“Queremos reforçar os laços com a indústria, gerando valor real para a economia e a sociedade”
Não é nas grandes máquinas que começa a Engenharia Mecânica, mas na forma como se tornam parte do dia a dia sem que nos apercebamos. É a partir desta leitura que Carlos Leitão, subdiretor do Departamento de Engenharia Mecânica (DEM) da Universidade de Coimbra, enquadra uma área que descreve como “transversal e indispensável”. Entre as prioridades apontadas pelo responsável estão o reforço dos laços com a indústria e a internacionalização, a que se juntam os projetos em curso como os INOV.AM e o BioWaste2Carbon, bem como uma elevada empregabilidade dos diplomados.
Perspetiva Atual: O Departamento de Engenharia Mecânica (DEM) foi criado em 1972 e, desde então, já formou vários engenheiros mecânicos. Na sua perspetiva, qual é a importância e a imprescindibilidade da Engenharia Mecânica no desenvolvimento da indústria, da inovação e da sociedade atual?
Carlos Leitão: A Engenharia Mecânica é, por natureza, transversal e indispensável. A formação do Engenheiro Mecânico visa prepará-lo para o projeto de máquinas e processos, para a conceção e fabrico de peças e máquinas, para ações de desenvolvimento nas áreas energética e ambiental, para a gestão da produção, para a manutenção de equipamentos e também para atuar como empreendedor nas áreas industriais afins. Esta amplitude torna a Engenharia Mecânica insubstituível em qualquer ciclo de desenvolvimento económico.
Desde a transição energética até à mobilidade sustentável, passando pela robótica, pela saúde e pelas infraestruturas, há sempre um engenheiro mecânico a conceber soluções. As origens do DEM remontam a 1972, ano da criação das Engenharias na Universidade de Coimbra, e hoje o Departamento conta com um corpo docente exclusivamente constituído por professores doutorados, sendo responsável por cursos de 1.º, 2.º e 3.º ciclos, com um universo de alunos que ronda um milhar, e leciona disciplinas em 23 cursos da UC. Esta dimensão é, por si só, um reflexo do papel estruturante que a Engenharia Mecânica desempenha no sistema científico e educativo nacional.

PA: É inegável que, como os próprios nomes dizem, o lançamento dos Mestrados em Cidades e Comunidades Sustentáveis ou Energia para a Sustentabilidade pretende sensibilizar os estudantes para questões ambientais. Que competências os estudantes vão poder desenvolver com estes cursos de 2º Ciclo?
CL: Estes dois mestrados partem de uma premissa comum: os desafios ambientais da nossa época exigem profissionais com formação sólida, interdisciplinar e orientada à ação. Visam graduar Mestres com uma formação interdisciplinar vocacionada para a utilização eficiente de energia, para a produção de energia centralizada e descentralizada, bem como para a distribuição da energia numa perspetiva de desenvolvimento sustentável, com competências nos domínios tecnológicos relevantes e nos da economia da energia e do ambiente, habilitados a desenvolver projetos e a resolver problemas de elevada complexidade no âmbito do binómio energia-ambiente.
O Mestrado em Energia para a Sustentabilidade organiza-se em três ramos de especialização que abordam a sustentabilidade energética em diferentes escalas, desde os sistemas de energia e as políticas energéticas até à escala urbana, onde se cruzam critérios de funcionalidade, fruição e utilização sustentável dos recursos naturais, nomeadamente nos edifícios, como sistemas complexos.
PA: Por outro lado, este departamento tem integrado a modernização e a tecnologia nas suas linhas de investigação, com especial destaque para a digitalização e a inteligência artificial (IA). Que outras especializações estão disponíveis e associadas a estas áreas?
CL: A Engenharia Mecânica é uma área vasta e seria redutor circunscrevê-la a uma única vertente. A oferta formativa do DEM é ampla e diversificada, disponibilizando formação dos níveis base aos níveis avançados e desenvolvendo investigação nos domínios da Energia e Sustentabilidade, Mecânica dos Fluidos e Termodinâmica, Materiais e Processos de Fabrico, Robótica e Automação, e Tecnologia e Sistemas Mecânicos. Esta diversidade permite que os estudantes explorem caminhos com elevado potencial de empregabilidade e de impacto social.
No plano da investigação aplicada, os centros de investigação associados ao DEM, a ADAI (Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial) e o CEMMPRE (Centro de Engenharia Mecânica, Materiais e Processos), os dois com classificação de Excelente pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), atuam em áreas como a sustentabilidade do ambiente construído, os sistemas energéticos, a fabricação inteligente, a robótica industrial, a robótica colaborativa, o fabrico aditivo, os nanomateriais e a nanotecnologia, a engenharia de superfícies e interfaces, a bioengenharia e os sistemas de sensores avançados. A digitalização e a inteligência artificial entram transversalmente nesta matriz, nomeadamente na gestão e controlo de produção, na simulação e otimização de processos, e na robótica colaborativa.
O Mestrado em Engenharia Mecânica oferece dois percursos de especialização: Energia e Ambiente e Produção e Projeto, nos quais as ferramentas digitais e computacionais desempenham um papel crescente.

PA: Na última entrevista concedida à Perspetiva Atual referiu que a expansão da oferta formativa em inglês, com o objetivo de dotar os estudantes de “competências internacionalizantes e, simultaneamente, atrair um maior número de estudantes internacionais”, era uma prioridade. Neste sentido, quais são os programas de intercâmbio disponíveis e como contribuem para a formação académica, pessoal e cultural dos estudantes?
CL: A internacionalização é, de facto, uma prioridade estrutural. Um exemplo concreto é o Mestrado em Cidades e Comunidades Sustentáveis: criado no âmbito da Aliança EC2U (Campus Europeu de Cidades Universitárias), é um mestrado de dois anos, lecionado em inglês, ministrado em conjunto com a Universidade de Poitiers (França) e a Universidade de Turku (Finlândia), que visa formar futuros profissionais nacionais e internacionais com diversas formações de base nos domínios do ambiente, da energia, do planeamento urbano e dos recursos naturais.
O Mestrado em Energia para a Sustentabilidade tem as suas unidades curriculares lecionadas, em geral, em língua inglesa, dada a frequência regular das aulas por parte de estudantes não lusófonos. O mesmo sucede com algumas unidades curriculares do Mestrado em Engenharia Mecânica, nas quais, por acolherem alunos em mobilidade, opta-se pela lecionação em língua inglesa.
Ao nível dos programas de mobilidade, a Universidade de Coimbra participa no Programa Erasmus+, que permite aos estudantes frequentar outra Universidade europeia durante parte do seu curso. Para além do Erasmus+, a UC integra a Aliança de Universidades Europeias EC2U, uma rede multicultural e multilingue com sete universidades oriundas de Coimbra, Lași, Pavia, Poitiers, Salamanca, Turku e Jena, que tem como objetivo criar um campus pan-europeu ligado pela identidade europeia comum. Existem ainda programas de mobilidade com universidades brasileiras, australianas e asiáticas, bem como estágios internacionais.
PA: O Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra tem vindo a reforçar a sua colaboração com unidades de investigação. Quem são os seus parceiros?
CL: O DEM está profundamente articulado com centros de investigação de excelência, nomeadamente o CEMMPRE e a ADAI. Ambos são centros financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e abrangem a esmagadora maioria da atividade científica do Departamento.
O CEMMPRE é uma Unidade de Investigação Interdisciplinar de I&D da FCT que desenvolve atividades de investigação fundamental e aplicada em Engenharia Mecânica e de Materiais e em outras áreas afins, com uma equipa de aproximadamente 200 investigadores, e mantém relações com instituições como o Instituto Pedro Nunes (IPN), promovendo a transferência de novas ideias para processos mecânicos, materiais, tecnologias, protótipos e produtos.
Por sua vez, a ADAI surgiu por iniciativa de investigadores das áreas de Mecânica dos Fluidos, Transmissão de Calor e Climatização e Ambiente do DEM, tendo como objetivo proporcionar um enquadramento formal à promoção da investigação e desenvolvimento experimental, em colaboração com diversas entidades públicas e privadas.
A ADAI possui uma ampla rede de colaborações com a indústria e com centros de investigação de renome nacional e internacional, mantendo vínculos duradouros com instituições na Europa, na América do Norte e na África, e tem vindo a unir forças com empresas por meio de Parcerias de Transferência de Conhecimento para fortalecer os laços entre a investigação e a prática.

PA: E, dentro desse contexto, poderia destacar alguns principais projetos em curso?
CL: Por meio do CEMMPRE, entre vários, destacam-se projetos como o INOV.AM (PRR) e outros na área dos Metamateriais Metálicos para Moldes (Centro2030), onde se procura alterar o comportamento de uma estrutura por meio do fabrico aditivo e de uma engenharia inovadora de estruturas treliçadas. São projetos que conjugam inovação de processo com impacto industrial direto, nomeadamente nos setores dos moldes e do fabrico avançado.
Na área da energia, a ADAI desenvolve o projeto BioWaste2Carbon, que visa a valorização de resíduos florestais por meio de sua conversão em CO₂ biogénico, promovendo a produção de biocombustíveis sintéticos de origem renovável. É um projeto de grande relevância estratégica no contexto da descarbonização e da economia circular.
Outro exemplo de investigação de fronteira é o já referido projeto de stents vasculares biodegradáveis, que cruza engenharia mecânica, biomateriais e medicina, demonstrando como o DEM está a ultrapassar as fronteiras tradicionais da engenharia e a afirmar-se como um polo de inovação com impacto regional, nacional e global.
PA: Que iniciativas têm sido implementadas para garantir que os alunos possuem as capacidades práticas, além do conhecimento teórico, para se integrarem com sucesso no mercado de trabalho, altamente competitivo e em constante evolução?
CL: Há uma aposta crescente em estágios curriculares, projetos em parceria com a indústria e unidades curriculares que promovem competências transversais, como a sustentabilidade, a ética e a inovação tecnológica.
Os programas estão alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), preparando os diplomados para responder aos desafios globais com responsabilidade e visão estratégica. Os alunos também são regularmente expostos ao trabalho dos centros de investigação e laboratórios, o que significa que, antes de terminarem a sua formação, já estão em contacto com projetos reais e com as práticas de ponta do setor. Os alunos adquirem ainda um conjunto de competências transversais que estimulam a participação cívica, crítica e inovadora, nomeadamente competências interpessoais, de comunicação, de liderança e de ética no trabalho.
PA: Para que possamos compreender melhor os passos seguintes do DEM, quais são os próximos objetivos e quais pretendem concluir até ao fim do ano?
CL: Temos uma agenda exigente e estimulante. A expansão e a consolidação da oferta formativa em inglês continuam a ser uma prioridade para atrair mais estudantes internacionais e dotar os nossos diplomados de competências verdadeiramente globais. A aposta na internacionalização passa também por reforçar as parcerias no âmbito da Aliança EC2U e por aprofundar os acordos com universidades fora da Europa.
Em paralelo, prosseguimos com o investimento na melhoria dos laboratórios e na modernização das infraestruturas pedagógicas e de investigação. No plano científico, a consolidação dos projetos em curso é uma prioridade, assim como a angariação de novos projetos competitivos, tanto nacionais quanto europeus. Queremos também reforçar os laços com a indústria regional e nacional, promovendo um modelo em que a formação, a investigação e a transferência de conhecimento se alimentam mutuamente, gerando valor real para a economia e a sociedade.

