o surgimento de mais dois cursos de mestrado, que pretendem acompanhar as tendências da sociedade e da indústria, nos próximos anos letivos.

Perspetiva Atual (PA): O Departamento de Engenharia Química da Universidade de Coimbra, além de assegurar as atividades de ensino graduado e pós-graduado, também presta serviços ao exterior e assegura trabalhos de investigação e desenvolvimento. Desta forma, quais são as maiores motivações da instituição e que impacto tem na região?

Marco Reis (MR): A Engenharia Química é, e desde sempre foi, uma disciplina central para o progresso da indústria e da sociedade. A maioria dos produtos com que lidamos diariamente, e respetivos processos produtivos, foram projetados, desenvolvidos ou operados por equipas lideradas por Engenheiros Químicos. A principal missão do DEQ é formar as futuras gerações de Engenheiros Químicos com uma capacidade técnica sólida, moderna e abrangente, mas também com aptidões interpessoais desenvolvidas de proatividade, liderança, gestão e trabalho em equipa. Como centro de competências multidisciplinar, o DEQ está envolvido em projetos de Investigação, Desenvolvimento e Inovação (I&D&I) com parceiros da região, do país e do estrangeiro, para criar melhores soluções para as suas necessidades atuais e futuras. São exemplos, os projetos em curso nas áreas da descarbonização da economia, novas fontes de energia, processos produtivos sustentáveis (nas vertentes ambiental, económica e social), fornecimento de água potável, diagnóstico de doenças, novas embalagens para a indústria alimentar, entre muitos outros.

PA: Recentemente, houve uma mudança de Direção no DEQ. Qual é a linha estratégica adotada pela nova gestão? Existem medidas específicas que já estão a ser implementadas, de forma a fortalecer o reconhecimento e consolidação da instituição?

MR: Desde logo, proporcionar as melhores condições possíveis para um ensino de excelência da Engenharia Química, com melhores espaços letivos e de estudo individual e acesso a tecnologia moderna durante a formação. O DEQ destaca-se por possuir uma nave central onde estão instalados equipamentos usados na indústria à escala piloto. Este espaço será apetrechado com recursos pedagógicos que criarão oportunidades para enriquecer o percurso formativo dos nossos alunos, incluindo novos equipamentos piloto e sistemas de realidade virtual e aumentada.

Outro aspeto prioritário é o incremento da ligação com o tecido industrial nacional e internacional. Várias empresas estão presentes nos nossos planos curriculares, quer por convite, quer assumindo a responsabilidade de coordenação de disciplinas. É muito importante esta ligação com os vários setores da indústria para reforçar a qualidade do ensino e garantir um melhor enquadramento para os nossos alunos quando entrarem no mercado de trabalho.

PA: Considerando as novas exigências do mercado de trabalho, que se mostra cada vez mais competitivo, uma formação académica sólida tornou-se vital. Como é que o DEQ tem desenvolvido e adaptado a sua oferta formativa, nos diferentes ciclos de estudos, para atender à demanda e preparar os estudantes de forma atualizada e completa?

MR: A formação em Engenharia Química da Universidade de Coimbra tem sido atualizada aproximadamente a cada cinco-seis anos (ciclos de acreditação) para se adaptar às mudanças constantes e exigências crescentes da sociedade e da indústria. Essa adaptação tem como suporte a auscultação da indústria e os dados do sistema de qualidade e melhoria contínua interna. Recentemente (em 2021) o DEQ passou a oferecer a Licenciatura e o Mestrado em Engenharia Química como ciclos separados de três + dois anos, respetivamente, permitindo uma maior versatilidade da formação. Ambos os cursos priorizam as componentes tecnológica, de projeto e trabalho em equipa, proporcionado um ambiente de trabalho plural, inclusivo e de estímulo ao empreendedorismo, de modo a desenvolver competências cruciais à formação dos futuros Engenheiros Químicos. São também caracterizados por uma grande transversalidade e complementaridade de conteúdos, incluindo novas áreas emergentes e uma visão multiescala (da molécula ao planeta). Num âmbito mais focado, e seguindo as tendências atuais da bioeconomia, o DEQ passará também a oferecer, já no próximo ano letivo, o Mestrado em Engenharia Biotecnológica. Finalmente, para quem desejar continuar os seus estudos, existem várias alternativas ao nível do terceiro ciclo para fazer doutoramento em ambiente académico ou industrial.

Em resumo, esta oferta formativa garante aos nossos alunos um leque de opções muito diversificado no mercado de trabalho, onde podem desempenhar funções de engenharia de processo, de produto, gestão, planeamento, projeto, investigação e desenvolvimento, ou mesmo criar a sua própria empresa, em praticamente todas as áreas da ciência e da tecnologia.

PA: Nas suas instalações, o DEQ acolhe vários centros investigação, como o Chemical Engineering and Renewable Resources for Sustainability (CERES), entre outros. Qual é o propósito deste centro? Poderia destacar algumas das principais linhas de investigação desenvolvidas pelos investigadores do DEQ, a sua importância e as respetivas aplicações práticas?

MR: O DEQ acolhe o centro de investigação, CERES, bem como os grupos Polysic e BioMark. Na sua globalidade, a investigação no DEQ cobre áreas e aplicações tão diversas como: energias renováveis, processos sustentáveis, síntese e caracterização de polímeros, tecnologias ambientais, digitalização e inteligência artificial para a indústria, biotecnologia, processos e produtos para a indústria farmacêutica e cosmética, bio/nanosensores, entre outras. Esta investigação produz continuamente resultados com aplicações práticas muito relevantes, como tecnologia para a produção da nova geração de vacinas, sistemas de purificação de água e de remoção de microplásticos, novos processos circulares para a indústria têxtil, desenvolvimento de materiais avançados para aplicações biomédicas e para a indústria aeroespacial, algoritmos de inteligência artificial e big data para a indústria, biossensores para a prevenção e diagnóstico de doenças, entre muitos outros. Algumas das ideias levam mesmo à criação de spin-offs e start-ups, como são os casos da Adventech, Envitecna, TimeUp, e Ineye Pharma.

PA: O DEQ promove parcerias com outros estabelecimentos de Ensino, indústrias e polos de investigação, tanto a nível nacional quanto internacional? Quais foram as principais colaborações, programas e iniciativas estabelecidas neste sentido e como contribuíram para fortalecer a instituição e beneficiar os estudantes e o corpo docente?

MR: Ao longo dos anos, o DEQ tem criado condições e incentivado os seus alunos e docentes a participar em programas de mobilidade, com destaque para o programa Erasmus+, que tem sido o mais procurado. Desde 2020, 28 alunos do DEQ tiveram a oportunidade de viver, interagir e aprender em diferentes países da Europa, incluindo Espanha, Itália, Chéquia, Polónia, Reino Unido, Áustria, Bélgica e Suécia. Entre estes alunos, há participantes de todos os ciclos de estudo: Licenciatura, Mestrado e Doutoramento. Os alunos realizaram mobilidade em duas modalidades: ‘Estudos’ e ‘Estágio’. Todos os alunos que participaram na mobilidade consideraram a experiência extremamente enriquecedora, tanto a nível académico, como pessoal.

Os docentes também têm participado no programa Erasmus+, com missões mais centradas em Espanha, Itália e Bélgica, bem como o programa Fulbright e as ações COST, que permitem interagir com investigadores de outras geografias e enriquecer ainda mais a rede de ligações do DEQ ao mundo.

PA: O Ensino Superior enfrenta novos desafios, nomeadamente ao nível de novas metodologias de ensino que fomentam o estímulo da autonomia do estudante. De que forma o DEQ tem acompanhado as novas tendências e que iniciativas tem promovido e implementado nos cursos que oferece.

MR: Vai arrancar este ano uma iniciativa pedagógica na UC, com um carácter único e inovador no panorama português, designada Factory Lab. Esta iniciativa tem como objetivo formar os futuros líderes da indústria e contribuir para o avanço tecnológico e competitividade do setor industrial, através da integração do ensino da teoria com a prática e tecnologia de ponta. Como parte do Factoy Lab, estão instaladas no DEQ uma Sala de Controlo à escala real, que simula de forma fidedigna a operação de processos industriais reais, e uma Sala de Realidade Virtual, onde os processos em funcionamento podem ser “visitados”. Esta iniciativa é única em Portugal (na verdade poucas escolas a possuem no mundo) e tipifica, associada à ligação do DEQ com a indústria, a qualidade de ensino que queremos proporcionar aos nossos alunos, que ficarão ligados indelevelmente ao departamento como parte da nossa extensa comunidade de alumni, que muito nos orgulha.

PA: Qual é o papel do Engenheiro Químico na sociedade? Considera que esta deveria ser uma profissão merecedora de maior reconhecimento? Qual a sua principal característica?

MR: Como já foi referido, a Engenharia Química está em todo o lado, sendo muitas vezes designada como “a Engenharia das Engenharias”, dada a amplitude de áreas de possível intervenção. É uma disciplina com mais de 130 anos e que continua em constante evolução para responder aos desafios presentes e futuros. Talvez esta importância (bem espelhada nas aplicações descritas anteriormente) não seja facilmente reconhecida por todos, o mesmo se passando aliás com outros domínios da Engenharia. Mas acredito que muitos o saibam e colham os benefícios de apostar na Engenharia Química.  Por exemplo, nos EUA é uma das profissões mais bem pagas e procuradas e os níveis de empregabilidade em Portugal e na Europa são elevados.

De facto, para quem gosta de uma visão multidisciplinar da ciência e de colocar esta transversalidade em benefício da sociedade, a Engenharia Química é o domínio de eleição. Esta é talvez a sua principal característica. Muitos candidatos escolhem esta profissão por isso mesmo, mas outros, no momento da decisão, hesitam por gostarem de várias áreas da ciência e tecnologia. Para estes, a Engenharia Química é o domínio onde terão oportunidade de, com tempo e ponderação, escolher o seu percurso, explorando as vertentes com que mais se identificam, mantendo uma visão integrada da ciência e dos processos industriais.

PA: No futuro, o que podemos esperar do DEQ? Quais serão as prioridades e iniciativas centrais que pretendem implementar, de forma a impulsionar o desenvolvimento académico e científico do Departamento?

MR: O mestrado em Engenharia Química da FCTUC tem um currículo moderno e ambicioso alicerçado nos pilares identitários da Engenharia Química e oferecendo duas áreas de especialização: “Processo, Ambiente e Energia” e “Bioprocessos e Biomateriais”. Quanto a iniciativas já em andamento, vão arrancar brevemente dois cursos de mestrado, acompanhando as tendências da sociedade e da indústria. O Mestrado em Engenharia Biotecnológica arranca já no próximo ano letivo (2024/2025) e visa proporcionar uma formação centrada numa área em grande expansão, como a Engenharia de Bioprocessos, promovendo contextos produtivos sustentáveis na área da Biotecnologia Industrial e da circularização da economia. O outro curso é o Mestrado em Plásticos e Sustentabilidade, que terá início em (2025/2026) e proporcionará uma especialização centrada na ciência de polímeros, desde a sua síntese, passando pela caracterização, processamento e aplicações. Além disso, o DEQ está e estará sempre atento às necessidades da sociedade, formando profissionais capazes de lhes dar resposta no dia a dia e criando soluções de I&D&I para um futuro suportado por processos e produtos sustentáveis.

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