ADAI vive fase de inovação e crescimento

Manuel Gameiro não tem dúvidas de que, em 2026, a Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI) atravessa um dos períodos de maior dinamismo científico. Entre as novidades estão a 10.ª International Conference on Forest Fire Research, organizada pelo CEIF-ADAI, e a criação do CURA-Lab, dedicado à adaptação às alterações climáticas e à resiliência urbana. O responsável desvenda ainda que o final do mês de junho será “particularmente desafiante”, dado que coincide com o término dos projetos financiados no âmbito do PRR e com o arranque do novo projeto de financiamento plurianual do LAETA.

Perspetiva Atual: A ADAI surgiu por iniciativa de um grupo de investigadores das áreas de mecânica dos fluidos, transmissão de calor e climatização e ambiente, do Departamento de Engenharia Mecânica (DEM) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Desta forma, quais são as maiores motivações da associação e que impacto tem na região?

Manuel Gameiro, Diretor da Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial (ADAI)

Manuel Gameiro: Sendo uma associação criada no seio de uma universidade, as suas maiores motivações estão relacionadas com os três vetores de atuação das instituições universitárias: a investigação científica e a inovação, a educação e a formação, e a disseminação do conhecimento e a interação com o tecido económico. O impacto na região começa por se verificar através da nossa contribuição para a formação de investigadores e técnicos, principalmente na área de engenharia.

As nossas equipas de investigação, por outro lado, desenvolvem a sua atividade num conjunto diversificado de projetos de investigação em colaboração com empresas e outras instituições públicas e privadas, o que representa um contributo positivo para o desenvolvimento regional. Também temos um laboratório acreditado que presta serviços especializados de testes e medições. Através da organização de cursos de formação e da realização de eventos científicos, contribuímos para a disseminação do conhecimento e também para a afirmação e a atração de visitantes para a nossa região.

PA: Falemos agora da equipa de investigadores e das parcerias que tornam possível existirem bons resultados. Quem a compõe e com quem colaboram?

MG: No total, temos mais de uma centena de pessoas ligadas à ADAI, com diferentes tipos de vínculo. Para além de um conjunto de professores e investigadores cujo contrato de trabalho é com instituições públicas de ensino superior, há também um grupo de investigadores e técnicos laboratoriais e administrativos com contrato de trabalho com a própria ADAI. Temos também um número significativo de bolseiros cujas bolsas são asseguradas pelas entidades nacionais de financiamento da investigação, pelos projetos de investigação e inovação e pelos contratos de prestação de serviços especializados.

A nossa principal ligação é com a Universidade de Coimbra, que é a sócia maioritária da ADAI. Integramos, desde o seu lançamento, há quase vinte anos, a Iniciativa de Energia para a Sustentabilidade da Universidade de Coimbra, onde colaboramos com doze outras unidades de investigação da UC, num ambiente claramente inter e multidisciplinar. Temos também um núcleo de investigação no Politécnico de Leiria, composto principalmente por docentes daquela instituição, cujos trabalhos de doutoramento foram realizados anteriormente no âmbito de projetos da ADAI.

Através da nossa participação, como unidade de gestão, no Laboratório Associado de Energia, Transportes e Aeroespacial (LAETA), temos como parceiros o INEGI, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, o IDMEC, do Instituto Superior Técnico da Universidade do Porto, e o AEROG, da Universidade da Beira Interior.

Através dos consórcios dos projetos nacionais e europeus em que participamos, colaboramos com perto de uma centena de entidades, entre as quais universidades, laboratórios de investigação, empresas e associações não governamentais.

PA: Integrados na ADAI, o CED, o CEIF, o CIE, o CSBE desenvolvem investigação em áreas distintas, mas complementares, desde a energia e a sustentabilidade até aos incêndios florestais. De que forma esta articulação entre centros reforça a investigação e em que se diferenciam entre si?

MG: A organização interna nestes quatro centros de investigação resulta da diversidade de áreas temáticas para as quais os investigadores da ADAI dirigiram os seus interesses de investigação ao longo das suas carreiras científicas. Tendo um ponto de partida comum na parte da Engenharia Mecânica mais ligada à Energia e ao Ambiente, a aplicação de conceitos semelhantes a diferentes sectores de atividade justifica, de alguma forma, a existência destes quatro centros de investigação, simultaneamente diferentes e complementares.

O Centro de Energética e Detónica (CEF) foca-se em aspetos relacionados com a indústria de explosivos, com o sector da Defesa e com temas de utilização da energia na indústria. O Centro de Estudos de Incêndios Florestais (CEIF) dedica-se à investigação aplicada no âmbito dos incêndios florestais e na interface urbano-florestal, nomeadamente nos aspetos físicos do fogo.

O CIE (Centre for Industrial Ecology) desenvolve e utiliza ferramentas para melhorar a sustentabilidade de produtos e sistemas, através da avaliação do seu ciclo de vida e do estudo das potencialidades da sua integração no conceito da economia circular.

O Centro para Sustentabilidade do Ambiente Construído (CSBE) dedica-se ao estudo dos edifícios e do ambiente urbano, com foco nas áreas da eficiência energética de edifícios, qualidade do ambiente interior, mobilidade sustentável, engenharia do vento e aerodinâmica industrial.

PA: Na última entrevista à Perspetiva Atual referiu a classificação de “Excelente” do LAETA na avaliação da FCT e a aprovação de cerca de 10 projetos científicos por agências de financiamento. Poderia falar um pouco mais sobre cada uma destas investigações?

MG: Irei referir, de forma mais detalhada, quatro projetos, um de cada centro de investigação da ADAI. O projeto ESCIB foca-se na sustentabilidade e economia circular, com uma forte componente de Avaliação do Ciclo de Vida (Life Cycle Assessment). Este projeto procura desenvolver soluções que alinhem as atividades industriais com as metas do Pacto Ecológico Europeu, promovendo a transição verde e a gestão eficiente de recursos.

O Bio-Waste2Carbon (BW2C) dedica-se à valorização de resíduos florestais por meio de um sistema inovador de captura criogénica de CO2. A tecnologia permite capturar o carbono diretamente nos gases de pós-combustão, transformando-o em CO2 sólido biogénico, o que contribui tanto para a descarbonização como para a prevenção de incêndios florestais ao dar utilidade à biomassa residual.

O projeto H2NG centra-se na transição energética, especificamente no desenvolvimento de uma estação para a mistura e injeção de hidrogénio verde nas redes de gás natural existentes. O objetivo é superar desafios técnicos como a estratificação do hidrogénio e a integridade das infraestruturas, facilitando a descarbonização do setor do gás através de uma solução segura e homogénea.

O projeto Large Fires dedica-se ao estudo da propagação de grandes incêndios florestais e da dispersão de fumo na atmosfera. Coordenado pelo CEIF-ADAI, o projeto utiliza modelação avançada para compreender melhor o comportamento dinâmico do fogo em situações extremas, visando melhorar a previsão e a gestão do risco para proteger populações e ecossistemas.

PA: Para além dos projetos mencionados, que outras iniciativas, eventos ou projetos em desenvolvimento considera relevantes destacar?

MG: A 10ª International Conference on Forest Fire Research, organizada desde a sua primeira edição pelo CEIF-ADAI, é um evento de grande dimensão e inquestionável relevância científica. A edição de 2026, que irá decorrer de 31 de outubro a 6 de novembro, terá cerca de 260 apresentações orais distribuídas por quatro dias, cerca de 90 pósteres e 7 intervenções de oradores convidados, e será antecedida por dois cursos de formação especializada. Posso também destacar a recente criação, no seio da ADAI, do CURA-Lab (Laboratório de Resiliência Urbana e Adaptação), focado na resiliência aos efeitos das alterações climáticas, cujas atividades e projetos detalhados de investigação podem ser consultados através da plataforma oficial em cura-lab.adai.pt.

PA: Face às novas exigências do mercado de trabalho, cada vez mais competitivo, de que maneira a ADAI tem vindo a evoluir e a adaptar a sua atividade de investigação, nos diferentes centros, para responder a estes desafios e contribuir para a formação de estudantes e investigadores?

MG: Temos tido a preocupação de proporcionar as melhores condições possíveis aos membros das nossas equipas de investigação. Este é um esforço que se desenvolve em várias áreas, que vão desde a qualidade das instalações até à existência de equipamento científico moderno e de aplicações computacionais atualizadas, passando também pelas perspetivas de desenvolvimento e de estabilidade na carreira científica.

Concluímos recentemente um projeto de recursos humanos qualificados e outro de infraestruturas que nos permitiram requalificar as instalações das três unidades laboratoriais, exteriores ao edifício do DEM-UC, onde desenvolvemos a nossa atividade. No próprio edifício do DEM, no último ano, criámos mais um conjunto de cerca de vinte postos de trabalho para garantir boas condições de trabalho aos nossos investigadores.

PA: Um ano volvido desde os objetivos traçados para 2025, que resultados já foram alcançados em 2026 e quais os que ainda pretendem concluir até ao final do ano?

MG: Neste ano de 2026, o final do mês de junho é um período particularmente desafiante, pois é a data até à qual as execuções dos projetos financiados no âmbito do PRR devem estar concluídas, e temos várias participações de equipas da ADAI nalguns desses projetos. Estamos também agora na fase de arranque do novo projeto de financiamento plurianual do LAETA, no qual temos alguns investimentos a realizar a curto prazo na aquisição de equipamentos científicos. Também é preciso iniciar os projetos internos de colaboração com as outras unidades de gestão.

Os restantes objetivos relacionam-se com o aumento dos nossos indicadores de produtividade científica, nomeadamente em termos de publicações científicas, patentes, número e volume de financiamento de projetos e contratos de investigação e contribuição para a formação de recursos humanos qualificados na área de ciência e tecnologia.

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