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CAUC assume-se como “um espaço de referência na interseção entre criação, investigação e sociedade”
A Perspetiva Atual assinala os 20 anos do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra (CAUC) numa conversa com o seu diretor, José Maçãs de Carvalho, um nome bem conhecido no campo das artes visuais, que esboça o próximo ciclo do projeto. A instituição, que o responsável acredita distinguir-se pela sua transdisciplinaridade na “criação artística e investigação académica”, tem como próximos objetivos aprofundar a dimensão colaborativa e internacional, fortalecer a relação entre arte e património e aumentar a presença pública das atividades desenvolvidas.
José Maçãs de Carvalho: Antes de mais, o Colégio deve consolidar-se como escola de liberdade argumentativa. Lugar onde se cruza o paradigma estético da visualidade com o paradigma epistémico do saber. O modelo pedagógico e institucional do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra distingue-se de forma significativa das ofertas mais convencionais do ensino artístico superior, sobretudo por três características estruturantes: a transdisciplinaridade, a integração crítica entre prática e teoria e a articulação entre criação artística e investigação contemporânea. Em primeiro lugar, importa compreender que a maioria das escolas de arte tradicionais organiza-se segundo uma lógica disciplinar relativamente estabilizada: pintura, escultura, design, cinema, teatro ou arquitetura tendem a existir como campos autónomos, com metodologias, currículos e epistemologias próprias.
O CAUC afasta-se desse paradigma ao assumir explicitamente uma matriz transdisciplinar. Esta opção não consiste apenas na coexistência de diferentes artes no mesmo espaço institucional, mas antes na produção de zonas híbridas de criação e pensamento, onde os limites disciplinares são deliberadamente questionados.
Em segundo lugar, o CAUC diferencia-se pelo modo como integra criação artística e investigação académica. Em muitas instituições de ensino artístico, a prática artística permanece relativamente separada da produção teórica ou científica. No caso do Colégio das Artes, a criação é concebida como forma de investigação (“practice-based research” ou “artistic research”), reconhecendo que o conhecimento pode emergir através do gesto artístico, da experimentação material, da performance ou da imagem em movimento.
Em terceiro lugar, distingue-se pela sua forte dimensão laboratorial e experimental. Enquanto muitos cursos artísticos permanecem orientados para competências técnicas específicas ou para a profissionalização em mercados criativos definidos, o CAUC privilegia frequentemente: processos experimentais; colaboração entre áreas; projetos curatoriais; residências artísticas; reflexão crítica sobre os próprios meios de produção artística. Consequentemente, o estudante deixa de ocupar apenas a posição de aprendiz técnico e passa a ser entendido como agente crítico, capaz de construir dispositivos de pensamento através da arte.
Há ainda uma dimensão institucional importante: estando integrado na Universidade de Coimbra, uma universidade historicamente marcada por tradições humanísticas e científicas, o Colégio das Artes beneficia de um ecossistema académico raro em Portugal. Isto favorece cruzamentos efetivos entre arte, ciência, tecnologia e pensamento social, aproximando-o de modelos de escolas-laboratório presentes em universidades europeias e norte-americanas contemporâneas.
Em síntese, o modelo do CAUC diferencia-se das ofertas convencionais do ensino artístico porque rompe com a separação rígida entre disciplinas artísticas, articula prática criativa e investigação teórica e privilegia experimentação e pensamento crítico. Trata-se, portanto, de um modelo mais próximo da ideia de “plataforma crítica de criação contemporânea” do que da escola artística tradicional centrada exclusivamente na aprendizagem técnica ou disciplinar.
PA: Para que possamos conhecer melhor o CAUC e sendo a “Arte” uma palavra usada como elemento agregador em diferentes escalas e especificidades, que projetos melhor exemplificam o trabalho desenvolvido?
JMDC: Um dos projetos que melhor exemplifica o trabalho desenvolvido pelo CAUC é o projeto de investigação curatorial desenvolvido, desde 2022, no âmbito do Mestrado em Estudos Curatoriais, em parceria com o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, a Fundação Millennium bcp e a plataforma UmbigoLAB. Este projeto resulta anualmente numa exposição concebida a partir de processos de investigação, acompanhamento curatorial e experimentação crítica, liderados pela curadora, professora e coordenadora do mestrado Ana Rito. A iniciativa tem sido determinante para ampliar a formação específica dos estudantes, promovendo uma articulação efetiva entre pensamento curatorial, prática expositiva, mediação e trabalho institucional, em diálogo direto com contextos profissionais e artísticos contemporâneos.
Mais do que um exercício académico, este projeto afirma-se como uma plataforma de investigação aplicada e de produção de conhecimento, permitindo aos estudantes participar em todas as etapas de construção de uma exposição, da investigação conceptual à relação com artistas, coleções, montagem e comunicação pública. A continuidade e consolidação desta linha de trabalho estendem-se já à próxima parceria institucional prevista para 2027 com a Brotéria: Associação Cultural e Científica, reforçando o compromisso do CAUC com modelos colaborativos de investigação curatorial e formação avançada em estreita relação com instituições culturais de referência.
Igualmente importante têm sido um conjunto de publicações que demonstram a densidade investigativa como por exemplo: Na sombra do quadrado negro (2019); Obra e desaparecimento: Gordon Matta-Clark (2020); Seminário/Seminarium_curated research_the academy as medium (2022); No sonho do homem que sonhava o sonhado acordou (2022); Só porque foi, e voou (2023); Enquanto isso/Meanwhile (2025); The Ongoing Lecture (2026); Teatro del Mondo: for a curatorial practice in transit (2026); Anti-isto manifesto-poema (2026), entre muitas outras.
PA: No que toca à criação artística, um dos grandes pilares da vossa abordagem, como articulam a componente teórica com a vertente prática?
JMDC: O campo de ação do Colégio é a arte contemporânea numa perspetiva marcada pela transversalidade e pela interdisciplinaridade, e situa a sua ação na confluência entre a investigação científica, a produção de saber e a prática criativa, em 3 perspetivas: encaram-se as fronteiras entre as artes como espaços privilegiados de questionamento a partir dos quais é possível constituir um espaço comum de ensino, aprendizagem e investigação, que se afirme enquanto fator de coesão entre saberes, conceitos e métodos diferentes; a relação entre o saber e o fazer é encarada numa perspetiva epistemológica na qual as artes não são apenas objeto, mas também instrumento de estudo assim como a partir de uma perspetiva reflexiva e autorreflexiva sobre o fazer e o pensar das diversas disciplinas artísticas no sentido de ser um espaço privilegiado de problematização e uma escola de pensamento.

PA: Que competências procuram desenvolver nos estudantes com o Mestrado em Estudos Curatoriais e o Doutoramento em Arte Contemporânea?
JMDC: No caso do Mestrado destacamos a combinação de uma forte componente teórica e de um conjunto de metodologias assentes no conceito de “Practice Based Research” (PBR), assim como o contacto com artistas e curadores e situações expositivas in situ, que permitem uma adequação plena àquilo que são os objetivos do Curso. O Laboratório de Curadoria, afeto ao Mestrado em Estudos Curatoriais, é um espaço ensaístico para a prática curatorial em contexto formativo.
Tendo como premissas primeiras a experimentação e o questionamento, opera segundo dinâmicas metodológicas de ação e participação. Nele são concebidos e desenvolvidos projetos que investigam e exploram o conceito de situ-ação, em que o contacto direto dos vários agentes potenciam um processo colaborativo e coletivo. Juntos, artistas convidados, alunos, docentes e comunidades várias, ensaiam pedagogias ativas assentes na dinâmica “problem-oriented project-based learning” expandindo, em simultâneo, o entendimento do espaço expositivo e da própria sala de aula. Da intersecção de ambos, nasce o Laboratório e deste, emerge uma zona de contacto, um território híbrido que se edifica no interstício entre as práticas artísticas e curatoriais e a educação.
O Doutoramento, com a duração regulamentar de três anos (seis semestres), assume um caráter pioneiro no panorama do ensino superior em Portugal. O plano curricular estruturado visa o aprofundamento da investigação e da reflexão crítica iniciadas em ciclos de estudos precedentes, promovendo a transdisciplinaridade ao cruzar metodologias artísticas com o espetro científico do Colégio das Artes.
O primeiro ano foca-se na componente curricular, estruturada em duas tipologias de unidades curriculares (UC): Metodologias de Investigação em Arte I e II: Centradas nos aspetos materiais e metodológicos dos planos de investigação individuais, com particular incidência, na UC II, sobre a articulação entre as componentes práticas da tese e os seus respetivos processos de mediação e Seminários de Arte Contemporânea I e II, concebidos a partir do princípio da contaminação e coconstrução artística, convocam saberes pluridisciplinares e agentes de relevo do ecossistema artístico e curatorial português.
PA: É sobretudo nas relações interdisciplinares que a investigação em Arte se desenvolve nesta Unidade Orgânica da UC. Que vantagens esta interdisciplinaridade traz ao ensino e que protocolos podem ser destacados nesse contexto?
JMDC: Destaca-se a rede de parcerias internacionais e nacionais que permitem complementos de formação atualizados, como por exemplo, com o Venice Curatorial Course; Museu Coleção Berardo, Lisboa; Culturgest, Lisboa; Fundação PLMJ, Lisboa; HANGAR – Centro de Investigação Artística, Lisboa; DGPC – Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa; Oficina, Centro de Artes e Mesteres Tradicionais de Guimarães; Centro de Arte Contemporânea de Coimbra; Círculo Artes Plásticas de Coimbra; Moinho de Papel, Leiria; Centro de Arte Oliva, S. João da Madeira; Galeria Solar (Festival Curtas Metragens), Vila do Conde; Espaço Mira, Porto; Museu de Serralves, Porto; Arquipélago: Centro de Artes Contemporâneas, Açores; Fundação Helga de Alvear, Cáceres, Espanha; Fundacíon Montenmedio Arte Contemporáneo, Cadiz, Espanha; NC-Arte, Bogotá, Colombia, Museu de Artes Decorativas/ Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, Lisboa; Museu-Atelier Júlio Pomar, Lisboa; Arquivo Municipal de Lisboa; MAAT, Lisboa; O Centro de Artes Alberto Carneiro, St. Tirso. Ainda mantemos o protocolo no âmbito do programa de mobilidade Erasmus com a Universidade de Media Arts and Design de Karlsruhe.
PA: Com a entrada de José Maçãs de Carvalho na direção, um nome bem conhecido no campo das artes visuais, que mudanças na linha estratégica vão ser introduzidas no colégio?
JMDC: Desde logo, dar visibilidade à muita investigação em arte que se tem desenvolvido no Colégio com contributos dos docentes da Universidade de Coimbra que connosco colaboram desde o início mas também as dezenas de convidados, académicos, artistas, curadores, críticos de arte, que vêm regularmente ao Colégio enquanto formadores, aumentado o volume editorial quer com a Imprensa da Universidade quer com parcerias editoriais comerciais. Vital é consolidar a relação com diversas instituições e associações como, por exemplo o CAPC e a Bienal AnoZero que, na verdade, já é um parceiro regular em interações formativas em contexto de trabalho. Algumas destas estruturas (Fundação Bissaya Barreto, Centro Artes Visuais, Centro Arte Contemporânea) que operam na cidade integram já curadores, produtores e mediadores formados no Colégio das Artes, quer no Mestrado em Estudos Curatoriais, quer no Doutoramento. Assim, é igualmente uma prioridade consolidar a participação regular dos Alumni através da sua participação em Seminários e em publicações que refletem as suas investigações práticas e teóricas.
É de notar a manifesta continuidade dos Alumni integrando júris de provas, em exposições e produções editoriais. Para nós, nesta nova direção (José Maçãs de Carvalho, Ana Rito e Isabel Teixeira), é prioritário estreitar as relações institucionais e académicas com os departamentos e Faculdades de origem dos docentes que connosco colaboram com especial destaque para o Departamento de Arquitetura que partilha o espaço também chamado Colégio das Artes, edifício jesuíta do séc. XVI, contribuindo para a criação de uma Faculdade de Arquitetura e Arte na qual o Colégio pode acrescentar densidade científica e cultural.
PA: Em 2026, o Colégio das Artes assinala o seu 20.º aniversário, um marco importante no seu percurso. Que balanço fazem destes 20 anos e quais são os principais motivos de orgulho deste caminho? Que metas ainda se propõem atingir no futuro?
JMDC: Um dos principais motivos de orgulho reside precisamente na continuidade destas parcerias e na criação de projetos colaborativos que ultrapassam o espaço estritamente universitário.
Outro aspeto central deste percurso tem sido a capacidade do CAUC de afirmar a relevância da arte enquanto campo de investigação e produção de conhecimento, promovendo um diálogo contínuo entre práticas artísticas contemporâneas, património material e imaterial, arquivo, território e memória. Esta dimensão tem permitido desenvolver projetos que cruzam criação artística, curadoria, investigação científica e intervenção cultural, contribuindo simultaneamente para uma maior visibilidade do CAUC dentro da Universidade e no panorama cultural nacional.
Para o futuro, o objetivo passa por aprofundar esta dimensão colaborativa e internacional, reforçando redes institucionais, ampliando oportunidades de investigação aplicada e consolidando o papel do CAUC como plataforma de pensamento crítico e inovação artística. Pretende-se igualmente fortalecer a relação entre arte e património, expandir projetos transdisciplinares e aumentar a presença pública das atividades desenvolvidas, afirmando cada vez mais o CAUC como um espaço de referência na interseção entre criação, investigação e sociedade.

