Paulo Felicíssimo, Presidente da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia (SPOT)

SPOT projeta o futuro da Ortopedia e Traumatologia

No ano em que assinala 76 anos de atividade, a Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia (SPOT) traça novos objetivos para o desenvolvimento da especialidade, com a ambição de a tornar “sólida do ponto de vista científico, inovadora, humanizada e ajustada às necessidades reais da população”. Paulo Felicíssimo, rosto da presidência, destaca os principais projetos em curso, a cooperação internacional e os temas centrais do 45.º Congresso Nacional de Ortopedia e Traumatologia, que se realiza em novembro, no Algarve.

Perspetiva Atual: A SPOT celebra 76 anos de atividade. O que mudou ao longo destas décadas e o que mais orgulha os seus membros?

Paulo Felicíssimo: Em mais de sete décadas, a Ortopedia e a Traumatologia transformaram-se profundamente. Evoluíram de uma medicina centrada sobretudo no tratamento de lesões e deformidades para uma especialidade altamente diferenciada, que combina prevenção, diagnóstico precoce, técnicas cirúrgicas avançadas, reabilitação e acompanhamento prolongado.

Os avanços nos materiais, implantes, imagiologia, cirurgia minimamente invasiva e, mais recentemente, na robótica e nas ferramentas digitais aumentaram a precisão dos procedimentos e alargaram as opções terapêuticas. Ainda assim, continuam a ser essenciais a relação entre médico e doente, a experiência clínica e a tomada de decisões individualizadas.

Na SPOT, orgulhamo-nos sobretudo do contributo de sucessivas gerações de ortopedistas para o progresso da especialidade em Portugal. Queremos uma especialidade sólida do ponto de vista científico, inovadora, humanizada e ajustada às necessidades reais da população.

PA: Pode apresentar-nos melhor o trabalho desenvolvido pela SPOT? Quais são as suas principais atividades e serviços?

PF: A principal missão da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia (SPOT) é assegurar a formação médica contínua e a atualização científica dos ortopedistas, contribuindo para o progresso da especialidade e para melhores cuidados aos doentes.

Concretizamos esta missão através do Congresso Nacional de Ortopedia e Traumatologia, de simpósios, reuniões científicas, cursos e webinars. Estas iniciativas permitem acompanhar os avanços do conhecimento, debater novas técnicas e abordagens terapêuticas, partilhar experiências clínicas e manter os profissionais atualizados.

A formação, porém, começa muito antes da conclusão da especialidade. Por isso, criámos o PAIO — Programa de Apoio ao Internato de Ortopedia, destinado a complementar a formação dos médicos internos e a apoiar a aquisição estruturada de conhecimentos e competências ao longo do internato. Investir nas novas gerações é essencial para lhes garantir uma preparação sólida perante os desafios presentes e futuros da especialidade.

O trabalho da SPOT não se limita, contudo, aos profissionais de saúde. Temos também uma responsabilidade relevante na promoção da literacia em saúde musculoesquelética junto da população, ajudando-a a compreender as patologias ortopédicas, identificar fatores de risco e adotar medidas preventivas.

Neste âmbito, promovemos várias campanhas de sensibilização. Entre elas, destacam-se «Não Caias Nisso», dedicada à prevenção de quedas e fraturas, especialmente relevante numa população envelhecida; «A Josefina Ensina», centrada na escoliose; e ações informativas sobre os riscos dos acidentes de mergulho.

A SPOT promove ainda a investigação, incentiva a apresentação e divulgação de trabalhos e reconhece o mérito através de prémios e bolsas. As secções científicas e sociedades afiliadas são fundamentais neste processo, ao aprofundarem o conhecimento em várias áreas da Ortopedia e Traumatologia e dinamizarem iniciativas específicas de formação e investigação.

PA: A inovação tecnológica está a transformar o diagnóstico, as cirurgias e a recuperação dos doentes. Que novas técnicas ou procedimentos estão já a ser utilizados e que diferença têm feito na prática clínica?

PF: A inovação tecnológica está a transformar praticamente todas as áreas da Ortopedia. Hoje dispomos de técnicas de imagiologia mais avançadas, planeamento cirúrgico tridimensional, sistemas de navegação, cirurgia assistida por robótica e instrumentos que permitem uma avaliação cada vez mais precisa da anatomia e da função musculoesquelética.

Na cirurgia de substituição articular, por exemplo, o planeamento personalizado e as tecnologias de assistência à execução do procedimento podem ajudar a melhorar o posicionamento dos implantes e a reproduzir os objetivos cirúrgicos definidos para cada doente. Noutras áreas, como a cirurgia da coluna, a traumatologia e a cirurgia artroscópica, a evolução dos equipamentos e das técnicas tem permitido intervenções mais precisas e, em situações selecionadas, menos invasivas.

Também a inteligência artificial começa a abrir novas possibilidades, nomeadamente na análise de exames de imagem, no apoio à decisão clínica e na previsão de resultados. No entanto, estas ferramentas devem ser avaliadas com rigor e utilizadas como apoio ao médico, nunca como substituto da sua responsabilidade clínica.

PA: Sabemos que estão envolvidos em várias iniciativas e consórcios. Poderia destacar algum projeto, explicar em que consiste e que objetivos procuram alcançar?

PF: Uma das prioridades da SPOT tem sido reforçar a sua dimensão internacional, aprofundando as relações institucionais com sociedades congéneres e criando oportunidades de colaboração científica, formação e intercâmbio entre ortopedistas de diferentes países.

Temos vindo a desenvolver relações muito próximas com várias sociedades europeias, destacando-se a SECOT, em Espanha, a SOFCOT, em França, e a EFORT – FEDERAÇÃO EUROPEIA, com as quais partilhamos o objetivo de promover o desenvolvimento científico da Ortopedia e Traumatologia, incentivar a formação contínua e facilitar a partilha de conhecimento e de boas práticas.

Mais recentemente, celebrámos também protocolos de cooperação com a Sociedade Colombiana de Ortopedia, a Sociedade Mexicana, a Sociedade Peruana, a Sociedade Cubana e a Associação de Ortopedia da Jordânia. Estes acordos representam uma oportunidade para alargar a nossa rede de colaboração para além do espaço europeu e lusófono, aproximando-nos de outras escolas e experiências ortopédicas.

Queremos, igualmente, investir nos ortopedistas mais jovens, proporcionando-lhes oportunidades de contacto com outros serviços, outras metodologias de trabalho e diferentes realidades clínicas. A possibilidade de realizar estágios, conhecer novas técnicas, participar em projetos científicos e estabelecer relações profissionais internacionais pode ter um impacto muito significativo no seu desenvolvimento e no futuro da especialidade.

PA: A SPOT conta com várias sociedades afiliadas, secções, grupos de estudo e comissões. Onde gostariam de ver mais produção científica?

PF: Há domínios transversais em que considero particularmente importante investir. Um deles é a investigação clínica com resultados centrados no doente: não basta saber se uma intervenção foi tecnicamente bem-sucedida; precisamos de compreender se permitiu recuperar função, reduzir a dor, melhorar a autonomia e regressar às atividades habituais.

Outro domínio prioritário é a investigação sobre os resultados e a eficiência dos cuidados de saúde. Precisamos de conhecer melhor os tempos de resposta, a variabilidade da prática clínica, as complicações, os custos e os fatores que condicionam o acesso a tratamentos diferenciados.

Não podemos esquecer a traumatologia, a fragilidade óssea, a osteoporose, a Ortopedia geriátrica e os desafios associados ao envelhecimento da população. Também a prevenção das lesões desportivas e o impacto das doenças musculoesqueléticas na população ativa merecem atenção continuada.

PA: Para além do tratamento das patologias, a prevenção assume também um papel importante na saúde. Que hábitos são fundamentais no dia a dia para preservar a saúde dos ossos, músculos e articulações e reduzir o risco de lesões?

PF: A prevenção é uma das áreas em que podemos ter maior impacto na saúde da população. Muitas doenças e lesões musculoesqueléticas podem ser prevenidas ou ter a sua evolução atenuada através de hábitos de vida saudáveis, atividade física adequada e identificação precoce dos fatores de risco.

Em primeiro lugar, é fundamental manter uma atividade física regular, adaptada à idade, à condição física e às características de cada pessoa. O fortalecimento muscular, os exercícios de equilíbrio e as atividades que promovem a saúde óssea são particularmente importantes para preservar a mobilidade e reduzir o risco de quedas e fraturas.

A alimentação também desempenha um papel essencial. Uma dieta equilibrada, com aporte adequado de proteínas, cálcio e vitamina D, quando necessário, contribui para a saúde do sistema musculoesquelético. Outro aspeto importante é a progressão gradual da atividade física. Tanto nos atletas como nas pessoas que praticam exercício ocasionalmente, o aumento excessivamente rápido da intensidade ou do volume de treino pode favorecer lesões. A preparação física, a recuperação adequada e o respeito pelos sinais de alerta do organismo são fundamentais.

Por fim, importa promover a prevenção das quedas, sobretudo na população mais idosa, através da avaliação do risco, da revisão de fatores que comprometem o equilíbrio e da adaptação dos espaços domésticos.

PA: O 45.º Congresso Nacional de Ortopedia e Traumatologia realiza-se de 3 a 6 de novembro, no Algarve. Que questões da atualidade estarão no centro do debate? Com que convidados?

PF: Este ano, escolhemos como tema central «Organização e Modelos de Gestão em Saúde — Que Futuro?». Consideramos que esta é uma questão particularmente relevante, num contexto em que os sistemas de saúde enfrentam uma pressão crescente, com recursos limitados, necessidades assistenciais cada vez mais complexas e a exigência de garantir cuidados de qualidade, seguros e atempados.

Neste âmbito, teremos uma mesa-redonda dedicada à transferência inter-hospitalar de doentes complexos. Trata-se de um tema de grande importância para a Ortopedia e Traumatologia, uma vez que alguns doentes necessitam de cuidados altamente diferenciados, equipas multidisciplinares e recursos que nem sempre estão disponíveis em todas as instituições.

Naturalmente, o congresso não se esgota na discussão da organização e gestão dos serviços. Teremos um programa científico abrangente, com sessões dedicadas às diferentes áreas de diferenciação da nossa especialidade: coluna, ombro, cotovelo, punho e mão, anca, joelho, tornozelo e pé, infeções osteoarticulares, tumores musculoesqueléticos, trauma, medicina legal, biomecânica, traumatologia desportiva, Ortopedia Pediátrica e Ortopedia Geriátrica.

Queremos também acompanhar os desafios emergentes que estão a transformar a prática clínica e a organização dos cuidados. Por isso, o programa integra temas como o Ortorisco, a cibersegurança e a inteligência artificial, áreas que levantam questões cada vez mais relevantes sobre gestão do risco, proteção da informação, inovação tecnológica e apoio à decisão clínica. Estarão representadas várias sociedades científicas nacionais e internacionais, nomeadamente as sociedades espanhola, brasileira, cubana e mexicana de Ortopedia, reforçando os laços de cooperação e a partilha de conhecimento entre diferentes comunidades ortopédicas. Contaremos igualmente com a participação da AO Trauma, uma referência internacional na formação e no desenvolvimento científico na área da traumatologia.

PA: Com quatro dias de programa, momentos de formação, debate científico e participação de diferentes especialistas, o que não deveria perder quem ainda está a decidir se participa no congresso?

PF: Gostaria de destacar três dimensões. A primeira é a componente científica, que permite discutir evidência, confrontar experiências e refletir criticamente sobre a nossa prática. A segunda é a formação, particularmente importante para os internos e para os especialistas que procuram aprofundar competências ao longo da carreira. A terceira é a oportunidade de construir relações profissionais e desenvolver projetos de colaboração.

A apresentação de comunicações científicas, casos clínicos e e-posters permite conhecer o trabalho que está a ser desenvolvido em diferentes centros e reconhecer problemas que são comuns a várias instituições. As iniciativas dirigidas à investigação e à inovação são igualmente importantes para estimular novas ideias e apoiar quem pretende desenvolver projetos científicos.

Mas há uma dimensão que não devemos subestimar: o valor da discussão presencial entre profissionais. Muitas vezes, uma conversa com um colega, a partilha de uma experiência ou a discussão de um caso complexo são tão enriquecedoras como uma sessão formal.

PA: Reconhecer trabalhos que se distinguem pela sua qualidade científica é também uma forma de incentivar quem procura novas respostas. É esse um dos objetivos por detrás da atribuição dos prémios e bolsas durante o evento?

PF: Sem dúvida. Os prémios e as bolsas são instrumentos importantes para reconhecer a qualidade científica, incentivar a investigação e apoiar o desenvolvimento profissional dos ortopedistas, particularmente dos mais jovens.

A investigação exige dedicação, rigor metodológico, tempo e, muitas vezes, recursos que nem sempre estão disponíveis. Reconhecer trabalhos de qualidade é uma forma de valorizar esse esforço e de mostrar que a produção de conhecimento é uma parte essencial da nossa responsabilidade enquanto médicos e comunidade científica.

As bolsas têm também uma dimensão muito prática. Ao permitirem a realização de estágios de aperfeiçoamento e o contacto com outros centros e equipas, podem contribuir para a aquisição de novas competências, a partilha de experiências e a criação de futuras colaborações. A SPOT mantém, por exemplo, iniciativas de apoio à formação de internos e especialistas em início de carreira.

O objetivo não é apenas premiar resultados, mas estimular uma cultura de investigação, pensamento crítico e procura contínua de melhores respostas para os doentes.

PA: A poucos meses do final do ano, que perspetivas têm para 2027 e que objetivos gostariam de concretizar?

PF: O ano de 2027 terá uma nova Direção. Será um ano de continuidade, consolidação e de desenvolvimento de projetos com impacto efetivo na especialidade e nos cuidados prestados aos doentes.

Uma das prioridades será continuar a reforçar a formação médica contínua, diversificando as oportunidades de aprendizagem e promovendo uma maior ligação entre as diferentes secções científicas, as sociedades afiliadas e os profissionais que trabalham em contextos distintos.

Queremos igualmente estimular a investigação clínica e a colaboração entre instituições. É importante criar condições para que os projetos científicos não se esgotem na apresentação de um trabalho ou na realização de um congresso, mas possam evoluir para estudos mais amplos, produzir resultados relevantes e contribuir para a prática clínica.

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