Nuno Alegrete, Presidente da Sociedade Portuguesa de Ortopedia Pediátrica (SPOP)

Ciência, formação e futuro da Ortopedia Pediátrica em Portugal

A Sociedade Portuguesa de Ortopedia Pediátrica (SPOP) inicia um novo mandato com Nuno Alegrete na presidência e uma visão clara para o futuro da especialidade. A aposta numa oferta formativa mais estruturada, o desenvolvimento de estudos multicêntricos e a criação de espaços de discussão clínica estão entre as prioridades da direção, que procura estreitar laços entre profissionais, abrir novos caminhos aos mais jovens e “consolidar a SPOP como uma sociedade científica de referência na área da Ortopedia, em Portugal e também internacionalmente”.

Perspetiva Atual: Unidos pelo objetivo de contribuir para o desenvolvimento da Ortopedia Pediátrica, a SPOP inicia um novo mandato. Que prioridades definiu esta direção para os próximos anos?

Nuno Alegrete: A nossa principal prioridade é consolidar a SPOP como uma sociedade científica de referência na área da Ortopedia, em Portugal e também internacionalmente. Para isso, queremos continuar a trabalhar sobre os três pilares que estão na própria razão de ser da Sociedade: prática clínica, investigação e formação.

Na prática clínica, queremos contribuir para uma Ortopedia Pediátrica cada vez mais diferenciada, baseada na melhor evidência científica disponível e capaz de acompanhar a evolução tecnológica. A complexidade das patologias que tratamos é crescente e surgem constantemente novas técnicas, novos dispositivos e tecnologias e novas possibilidades terapêuticas. É importante que a inovação seja acompanhada de conhecimento e espírito crítico.

Na investigação, queremos promover uma maior colaboração entre os diferentes centros nacionais. Temos profissionais com elevada competência e produção científica de qualidade, mas muitas vezes trabalhamos de forma demasiado isolada. Precisamos de criar condições para desenvolver estudos multicêntricos, partilhar bases de dados e produzir conhecimento que tenha impacto real na nossa prática.

Finalmente, a formação será uma prioridade muito clara. Queremos oferecer aos internos, jovens especialistas e especialistas mais diferenciados, oportunidades de aprendizagem estruturadas, práticas e cientificamente rigorosas.

Acima de tudo, queremos que a SPOP seja uma sociedade cada vez mais próxima e participativa, capaz de aproximar profissionais e instituições, promover a partilha de experiências e contribuir para uma melhoria efetiva dos cuidados prestados às crianças e adolescentes.

PA: Sabemos que alguns projetos estão já a ganhar forma. Quais gostaria de destacar?

NA: Há vários projetos que nos parecem particularmente importantes. Um deles é precisamente a criação de uma oferta formativa mais estruturada, com cursos dedicados a áreas específicas da Ortopedia Pediátrica e com uma componente prática cada vez mais relevante.

Queremos reforçar os cursos hands-on, porque acreditamos que determinadas competências técnicas não podem ser adquiridas apenas através da formação teórica. A possibilidade de treinar técnicas em modelos, discutir indicações e complicações e aprender diretamente com colegas experientes tem um enorme valor formativo.

Estamos também a trabalhar na organização de encontros informais de discussão de casos clínicos. A ideia é criar espaços onde seja possível discutir situações concretas, incluindo casos controversos ou de difícil decisão, num ambiente menos formal do que o de um congresso.

Queremos continuar a desenvolver bolsas, prémios e oportunidades de intercâmbio, sobretudo para os mais jovens, e criar um programa de fellowships em centros nacionais com experiência diferenciada em determinadas áreas da Ortopedia Pediátrica, permitindo que jovens especialistas aprofundem competências específicas, sem necessidade de recorrer exclusivamente a centros internacionais. Desejamos que a SPOP seja um espaço de referência para a formação e desenvolvimento profissional, acompanhando os ortopedistas ao longo das diferentes fases da sua carreira.

Outro projeto importante é a renovação dos instrumentos de comunicação da Sociedade, nomeadamente através de uma dinamização crescente das ferramentas de comunicação digital existentes. A comunicação inter-pares nas redes sociais profissionais, e para o exterior noutras plataformas de uso mais público, são fundamentais para uma atualização de conhecimentos e para uma evolução da literacia em saúde de uma forma quase imediata.

PA: A Sociedade Portuguesa de Ortopedia Pediátrica tem trazido à discussão tópicos fundamentais como a Displasia do Desenvolvimento da Anca (DDA), o trauma pediátrico e as infeções osteoarticulares em crianças. Qual é a importância de continuar a aprofundar estes temas?

NA: É fundamental. A Ortopedia Pediátrica é uma área muito vasta e existe uma enorme diversidade de patologias. Algumas são muito frequentes, outras são raras, mas todas têm uma característica comum: acontecem num corpo que está em crescimento e podem ter consequências para toda a vida.

Isso muda completamente a abordagem. Uma decisão aparentemente simples pode ter consequências durante décadas. Uma lesão, uma deformidade ou uma intervenção cirúrgica numa criança não deve ser analisada apenas à luz do resultado imediato. Temos de pensar no crescimento, na função, na qualidade de vida e no impacto que determinada decisão poderá ter no futuro adulto.

A displasia do desenvolvimento da anca é um excelente exemplo. É uma patologia relativamente frequente, por vezes escondida, em que o rastreio é fundamental e o tratamento justifica uma discussão científica permanente. O mesmo acontece com as infeções osteoarticulares, em que o diagnóstico precoce e uma atuação coordenada e multidisciplinar podem ser determinantes para evitar sequelas.

Por isso, estes temas clássicos devem continuar a ser discutidos e são, exatamente, temas dos próximos eventos da SPOP: a DDA será o tema em destaque na sala de Ortopedia Pediátrica no Congresso Nacional de Ortopedia, já em novembro, e a osteomielite e as fraturas dos ossos do antebraço serão os assuntos em destaque no Meeting Ibérico de Ortopedia Pediátrica, uma organização conjunta da SPOP e da SEOP (a nossa congénere espanhola), que se realizará em fevereiro de 2027, em Toledo.

PA: Uma rede de parceiros nacionais e internacionais pode ser importante para a partilha e o avanço do conhecimento. Com que parceiros contam atualmente?

NA: A Sociedade Portuguesa de Ortopedia Pediátrica (SPOP) é uma sociedade científica afiliada da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia (SPOT), com a qual mantém uma estreita ligação institucional e científica. Esta relação permite integrar e valorizar a Ortopedia Pediátrica no contexto mais abrangente da especialidade, promovendo a colaboração, a formação e a partilha de conhecimento entre profissionais.

Temos também uma relação muito próxima com a Sociedade Espanhola de Ortopedia Pediátrica, que se concretiza, entre outras iniciativas, na organização conjunta do encontro ibérico. É uma parceria que consideramos muito importante, não apenas pela proximidade geográfica, mas porque permite discutir problemas comuns e aproximar as duas comunidades científicas.

A nível internacional, a EPOS — European Paediatric Orthopaedic Society constitui naturalmente uma referência fundamental. A Ortopedia Pediátrica portuguesa tem uma presença cada vez mais significativa nos fóruns internacionais, e queremos reforçar essa ligação, nomeadamente através de intercâmbios, bolsas e oportunidades de formação.

Há também uma ligação histórica com a SOLP (Sociedade Ortopédica de Língua Portuguesa), com a qual queremos fortalecer laços e partilha de conhecimentos.

PA: A 13.ª edição do Congresso Nacional e as XXX Jornadas de Ortopedia Infantil decorreram recentemente, em Peniche, entre 23 e 25 de abril. Que balanço faz desta edição e que eventos se seguem na agenda?

NA: O balanço foi muito positivo. O Congresso Nacional é o principal momento científico da SPOP e queremos que continue a ser um espaço de discussão de qualidade, aberto a diferentes gerações e diferentes formas de pensar. Já estamos a pensar no próximo, que se realizará em Braga, entre 13 e 15 de maio de 2027 e terá como temas principais as “Dores nas costas em idade pediátrica”, “Tumores do aparelho locomotor” e “Fraturas do colo do fémur em crianças”.

A nossa agenda para os próximos anos é bastante preenchida. Vamos continuar a participação da SPOP no Congresso Nacional da SPOT, manter o encontro ibérico com a sociedade espanhola e organizar os encontros de discussão de casos clínicos. Teremos também cursos dedicados a áreas específicas, incluindo cursos de natureza eminentemente prática (cursos hands-on).

E há um acontecimento que merece uma referência especial: a realização, em 2028, do congresso da EPOS no Porto. A SPOP pretende apoiar, dentro das suas possibilidades e competências, a comissão organizadora local. Será uma excelente oportunidade para mostrar internacionalmente a qualidade da Ortopedia Pediátrica portuguesa e para aproximar a nossa comunidade dos colegas europeus.

PA: Existem várias formas de contribuir para o desenvolvimento da Ortopedia Pediátrica, nomeadamente através da formação de profissionais e da investigação científica. Que trabalho têm vindo a desenvolver nestes campos?

NA: A formação e a investigação são, provavelmente, os dois grandes instrumentos através dos quais uma sociedade científica consegue deixar um legado.

Na formação, queremos construir uma oferta mais organizada. Não apenas cursos isolados, mas um percurso formativo que permita abordar diferentes áreas da Ortopedia Pediátrica com diferentes níveis de complexidade. Queremos também apostar muito na formação prática. Um jovem especialista deve ter oportunidade de discutir uma indicação cirúrgica, conhecer diferentes técnicas, perceber as suas limitações e, sempre que possível, treinar essas técnicas num ambiente seguro antes de as aplicar na prática clínica.

Na investigação, o nosso principal objetivo é diminuir a fragmentação. Temos em Portugal grupos com experiência em áreas muito diferentes — da displasia da anca à escoliose, do pé boto à infeção, da patologia tumoral à reconstrução — e precisamos de aproximar essas pessoas.

Os estudos multicêntricos e os registos nacionais podem ter aqui um papel muito importante. Quando estudamos patologias pouco frequentes, a colaboração entre centros é particularmente relevante, porque nenhum centro isoladamente terá necessariamente casuística suficiente para responder a determinadas perguntas.

E queremos que os internos e jovens especialistas estejam envolvidos desde o início. A investigação não deve ser vista como uma atividade reservada a alguns grupos. Deve fazer parte da cultura da nossa especialidade.

PA: A promoção da literacia em Ortopedia Pediátrica junto da população terá também lugar nos vossos planos para o futuro?

NA: Sem dúvida. Uma sociedade científica não deve falar apenas para os seus membros.

Também queremos contribuir para a atualização de conhecimentos de outros profissionais de saúde que acompanham crianças e adolescentes, nomeadamente pediatras, médicos de Medicina Geral e Familiar, fisiatras, fisioterapeutas e enfermeiros. O reconhecimento precoce de determinadas patologias, a identificação de sinais de alarme e a referenciação adequada podem ser determinantes para o prognóstico, pelo que a SPOP pode desempenhar um papel importante na partilha de conhecimento científico rigoroso e clinicamente útil.

Também existe uma enorme quantidade de informação sobre saúde disponível nas redes sociais e na internet. O problema é que informação não é necessariamente conhecimento, e muito menos conhecimento científico. Na Ortopedia Pediátrica encontramos frequentemente mitos que persistem há décadas, ao lado de outros que surgem praticamente de um dia para o outro. A utilização de determinados calçados, a postura, a forma de sentar, o uso de mochilas, a prática desportiva, o desenvolvimento dos pés ou dos membros inferiores, são temas relativamente simples que geram muitas dúvidas nos pais.

A SPOP pode ter aqui um papel importante, disponibilizando informação simples, acessível e cientificamente validada. Queremos reforçar a presença digital, utilizando os canais disponíveis para explicar a patologia ortopédica pediátrica mais comum, esclarecer dúvidas frequentes e ajudar os pais a distinguir informação credível de opiniões sem fundamento científico.

PA: Quando o tema é a Ortopedia Pediátrica, falamos de uma área que acompanha as crianças numa fase determinante do seu crescimento. Como pode esta subespecialidade ajudar as crianças a crescer com mais saúde, autonomia e liberdade de movimento?

NA: Talvez essa seja, no fundo, a melhor forma de explicar o que fazemos.

A Ortopedia Pediátrica não trata apenas ossos, articulações ou deformidades. Trata crianças e adolescentes em crescimento, e, em última instância, cuida também de famílias. E isso significa que o nosso objetivo não pode ser simplesmente corrigir uma radiografia ou realizar uma cirurgia tecnicamente bem executada. O objetivo final é permitir que aquela criança tenha o melhor desenvolvimento funcional possível e possa chegar à idade adulta com autonomia e qualidade de vida.

Por isso, a Ortopedia Pediátrica tem uma responsabilidade particular: não tratar apenas o problema presente, mas, acima de tudo, proteger o futuro.

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