Francisco Brardo, Diretor do CCECV

“As situações vividas em ambiente clínico são um meio para alcançar a excelência formativa e de investigação”

Ao completar quase oito anos, o Centro Clínico e Experimental em Ciências da Visão (CCECV) destaca-se não só pela prestação de serviços de saúde visual, mas também pela sua abordagem, onde a pesquisa, o ensino clínico e a participação comunitária se entrelaçam de forma ímpar. Francisco Brardo, Diretor do CCECV, partilha a visão e os planos para o futuro desta instituição integrada na Faculdade de Ciências da Saúde da UBI.

Para começar, poderia compartilhar um pouco sobre a trajetória do centro desde a sua inauguração?

Com quase 8 anos de existência, o CCECV é atualmente uma valência de referência local e regional, exatamente pelo seu percurso consolidado na prestação de serviços de excelência em cuidados de saúde visual, e pela evolução sustentada e original da investigação em ciências da visão. É de facto uma trajetória ascendente, naturalmente lenta, mas consistente com a sua génese.

Uma característica do Centro Clínico é a estreita relação entre pesquisa, ensino clínico e transferência de conhecimento para a comunidade. Poderia contar-nos como essa interligação se desenvolve na prática e quais os principais benefícios percebidos tanto pelos estudantes quanto pelos investigadores? 

A integração da comunidade no processo de formação e a participação dos estudantes em projetos clínicos constituem a dinâmica base do CCECV. Os estudantes são envolvidos nos projetos de investigação que assentam maioritariamente na recolha de dados clínicos, realizada em contexto de prestação de serviços. Deste modo, há um benefício mútuo, uma vez que os estudantes são parte ativa no processo de formação, como também os investigadores podem contar com elementos pró-ativos e empenhados em todo o processo de investigação.

A ênfase em “aprender-fazendo” é mencionada como parte essencial do processo de formação pedagógica no Centro Clínico. Que motivos levam a crer que esta é a abordagem mais eficaz tanto para a vertente do ensino como para a investigação na sua forma mais pura?

Creio que nunca ninguém saboreou uma maçã olhando apenas para a maçã. Não se pretende de todo abandonar as bases teóricas, essenciais nestes processos, mas dar um sentido prático, onde as situações vividas em ambiente clínico são um meio para alcançar a excelência formativa e de investigação. Aliás, a eficácia desta abordagem começa a ser reconhecida junto da comunidade, pelo aumento da procura, não só de recursos humanos como de recursos técnicos e clínicos.

O centro está envolvido em diversos projetos, destacando-se estudos em ambliopia, síndrome de olho seco, bases normativas de densidade ótica corneal e retinopatia diabética. Como são escolhidas as áreas de estudo e de que forma estes projetos contribuem para soluções práticas e respostas a problemas visuais concretos? 

Atualmente o CCECV conta com três linhas de ação – prevenção visual, superfície ocular e alterações visuais em processos patológicos -, fruto das áreas de expertise dos investigadores afetos ao centro. Há uma preocupação genuína para que os projetos tenham como base uma relevância clínica real e que as possíveis soluções sejam consistentes com os problemas visuais ou necessidades não atendidas. A identificação de fatores de risco, o diagnóstico precoce e a melhoria da qualidade visual são os eixos que consubstanciam a procura de soluções a problemas reais.

Poderia compartilhar de que forma a colaboração entre as diferentes áreas de estudo, como a Optometria e Ciências da Visão, contribui para a abordagem holística dos projetos de investigação?

As sinergias resultantes de colaborações multidisciplinares não só potenciam a investigação, como também ampliam o impacto na prática clínica e na qualidade de vida através de soluções abrangentes. Atualmente, os contributos de várias áreas do saber, no âmbito da investigação em ciências da visão, além de cruciais, fortalecem a qualidade e a aplicabilidade dos resultados obtidos, numa lógica de desenvolvimento de novas tecnologias e de novas abordagens tão necessárias à promoção da qualidade visual. É com estas premissas que a investigação no centro clínico pretende dar resposta aos desafios colocados.

Considerando o papel crucial da investigação na transferência de conhecimento para a comunidade, que esforços são feitos para comunicar efetivamente os resultados das suas pesquisas para um público mais amplo? 

Para além das vias mais tradicionais de divulgação científica (artigos, conferências, workshops), existe a preocupação de adequar a comunicação em função do público alvo. Apesar de se reconhecer a necessidade de uma maior frequência e diversidade de comunicação, atualmente são realizadas ações de sensibilização e de divulgação junto das escolas da região, assim como a participação em programas de rádio e em artigos de opinião pública.

Por fim, de que forma o CCECV visualiza o seu futuro em termos de contribuição para a comunidade, avanços na pesquisa e parcerias académicas? Há planos específicos que gostaria de compartilhar? 

Naturalmente que se deseja um futuro empolgante, focado nas várias áreas de atuação. Pretende-se certamente dar continuidade à investigação e formação com reais contributos para a comunidade. Reconhecendo os riscos inerentes, a oferta de formação para o exterior, no âmbito das ciências da visão, junto da comunidade científica e empresas, constitui o plano a curto prazo. Contudo, mais que planos ou metas, o objetivo final não é apenas continuar a ser um centro de excelência de conhecimento, mas ser também uma referência de investigação em ciências da visão.

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