Aprender com liberdade e consciência

Assente na matriz dominicana e numa longa tradição educativa, o Colégio do Bom Sucesso promove uma prática pedagógica que incentiva o progresso académico e o crescimento pessoal de cada aluno. Segundo a diretora, Ana Mariz Fernandes, através da componente ética e religiosa, os alunos tomam decisões com autonomia e responsabilidade, desenvolvendo não só o intelecto, mas também uma “bússola interior” que os prepara para os desafios do futuro.

Perspetiva Atual: O Colégio do Bom Sucesso, pertencente à Congregação das Religiosas Dominicanas Irlandesas, possui uma antiga e prestigiada história, mantendo-se ao longo de várias gerações como uma instituição de referência. Que mudanças ocorreram ao longo do tempo e o que se manteve inalterado?

Ana Mariz Fernandes: O Colégio do Bom Sucesso é um caso fascinante de longevidade educativa em Portugal. Ainda que só tenha obtido o seu alvará em 1932, a experiência na área da formação começa com a entrada da primeira aluna Mariana Russel em 1829, e a sua trajetória atravessou monarquias, repúblicas e revoluções, adaptando-se com enorme sucesso ao longo de quase duas centenas de anos.

Ao longo dos tempos foi fiel à sua identidade, mantendo até hoje a matriz dominicana e a sua ligação à Irlanda. Embora totalmente integrado na realidade portuguesa, o colégio mantém a sua herança cultural irlandesa e a ligação institucional à Congregação das Irmãs Dominicanas de Cabra (Dublin). A espiritualidade de São Domingos, baseada na busca da Verdade (Veritas) e na partilha do conhecimento, continua a ser o pilar central da formação moral e ética.

Fisicamente, o Colégio permanece no seu complexo histórico em Belém, funcionando num espaço que resistiu ao Terramoto de 1755 e que preserva uma das igrejas mais bonitas da cidade de Lisboa.
Com o decorrer do tempo, esta instituição demonstrou uma enorme capacidade de adaptação passando de Colégio interno, a externo, de feminino, a misto, de um ensino tradicional a um ensino atual, apoiado em ferramentas tecnológicas e, cada vez mais, construído em rede.

PA: Neste colégio, o aluno é o principal responsável pela sua própria educação, num projeto pedagógico assente em três pilares fundamentais: educar para a verdade, cultivar o bem e educar na liberdade. Como estes pilares se refletem nas escolhas, atitudes e vivências diárias dos estudantes?

AMF: O objetivo do nosso trabalho é que o estudante deixe de ser um recetor passivo de regras e passe a ser uma pessoa com consciência ética. A “Verdade” dominicana reflete-se no rigor intelectual e na honestidade pessoal. Pretendemos que os alunos desenvolvam uma atitude crítica incentivando-os a questionar e a investigar a fundo, a propor soluções. O aluno é estimulado a ser verdadeiro consigo próprio, reconhecendo os seus talentos e as suas limitações, fazendo escolhas muito concretas como por exemplo não copiar, citar corretamente as fontes e assumir os seus erros perante professores e colegas.

Acreditamos que a educação não serve apenas para o sucesso individual, mas para o serviço ao outro e, desse modo, a nossa vivência diária inclui o apoio a causas sociais ou a ajuda entre pares. O “Bem” estende-se também ao ambiente e ao património do Colégio, realçando o sentido de responsabilidade pelo que é a herança comum. No Bom Sucesso, a liberdade não é “fazer o que se quer”, mas sim a capacidade de escolher o que é correto com autonomia. Como dizia Eleanor Roosevelt, “With freedom comes responsibility” e é este tipo de participação que cultivamos, tendo em consideração, cada vez mais, a voz dos jovens.

PA: No Colégio do Bom Sucesso, a dimensão religiosa é fundamental. Qual a importância dessa componente para o processo educativo e para a formação dos alunos?

AMF: Para os Dominicanos, educar é também ajudar a formar o caráter. A dimensão religiosa traz a convicção de que cada aluno é único e possui uma dignidade transcendente. A nossa responsabilidade é ajudar o aluno a ver o mundo através de uma lente ética e espiritual fazendo entender a ligação do que se estuda em Ciências ou História e os valores cristãos, pois a fé ilumina a inteligência, não a limita. A oração matinal, as celebrações litúrgicas e os tempos de reflexão criam momentos de pausa num quotidiano acelerado, permitindo ao aluno desenvolver a sua vida interior e a empatia pelo próximo. Quando o aluno sai do colégio, a ideia é que ele leve consigo não apenas um diploma, mas uma “bússola interior” que o ajude a decidir o que é justo e verdadeiro na sua vida adulta!

PA: A família e o colégio partilham um objetivo comum: tornar as crianças felizes. Numa era cada vez mais digital e global, como é assegurado o seu desenvolvimento, evitando o excesso de tecnologias a que estão sujeitos diariamente?

AMF: A felicidade da criança constrói-se com tempo e equilíbrio. Ser feliz não significa estar sempre saciado e recompensado. A gratificação imediata tem sido incrementada pelo mundo digital nomeadamente com os jogos.

Mas há felicidade quando sabemos dar tempo para atingir objetivos e ultrapassar obstáculos sem desistir e é por isso que o colégio aposta no que é tangível, relacional e humano. Há mais de 8 anos, não era possível ter telemóveis durante o período em que os alunos estivessem dentro do Colégio, a menos que os professores pretendessem utilizá-lo como uma ferramenta específica. Só nessa altura podiam ter acesso aos telefones. Hoje temos várias oportunidades para acrescentar valor cognitivo utilizando uma diversidade de tecnologias que dispensam o telemóvel.

Nos recreios o foco está nos jogos desportivos, nas brincadeiras, nas corridas e na interação entre os colegas e amigos, criando competências relacionais, desenvolvendo a inclusão, aprendendo a lidar com frustrações e conflitos que são muito importantes para a compreensão e aceitação de uns e outros. As competências sociais são atualmente um dos mais importantes “skills” que a escola pode ajudar a adquirir.

PA: A par dessas preocupações, nos 2.º e 3.º Ciclos, com aprendizagens já integradas do Pré-Escolar e 1.º Ciclo, os alunos aproximam-se da interdisciplinaridade. Que projetos em curso se destacam pela sua relevância para a aprendizagem?

AMF: À medida que os alunos transitam para os 2.º e 3.º Ciclos, a abordagem interdisciplinar intensifica-se. O objetivo é que o conhecimento deixe de estar «em gavetas» (disciplinas isoladas) e passe a ser visto como um todo interligado, em rede. Vários projetos de destaque ilustram esta vivência prática como a English Week, ou programas com roteiros bem delineados e os projetos com outros colégios nacionais ou internacionais (eTwinning). A disciplina de teatro no 8.º ano constitui uma ajuda para enfrentar os desafios do mundo real, cruzando expressão artística com autoconhecimento e controlo emocional, tal como a disciplina de Life Skills no 2.º ciclo, que procura desenvolver um conjunto de competências práticas para a vida na sociedade moderna.

PA: O Departamento de inglês surge da ideia de criar um projeto que promova o ensino da língua inglesa desde o pré-escolar até ao 3.º ciclo. Que mais-valia traz esta valência ao currículo de cada aluno ou até para o seu futuro?

AMF: O programa de Inglês do Colégio do Bom Sucesso constitui um projeto de continuidade que tem as suas raízes na herança irlandesa da instituição. Esta valência cria uma curva de aprendizagem natural que vai integrando o Inglês na vivência escolar, atingindo o seu auge com o Summer Course em Inglaterra e o certificado de Cambridge. É fundamental que os nossos alunos tenham fluência e à-vontade com esta língua, pois facilita-lhes o contacto internacional bem como o acesso a muita informação.

“Este ano, vamos continuar a nossa caminhada, preservando os nossos valores, integrando os novos tempos, mas sem perder a essência do que torna único o Bom Sucesso há quase quatro séculos!”

PA: Qual é o papel do coro no colégio, no que toca aos aspetos cognitivos e aos que são de cariz emocional dos estudantes?

AMF: Dizia Santo Agostinho que “quem canta reza duas vezes”. E neste sentido o Coro do Colégio está diretamente ligado à Pastoral. Ao participar nas celebrações litúrgicas, o aluno experimenta a música como uma forma de oração e de comunhão, pois cantar em conjunto exige disciplina, persistência e respeito uns pelos outros. No coro participam alunos de várias idades que tomam parte em várias cerimónias religiosas ao longo do ano letivo como a Primeira Comunhão, a Profissão de Fé e o Crisma, tornando estes momentos mais alegres e participados por toda a comunidade.

PA: Que marcos de 2025 foram motivo de maior orgulho institucional? E para 2026 que metas pretendem alcançar?

AMF: Em 2025, no contexto do ano jubilar, o colégio organizou uma peregrinação a Roma de um grupo de 30 colaboradores representativos de todos os setores docentes e não docentes. No mês de maio, toda a comunidade escolar — alunos, professores, funcionários, pais e avós — deslocou-se a Fátima, em 18 carrinhas, para juntos rezarem e homenagearem Nossa Senhora numa missa celebrada na Basílica pelo nosso capelão. Foram dois momentos muito ricos e particularmente marcantes. Este ano, vamos continuar a nossa caminhada, preservando os nossos valores, integrando os novos tempos, mas sem perder a essência do que torna único o Bom Sucesso há quase quatro séculos.

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