Prof. Dra. Maria João Cascais (Presidente da SPMD), Dr. Alexandre Rebelo-Marques e Dr. Vítor Coelho

“Queremos ser uma organização de Medicina Desportiva globalmente reconhecida”

Apesar de ainda muito recente, a Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva (SPDM) já muito evoluiu ao longo destes 27 anos de existência. Com o 17º Congresso Nacional da Sociedade prestes a acontecer, Alexandre Rebelo-Marques, fala sobre a missão da SPDM e do seu contributo para o bem-estar dos atletas portugueses.

Perspetiva Atual: A Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva é uma Sociedade recente. Em que bases foi criada?

Alexandre Rebelo-Marques: A Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva (SPMD) é bastante recente. Foi constituída por escritura pública em Outubro de 1994, por 17 médicos fundadores e visionários. Hoje existem cerca de 120 médicos especialistas em Medicina Desportiva.

PA: Qual é a sua missão?

ARM: Nos nossos estatutos, o artigo 3 descreve o nosso objetivo: “contribuir para o aperfeiçoamento dos conhecimentos médicos nos aspectos teóricos e práticos aplicados ao indivíduo praticante de atividade física ou desportiva, nos âmbitos coletivo e social.“ Ou seja, a Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva (que nos dias de hoje já é muitas vezes de Medicina do Exercício e do Desporto), enquanto Sociedade Científica tem a missão de contribuir para o aperfeiçoamento dos conhecimentos médicos nos aspetos teóricos e práticos aplicados ao indivíduo praticante de atividade física ou desportiva, nos âmbitos coletivos e sociais.

PA: A Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva é membro da Federação Internacional de Medicina Desportiva (FIMS) e da Federação Europeia de Associações de Medicina Desportiva (EFSMA). Qual é o papel da SPDM dentro destas federações?

ARM: Temos o objetivo de, a longo prazo, sermos uma organização de Medicina Desportiva globalmente reconhecida, liderando o caminho no apoio e desenvolvimento de competências nestas áreas. Existem vários outros organismos nacionais, no entanto, organizações como a EFSMA e a FIMS pretendem reunir habilidades desses organismos para partilhar conhecimentos e perícia, assegurando o reconhecimento da Medicina Desportiva como uma especialidade primária. São Instituições que visam, principalmente, promover o estudo e desenvolvimento da Medicina Desportiva em todo o mundo, para proteger a saúde física e mental e assegurar o bem-estar de todos os que se dedicam ao desporto e ao exercício, além de ajudar os atletas a alcançar um desempenho ótimo, maximizando o seu potencial genético, saúde, nutrição e (acesso a) cuidados e treino de alta qualidade. São uma representação europeia e mundial das diferentes associadas.

PA: Pode-se dizer que a Sociedade tem um contributo importante para a qualidade do desporto português?

ARM: Direta ou indiretamente, sim. A Especialidade de Medicina Desportiva (nome comum e oficial da Especialidade na União Europeia – mas que na minha opinião merece ser alterada) é uma especialidade médica multidisciplinar (fisiologia do exercício, avaliação funcional, medicina interna, cardiologia desportiva, sistema locomotor, fisiologia clínica do exercício, patologias crónicas transmissíveis e não-transmissíveis, prescrição de exercício, antropometria, imagiologia, entre outras), aplicada à prática da atividade física, do exercício e do desporto e que tenta inverter estilos de vida sedentários e os problemas de saúde que estes causam. Por isso, tenho a certeza de que muitos dos nossos associados estão também envolvidos na otimização de muitos dos nossos atletas, quer seja no desporto individual ou de equipa.

Alexandre Rebelo-Marques entrevistado por Fátima Lopes, no âmbito da ação do “Camião da Esperança”

PA: O 17º Congresso Nacional da SPDM vai realizar-se de 10 a 12 de Novembro, no Estádio Municipal de Leiria. O que poderemos esperar do evento?

ARM: Este será um evento que proporcionará um espaço de partilha e divulgação da mais recente evidência científica ligada à atividade física, exercício e desporto, em todas as suas dimensões. O programa diversificado, elaborado sob supervisão da Direção da Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva, em conjunto com as suas secções, sociedades parceiras, comissões e grupos de trabalho, abrange todas as grandes áreas, desde a atividade física como promoção de saúde até à performance, reabilitação e prevenção de lesão no atleta. Teremos workshops, conferências, mesas-redondas, casos clínicos interativos e simpósios – oportunidades de excelência para a aprendizagem e atualização de conhecimentos, essenciais para a prática clínica. Este ano, num formato abrangente e multidisciplinar, tal como a própria especialidade.

Queremos somar, queremos aproximar, principalmente as diferentes Especialidades Médicas, assim como os diferentes Profissionais de Saúde envolvidos no âmbito da Medicina Desportiva. Como sabemos, ou deveríamos saber, o exercício físico tem sido amplamente utilizado como medicina preventiva para reduzir o risco e a incidência de doenças cardiovasculares e metabólicas, relacionadas com a vida sedentária e insalubre. O exercício regular tem demonstrado melhorar a saúde e reduzir a gravidade das doenças que acompanham um estilo de vida pouco saudável. Por outro lado, a inatividade física afeta a saúde, levando a um aumento de disfunções cardiovasculares, metabólicas, neurológicas, entre outras. Nas últimas décadas, um número cada vez maior de pessoas, incluindo crianças e adolescentes, apresentam um estilo de vida sedentário associando-se assim a morbilidade diversa. Tudo isto deve e tem de ser debatido.

Para além de um espaço de aprendizagem, o 17º Congresso Nacional de Medicina Desportiva será uma aguardada oportunidade de networking e convívio entre colegas e amigos, após a travessia de uma época exigente e extremamente desafiante. Finalmente, vamos estar juntos também fisicamente!

PA: Porque um congresso este ano?

ARM: A SPMD tem atividades formativas anuais, no entanto, o nosso Congresso Nacional é bianual. Revisitando o passado recente, os últimos dois anos estão cheios de narrativa: desde a luta contra uma pandemia (que ainda continua) até à verdadeira guerra balística tão próxima, as incertezas, as necessidades e os sacrifícios, são muitos os desafios colocados. No entanto, e como já o disse, todos conseguem constatar que o exercício físico nunca perdeu o seu papel – quer na prevenção e/ou tratamento, quer na performance daqueles que mais necessitam no âmbito de competição.

Apesar da pandemia ter centrado todas as atenções na resposta do Sistema Nacional de Saúde (SNS) no combate ao vírus, temos visto nas últimas semanas vários problemas a emergirem. Por isso, na minha opinião, é imperioso, oportuno e fundamental a discussão quanto ao futuro do SNS e o papel que a Medicina Desportiva pode ter para que este consiga manter e concretizar aquilo a que se propõe: “a prestação de cuidados de saúde, de forma geral, universal e tendencialmente gratuita, a toda a população”. Aliás, esse é o mote da edição deste ano.

PA: Quem serão os principais participantes este ano?

ARM: A Sociedade pretende estreitar colaborações e alimentar a cumplicidade com colegas médicos de outras especialidades e profissionais de outras disciplinas de saúde (fisioterapia, enfermagem, nutrição, podologia, psicologia, fisiologia do exercício) e disciplinas não relacionadas com a saúde (tais como, profissionais de Educação Física), para um cuidado adequado e integrado de doentes, praticantes e desportistas. Tudo isto poderá ser encontrado no nosso próximo Congresso, em Leiria, onde vamos enaltecer e provocar essa mesma discussão. O mote para o congresso é a importância do Exercício Físico e o papel da Medicina Desportiva na Sociedade e no SNS. O que não nos impede de manter a atualização de conhecimentos em muitas outras áreas.

PA: Falou em diferentes seções, Sociedades e profissionais. Quem são os principais parceiros da associação?

ARM: Digo sempre que as empresas são na verdade as pessoas que nelas trabalham. Também esta sociedade médica é um reflexo dos seus médicos associados. Os mais relevantes são, principalmente, os médicos com a especialidade e/ou a pós-graduação em Medicina Desportiva. No entanto, queremos somar e aproximar e, por isso, todos os profissionais com interesse nas áreas da atividade física, do exercício e do desporto são potenciais parceiros e serão sempre muito bem-vindos. Quando aproximamos pessoas, aproximamos também empresas e outras Sociedades científicas. Como se sabe, o exercício é uma pedra angular na prevenção e no controlo de vários fatores de risco e várias doenças. Assim, todas as outras Sociedades com interesse partilhado são parceiros. Além das Sociedades, temos de salientar que, como em toda a Medicina, a Indústria Farmacêutica é um parceiro de excelência, que reconhece, promove e financia muitas das atividades que são efetuadas.

PA: A SPDM está a organizar o curso “Medicina Baseada no Exercício”. Quando será lançado e para quem é dirigido?

ARM: Como o nome indica, este é um curso planeado para complementar e/ou dotar os alunos das capacidades que o exercício tem enquanto medicamento (“Exercise is Medicine”). As inscrições já estão abertas e os destinatários são: Médicos com pós-graduação em Medicina Desportiva, Médicos internos e especialistas em Medicina Desportiva. Ainda temos de definir alguns pontos, pelo que ainda não podemos confirmar a data de início.

PA: Quais são os seus planos para o futuro da SPDM?

ARM: A Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva compromete-se a ser uma força motriz e agregadora para conseguirmos alcançar os objetivos traçados pelos nossos associados. Como já referi, queremos ser uma organização de Medicina Desportiva globalmente reconhecida, liderando o caminho no apoio e desenvolvimento de competências nestas áreas. Assumimo-nos como uma voz ativa na Sociedade Civil e uma parte muito importante do nosso Sistema Nacional de Saúde no combate às doenças crónicas não-transmissíveis e na defesa da qualidade de vida dos portugueses.

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