Dois colégios unidos pela mesma missão educativa

Com percursos distintos, mas uma visão comum, o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, no Porto, e o Colégio Amor de Deus, em Cascais, dão vida, no âmbito da Fundação Escolas Amor de Deus, a um projeto educativo que articula a tradição cristã com a formação de “cidadãos conscientes, solidários e comprometidos com o bem comum”. Nesta entrevista, o presidente da Fundação, Filipe Barbosa, revela o que significou para a instituição (Colégio do Amor de Deus) estar presente na atribuição do Prémio Sakharov 2025 e desvenda o futuro dos colégios, assim como a sua aposta na internacionalização.

Perspetiva Atual: Face aos desafios atuais da educação e da sociedade, a Fundação Escolas Amor de Deus mantém-se como referência na formação integral e na transmissão de valores. Que papel procuram desempenhar na educação e na vida da comunidade?

Filipe Barbosa: A Fundação Escolas Amor de Deus, sendo uma entidade recente, não deixa de assumir um Carisma com mais de 160 anos. A Fundação está intimamente ligada à Congregação das Irmãs do Amor de Deus e, como tal, é portadora do Carisma legado pelo Fundador da Congregação (Venerável Padre Jerónimo Usera) que em 27 de abril de 1864 (em Toro – Zamora) fundava a Congregação. Nesse sentido, todos os desafios são encarados sob a perspetiva de um Carisma vivo e atual. Colocar o Amor no centro de todo o processo educativo, como idealizou o padre Usera, continua a ser o principal papel que pretendemos desempenhar na educação e na Comunidade. Assim procuramos ser, antes de mais, um espaço de formação da pessoa inteira, colocando a dignidade humana no centro de todo o processo educativo.

Numa sociedade marcada pela velocidade, pela fragmentação e pela incerteza, entendemos a escola como um lugar de relação, de sentido e de esperança, onde cada criança e cada jovem se sentem reconhecidos, acompanhados e desafiados a crescer. O nosso papel ultrapassa a dimensão estritamente académica: queremos formar cidadãos conscientes, solidários e comprometidos com o bem comum sempre numa perspetiva evangélica. As escolas da Fundação são também espaços de serviço à Igreja na comunidade, de diálogo com as famílias e de abertura à diversidade, sempre animadas pelo carisma do Amor de Deus, profundamente enraizado numa visão cristã e humanista da pessoa.

PA: O Colégio Nossa Senhora de Lourdes, no Porto, integra a Fundação Escolas Amor de Deus. Certamente, mais de 90 anos de atividade refletem uma metodologia consolidada. Quais são os valores essenciais que procuram transmitir aos alunos?

FB: Ao longo dos seus mais de 90 anos, o Colégio Nossa Senhora de Lourdes construiu uma identidade sólida assente em valores que permanecem atuais: o amor, a verdade, o bem, o respeito, a responsabilidade e a abertura ao outro. O mesmo acontece no Colégio do Amor de Deus em Cascais que este ano celebra 75 anos. Acreditamos que educar é, essencialmente, ajudar cada aluno a tornar-se uma pessoa inteira e íntegra, capaz de pensar criticamente, de agir com ética e de viver relações saudáveis. O ambiente educativo baseia-se numa pedagogia preventiva de proximidade, cuidado e confiança. O lema vivido no quotidiano (“Educar é a nossa forma de amar”) traduz uma pedagogia que alia exigência académica a um profundo sentido humano e relacional, onde o sucesso escolar nunca se separa do crescimento pessoal.

“A Fundação Escolas Amor de Deus procura ser, antes de mais, um espaço de formação da pessoa inteira, colocando a dignidade humana no centro de todo o processo educativo”

PA: Os dois colégios (Colégio Amor de Deus, situado em Cascais e o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, localizado no Porto) tem na formação religiosa um dos seus pilares. Como é que a instituição integra os ensinamentos religiosos no percurso escolar dos alunos?

FB: A identidade religiosa do Colégio Amor de Deus, tal como a do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, é vivida de forma clara, serena e assumida. Somos uma escola católica, e não o ocultamos. Quem nos procura sabe que o nosso modelo educativo assenta em valores cristãos e evangélicos, que estruturam a forma como educamos, acolhemos e nos relacionamos.

Essa identidade, no entanto, nunca se confunde com exclusão. Acolhemos todos, respeitando profundamente a identidade, a história e o percurso de cada aluno e de cada família. Não diluímos aquilo que somos para acolher; acolhemos precisamente porque sabemos quem somos. A abertura é uma consequência natural do Evangelho que professamos.

A formação religiosa integra-se de modo transversal na vida escolar, não como imposição, mas como proposta e testemunho: na pastoral, nas celebrações, nos projetos solidários, na reflexão ética e no cuidado com a interioridade. Este horizonte foi também densamente afirmado na Consagração da Fundação, vivida em Fátima, onde se reconhece explicitamente que a diferença é dom, nunca ameaça, e que uma escola fiel à sua identidade é, precisamente por isso, uma escola verdadeiramente inclusiva.

Neste contexto, assume especial importância a presença das Comunidades Religiosas nos dois colégios: uma presença visível, próxima e quotidiana, profundamente integrada na vida escolar, mas também uma presença mais discreta e silenciosa: a da oração, que sustenta espiritualmente a missão educativa. Esse silêncio orante, muitas vezes invisível, é um dos alicerces mais profundos daquilo que somos.

PA: Os dois colégios, mas muito particularmente o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, destacam-se pela aprendizagem da língua inglesa e pela integração do currículo da Universidade de Cambridge. Que impacto tem esta abordagem no desenvolvimento global dos alunos?

FB: A integração do currículo e certificação de Cambridge, já existente no Porto há alguns anos e que já está em processo de certificação também para o Colégio do Amor de Deus, permite uma aprendizagem da língua inglesa sólida, progressiva e exigente, preparando os alunos para um mundo cada vez mais global e multicultural. Para além da competência linguística, desenvolvem-se capacidades cognitivas, culturais e relacionais que reforçam a autonomia, a confiança e a abertura ao mundo.

No Colégio Nossa Senhora de Lourdes destaca-se também, desde este ano letivo 25/26, a presença do British Council não apenas para os nossos alunos, mas para toda a Comunidade. Fruto de um protocolo entre a Fundação e o British Council, o colégio passou a acolher os serviços do British Council nas suas instalações e a disponibilizar os espaços para o desenvolvimento das atividades deste Instituto.

PA: É inegável que um dos maiores desafios da atualidade é o avanço da tecnologia digital. Qual é a preparação que os colégios oferecem aos estudantes?

FB: A tecnologia é encarada, nos dois colégios, como uma ferramenta pedagógica ao serviço do humano e da aprendizagem (mais e melhor aprendizagem para todos), nunca como um fim em si mesma. O seu uso é pensado de forma equilibrada, sustentada e parcimoniosa, sempre com intencionalidade pedagógica clara.

Desde logo, a disciplina de TIC começa no 1º ano do 1º ciclo e estende-se até ao 3º ciclo. Além disso, as duas escolas estão envolvidas no projeto ENSICO, sendo mesmo das escolas pioneiras no projeto.

Utilizamos o digital quando ele acrescenta valor real às aprendizagens, à compreensão dos conteúdos, à criatividade e à diferenciação pedagógica. Ao mesmo tempo, preservamos com firmeza o lugar da leitura profunda, da escrita, do livro e do papel, conscientes das reflexões contemporâneas (como as de Maryanne Wolf) que sublinham a importância do tempo lento da leitura e da interiorização do sentido para o desenvolvimento cognitivo e humano.

Neste modelo, a tecnologia nunca substitui o professor, a relação ou a proximidade. Nenhuma plataforma substitui um olhar atento, uma palavra de encorajamento ou um gesto de cuidado. Fiéis ao nosso carisma, acreditamos que educar é sempre um ato profundamente humano e relacional e, mais que isso, temos a convicção plena que a educação como ato de amor não se digitaliza.

PA: Os pais desempenham um papel fundamental na transmissão da ética e dos valores morais aos filhos. De que forma os colégios os envolvem nesse processo?

FB: A parceria entre escola e família é um pilar essencial do nosso modelo educativo. Promovemos uma relação de proximidade, diálogo e corresponsabilização, através de encontros regulares, projetos comuns e momentos de reflexão partilhada.

Acreditamos que educar é uma missão vivida em conjunto, e que a coerência entre família e escola fortalece decisivamente a formação integral dos alunos. Aliás, não pode ser de outra forma.

Os dois colégios são colégios de “porta aberta”: os pais podem entrar nos espaços escolares (recreios) para levarem e irem buscar os filhos e, com muita frequência, encontram as irmãs e os elementos da Direção que estão, pela manhã, a receber os alunos e os pais. Na pandemia, por imposição legal, abandonamos esta prática, mas retomamo-la logo que foi possível.

PA: Quais são os projetos, em curso, que se destacam pela sua contribuição para a melhoria contínua da experiência educacional dos alunos?

FB: Destacam-se, desde logo, os projetos Erasmus, nos quais a Fundação e os dois colégios participam há vários anos. A Fundação é uma instituição acreditada nos projetos Erasmus. O Colégio Nossa Senhora de Lourdes tem vindo a estabelecer parcerias consistentes com escolas da Polónia, Itália, Grécia, Eslovénia e Bulgária, promovendo mobilidades de alunos e professores, bem como a receção dessas comunidades educativas em Portugal. Estas experiências reforçam a educação para a cidadania europeia, a abertura cultural e o crescimento humano.

Outro projeto profundamente marcante é a peregrinação a Santiago de Compostela, realizada anualmente no mês de julho, envolvendo alunos e ex-alunos. Algo que começou em 2003. A elevada procura (que obriga a limitar a participação a cerca de 160 peregrinos) revela o impacto desta experiência educativa e pastoral, onde se desenvolvem aprendizagens não formais fundamentais: resiliência, responsabilidade, espírito comunitário, silêncio, interioridade e propósito.

Desde 2007, esse mesmo caminho é percorrido também por adultos, envolvendo pais e familiares de alunos dos dois colégios numa peregrinação. Este ano peregrinaremos no Caminho Francês, entre 26 de abril e 2 de maio, reforçando a ideia de uma escola que educa em comunidade.

Acresce ainda o papel estruturante das artes, em especial as artes plásticas e a música, contribuindo para a educação estética, a disciplina interior, a escuta e o trabalho coletivo. No Colégio do Amor de Deus, as Artes são reconhecidas pela Comunidade, de que é prova evidente, entre outras atividades, a exposição realizada no Cascais Shopping com trabalhos desenvolvidos pelos alunos.

PA: O que significou para o Colégio do Amor de Deus ser escolhido para representar Portugal na cerimónia do Prémio Sakharov 2025?

FB: A participação do Colégio Amor de Deus na cerimónia do Prémio Sakharov, no âmbito do projeto de Escolas Embaixadoras do Parlamento Europeu, onde estamos desde o seu início, representou um reconhecimento muito significativo de um trabalho educativo que ultrapassa claramente as questões meramente académicas em todas as áreas. Foi o reconhecimento de uma escola comprometida com os direitos humanos, a dignidade da pessoa e a responsabilidade social, aberta à comunidade local e, simultaneamente, consciente da sua pertença a um mundo global.

Este momento reafirmou a convicção de que uma escola fiel à sua identidade é também uma escola aberta ao mundo.

PA: Olhando para o futuro, quais são as expectativas dos colégios?

FB: O futuro é encarado com esperança e responsabilidade. Queremos continuar a crescer em qualidade educativa, mantendo inseparáveis os dois pilares do nosso Projeto Educativo: Identidade e Qualidade. Não há qualidade sem identidade, nem identidade viva sem exigência pedagógica.

Neste caminho, a presença das Comunidades Religiosas (visível no quotidiano escolar e invisível no silêncio da oração) continuará a ser um suporte essencial da missão educativa que nos foi confiada.

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