Horácio Zenha, Presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética (SPCPRE)

A importância da qualificação na escolha de um cirurgião plástico

Antes de qualquer cirurgia, há uma decisão que pode fazer toda a diferença: quem a realiza. Para Horácio Zenha, presidente da Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética (SPCPRE), a habilitação do cirurgião é indissociável da segurança do doente, uma responsabilidade que exige vários anos de formação, conhecimento anatómico rigoroso, bem como capacidade para prevenir e tratar possíveis complicações.

Perspetiva Atual: Com um percurso de décadas, a Sociedade Portuguesa de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética tem acompanhado a evolução da especialidade e dos seus profissionais. Que missão orienta o seu trabalho?

Horácio Zenha: A nossa missão é promover a excelência científica, ética e humana da especialidade de Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética com foco importante na segurança e qualidade dos cuidados prestados aos pacientes.

Representamos uma especialidade absolutamente singular pela sua amplitude e diversidade. Estamos presentes desde a reconstrução após um trauma, cancro ou em malformações congénitas, na cirurgia da mão, microcirurgia, cirurgia craniofacial, no tratamento dos queimados e cirurgia estética. É uma especialidade de enorme diferenciação técnica, onde o rigor, o detalhe e a inovação fazem parte da nossa identidade. Queremos que a Sociedade reflicta essa identidade: uma Sociedade moderna, dinâmica e cientificamente exigente, próxima dos seus membros, capaz de criar oportunidades para os associados e aberta à colaboração com outras especialidades e sociedades científicas, nacionais e internacionais.

PA: A escolha do profissional é uma etapa determinante para a segurança de quem procura realizar uma cirurgia plástica. Que importância tem, neste contexto, que o paciente procure um cirurgião devidamente credenciado e habilitado para o procedimento que pretende realizar?

HZ: Essa escolha é absolutamente fundamental. A segurança em Cirurgia Plástica começa muito antes da cirurgia, começa na escolha do profissional certo. A Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética é uma especialidade médico-cirúrgica altamente diferenciada. Exige vários anos de formação específica, conhecimento anatómico rigoroso, domínio de técnicas muito diversas e, sobretudo, capacidade para selecionar correctamente o procedimento, prevenir as complicações e saber tratá-las quando ocorrem.

Neste contexto, o paciente deve procurar um médico especialista em Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética, devidamente habilitado e com experiência no procedimento que pretende realizar. Essa informação está disponível no site da Ordem dos Médicos. Deve também informar-se sobre as condições em que a cirurgia será realizada e assegurar-se de que existe acompanhamento adequado antes e depois da intervenção.

Esta questão tornou-se ainda mais importante numa época em que as redes sociais podem criar alguma confusão entre visibilidade, popularidade e verdadeira qualificação profissional. Uma presença digital apelativa não substitui formação especializada, experiência, rigor ou responsabilidade médica. Esta questão surge, nomeadamente, na área da cirurgia estética. A cirurgia estética é cirurgia. E nenhuma promessa de resultado deve alguma vez sobrepor-se à segurança do doente.

É também uma responsabilidade da nossa Sociedade contribuir para uma população mais informada, promovendo escolhas conscientes e uma prática médica diferenciada e segura.

PA: Nem todas as complicações são visíveis no momento em que termina uma cirurgia ou quando é idealizada. De que riscos falamos e quais devem ser conhecidos pelo paciente antes de tomar uma decisão?

HZ: Não existe cirurgia sem riscos. Uma decisão verdadeiramente informada implica conhecer não apenas os benefícios esperados, mas também as limitações e as possíveis complicações.

Alguns riscos são transversais a qualquer intervenção cirúrgica, como hemorragia, hematoma, infecção, problemas de cicatrização ou as complicações anestésicas e tromboembólicas. Outros dependem do procedimento e podem surgir mais tarde como alterações de sensibilidade, cicatrizes desfavoráveis, assimetrias, complicações relacionadas com implantes ou mesmo a necessidade de uma nova intervenção.

Na cirurgia estética existe ainda uma dimensão particularmente importante: as expectativas do paciente. Um procedimento pode decorrer tecnicamente bem e, ainda assim, o resultado não corresponder exatamente ao que o paciente idealizou. A Medicina trabalha com pessoas e com biologia; não produz resultados absolutamente previsíveis ou padronizados.

É por isso que a consulta pré-operatória é tão importante. O cirurgião deve explicar, de forma clara e individualizada, o que é possível alcançar, quais são os riscos relevantes, quais as alternativas e como serão acompanhadas e tratadas eventuais complicações.

PA: Atualmente, entre redes sociais, padrões de beleza e uma exposição permanente da imagem, a decisão de recorrer a procedimentos estéticos pode nascer de motivações muito diferentes. Antes de mudar o corpo, é também importante perceber o que leva alguém a querer mudá-lo? Que lugar deve ocupar a dimensão psicológica neste processo?

HZ: Sem dúvida que é fundamental perceber o que está por detrás da vontade de mudança.

A cirurgia estética pode ter um impacto muito positivo na autoestima, na confiança e na qualidade de vida. Mas, para isso, a indicação tem de ser correta e a motivação deve partir da própria pessoa, de forma consciente e com expectativas realistas.

Vivemos numa sociedade profundamente marcada pela imagem. As redes sociais, os filtros, a exposição permanente e determinados padrões de beleza podem criar referências que muitas vezes não são reais nem alcançáveis. E o papel do cirurgião não pode ser simplesmente responder a um pedido com um procedimento. Temos de saber ouvir. Perceber o que incomoda o paciente, há quanto tempo, o que espera mudar e o que espera que essa mudança represente na sua vida.

É aqui que a dimensão psicológica assume uma importância fundamental. Quando existem expectativas irrealistas, uma preocupação desproporcionada com pequenos defeitos ou a expectativa de que uma cirurgia resolva problemas emocionais, relacionais ou sociais, devemos saber parar, conversar e, quando necessário, recomendar uma avaliação especializada.

Saber dizer “não” também faz parte de ser um bom cirurgião. A arte está em realizar o procedimento certo, na pessoa certa e no momento certo.

PA: Que outros desafios, menos visíveis ou menos debatidos, considera que esta área ainda enfrenta?

HZ: Há vários desafios que não são imediatamente visíveis, mas que vão determinar o futuro da nossa especialidade.

Um deles é acompanhar uma evolução tecnológica extraordinariamente rápida. A inteligência artificial, o planeamento virtual, a impressão 3D, a robótica e a medicina regenerativa estão progressivamente a transformar a forma como planeamos e executamos as cirurgias. O desafio não é resistir à inovação; é incorporá-la com rigor, evidência científica clara e segurança.

Outro desafio é a qualidade da informação. Nunca houve tanta informação disponível sobre tudo e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil para um cidadão distinguir informação médica credível de publicidade, tendências ou conteúdos sem fundamento científico. As redes sociais trouxeram enormes oportunidades de comunicação, mas também uma banalização de procedimentos que são actos médicos e que têm riscos.

Existe também o desafio da formação das novas gerações. A nossa especialidade tornou-se extremamente diferenciada e tecnologicamente exigente. Temos a responsabilidade de transmitir conhecimento, técnica e experiência, mas também valores: ética, rigor, espírito crítico e respeito pelo doente.

E existe ainda um outro desafio que considero particularmente importante: preservar a dimensão humana da Medicina num mundo cada vez mais tecnológico. Podemos ter ferramentas extraordinárias, mas nenhuma tecnologia substitui a capacidade de ouvir, compreender expectativas, explicar limites e estabelecer uma relação de confiança. O futuro não será apenas mais tecnológico. Terá de ser também mais seguro, mais informado e mais humano.

PA: A 55ª Reunião Anual da SPCPRE aconteceu nos passados dias 17, 18 e 19 de setembro, no IPO Porto. Que balanço fazem desta edição? Que temas, convidados e casos clínicos escolheram e porquê?

HZ: O balanço é extremamente positivo. Esta 55ª Reunião, superiormente organizada pelo Serviço de Cirurgia Plástica do IPO do Porto, teve um significado especial porque foi simultaneamente o 1.º Congresso Luso-Belga, realizado em colaboração com a Royal Belgian Society for Plastic Surgery. Essa parceria permitiu reforçar a internacionalização da nossa Sociedade e criar um espaço de verdadeira troca de experiências entre diferentes escolas cirúrgicas.

Procurámos também que o programa refletisse a enorme diversidade da especialidade. Falamos de cirurgia reconstrutiva e cirurgia estética, cirurgia da mama, cirurgia da mão e cirurgia de contorno corporal. Houve um foco especial na área oncológica com apresentação dos mais recentes avanços no diagnóstico e tratamento.

E fizemos uma aposta particular num formato mais interactivo com menos comunicação unidirecional e mais discussão. Houve uma sessão muito interessante denominada “Tips, Tricks and ‘Disasters’”, porque também se aprende discutindo aquilo que não corre como esperávamos. Uma Sociedade científica não deve ser apenas um lugar onde mostramos aquilo que fazemos bem. Deve ser um espaço onde temos confiança para discutir dificuldades, aprender uns com os outros e elevar coletivamente a qualidade da especialidade.

PA: Que novas iniciativas, projetos ou parcerias poderão marcar os próximos meses? O que está neste momento a ser preparado?

HZ: A iniciativa mais próxima acontece já em novembro e representa uma novidade importante: pela primeira vez, a Sociedade vai organizar um curso prático dedicado à cirurgia estética da face, uma das áreas que atualmente suscita maior interesse e procura.

É uma escolha muito consciente. A cirurgia estética facial é uma área particularmente complexa e exigente. No rosto, pequenos detalhes podem fazer grandes diferenças. É necessário um conhecimento anatómico profundo, enorme rigor técnico e sentido estético, mas também uma grande sensibilidade para compreender expectativas e preservar a identidade de cada pessoa. É precisamente nesta conjugação entre forma, função, anatomia, reconstrução e estética que os cirurgiões plásticos têm uma preparação excepcionalmente completa e sem par.

Queremos também reforçar uma ideia: a formação não pode ser apenas teórica. É fundamental criar oportunidades para observar, praticar, discutir técnicas, partilhar dificuldades e aprender diretamente com colegas mais experientes. Esse será um dos caminhos que queremos desenvolver na Sociedade.

Para o próximo ano estão em preparação cursos práticos em cirurgia da mão, cirurgia reconstrutiva com retalhos e aplicações da ecografia em Cirurgia Plástica. Queremos que o nosso programa formativo reflita a extraordinária diversidade da especialidade e acompanhe simultaneamente a sua evolução tecnológica.

Finalmente, teremos um momento muito especial na nossa próxima Reunião Anual, que será realizada conjuntamente com a Federação Ibero-Latino-Americana de Cirurgia Plástica. Será uma oportunidade importante para reforçar a internacionalização da Sociedade, aproximar diferentes escolas cirúrgicas e criar novas redes de colaboração científica e profissional.

Queremos uma Sociedade que virada para o futuro, um futuro com melhor formação, mais inovação e mais potencial de evolução com o reforço das relações dentro e fora de Portugal.

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