Direção da SPOC biénio 2025-2026: Bernardo Nunes (Vogal), Inês Pedro (Tesoureira), Nuno Sevivas (Presidente), Diogo Silva Gomes (Secretário Geral), Bárbara Campos, (Vogal) e Ana Inês (Vogal)
Elevar a resposta clínica às patologias do ombro e do cotovelo
Perante os desafios que persistem no tratamento das patologias do ombro e do cotovelo, a evolução da especialidade continua a exigir novas respostas. À Perspetiva Atual, Nuno Sevivas, presidente da Sociedade Portuguesa do Ombro e do Cotovelo (SPOC), partilha o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido para solucionar as dificuldades e o legado que deseja deixar para além do seu mandato, para que os “doentes recebam o tratamento certo, no momento certo e com o melhor resultado possível”.
Perspetiva Atual: Para iniciarmos esta entrevista, poderia destacar os principais contributos desta organização para a saúde em Portugal e como beneficia a população?
Nuno Sevivas: A SPOC é uma sociedade científica que reúne os ortopedistas portugueses que se dedicam à patologia do ombro e do cotovelo e tem como fim último que cada doente seja tratado de acordo com o melhor conhecimento atual disponível, independentemente da região onde é seguido. A Direção, em conjunto com os seus associados, trabalha em três frentes que se complementam: formação, investigação/divulgação científica e promoção de saúde. O principal contributo da SPOC está na forma como promove e facilita de forma integrada estas 3 vertentes.
O ombro e o cotovelo são indispensáveis para trabalhar, comunicar, socializar, cuidar de si e dos outros, e as suas doenças estão entre as causas mais frequentes de dor, incapacidade, absentismo e procura de cuidados médicos. Quando formamos melhor os cirurgiões, produzimos evidência na nossa comunidade e ajudamos a referenciar com critério, o resultado vê-se em diagnósticos precisos, em tratamentos mais adequados e suportados pela evidência científica, em técnicas mais seguras e em recuperações mais rápidas. Portanto, o benefício para a população da nossa atividade é concreto e promove ainda um uso mais responsável dos recursos enquanto melhora a qualidade de vida e bem-estar da população.

do Ombro e do Cotovelo (SPOC)
PA: Podemos dizer que a missão da SPOC se mantém a mesma desde a sua fundação?
NS: Na essência, sim. A SPOC foi criada em 2018, no seio da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia (SPOT), para promover a excelência dos cuidados aos doentes com patologia do ombro e do cotovelo e contribuir para o desenvolvimento desta área da Ortopedia na prática clínica, na investigação e na formação. Esse continua a ser o nosso compromisso!
Contudo, mudaram a escala e a ambição. A especialidade diferenciou-se, a tecnologia evoluiu muito e o doente está hoje mais informado e mais exigente. Por isso, a missão alargou-se a três dimensões que considero estruturantes: a investigação multicêntrica, a internacionalização, em particular com as sociedades congéneres mais próximas (Sociedades do Brasil, Espanha e Europeia), e a decisão partilhada com o doente, que hoje entendemos como parte integrante de um tratamento adequado.
PA: Que patologias afetam mais frequentemente o ombro e o cotovelo?
NS: No ombro, a patologia mais frequente, , cuja prevalência aumenta com a idade, é aquela que atinge a “coifa dos rotadores”, com um espectro de apresentação que vai da tendinopatia à rotura e finalmente a artropatia – esta é uma das principais causas de dor e de perda de mobilidade do ombro. Seguem-se a “capsulite adesiva”, também conhecida como «ombro congelado»; a “artrose”; a “instabilidade”, sobretudo em jovens e desportistas; e as “fraturas do úmero proximal”, cada vez mais frequentes numa população envelhecida e com osteoporose.
No cotovelo, destacam-se a “epicondilite”, o conhecido «cotovelo de tenista»; a “compressão do nervo cubital”; a “rigidez e a artrose pós-traumática”; e as “fraturas”.
Deixo uma mensagem importante para os doentes: “muitas destas situações resolvem-se após um diagnóstico médico preciso e com tratamento conservador bem orientado. A cirurgia é uma ferramenta poderosa, mas deve ser reservada para quem realmente beneficia dela”.
PA: Como têm adaptado as estratégias para garantir a evolução contínua da especialidade e a prevenção das condições que afetam estes membros?
NS: A formação médica e a Investigação clínica são as prioridades desta Direção e, a meu ver, o legado mais duradouro que uma sociedade científica pode deixar. Apostámos numa formação estruturada e prática: Congressos, cursos teórico-práticos, nomeadamente em teatro anatómico e cirurgia em cadáver, Webinars, e ainda estágios em centros de referência nacionais e estrangeiros, abertos a internos e a jovens especialistas. Nesse sentido temos programas de fellowship nacionais (em centros portugueses de referência), Brasil (anualmente um interno português, que ganhou o prémio de melhor trabalho científico publicado em revista indexada e arbitrada por pares, tem a oportunidade visitar vários centros brasileiros de referência) e ainda um do Mediterrâneo (a decorrer em Espanha, Itália, França ou Portugal). O nosso objetivo é que um interno que hoje se interessa pelo ombro e pelo cotovelo encontre na SPOC um percurso claro de aprendizagem, mentores disponíveis e oportunidades reais de investigar e de formação.
Em paralelo, procuramos que a prática clínica assente na evidência, através de reuniões de consenso e de estudos multicêntricos que envolvem os nossos associados. Exemplo disso, é um estudo Delphi de consenso sobre “Variáveis chave para a decisão terapêutica em pacientes com rotura massiva irreparável da coifa dos rotadores” que está atualmente a decorrer entre cirurgiões pertencentes às Sociedades portuguesa e brasileira do ombro e cotovelo.
Na prevenção, há margem para fazer mais, e é justo reconhecê-lo. A prevenção das quedas e o tratamento da osteoporose evitam fraturas no idoso; a correção do gesto técnico e da carga previne lesões no desportista e no trabalhador; e um diagnóstico precoce nos cuidados de saúde primários evita que problemas simples se tornem crónicos. Por isso, queremos reforçar a ligação aos médicos de família, que são a primeira porta de entrada destes doentes.
PA: Nos dias 15 e 16 de maio realizou-se o 6º Congresso do Ombro e do Cotovelo. Quais foram as grandes novidades desta edição? Que perfil de convidados e palestrantes marcaram presença?
NS: O 6.º Congresso do Ombro e do Cotovelo, a 15 e 16 de maio, em Coimbra, reuniu centenas de participantes em torno da patologia do ombro nomeadamente os casos de difícil decisão. Foi uma edição que refletiu bem aquilo que a SPOC quer ser: uma sociedade aberta, cientificamente exigente e atenta às novas gerações porque é assim que se aprende e sedimentam conhecimentos através da discussão franca, honesta e partilha de experiência.
O programa juntou cirurgiões portugueses e convidados internacionais de referência sempre com o mesmo objetivo: transformar a evidência mais recente em melhores decisões clínicas. Os internos e os jovens especialistas tiveram um papel central, com as sessões de comunicações livres onde foi atribuída a Bolsa do prémio Jacinto Monteiro à melhor Comunicação livre com trabalho de investigação original. Deixo um agradecimento à comissão organizadora, aos palestrantes e aos parceiros que tornaram o congresso possível.
PA: A SPOC mantém alguns protocolos com sociedades internacionais. Que sociedades são estas e quais os objetivos destas parcerias?
NS: A parceria mais estruturada é com a Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC). Partilhamos uma língua, cultura e uma tradição médico-cirúrgica, e temos transformado essa proximidade numa verdadeira comunidade científica transatlântica de língua portuguesa.
Essa colaboração já deu frutos concretos. Realizámos em conjunto um estudo Delphi, com peritos dos dois países, sobre a decisão terapêutica nas roturas massivas irreparáveis da coifa dos rotadores, cujos resultados estão em fase de publicação. Como exemplo, o estudo mostrou-nos algo que não esperávamos: os cirurgiões não consideraram as “preferências do doente” uma variável determinante na decisão cirúrgica. Fizemos desse resultado o ponto de partida do projeto seguinte, um estudo internacional sobre as preferências de tratamento dos próprios doentes, em que pretendemos conhecer de uma forma objetiva o que os pacientes pensam e preferem como tratamento quando existe mais que uma opção possível. Para além disso, temos ainda um programa de estágio (intercâmbio) que permite a jovens cirurgiões portugueses estagiar em centros de referência no Brasil e cirurgiões brasileiros em Portugal.
Trabalhamos também em estreita articulação com a SPOT, a nossa sociedade-mãe, e ainda com a Sociedade Europeia de cirurgia do ombro e cotovelo (SECEC). Os objetivos são sempre os mesmos: formação, investigação conjunta e visibilidade internacional da ortopedia portuguesa. Uma sociedade científica cresce mais depressa, e com mais solidez, quando cresce em rede com as suas congéneres.

Navlet (palestrante convidado estrangeiro para o Congresso), Ana Inês, Diogo Silva Gomes e Bárbara Campos
PA: A telemedicina e a tecnologia têm impactado a saúde em todas as áreas. No campo do ombro e do cotovelo, de que forma é que os avanços tecnológicos se têm mostrado uma mais-valia em termos de diagnóstico e acompanhamento de pacientes?
NS: A tecnologia mudou a forma como diagnosticamos, planeamos e acompanhamos os doentes. A ecografia feita na própria consulta permite diagnosticar rapidamente muitas lesões tendinosas, e a RM e a TC dão-nos informação muito detalhada. Na artroplastia do ombro, o planeamento tridimensional e os guias personalizados permitem simular a cirurgia antes de a realizar e colocar a prótese com mais precisão. A artroscopia trata muitas lesões através de incisões mínimas, e com menor agressão cirúrgica.
A telemedicina tem sido útil no seguimento pós-operatório e na orientação da reabilitação, sobretudo para quem vive longe dos centros de referência.
A inteligência artificial abre agora uma nova fronteira, em particular no apoio ao diagnóstico e à referenciação a partir dos cuidados de saúde primários. O potencial é grande, mas exige rigor: antes de chegar à prática clínica, tem de ser testada com doentes reais. Como exemplo, eu projetei e orientei um estudo, em colaboração com vários elementos da SPOC, que compara em casos reais de patologia do ombro a acuidade diagnóstica e a orientação clínica propostas pela inteligência artificial, por médicos e por uma abordagem que combina ambos. Acredito que a IA pode ajudar o médico a decidir melhor e a encaminhar mais depressa cada doente para o sítio certo, desde que seja validada com a mesma exigência que aplicamos a qualquer outra inovação.
PA: Quais são os principais desafios que encontra como Presidente da SPOC?
NS: Os desafios são exigentes, mas partilho-os com uma Direção empenhada, a quem deixo uma palavra de reconhecimento: nada do que a SPOC tem feito seria possível sem o trabalho de cada um dos seus membros, voluntário e feito para além da atividade clínica.
O primeiro desafio é levar formação de excelência a todos os associados, em todo o país, e não apenas aos grandes centros. O segundo é fazer investigação clínica independente e multicêntrica com recursos limitados; a nossa resposta tem sido a colaboração, entre hospitais portugueses e com as sociedades parceiras num contexto nacional em que o acesso a financiamento é muito escasso. O terceiro é a internacionalização: dar visibilidade ao muito trabalho de qualidade que se faz em Portugal. Há ainda um desafio permanente, o do rigor e da transparência na governação, incluindo na relação com a indústria. É essa exigência que nos permite merecer a confiança dos associados, dos doentes e dos parceiros.
PA: Em que áreas específicas vê a maior necessidade de progresso, seja na investigação, formação ou acesso dos pacientes a novos tratamentos? E como planeiam abordar esses desafios no futuro próximo?
NS: Vejo três áreas prioritárias. Na investigação, precisamos de mais estudos multicêntricos e de dados nacionais de resultados, nomeadamente registos de artroplastias que permitam comparar técnicas e implantes com dados de doentes portugueses. Na formação, queremos alargar os estágios e o treino em simulação, para que os jovens cirurgiões cheguem à prática autónoma mais bem preparados e com espírito crítico.
No acesso, a preocupação é a equidade. Há doentes que esperam demasiado por uma consulta ou por uma cirurgia, e outros a quem se propõe cirurgia quando um tratamento conservador bem orientado bastaria. Os dois problemas têm a mesma solução: melhor referenciação e mais decisão partilhada com o doente.
Gostaria que o legado desta Direção se medisse em três resultados: uma geração de jovens cirurgiões mais bem formada e com hábitos de investigação e partilha de conhecimento; uma comunidade científica de língua portuguesa mais forte e reconhecida internacionalmente (a parceria com o Brasil tem que continuar a ser fortalecida e promovida, ao mesmo tempo que se associam outros países de língua portuguesa); e doentes que recebem o tratamento certo, no momento certo, com o melhor resultado possível e minimização das complicações.

