Direção da Sociedade Portuguesa de Radiologia e Medicina Nuclear (SPRMN)
Novas descobertas e avanços na Radiologia
A evolução da tecnologia tem trazido novas possibilidades ao diagnóstico e tratamento de doenças, nomeadamente na área da oncologia. Nesta entrevista, João Leitão, presidente da SPRMN, aborda os objetivos e o contributo da Radiologia para estes progressos, bem como a sua aposta na partilha de conhecimento e na valorização científica e clínica da especialidade.
Perspetiva Atual: Com uma história que remonta a 1931, que papel tem a SPRMN na Radiologia portuguesa?
João Leitão: A Sociedade acompanha a evolução da Radiologia há várias gerações, promovendo a formação, a investigação e a partilha de conhecimento e a valorização científica da especialidade. Hoje, essa missão inclui aproximar a inovação da prática clínica e valorizar e dar maior visibilidade ao contributo do radiologista para a melhoria dos cuidados prestados aos doentes e qualidade global do serviço médico, para a qual a diferenciação em áreas imagiológicas e a subespecialização são essenciais. A colaboração com sociedades portuguesas de outras áreas médicas e com sociedades internacionais de Radiologia reforça a articulação multidisciplinar e a partilha de conhecimento.

Radiologia e Medicina Nuclear (SPRMN)
PA: Quais foram as principais prioridades desta direção, sob a sua presidência?
JL: É difícil reunir numa resposta breve todas as prioridades que definimos para este mandato, mas o nosso programa assenta na formação científica contínua, no reforço da participação dos sócios e na aproximação da Sociedade à realidade atual da Radiologia. Nesse sentido, propusemo-nos consolidar a periodicidade anual do Congresso Nacional de Radiologia, manter o AIRP e valorizar a Escola e as Secções, estimulando e apoiando as suas iniciativas. Definimos também como prioridades estimular a investigação e a publicação na Acta Radiológica Portuguesa e melhorar a comunicação, os serviços aos nossos associados e os recursos digitais (lançamento de um novo site da SPRMN). A articulação com o Colégio de Radiologia e as associações profissionais, respeitando as competências individuais, o reforço das parcerias institucionais nacionais e internacionais e a revisão dos estatutos completam esses objetivos.
PA: Como se traduz o papel do radiologista no diagnóstico e no tratamento dos doentes?
JL: A Radiologia participa em todo o percurso clínico: na deteção da doença (veja-se por exemplo o seu papel central no rastreio do cancro da mama e, em breve, também no rastreio do cancro do pulmão), na definição da sua extensão (o estadiamento imagiológico é fundamental para o planeamento terapêutico), no tratamento da própria doença (Radiologia de Intervenção: apesar de ainda pouco conhecida do público em geral, acrescentou a possibilidade de realizar procedimentos ditos “minimamente invasivos”, que, em muitos casos, são já a primeira opção terapêutica) e na avaliação da resposta ao tratamento. O radiologista tem um papel transversal, da urgência à oncologia, nas doenças cardiovasculares, neurológicas, respiratórias, abdominais, musculoesqueléticas, na saúde da mulher e na pediatria.
PA: Que medidas podem melhorar o acesso aos exames, mantendo a qualidade e a segurança?
JL: A tendência crescente da procura de exames imagiológicos exige radiologistas em número adequado, equipamentos disponíveis e de qualidade e uma organização que tenha em conta a urgência e a relevância clínica dos pedidos. A justificação dos exames, a escolha do método mais adequado à questão clínica e o acesso a estudos anteriores são fundamentais para evitar repetições sem benefício. A articulação entre médico requisitante e radiologista e a comunicação atempada dos resultados melhoram a resposta e reduzem custos desnecessários. A radioproteção e a otimização de protocolos são também essenciais e áreas nas quais a SPRMN quer e pode contribuir, através da formação e da discussão de boas práticas, em colaboração com outros parceiros e entidades competentes.
PA: Que impacto pode ter a inteligência artificial na Radiologia e que papel deve assumir a SPRMN?
JL: A inteligência artificial é já uma ferramenta plenamente integrada na generalidade dos equipamentos da radiologia para melhorar o fluxo dos doentes e também na aquisição e reconstrução das imagens. Atualmente, assiste-se também a um forte desenvolvimento das suas aplicações no auxílio à deteção e quantificação de alterações. Na organização dos serviços pode contribuir para avaliar a atividade realizada e melhorar o planeamento do trabalho e dos recursos. O radiologista deve assumir um papel central na seleção e utilização destas ferramentas, bem como na integração dos resultados no contexto clínico, mantendo a responsabilidade pela interpretação e decisão médicas. À Sociedade cabe estimular o espírito crítico e acompanhar a implementação, promovendo a avaliação dos benefícios, das limitações e do seu impacto na qualidade dos cuidados. A natureza da Radiologia favorece a aplicação da inteligência artificial, mas é previsível que estas ferramentas se estendam a todas as áreas da Medicina, com impacto no diagnóstico, no tratamento e na organização dos cuidados. É contudo necessário conhecer as limitações e os erros possíveis, evitando uma confiança automática nos resultados. A integração de ferramentas de inteligência artificial na prática médica não deve ser cega. Deverá pautar-se por uma validação nas populações e nos equipamentos em que será utilizada, bem como pela garantia na proteção dos dados e por um acompanhamento permanente do seu desempenho.
PA: Como pretendem estimular a investigação e aproximar a Radiologia da sociedade?
JL: A Acta Radiológica Portuguesa é um veículo importante para divulgar a produção científica e deve continuar a ser valorizada, com regularidade editorial e conteúdos de qualidade. Também queremos incentivar estudos multicêntricos nacionais com aplicabilidade clínica, procurando parcerias e financiamento para projetos e bolsas (estão em fase de finalização o retorno da Bolsa Prof. Vilaça Ramos e a criação do Prémio Prof. Caseiro Alves). É igualmente necessário dar a conhecer e explicar melhor aos cidadãos o papel e a importância do radiologista, na escolha dos exames, na segurança e nos procedimentos de intervenção. Uma Radiologia mais conhecida ajudará seguramente a que os doentes compreendam melhor os seus problemas clínicos e as opções diagnósticas e terapêuticas disponíveis e participem de forma mais informada nas decisões. A colaboração com associações de doentes, estudantes de Medicina e outras sociedades científicas pode tornar esta comunicação mais clara e útil.
“IA: O radiologista deve assumir um papel central na seleção e utilização destas ferramentas, bem como na
integração dos resultados no contexto clínico, mantendo a responsabilidade pela interpretação e decisão médicas”
PA: O Congresso Nacional de Radiologia passou a anual. Que balanço faz desta opção?
JL: A periodicidade anual foi uma aposta vencedora e trouxe continuidade e maior visibilidade ao principal encontro científico da Sociedade e da radiologia portuguesa. O CNR tem registado uma participação crescente e reforçado a qualidade do seu programa, reunindo palestrantes nacionais e internacionais de reconhecido mérito. Para além da atualização científica, o congresso permite apresentar investigação, discutir experiências e criar relações entre profissionais de diferentes instituições e gerações. Queremos preservar essa identidade e, pelo menos, manter a presente qualidade do evento, valorizando tanto a excelência científica como a participação dos radiologistas portugueses.
PA: O AIRP realizou-se em Mafra em 2025 e em Viana do Castelo em 2026. Qual é o valor deste curso e da sua descentralização?
JL: O AIRP é uma referência na formação pós-graduada em radiologia. A colaboração com o American College of Radiology Institute of Radiologic Pathology permite manter em Portugal um curso anual com palestrantes internacionais de elevada qualidade científica e pedagógica. A realização em Mafra em 2025 e em Viana do Castelo em 2026 traduz a aposta na descentralização das iniciativas da Sociedade, aproximando a formação de diferentes regiões e envolvendo as comunidades locais.
PA: De 5 a 7 de novembro, Albufeira recebe o ISS Outreach Algarve & 1.º Encontro da SPORME. Qual é o grande objetivo deste evento e como é que se enquadra na atividade da SPRMN?
JL: Este encontro resulta da colaboração entre a Secção Portuguesa de Radiologia Músculo-Esquelética (SPORME) e a International Skeletal Society. É uma oportunidade para aprofundar conhecimentos numa área com grande expressão na prática clínica atual e para aproximar os participantes de especialistas internacionais. Ilustra a importância das Secções na dinamização científica da Sociedade e na criação de parcerias. Estes eventos complementam o CNR e a Escola, oferecendo formação dirigida e promovendo o contacto entre radiologistas e outros profissionais envolvidos no diagnóstico e tratamento, neste caso das doenças musculoesqueléticas.

PA: Que importância têm a Escola e as Secções na formação dos radiologistas?
JL: A crescente diferenciação da especialidade exige uma formação sólida de base e atualização ao longo de toda a carreira. A Escola e as Secções permitem organizar conteúdos ajustados nas várias áreas e a diferentes fases desse percurso, desde os primeiros anos do internato até à formação mais diferenciada dos médicos especialistas. São estruturas de apoio muito importantes para acompanhar as exigências do novo programa formativo de Radiologia e das subespecialidades.
PA: Em que ponto está a revisão dos estatutos e que pretende mudar no funcionamento da Sociedade?
JL: Existe já uma proposta, ainda em trabalho interno pela Direção da Sociedade, mas pretendemos concluir esta revisão até ao próximo congresso nacional. O objetivo é adequar os estatutos à realidade atual da especialidade e da vida associativa, clarificando a organização e facilitando a participação dos sócios. Queremos que esta revisão resulte de um processo participado e dê à Sociedade condições para continuar a evoluir.
PA: Para terminar, gostaria de apresentar algum plano ou projeto da atual direção para os próximos meses?
JL: O ISS Outreach Algarve & 1.º Encontro da SPORME será o nosso próximo evento (5 a 7 de novembro). Pretendemos concluir o novo site e a revisão dos estatutos até ao nosso próximo congresso nacional, o CNR2027, o grande momento de encontro e partilha científica da Sociedade, que estamos já a organizar e decorrerá de 19 a 22 de maio em Peniche.

