Valter Amorim, Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros

“Urge que a enfermagem seja reconhecida como profissão de desgaste rápido, à semelhança de outras, porque essa é uma realidade concreta”

A VII Gala dos Enfermeiros voltou, este mês, a celebrar, na região centro, quem faz da enfermagem uma missão diária. Um ano depois, Valter Amorim, Presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros, regressa à Perspetiva Atual para avaliar o caminho percorrido e o reconhecimento que continua em falta na profissão, numa altura em que, como afirma, “os enfermeiros, para além de exaustos, estão fragilizados”.

Perspetiva Atual: Desde a última entrevista concedida à Perspetiva Atual, em abril de 2025, muito aconteceu no caminho percorrido pela vossa Secção. Que resultados desse trabalho gostaria de trazer para esta conversa?

VA: Neste quase ano e meio decorrido, destaca-se um incremento muito significativo da nossa atividade, sinal de que os enfermeiros recorrem cada vez mais à Secção Regional do Centro em busca de respostas, apoio e orientação. É um dado que nos honra e nos responsabiliza, pois deixa antever que confiam em quem os representa.

Este crescendo exige, também, uma forte dinâmica dos membros eleitos para os diversos órgãos, que entregam parte importante do seu tempo a esta causa maior que é a profissão.

Acrescento, ainda, a entrada de dois eventos no calendário de atividades da Secção Regional: um inteiramente novo e outro que tivemos o gosto de repristinar.

O primeiro foi o I Encontro de Investigação e Inovação da Secção Regional do Centro, realizado em Aveiro, em fevereiro do corrente ano, ao longo de dois dias e com a presença de cerca de 600 enfermeiros. Foi um verdadeiro sucesso, e encontramo-nos já a preparar a 2.ª edição, que vai realizar-se nos dias 17 e 18 de fevereiro do próximo ano, desta vez na Guarda.

O segundo foi a Cerimónia de Vinculação à Profissão, que decorreu no dia 10, em Coimbra, no Convento de São Francisco, e que reuniu 207 novos Enfermeiros e algumas dezenas de convidados, num momento de profundo simbolismo para quem inicia o seu percurso profissional.

Estes eventos traduzem uma aposta clara no cumprimento do mandato que a Ordem se propõe garantir aos seus profissionais, em conformidade com os fins e as atribuições que lhe estão cometidos, de entre os quais se destacam o fomento da investigação e o intercâmbio de ideias, experiências e conhecimentos científicos entre os membros e as entidades, bem como a valorização e o reconhecimento pessoal, profissional e social dos enfermeiros.

PA: Ser Enfermeiro é, muitas vezes, colocar o outro em primeiro lugar. “Cuidar de quem cuida” é uma expressão que tem ganho espaço no debate sobre a profissão e uma questão que tem abordado, várias vezes, ao longo do seu mandato. O que precisa de mudar para que os profissionais comecem a ser valorizados?

VA: É um tema da maior relevância e atual, que merece ser discutido com seriedade e devidamente valorizado. Os dados e estudos mais recentes sobre a saúde mental e, de um modo geral, sobre a saúde e o bem-estar dos profissionais de saúde identificam os enfermeiros como o grupo que apresenta maiores índices de doença e risco. O burnout, o cansaço extremo e o absentismo elevado mostram que os enfermeiros estão, não só exaustos, mas fragilizados.

Os enfermeiros asseguram cuidados e vigilância todos os dias, 24 sobre 24 horas, em proximidade e com presença física efetiva. Mas não são “máquinas”, continuam a ser pessoas.

Importa sublinhar que a estes profissionais se pede sempre mais do que, em regra, se pediria à generalidade das profissões. E pede-se porque os recursos de enfermagem são escassos, numa escassez crónica, agravada pelo recente aumento das saídas para a emigração, para o setor privado, para a aposentação e, até, por um fenómeno novo e inquietante, que é o abandono da profissão.

Veja-se, a este propósito, o reconhecimento, por parte de um outro Governo, e por este assumido, de que faltavam, há alguns anos, 14 mil enfermeiros. Hoje, o défice será, muito provavelmente, ainda maior.

Veja-se, igualmente, os sucessivos recordes de horas extraordinárias realizadas pelos enfermeiros, bem como o recurso recorrente a um expediente ilegal, que mais não é do que um banco de horas encapotado.

Daí a necessidade de trazer para a discussão o “Cuidar de quem cuida”. Não se pode esquecer que os enfermeiros, antes de o serem, são pessoas como todas as outras, com problemas como todos os outros, com vida pessoal e familiar. Acima de tudo, é preciso reconhecer, de forma efetiva, que dão muito mais do que recebem, sem a devida valorização, sendo vistos não como profissionais que exercem uma profissão, mas como devotos missionários, coisa que não são.

Urge, por conseguinte, que a enfermagem seja reconhecida como profissão de desgaste rápido, à semelhança de outras, porque essa é uma realidade concreta. Sem medidas concretas, o risco é agravar ainda mais a falta de profissionais e comprometer a sustentabilidade do SNS. É aqui que se insere a nossa aposta no “Cuidar de quem cuida”: não basta exigir mais aos enfermeiros; é preciso garantir condições reais de trabalho, saúde e bem-estar.

PA: A falta de profissionais continua a colocar pressão sobre vários serviços de saúde. Que medidas considera prioritárias para garantir condições que permitam fixar enfermeiros e assegurar a qualidade dos cuidados prestados na região centro?

De facto, a pressão é cada vez maior na região sul do País, mas também no sul da região Centro começa a verificar-se um aumento sustentado da pressão sobre as instituições e os seus profissionais, fruto, essencialmente, da pouca atratividade dessas entidades e territórios, do interior ao litoral.

A proximidade aos grandes centros conduz a este desinteresse concreto. E, como é evidente, trata-se de algo que se vai instalando, progressivamente, noutras latitudes da região e do País.

Recorde-se que vivemos num mundo global, em que as novas gerações, e não apenas elas, se consideram cidadãs do mundo, ávidas de novas experiências e, acima de tudo, de melhores condições de vida. A par de boas condições de trabalho e de retribuição, exigem reconhecimento e valorização da sua importância social.

Ora, foi precisamente disto que os sucessivos governantes não cuidaram, bem pelo contrário, e foi isso que nos trouxe à situação em que hoje nos encontramos.

É, por conseguinte, fundamental que sejam tomadas várias medidas, com urgência e coragem política, para que a valorização efetiva da profissão se faça sentir em atitudes e soluções, e não apenas em palavras. Como diz o povo, palavras leva-as o vento.

Desde logo, é fundamental reforçar a contratação de enfermeiros, e de outros profissionais essenciais, como técnicos de diagnóstico e terapêutica e assistentes operacionais, para melhorar as condições de trabalho e a segurança dos cuidados. É igualmente necessário garantir uma retribuição digna e competitiva face à realidade internacional; reconhecer as competências que os enfermeiros hoje efetivamente detêm, com melhor aproveitamento das suas capacidades; reconhecer a enfermagem como profissão de risco e de desgaste; criar apoios à fixação destes profissionais em territórios pouco apelativos ou desinteressantes, pelas mais diversas razões, entre outras medidas.

É neste conjunto de medidas que se concretiza, na prática, o “Cuidar de quem cuida”.

Perspetiva Atual: A par das medidas que considera prioritárias para garantir condições aos enfermeiros e assegurar a qualidade dos cuidados, que iniciativas tem já a Secção Regional do Centro em curso para responder a esses desafios?

VA: Os desafios são muitos e profundamente exigentes. Logicamente, a nossa estratégia já está pensada e em execução há algum tempo, com diversas iniciativas.

Desde logo, temos duas estruturas de relevada importância para esta estratégia, a Estrutura de Controlo da Qualidade e a Estrutura para a Qualidade, Investigação, Inovação e Promoção da Saúde.

A primeira desenvolve uma intervenção diretamente nos contextos, onde avalia os mesmos nas suas diversas componentes e dimensões, construindo um documento que mais não é que um instrumento de apoio à gestão, com a identificação de problemas visíveis, mas também suporte técnico e jurídico, elencando recomendações e medidas objetivas, que posteriormente são discutidas com as Direções de Enfermagem e os CA, na busca de entendimentos.

A segunda tem por missão apoiar profissionais e contextos, no desenvolvimento de ações e projetos que visem criar valor, seja pela investigação, pelos projetos de melhoria contínua, pela inovação e a promoção da saúde, desenvolvendo respostas e propostas que fundamentem soluções para as instituições da região e do país, ajudando-nos a estruturar propostas políticas potenciadoras de alterações e a transformação do setor.

Por conseguinte, temos em desenvolvimento estudos relativos a um projeto de dotações seguras num contexto de prática clínica num projeto piloto, um outro relativo a cuidados omissos estruturado em toda a região, ainda um outro que avalia a realidade da rede de cuidados continuados integrados da região centro, entre outros.

Ainda importa aludir ao nosso projeto designado de Reuniões Livres, onde em grande parte das instituições dos setores público, privado, social e corporativo, onde num significativo universo de contextos, em proximidade, um vasto grupo de profissionais é visitado por equipas da secção, conversando, explicando e discutindo os problemas e apresentando soluções, empoderando esses colegas para as boas práticas, com qualidade e segurança, assentes na melhor evidência científica.

Também a formação é absolutamente estruturante para preparar os profissionais e os contextos, sendo certo que há vários mandatos esta equipa e órgãos estatutários tem vindo a desenvolver formação realizada nas diversas instituições, inicialmente solicitadas por nós, agora requeridas pelas próprias organizações e contextos, hoje muito mais significativas as solicitações.

Destas destacamos o Fórum Gestão, que visa promover lideranças fortes, competentes e capacitadas, mas também, os Padrões de Qualidade e os Projetos de Melhoria Contínua, tal como, as questões Éticas e deontológicas. Estamos em fase de implementação da Academia da Ordem dos Enfermeiros, desenvolvida nacionalmente, mas, com uma estrutura regional própria que visa promover formação sobre uma maior vastidão de áreas, solicitadas pelos profissionais e contextos, diversificando conhecimentos atualizados conforme as necessidades desses profissionais.

PA: E no que se refere a recém licenciados, tomam medidas para apoiar a sua transição para o mercado de trabalho, assegurando que estão devidamente preparados?

VA: A Secção Regional do Centro desenvolveu, já em mandatos anteriores, e continua a replicar, um conjunto de iniciativas dirigidas aos futuros profissionais, apostando em intervenções em contexto escolar e formativo, numa relação de proximidade e de disponibilidade para com os neófitos da enfermagem.

Temos uma preocupação genuína com os jovens enfermeiros, assente em todas as questões já referidas, mas também na consciência do crescente escrutínio e da pressão, social e mediática, sobre as problemáticas da saúde. Multiplicam-se os relatos negativos, sem que se valorize tudo o que de bom se faz e produz no SNS e, em geral, no Sistema Nacional de Saúde, e persistem os lóbis empenhados em manter tudo na mesma.

Tudo isto pode ser profundamente nocivo para a atração destes jovens para o exercício em Portugal, pois não vislumbram soluções efetivas para os inúmeros problemas do setor. É uma perceção que tem de ser desmistificada e, acima de tudo, desconstruída, empoderando estes novos profissionais quanto ao seu papel e à sua importância.

Por outro lado, falamos de pessoas e de uma geração completamente diferente das anteriores, o que, por vezes, leva a que não sejam compreendidas e a que surjam problemas em razão dessa diferença. Isto é problemático, e por isso importa discutir estas questões com os próprios, com as organizações e com os profissionais, em nome de um maior entendimento e de um verdadeiro espírito colaborativo. Somos todos diferentes, e ninguém deve obrigar, nem ser obrigado, a mudar quando, porventura, até poderá estar certo. A dignidade e as opções de cada um não podem ser atropeladas.

PA: O que podemos esperar da SRC no futuro?

VA: Acima de tudo, uma entidade que prosseguirá com um rumo bem definido, na defesa intransigente dos enfermeiros e da profissão de enfermagem, bem como na defesa dos melhores interesses e direitos de quantos usufruem dos cuidados de enfermagem e do futuro do SNS e do nosso País.

Fá-lo-emos sempre num espírito colaborativo e em parceria efetiva com as organizações e os seus representantes, valorizando a confiança e a transparência, com verdade e com a melhor evidência científica.

Estamos focados em ser construtivos, mas também em ser alavancas transformadoras de uma mudança real e sentida, fomentando respostas efetivas às necessidades das pessoas, sejam elas profissionais, sejam beneficiárias ou usufrutuárias dos cuidados de saúde e de enfermagem.

Pretendemos também, e disso nunca prescindiremos, afirmar-nos capacitados para liderar a transformação de que o setor precisa, em conjunto com outros agentes e grupos profissionais, num prisma de transparência e de mente aberta.

Acreditamos estar prontos e disponíveis para esse desígnio. O passado já lá vai. Estamos focados no presente e no futuro da profissão.

PA: A VII Gala dos Enfermeiros voltou a juntar profissionais numa noite dedicada à enfermagem, desta vez na Figueira da Foz. O que procuraram apresentar de diferente este ano?

VA: Para além da mudança de localização e de espaço, procurámos fazer melhor e diferente daquilo que já vínhamos realizando, e realizando muito bem.

Realizámos cinco edições em Viseu, cidade que nos acolheu muito bem e à qual, certamente, regressaremos no futuro. Mas a Gala é um evento de toda a região Centro e há vários locais com capacidade para a receber. Foi isso que nos motivou a mudar.

A Figueira da Foz reunia as condições necessárias para organizarmos um evento em continuidade com os anteriores, inovando sem perder o glamour que sempre o distinguiu. O Casino da Figueira é, por excelência, uma sala de espetáculos glamorosa, que trouxe essa novidade e essa beleza que também pretendíamos potenciar. Com soluções e recursos diferentes, que decidimos aproveitar, fizemos um evento único e especial para os enfermeiros e para a profissão.

PA: Já foi a sétima Gala dos Enfermeiros. O que explica a continuidade desta iniciativa e o que gostariam que permanecesse na memória de quem participa nesta noite?

VA: A continuidade desta iniciativa explica-se pela vontade de reconhecer, ano após ano, aqueles que fazem da enfermagem uma profissão de entrega, competência e humanidade. Queremos que, no final desta noite, permaneça na memória de cada participante não apenas a importância do trabalho dos enfermeiros, mas sobretudo o rosto humano por detrás de cada cuidado: a mão que ampara, a palavra que tranquiliza, a presença que acompanha e a dedicação que tantas vezes se mantém mesmo perante as maiores dificuldades. Que esta noite seja, por isso, uma forma de dizer obrigado a todos os enfermeiros, pelo que fazem, pelo que representam e pelo impacto que deixam na vida de tantas pessoas.

PA: Ao longo deste evento foram também distinguidos vários profissionais, em diferentes categorias, pelo seu trabalho, empenho e dedicação à enfermagem. Para além do reconhecimento individual, que mensagem considera que estas distinções deixam sobre a profissão?

VA: Essencialmente, a de que esta é uma profissão que evoluiu em todas as suas dimensões, seja enquanto disciplina do conhecimento, seja no exercício clínico, na docência e no ensino, na investigação, na gestão ou na assessoria.

Não restam dúvidas sobre o caminho trilhado por todo um coletivo profissional. Estes prémios são o reconhecimento de percursos e de histórias, profissionais e de vida, que devem servir de exemplos vivos de excelência, exemplos que merecem ser replicados e valorizados.

Uma profissão deve dignificar os seus melhores, aqueles que deram um contributo significativo para a sua evolução e afirmação. É uma mensagem para dentro, mas também para fora.

A dimensão da relevância social é algo que ainda temos de trabalhar e melhorar, para que também o cidadão conheça e compreenda a nossa real importância, aquilo que construímos e o que significamos no SNS e no Sistema Nacional de Saúde, ou, melhor dizendo, para o País.

A Gala transmite, com força, esta mensagem: a enfermagem é uma profissão de excelência, com rostos, histórias e impacto real na vida das pessoas.

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